quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Delminda Silveira: Verde mar da Esperança, em tuas ondas . . . [soneto]


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Verde mar da Esperança, em tuas ondas
leva o nosso batel dos meus amores;
quero que no teu seio as minhas dores
como um amigo piedoso escondas.

Ó céu! docel azul que te arredondas
sobre este abismo cheio d'esplendores,
mostra-me o íris de risonhas cores
neste Infinito que constante sondas!

Ai! se eu pudesse, nestas águas puras,
perlas que a dor me dá ir desfiando
do meu colar d'infindas amarguras...

Feliz iria só de amor cuidando,
por entre flores e gentis verduras,
meu coração sereno navegando!

Santa Catarina, 1-12-[18]99
[Sul-Americano, 21/04/1901]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Delminda Silveira de Souza (1854 1932), ou Brasília Silva, seu pseudônimo mais conhecido, catarinense de Desterro, atual Florianópolis, educou-se com aulas particulares, aprendeu francês, latim e noções de literatura com o professor, escritor e poeta Wenceslau Bueno de Gouveia [1844 1919], foi professora, escritora e poeta; desde jovem, Delminda dedicou-se ao magistério no Colégio Coração de Jesus, da então Desterro, onde lecionou francês e português, mesmo sem ter cursado escola secundária; na mesma época deu início à publicação de seus poemas em jornais e periódicos catarinenses, passando também a colaborar em revistas culturais de âmbito nacional, por exemplo n’A Mensageira — revista literária dedicada à mulher brasileira; pertenceu à Academia Catarinense de Letras, primeira mulher representante daquela instituição; suas obras: Lises e Martírios (poemas, 1908), Cancioneiro (coleção de hinos e poemas, 1914), Passos dolorosos (poesia sacra, “via sacra em versos”, 1931), Indeléveis Versos (oito poemas inéditos escritos em 1908, e outros, publicação póstuma, 1989), Delminda Silveira — obra completa (2009); a poetisa empresta seu nome a instituições e logradouros públicos: Escola de Educação Básica Delminda Silveira, Mondaí SC, Rua Delminda Silveira, Bairro Trindade, Florianópolis SC, Biblioteca do Colégio Sagrado Coração de Jesus, também em Floripa.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Jorge Luis Borges: O truco

 
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[traduzido por Josely Vianna Baptista]

Quarenta cartas deslocaram a vida.
Pintados talismãs de papelão
fazem-nos esquecer nossos destinos
e uma risonha criação
vai povoando o tempo roubado
com as floridas travessuras
de uma mitologia caseira.
Nas fronteiras da mesa
a vida dos outros se detém.
E dentro delas há um país estranho:
as aventuras do envide e do quero
a autoridade do ás de espadas,
como dom Juan Manuel, onipotente,
e o sete de ouros tilintando esperança.
Uma lentidão de mateador
vai demorando as palavras
e como as alternativas do jogo
repetem-se e repetem-se,
os jogadores desta noite
copiam antigas vazas:
fato que ressuscita um pouco, muito pouco,
as gerações dos antepassados
que legaram ao tempo de Buenos Aires
os mesmos versos e as mesmas diabruras.

(Fervor de Buenos Aires — 1923)

Jorge Luis Borges

El truco

Cuarenta naipes han desplazado la vida.
Pintados talismanes de cartón
nos hacen olvidar nuestros destinos
y una creación risueña
va poblando el tiempo robado
con floridas travessuras
de una mitología casera.
En los lindes de la mesa
la vida de los otros se detiene.
Adentro hay un extraño país:
las aventuras del envido y del quiero,
la autoridad del as de espadas,
como don Juan Manuel, omnipotente,
y el siete de oros tintineando esperanza.
Una lentitud chimarrona
va demorando las palavras
y como las alternativas del juego
se repiten y se repiten,
los jugadores de esta noche
copian antiguas bazas:
hecho que resucita un poco, muy poco,
a las generaciones de los mayores
que legaron al tiempo de Buenos Aires
los mismo versos y las mismas diabluras.

