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domingo, 24 de janeiro de 2021

Gottfried Benn: Bela juventude

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[traduzido por Mario Luiz Frungillo em parceria com Luís Gonçales Bueno de Camargo]

A boca de uma moça que há muito jazia em meio aos juncos
parecia toda roída.
Quando abriram o peito, o esôfago era só buracos.
Acabaram achando num recanto embaixo do diafragma
um ninho de ratos jovens.
Uma das irmãzinhas pequenas morrera.
Os outros viviam do fígado e dos rins,
bebiam sangue frio e tinham
passado ali uma bela juventude.
E bela e pronta foi também a morte deles:
Foram jogados todos juntos na água.
Ah, como os focinhinhos guinchavam!

Gottfried Benn

Schöne Jugend

Der Mund des Mädchens, das lange im Schilf gelegen hatte,
sah so angeknabbert aus.
Als man die Brust aufbrach, war die Speiseröhre so löcherig.
Schliesslich in einer Laube unter dem Zwerchfell
fand man ein Nest von jungen Ratten.
Ein kleines Schwesterchen lag tot.
Die andern lebten von Leber und Niere,
tranken das kalte Blut und hatten
hier eine schöne Jugend verlebt.
Und schön und schnell kam auch ihr Tod:
Man warf sie allesamt ins Wasser.
Ach, wie die kleinen Schnauzen quietschten!

(Gesammelte Werke, ed. por Dieter Wellerhoff,
4 vols., 3º vol.  Gedichte,
Limes Verlag, Wiesbaden, 1963.)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Gottfried Benn (1886 1956), alemão de Mansfeld, estudou Teologia, Filologia e Medicina, tendo exercido sempre o ofício de médico, e foi poeta, sempre escrevendo e publicando seus livros; em 1933, inicialmente se alinhou com o nacional-socialismo, fato jamais esquecido, embora em seguida tenha se afastado; desde 1936 viveu um longo período no ostracismo, tendo seus textos sido rejeitados tanto pelos que combatiam o nazismo, como também pelos próprios nazistas; no pós-guerra, continuou relegado ao silêncio até 1948, ano em que tal situação foi revertida e o poeta reabilitado com a publicação de seus Poemas Estáticos (Statische Gedichte) e, a partir de então, houve a edição de outros trabalhos, em verso e prosa; bibliografia: Morgue und andere Gedichte (1912), Söhne. Neue Gedichte (1913), Gehirne. Novellen (1916), Gesammelte Gedichte (1927), Gesammelte Prosa (1928), Statische Gedichte (1948), Probleme der Lyryk (1951), Essays (1951), Destillationen. Neue Gedichte (1953), etc. etc. etc.; como médico, esteve alistado na Primeira Guerra.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Gottfried Benn: valse d'automne

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[versão de Roswitha Kempf]

O vermelho nas árvores
e no fim os jardins,
cores que sonham,
significativas porém.

Em todos, em todos
da máscara o perfil:
"Liberto para ruir,
realizado não."

Na margem do lago
o estranho rubor,
e no fundo as sombras
de balsa e nau.

Nas praias bate
o eterno mar
e as sagas se cruzam
e os povos também.

A sedução da manhã
e da tarde a canção
e o grande
afundar-se
na solidão.

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Gottfried Benn

valse d'automne

Das Rot in den Bäumen
und die Gärten am Ziel,
Farben, die träumen,
doch sie sagen so viel.

In allen, in allen
das Larvengesicht:
"befreit zum Zerfallen,
Erfüllung nicht."

An Weihern, auf Matten
das seltsame Rot
und dahinter die Schatten
von Fähre und Boot,

die Ufer beschlagen
vom ewigen Meer
und es kreuzen sich Sagen
und Völker her,

das Locken der Frühe,
der Späte Sang
und der große
einsame
Untergang.

Der Farben so viele,
die Kelche weit,
und das Ziel der Ziele:
Verlorenheit.

In allen, in allen
den Gärten am Ziel,
befreit zum Zerfallen,
der Farben so viel.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981, Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Gottfried Benn (1886 1956), alemão de Mansfeld, estudou Teologia, Filologia e Medicina, tendo exercido sempre o ofício de médico, e foi poeta, sempre escrevendo e publicando seus livros; em 1933, inicialmente se alinhou com o nacional-socialismo, fato jamais esquecido, embora em seguida dele tenha se afastado; desde 1936 viveu um longo período no ostracismo, tendo seus textos sido rejeitados tanto pelos que combatiam o nazismo, como também pelos próprios nazistas; no pós-guerra, continuou relegado ao silêncio até 1948, ano em que tal situação foi revertida e o poeta reabilitado com a publicação de seus Poemas Estáticos (Statische Gedichte) e, a partir de então, houve a edição de outros trabalhos, em verso e prosa; bibliografia: Morgue und andere Gedichte (1912), Söhne. Neue Gedichte (1913), Gehirne. Novellen (1916), Gesammelte Gedichte (1927), Gesammelte Prosa (1928), Statische Gedichte (1948), Probleme der Lyryk (1951), Essays (1951), Destillationen. Neue Gedichte (1953), etc. etc. etc.; como médico, esteve alistado na Primeira Guerra.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Gottfried Benn: aqui não há consolo

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[versão de Roswitha Kempf]

Ninguém será minha beira de estrada;
deixe que tuas flores murchem,
meu caminho ondeia e segue só.

