____________________
I
— Que deseja? Um café? Vira à direita...
— Traga-me um copo d’água... rapidez.
E, depressa, na mesa do freguês
Água e café o caixeirinho deita.
— E o senhor?... — Uma média... Ao longe espreita
O movimento todo de uma vez
O gerente, que alegre se deleita
Ouvindo os versos do Brasil dos Reis.
Nos restaurantes também a freguesia
Come contente em meio da poesia,
Pois o menu em versos é descrito!
— Que deseja?... Uma sopa... Só?... — A lista
Para escolher um bife futurista,
Mas é depressa, diz o zinho aflito.
IIÀ mesa do Café, sentado, rindoNo meio de uma roda literária,René recita uns seios de mulata,E a roda toda fica besta, ouvindo.Depois o Gomes Filho os seios mata,Com outra poesia — o lago azul, dormindoMuito ao longe... depois, Leitão sorrindo,Descreve a doce vida de um pirata.Depois Tangerini calmamente,De improviso recita alegrementeUma poesia linda como o amor!A roda fica besta novamente,Gonzaga então levanta sorridenteE murmura um soneto de valor.
IIIApollo amarra a cara após levanta,Tosse e suspira e fala altivamenteUm troço, e a roda até se espantaJulgando Apollo ter perdido a mente.Olavo Barros suavemente cantaUm soneto de amor, e a roda senteA sensação desta brutal garganta,Que Olavo Barros canta suavemente.E a caixeirada passa atenta, olhandoPara quem abre a boca recitando,Com tanta inspiração, uma poesia.Depois... fecha o Café e a Roda saiE a procissão na rua lenta vaiPara voltar de novo noutro dia!...
(Revista Royal — julho de 1924)
*Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta
página expõe que no capítulo Roda do Café Paris, de Passeio das Letras na Taba de Araribóia, o autor Wanderlino Teixeira Leite Netto
registra o seguinte:
[ . . . ]
“Como o reduto líteroboêmio fechava por volta da meia-noite, os
integrantes da Roda seguiam de bonde para São Francisco e iam terminar a
noitada nas mesas do bar do restaurante Lido, que só bem mais tarde encerrava o
expediente. Verdadeiro cenáculo ambulante! Lamentavelmente, muito da produção
literária desse grupo de boêmios perdeu-se, já que seus integrantes tinham por
hábito escrever em papel de embrulhar pão ou no verso do papel prateado de
maços de cigarro. A maioria abandonava seus escritos nas mesas do Café Paris ou
do Lido, a mercê de uma vassoura iletrada.
[ . . . ]
Numa entrevista ao jornal Letras Fluminenses, em setembro de 1952, Kleber de Sá Carvalho
assim se pronunciou, relativamente ao movimento:
‘A formação da Roda do Café Paris assinalou um período de profunda revolução intelectual nos meios sociais e literários da capital do estado [à época, Niterói era a capital do Rio]. O grupo buscava um lugar ao Sol. Reagia e produzia assaltando salões, invadindo redações, forçando o seu público, impondo o valor de cada um. Metidos no fundo do Café Paris, ali traçavam planos, criavam, escreviam livros, poesias, artigos, páginas de crítica, fundavam jornais e revistas. Ali quebravam literatos de vidro, destruíam culturas suspeitas, fustigavam os conhecimentos de almanaque. Qualquer festa de que participassem constituía acontecimento de significação especial e ponto de atração da sociedade.’ [...]
Segundo Kleber de Sá Carvalho, muitos livros surgiram nesta época, entre
os quais, Oração aos seios, de René Descartes de Medeiros, A costela que me falta, de Mazzini Rubano, Orações
profundas, de Roberto Mesquita, Quod
seripsi seripsi, de Angelo
Eliseu, Vida apertada, de Lili Leitão, Uma porção de mentiras, de José Mayrink de Souza Motta, Ciclo
do Sol nascente, de Luís
Gomes Filho, Lugares comuns, de Brasil dos Reis, Luzernas e Outono de folhas mortas, ambos de Benjamim Costa.
Para Kleber de Sá Carvalho, 1922 foi o ano em que a Roda se formou. Já
Lourenço Araújo afirmava que, quando começou a frequentar o Café Paris, em
1913, o cenáculo ambulante já existia, fundado em 1898, conforme declarou em
entrevista publicada na página literária Artes Fluminenses, de Luís Antônio
Pimentel (jornal A Tribuna, 22/23 de agosto de 1976).
Dos poetas da Roda, Lili Leitão, por sua irreverência, terá sido o mais
notório. A fim de amealhar dinheiro para cair na esbórnia, produzia, às
vésperas dos festejos carnavalescos, O Almofadinha, formato tablóide, limitado a quatro
páginas. Além dos anúncios, em prosa e verso, o jornaleco trazia poesias
humorísticas e um sem número de anedotas.
[ . . . ]
O tríplice soneto “Café Paris”, publicado na revista Royal em julho de
1924, assinado sob o pseudônimo de João de Nictheroy, possivelmente uma obra
conjunta, como era costume ocorrer entre os integrantes da Roda, retrata o
ambiente do reduto literoboêmio e faz referência a alguns de seus
frequentadores.”
[ . . . ]
____________________
Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no
século XX — Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes,
2003, Niterói Livros: Fundação de Artes de Niterói — FAN, Niterói — RJ; João de
Nictheroy consta como autor deste três sonetos; é possivelmente uma realização conjunta
[mais de um autor], conforme relato de Wanderlino Teixeira Leite Netto,
escritor deste Passeio das Letras na Taba de Araribóia. [*ver segmento em
negrito na nota acima]