(Fervor de Buenos Aires — 1923)
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Primeira poesia: Jorge Luis Borges, traduzido por Josely Vianna Baptista, edição bilíngue, 1ª reimpressão, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (1899 1986), argentino de Buenos Aires, aprendeu a língua inglesa com a avó paterna antes de falar espanhol, suas primeiras leituras se deram naquele idioma, foi poeta, contista, ficcionista, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor universitário e bibliotecário; aos 9 anos de idade escreveu La Visera Fatal, seu primeiro conto “inspirado em episódio da obra de Dom Quixote”; de 1914 a 1920, já com alfabetização bilíngue, viveu com a família na Europa, concluiu seus estudos secundários no Collège de Genève Suiça, ligou-se ao movimento altruísta literário de vanguarda na Espanha, de volta à Argentina, na década de 1920, publicou três livros de poesia e, a partir daí, deu início à publicação de seus contos, invariavelmente na revista Sur, a qual também editou seus livros de ficção; lecionou Literatura Inglesa na Universidade de Buenos Aires, trabalhou na Biblioteca Municipal Miguel Cané e dirigiu a Biblioteca Nacional; em 1956, já sendo proibido pelos oftalmologistas de ler e escrever, passou a conviver com a cegueira que, vindo de forma gradativa desde criança, se instalava em sua vida; suas obras: Fervor de Buenos Aires (poesia, 1923), Luna de enfrente (Lua defronte, poesia, 1925), Inquisiciones (ensaios, 1925), El idioma de los argentinos (ensaio, 1928), Cuaderno San Martín (Caderno San Martín, poesia, 1929), Evaristo Carriego (ensaio, 1930), Historia universal de la infamía (contos, 1935), Historia de la Eternidad (ensaios, 1936), Ficciones (contos, 1944), Nova refutação do tempo (ensaios, 1947), El Aleph (O Aleph, contos, 1949), A morte e a bússola (contos, 1951), El hacedor (1960), Para las seis cuerdas (1967), El oro de los tigres (1972), Elogio de la sombra (1969), Historia de la noche (1976), todos de poesia, e tantos outros títulos em verso e prosa, inclusive em traduções para mais de 35 idiomas; na publicação de seus textos, Jorge Luis Borges também fez uso de vários pseudônimos, entre os quais Alex Ander, Benjamín Beltrán, Andrés Corthis, Pascual Güida, Bernardo Haedo, José Tuntar, Honorio Bustos Domecq e Benito Suárez Linch; teve sua obra transferida para o cinema e a televisão, e também teve textos musicados pelo compositor e instrumentista Astor Piazzolla (Tangos & Milongas); Borges, mesmo cego, não deixou de produzir seus escritos, os quais eram ditados para María Kodama, sua ex-aluna, depois assistente literária e esposa; recebeu inúmeras premiações por sua obra.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

António Botto: Beijemo-nos, apenas . . .

 
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Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos, És lindo!

A morte,
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas!
Que mais precisamos nós?

(As Canções de Antônio Botto — 1941)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Wisława Szymborska: A curta vida dos nossos antepassados

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[traduzido por Regina Przybycien]

Não eram muitos os que passavam dos trinta.
A velhice era privilégio das pedras e das árvores.
A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos.
Era preciso se apressar, dar conta da vida
antes que o sol se pusesse,
antes que a primeira neve caísse.

Meninas de treze anos gerando filhos,
meninos de quatro rastreando ninhos de pássaros na moita,
jovens de vinte servindo de guias nas caçadas
ainda há pouco não existiam, já não existem.
Os fins da infinitude rápido se juntavam.
As bruxas ruminavam maldições
ainda com todos os dentes da mocidade.
Sob os olhos do pai o filho se tornava homem.
Sob as órbitas do avô nascia o neto.