Duas mãos são conchas por demais pequenas,
um coração é um outeiro muito baixo
para nele repousar.

Sabe, eu vivo sempre na praia
e sob a chuva de flores que tomba do mar.
O Egito se encontra à minha frente
e a Ásia aponta.

Um de meus braços sempre está no fogo.
Meu sangue é cinza. Passando por seios e ossaturas
sempre soluço para as Ilhas Tirenas:

Desponta um vale com álamos brancos,
um Illiso com beiras de prados verdes,
Éden e Adão e uma terra
composta de niilismo e música.

Gottfried Benn

Hier ist kein Trost

Keiner wird mein Wegrand sein.
Laß deine Blüten nur verblühen.
Mein Weg flutet und geht allein.

Zwei Hände sind eine zu kleine Schale.
Ein herz ist ein zu kleiner Hügel,
um daran zu ruhn.

Du, ich lebe immer am Strand
und unter dem Blütenfall des Meeres,
Ägypten liegt vor meinem Herzen,
Asien dämmert auf.

Mein einer Arm liegt immer im Feuer.
Mein Blut ist Asche. Ich schluchze immer
Vorbei an Brüsten und Gebeinen
den thyrrhenischen Inseln zu:

Dämmert ein Tal mit weißen Pappeln
ein Ilyssos mit Wiesenufern
Eden und Adam und eine Erde
aus Nihilismus und Musik.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981, Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Gottfried Benn (1886 1956), alemão de Mansfeld, estudou Teologia, Filologia e Medicina, tendo exercido sempre o ofício de médico, e foi poeta, sempre escrevendo e publicando seus livros; em 1933, inicialmente se alinhou com o nacional-socialismo, fato jamais esquecido, embora em seguida dele tenha se afastado; desde 1936 viveu um longo período no ostracismo, tendo seus textos sido rejeitados tanto pelos que combatiam o nazismo, como também pelos próprios nazistas; no pós-guerra, continuou relegado ao silêncio até 1948, ano em que tal situação foi revertida e o poeta reabilitado com a publicação de seus Poemas Estáticos (Statische Gedichte) e, a partir de então, houve a edição de outros trabalhos, em verso e prosa; bibliografia: Morgue und andere Gedichte (1912), Söhne. Neue Gedichte (1913), Gehirne. Novellen (1916), Gesammelte Gedichte (1927), Gesammelte Prosa (1928), Statische Gedichte  (1948), Probleme der Lyryk (1951), Essays (1951), Destillationen. Neue Gedichte (1953), etc. etc. etc.; como médico, esteve alistado na Primeira Guerra.

domingo, 24 de março de 2019

Gottfried Benn: Síntese

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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Noite silenciosa. Casa silenciosa.
Mas sou a mais calma estrela,
Eu também produzo luz própria
Além dos limites de minha noite.

Cerebralmente, voltei para casa
De infernos, céus, lixo e gado
E também o que se concede à mulher
É obscura e doce masturbação.

Revolvo o mundo. Agonizo a presa.
E depois dispo-me na alegria:
Não há morte nem pó malcheiroso
Que me leve, eu-conceito, de volta ao mundo.

(1917)

Gottfried Benn
Gottfried Benn

Synthese

Schweigende Nacht. Schweigendes Haus.
Ich aber bin der stillsten Sterne;
Ich treibe auch mein eignes Licht
Noch in die eigne Nacht hinaus.

Ich bin gehirnlich heimgekehrt
Aus Höhlen, Himmeln, Dreck und Vieh.
Auch was sich noch der Frau gewährt,
Ist dunkle süße Onanie.

Ich wälze Welt. Ich röchle Raub.
Und nächtens nackte ich im Glück:
Es ringt kein Tod, es stinkt kein Staub
Mich, Ich-Begriff, zur Welt zurück.

(1917)
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Poesia Expressionista Alemã: uma antologia, Organização e Tradução de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue ilustrada, 2000, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Gottfried Benn (1886 1956), alemão de Mansfeld, estudou Teologia, Filologia e Medicina, exerceu sempre o ofício de médico, e foi poeta; em 1933, inicialmente se alinhou com o nacional-socialismo, fato jamais esquecido, embora em seguida tenha dele se afastado; desde 1936 viveu um longo período no ostracismo, tendo seus textos sido rejeitados tanto pelos que combatiam o nazismo, como também pelos próprios nazistas; no pós-guerra, continuou relegado ao silêncio até 1948, ano em que tal situação foi revertida e o poeta reabilitado com a publicação de seus Poemas Estáticos (Statische Gedichte), e a partir daí houve a edição de outros trabalhos, em verso e em prosa; bibliografia: Morgue und andere Gedichte (1912), Söhne. Neue Gedichte (1913), Gehirne. Novellen (1916), Gesammelte Gedichte (1927), Gesammelte Prosa (1928), Statische Gedichte (1948), Probleme der Lyryk (1951), Essays (1951), Destillationen. Neue Gedichte (1953), etc etc etc; escreveu e publicou até o final de seus dias; Gottfried Benn foi uma das grandes paixões da também poeta Else Lasker-Schüller, com quem manteve interessante diálogo poético durante anos; como médico, esteve alistado na Primeira Guerra.