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Conto 54
Loira, magra, pálida. Olhinho verde.
Faz o curso de normalista em Curitiba, pronto adoece do peito. Volta para casa
se tratar com repouso e comida farta. De noite à janela, almofada no peitoril,
se distrai com o movimento na praça.
João começa a subir e descer a rua.
Ela não sai da janela. Na quinta ou sexta noite, ele ganha coragem: “Boa noite.”
Ela acena de leve. Na volta, ele para. Assim inicia o namoro. Com aprovação da
mãe que se afasta quando ele surge na esquina.
Grande vexame a avozinha caduca,
guardada longe das visitas. De repente salta a cabecinha branca na janela do
sótão e berra o palavrão medonho. Os dois pretendem não ouvir. A moça olha
fixamente as luzes piscantes na porta do cinema.
Um mês de namoro sob a janela. Depois
ele entra na sala. É quando o tio médico o aborda na praça:
— João, sabe a doença que ela tem,
não é? Ela se apaixona por você, e daí? Você compromete a moça, que não pode
casar. Serão os dois infelizes.
Perturbado, roído de culpa, se
despede da namorada. Já lhe devolvendo os presentes: um retratinho 3x4, outro
colorido, tamanho postal. Mais a fitinha rósea de cabelo. Motivo: uma longa
viagem de estudo.
Arrependidíssimo volta para casa,
chutando pomba na calçada e se chamando rato piolhento com gravatinha-borboleta
e tudo.
Nove da noite, ao cruzar a praça,
dá com a moça à janela. Amor, pena e remorso, aproxima-se. ela, voz chorosa:
— Veio me dizer o que esqueceu
ontem?
No peito sete agulhas fininhas de
gelo.
— Não. vim dizer que te amo. E não
quero te perder. Você me perdoa?
Eis a cabecinha branca da velhota
na janela do sótão:
— Pu-ta-que-me-pa-riu!
Reconciliados, os dois riem com
gosto.
Conselho médico, ela deve passar
toda manhã respirando o ar puro do campo — ele ao seu lado, mãos dadas. Lívida e
linda, na face uma pétala de carmim de febre, tossicando no lencinho rendado. Convencidos,
ele mais que ela, que para tão grande amor tão pouca é a tísica.
Sem aviso a família decide mudar
para Curitiba. Eles passam a se cartear: “Quando me deixou, ai João... pensei
de ir para a cama... nunca mais levantar... agora deitada ficarei... me levem
de volta para você...”
Mal sabe a pobre que desta vez. Na
carta seguinte, a última, um anel de cabelo: seria loiro? ai não, branco seria?
Tão saudoso, com tamanha aflição,
deitada lá longe, ele salta correndo no primeiro trem. Na tarde florida de sol,
à sombra de uma árvore, espia a casa de veneziana verde. Pra lá pra cá, por
duas horas, na louca esperança de uma luva de crochê acenando da janela.
— Por que não bateu?
— Não tinha liberdade para isso.
Dia seguinte a notícia da morte no
sono. Meses depois, a mãe vai à casa de João pedir de volta cartas e retratos. Ele
remexe no bauzinho e entrega o seu tesouro mais precioso.
— Mas não devolvi todas. Uma eu
guardo até hoje.
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Pico na Veia, Editora Record, Rio de
Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano,
formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR — Universidade
Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos
posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de
Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A
Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha
(romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na
Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos),
uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre
abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio — São Paulo, a Joaquim
— revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de
uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados
por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos
— como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer
traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas
como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da
Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná,
patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o
contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês,
holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas,
americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro
A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e
diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de
Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária:
o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa — Portugal), o Prêmio Machado de
Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012,
diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.