De todo modo, não contavam os anos.
Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados.
O tempo, tão generoso para qualquer estrela no céu,
estendia-lhes a mão quase vazia
e a retirava rápido, como se tivesse pena.
Mais um passo, mais dois
ao longo de um rio brilhante,
que da treva emerge e na treva some.

Não havia nem um instante a perder,
perguntas a postergar e iluminações tardias
a não ser as que tivessem sido antes experimentadas.
A sabedoria não podia esperar os cabelos brancos.
Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse,
e ouvir toda voz, antes que ela se propagasse.

O bem e o mal
dele sabiam pouco, porém tudo:
quando o mal triunfa, o bem se esconde;
quando o bem aparece, o mal fica de tocaia.
Nem um nem outro se pode vencer
nem colocar a uma distância sem volta.
Por isso se há alegria, é com um misto de aflição,
se há desespero, nunca é sem um fio de esperança.
A vida, mesmo se longa, sempre será curta.
Curta demais para se acrescentar algo.

(Gente na ponte — 1986)

Wisława Szymborska

Króthie źycie naszych przodków

Niewielu dożywało lat trzydziestu.
Starość to był przywilej kamieni i drzew.
Dzieciństwo trwało tyle co szczenięctwo wilków.
Należało się śpieszyć, zdążyć z życiem
nim słońce zajdzie,
nim pierwszy śnieg spadnie.

Trzynastoletnie rodzicielki dzieci,
czteroletni tropiciele ptasich gniazd w sitowiu,
dwudziestoletni przewodnicy łowów
dopiero ich nie było, już ich nie ma.
Końce nieskończoności zrastały się szybko.
Wiedźmy żuły zaklęcia
wszystkimi jeszcze zębami młodości.
Pod okiem ojca mężniał syn.
Pod oczodołem dziadka wnuk się rodził.

A zresztą nie liczyli sobie lat.
Liczyli sieci, garnki, szałasy, topory.
Czas, taki hojny dla byle gwiazdy na niebie,
wyciągał do nich rękę prawie pustą
i szybko cofał się, jakby mu było szkoda.
Jeszcze krok, jeszcze dwa
wzdłuż połyskliwej rzeki,
co z ciemności wypływa i w ciemności znika.

Nie było ani chwili do stracenia,
pytań do odłożenia i późnych objawień,
o ile nie zostały zawczasu doznane.
Mądrość nie mogła czekać siwych włosów.
Musiała widzieć jasno, nim stanie się jasność,
i wszelki głos usłyszeć, zanim się rozlegnie.

Dobro i zło
wiedzieli o nim mało, ale wszystko:
kiedy zło tryumfuje, dobro się utaja;
gdy dobro się objawia, zło czeka w ukryciu.
Jedno i drugie nie do pokonania
ani do odsunięcia na bezpowrotną odległość.
Dlatego jeśli radość, to z domieszką trwogi,
jeśli rozpacz, to nigdy bez cichej nadziei.
Życie, choćby i długie, zawsze będzie krótkie.
Zbyt krótkie, żeby do tego coś dodać.

(Ludzie na moście — 1986)
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Wisława Szymborska [poemas], Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, edição bilíngue, 2ª reimpressão, 2012, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

domingo, 27 de outubro de 2024

Rainer Maria Rilke: Obreiros somos — mestre, aprendizes, serventes — . . .


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[traduzido por José Paulo Paes]

Obreiros somos mestre, aprendizes, serventes —
e te construímos, ó grande nave altaneira.
Às vezes chega a nós um peregrino silente;
ei-lo que como um clarão cruza as nossas cem mentes
e trêmulo nos traz alguma nova maneira.

       Galgamos andaimes que ao nosso passo estremecem;
maciços os martelos que nossas mãos sustêm;
isso até aflorar-nos a fronte uma hora que se
irisa e fulge como se de tudo soubesse:
como o vento vem do mar, é de ti que ela vem.

ouve-se então um malhar de martelos inúmeros
que, golpe após golpe, pelas montanhas se expande.
só te deixamos quando a noite cai e no escuro
podemos já ver-te os vagos contornos futuros.

Deus, como tu és grande.

(O Livro de Horas, 1905)

R. M. Rilke

Werkleute sind wir

Werkleute sind wir: Knappen, Jünger, Meister,
und bauen dich, du hohes Mittelschiff.
Und manchmal kommt ein ernster Hergereister,
geht wie ein Glanz durch unsre hundert Geister
und zeigt uns zitternd einen neuen Griff.

             Wir steigen in die wiegenden Gerüste,
in unsern Händen hängt der Hammer schwer,
bis eine Stunde uns die Stirnen küsste,
die strahlend und als ob sie Alles wüsste
von dir kommt, wie der Wind vom Meer.

Dann ist ein Hallen von dem vielen Hämmern
und durch die Berge geht es Stoss um Stoss.
Erst wenn es dunkelt lassen wir dich los:
Und deine kommenden Konturen dämmern.

Gott, du bist grosss.

[26.9.1899, Berlin-Schmargendorf]

(Stundenbuch, 1905)
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., bilíngue, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

sábado, 26 de outubro de 2024

Ascânio Lopes: As estrelas

 
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Ele enamorou-se das estrelas e quis possuí-las.
E começou a construir uma torre para alcançá-las.
Mas quanto mais a torre crescia no ar
mais longe ficava o céu inatingível
e as estrelas cada vez brilhavam mais.
Um dia, quando a torre estava enorme, fina, alta
e o céu tão longe e as estrelas tão altas
ele desanimou e pôs-se a chorar.
E debruçou-se no alto da torre alta.
Mas deu um grito de dor
porque, lá embaixo, embaixo, as estrelas brilhavam mais
no espelho das águas paradas.

([revista] Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Goethe: Canto copta *


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[traduzido por Pedro de Almeida Moura]

Deixai que eruditos disputem e clamem,
Que austeros mestres doutrinem e falem;
A mais sábia gente de todas as eras
Sorri e confirma o que vos declaro:
Nunca esperar que insensatos se emendem;
Eleitos do espírito, ó, tende os dementes,
Como dementes que são, e nada mais!

Merlino, o mago, na gruta radiosa,
Que enlevado eu ouvia, quando moço, falar,
Idêntico preceito timbrava a ensinar:
Nunca esperar que insensatos se emendem;
Eleitos do espírito, ó, tende os dementes,
Como dementes que são, e nada mais!

Lá nas alturas abruptas da Índia,
Bem como nas criptas profundas do Egito,
O verbo sagrado ouvi proclamar:
Nunca esperar que insensatos se emendem;
Eleitos do espírito, ó, tende os dementes,
Como dementes que são, e nada mais!

Goethe

Cophtisches Lied

Lasset Gelehrte sich zanken und streiten,
Streng und bedächtig die Lehrer auch sein!
Alle die Weisesten aller der Zeiten
Lächeln und winken und stimmen mit ein:
Töricht, auf Beßrung der Toren zu harren!
Kinder der Klugheit, o habet die Narren
Eben zum Narren auch, wie sich′s gehört!

Merlin der Alte, im leuchtenden Grabe,
Wo ich als Jüngling gesprochen ihn habe,
Hat mich mit ähnlicher Antwort belehrt:
Töricht, auf Beßrung der Toren zu harren!
Kinder der Klugheit, o habet die Narren
Eben zum Narren auch, wie sich′s gehört!

Und auf den Höhen der indischen Lüfte
Und in den Tiefen ägyptischer Grüfte
Hab′ ich das heilige Wort nur gehört:
Töricht, auf Beßrung der Toren zu harren!
Kinder der Klugheit, o habet die Narren
Eben zum Narren auch, wie sich′s gehört!

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: Canto copta (Cophtisches Lied). Musicado por Wolf. Copta refere-se tanto ao idioma egípcio como àqueles que mantiveram as características dos primitivos habitantes das terras egípcias.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Kurt Bartsch: Hades

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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Minha avó, velha massacrada
(O marido, um mineiro, morreu de cachaça)
jaz sepultada no muro entre leste e oeste 1.
Quando vou a ela no verão/inverno
No reino dos mortos (Hera arame farpado
Cresce das sepulturas, cuidado! ZONA DE FRONTEIRA)
Tenho de ter uma senha, que mostro
A pedido de Herr Cérbero 2
Porteiro do Hades, disfarçado de Guarda do Povo

Kurt Bartsch

Hades

Meine Großmutter, vielgeprügelte Alte
(Der Mann, ein Bergarbeiter, starb am Schnaps)
Liegt an der Mauer zwischen Ost und West begraben.
Wenn ich im Sommer/Winter zu ihr gehe
Ins Reich der Toten (Efeu Stacheldraht
Wächst aus den Gräbern, Achtung! GRENZGEBIET)
Muß ich ein Schriftstück haben, dieses zeige
Ich auf Verlangen von Herrn Cerberus
Wächter des Hades, verkleidet als Volkspolizist.

* Notas dos tradutores:
1 O cemitério da Sophienkirchgemeinde está situado exatamente na fronteira entre os dois muros paralelos que formavam o Muro de Berlim. Fica ao lado da Bernauer Straße, frequentemente mencionada por Bartsch. Quem morasse, como Bartsch, em Berlim Oriental, poderia chegar ao cemitério apenas com uma permissão especial provisória  situação análoga à do poema “Rua de Bernau”.
2 Cérbero – o cão de três cabeças da mitologia grega, filho de Typhon, protege o acesso ao Hades, reino dos mortos.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Kurt Bartsch (1937 2010), alemão de Berlim, frequentou uma escola primária berlinense na [rua] Friedrichstraße, não concluiu o ginásio, começou a labutar cedo, trabalhou como vendedor de caixões, coveiro e, depois, como redator publicitário e assistente editorial na Aufbau-Verlag, foi poeta, dramaturgo e crítico literário; embora tenha sido aprovado preliminarmente na Weißensee Kunsthochschule Berlin [Escola de Artes Weißensee, Berlim], não pôde iniciar seus estudos por não possuir diploma do ensino médio; publicou seus primeiros textos, fragmentos satíricos, no início da década de 60; o poeta e dramaturgo, devido a suas publicações, paródias e peças cômicas de teatro frequentemente não saírem a gosto da cultura oficial e dos padrões da RDA (ex-Alemanha Oriental, socialista), o real socialismo, teve obras não publicadas no país e raramente suas peças foram ali encenadas; em 1980, de posse de um visto permanente de emigração, Kurt Bartsch mudou-se para Berlim (Ocidental), na então RFA (ex-Alemanha Ocidental, capitalista, hoje Alemanha), continuou escrevendo e publicando, inclusive livros infantis e peças radiofônicas; suas obras: Zugluft. Gedichte, Sprüche, Parodien (coletânea de poemas, 1968), Die Lachmaschine. Gedichte, Songs und ein Prosafragment (poemas, canções e fragmento em prosa, 1971), Kalte Küche. Parodien (1974), Der Bauch und andere Songspiele (peça, 1974), Kaderakte. Gedichte und Prosa (1979), Wadzeck. Roman (romance, 1980), Die Hölderlinie. Parodien (1983), Fanny Holzbein [romance autobiográfico, conta a infância do autor poeta, 2004) e outros títulos; é considerado, hoje, um dos principais representantes do círculo da Sächsischen Dichterschule [Escola de Poetas da Saxônia].

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Erik Axel Karlfeldt: Microcosmo

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Eu sou a terra, fresca e pesada,
e, embora jovem, de humores lentos.
Uma árvore murcha fincou-se em minha alma,
os ramos se agitam como num adeus.

Eu sou a água, úmida e fria,
minha dureza parece lágrimas geladas.
Minha alegria de inverno se desencadeia
em torno às mesas com vinhos e caças.

Eu sou o ar, doce e claro,
vou e venho como a primavera,
e tudo o que o tempo deixou de lado,
ressurge com os ventos, verdejante.

Eu sou o fogo, seco e quente,
o sol do verão que não se apaga nunca.
Tenho razão de perguntar
por que não me consumiu com os elementos.

Erik Axel Karlfeldt

Mikrokosmos

Motiv ur bondepraktikan

Jag är av jorden, jag är sval och tung,
trögvulen, gammalstämd fast ganska ung.
Det står ett gulnat höstträd i min själ,
dess alla grenar susa som farväl.

Jag är av vattnet, jag är kall och våt,
min stela flegma är som frusen gråt.
Min vinterglädje bullrar stark men bråd,
vid fulla bord med vin och villebråd.

Jag är av luften, jag är ljus och blid,
jag går som i beständig lådingstid.
Vad långa år försummat och försönt
står upp vid vädrens lekar friskt och grönt.

Jag är av elden, jag är torr och het
av sommarsol som ingen nedgång vet.
Väl må jag undra att hon ej förbränt
mig själv med alla mina element.

[Fridolins Lustgard och Dalmalningar Pa Rim, 1901]
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Poesias: Erik Axel Karlfeldt, Tradução de Ivo Barroso, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Erik Axel Karlfeldt, por Gunnar Brandell, Ilustrações de Postma e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Erik Axel Karlfeldt, por Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Erik Axel Karlfeldt (1864 1931), sueco de Karlbo, província de Dalekarlia, de família empobrecida e endividada, com descendência de mineradores, teve o pai preso, estudou em Karlbo e em Västerås, depois na Universidade de Uppsala, e, entre outros ofícios, foi bibliotecário da Academia Agrícola e da Biblioteca Real de Estocolmo, membro e secretário da Academia Sueca, professor e poeta lírico simbolista; teve que interromper os estudos na Universidade de Uppsala, por absoluta falta de dinheiro, ocupou-se com alguns trabalhos, experienciou o desemprego, foi contratado como jornalista experimental no Aftonbladet, em Djursholm; com a melhora de sua situação miserável, e com o apoio financeiro do editor-chefe e dono do jornal, voltou aos estudos em Uppsala e, concluindo-os, bacharelou-se em 1892; para isso, obteve aprovação em Latim, Línguas Germânicas, Línguas Nórdicas, Mineralogia e Geologia, Filosofia teórica e Estética, Literatura e História da Arte; já estreante na poesia, Karlfeldt, no início de 1890, fez contato com o crítico literário e editor do Svensk tidskrift, e ali, em 1891, teve quatro de seus poemas publicados e assinados pela primeira vez com o próprio nome; ainda em 1892, atuou na direção da Djursholmsbolaget construtora de casas, fez parte do conselho escolar da Enskilda Läroverk de Djursholm, foi professor de Sueco, Inglês e Alemão; suas obras: Vildmarks — och Karleksvisor (Canções dos Bosques e Canções de Amor, 1895), Fridolins Visor (Canções de Fridolin, 1898), Fridolins Lustgard och Dalmalningar Pa Rim (O Éden de Fridolin e Quadros Dalecarlianos em Versos, 1901), Flora och Pomona (Flora e Pomona, 1906), Skalden Lucidor (O Poeta Lucidor, Estudo sobre o poeta Lars Johansson Lucidor [1638 — 1674], 1914), Flora och Bellona (Flora e Belona — Poesias, 1918), Carl Fredrik Dahlgren (Retrato de um romântico sueco de há cem anos, 1924), Hösthorn (Trompa Ocidental — Poesias, 1927), Skrifter (Obras poéticas — Edição comemorativa em 5 volumes, 1931); Erik Axel Karlfeldt, o poeta lírico [da lavra simbolista, panteísta disfarçado de regionalista] que morrera em 08 de abril de 1931, em indicação excepcional e póstuma, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura a 8 de outubro daquele ano.