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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Jean Moréas: Noturno

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Bom armador, oh bondoso carpinteiro,
Seja de cedro, carvalho ou de pinheiro,
Faze um caixão muito grande, bem pesado,
Para deitar meu amor, pobre finado...

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Forra o caixão de cetins alvinitentes
Como os seus dentes, como os seus nevados dentes,
Orna-o também as fitas mais azuis
Como os seus olhos tão lindos e tafuis.

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Lá embaixo, além, junto a um fresco ribeiro,
Sob os olmeiros, sob um pequeno olmeiro,
Na hora em que o cuco, cedinho alça o trinado,
Outro a beijou no pescoço, apaixonado...

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Bom armador, oh bondoso carpinteiro,
Seja de cedro, carvalho ou de pinheiro,
Talha um caixão, muito grande, e bem pesado,
Para enterrar meu amor, hoje, finado...

Jean Moréas

Nocturne

Wisst ihr warum der Sarg wohl
So gross und schwer mag sein?
Ich legt’ auch meine Liebe
Und meinen Schmerz hinein.
Heinrich Heine.

I

Toc, toc toc toc, il cloue à coups pressés;
Toc, toc, le menuisier des trépassés.

«Bon menuisier, bon menuisier,
Dans le sapin, dans le noyer,
Taille un cercueil très grand, très lourd,
Pour que j’y couche mon amour.»

II

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés,
Toc toc, le menuisier des trépassés.

«Qu’il soit tendu de satin blanc
Comme ses dents, comme ses dents;
Et mets aussi des rubans bleus
Comme ses yeux, comme ses yeux.»

III

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés.
Toc toc, le menuisier des trépassés.

«Là-bas, là-bas près du ruisseau,
Sous les ormeaux, sous les ormeaux,
À l’heure où chante le coucou,
Un autre l’a baisée au cou.»

IV

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés,
Toc, toc, le menuisier des trépassés.

«Bon menuisier, bon menuisier,
Dans le sapin, dans le noyer,
Taille un cercueil très grand, très lourd,
Pour que j’y couche mon amour.»
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Ioannis A. Papadiamantopoulos, conhecido no meio literário pelo pseudônimo Jean Moréas (1856 1910), grego e ateniense, viveu em Paris — França, estudou Direito, foi poeta, romancista, ensaísta e crítico literário; em sua juventude, Moréas passou em Marselha, depois viajou à Suiça, Alemanha e Itália, por fim se fixou em Paris; teve seus poemas publicados nas revistas Lutèce e Le Chat Noir, e, em 1886, no Prefácio de sua obra Les Cantilènes, Moréas se anunciou simbolista; ainda em 1886, com a apresentação do Manifesto do Simbolismo (Le Symbolisme), de sua autoria e divulgado no suplemento literário do Le Figaro, o poeta passou a ser reconhecido como o iniciador daquele movimento que surgia na França e que até então não tinha nome; foi cofundador da revista Le Symboliste, com Paul Adam e Gustave Kahn; suas obras: Les Syrtes (Os Sirtes, primeira coletânea de versos, 1884), Les Cantilènes (As Cantilenas, 1886), Le Pélerin passioné (O Peregrino apaixonado, 1891), Autant en emporte le vent (1893), Stances (Estâncias, série poética, 1899/1901), Iphigénie — tragédie en cinq actes (peça teatral, 1904) e outros títulos.

sábado, 17 de setembro de 2022

Jean Moréas: Agha Veli

 
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[traduzido por Fontoura Xavier]

No seu palácio encantado
De mil andares de porte,
Entre a nobreza da corte,
Cisma Agha Veli sentado.

Pelos salões espaçosos
Ressoam notas festivas...
Os eunucos aos convivas
Servem vinhos capitosos.

Ao clarão dos candelabros,
À voz das harpas, sonora,
Voam em giros macabros
As escravas de Bassora.

De súbito, num assomo
De mão oculta que impele,
Entra, sem se saber como,
Uma ave e diz: “Agha Veli,

A tua bela de opala,
Princesa de sangue azul,
Vai amanhã desposá-la
O filho do rei de Thul”.

Agha Veli ouve-a congesto
E grita por um cavalo,
Que venha, rápido e presto,
Junto à princesa levá-lo!

"Mais veloz que o vento alado,
Qual de vós, rompendo a treva,
Antes que seja o sol nado,
Ao fim do mundo me leva?”

“Mais que o vento pressuroso
E o próprio raio iracundo
(Responde um corcel fogoso)
Eu levo-te ao fim do mundo”.

E parte como um demônio...
Florestas, vales, montanhas,
Rios, cidades, campanhas,
Somem-se num pandemônio.

Vê-o da sua caverna
O dragão em sobressalto
Transpondo apenas dum salto
O pico onde o lhama inverna.

A devorar horizontes
No seu galopar sem trégua
Corre por vale e montes
Em cada passo uma légua.

Mas dentro em momentos, antes
Que ressurja o sol no espaço,
Ante um préstito arquejante
Detém o sinistro passo.

Em vez de cantos de boda
Ouvem-se preces e rezas...
Filas de velas acesas
Pontilham a noite toda.

É um enterro de donzela,
Talvez donzela e princesa
Vai de branco e de capela,
Os símbolos da pureza.

“Dizei-me rápido e breve
(Agha Veli à turba exorta)
Quem nesse esquife de neve
A esta hora enterra-se, morta?”

"É a bela da cor de opala
Princesa de sangue azul;
Ia amanhã desposá-la
O filho do rei de Thul.”

Jean Moréas

Agha Veli

Dans la salle de sa maison,
de sa maison aux cent fenêtres,
avec ses pareils et ses maîtres
il partage la venaison:
parmi les fleurs des champs en gerbes
ce sont des sangliers entiers,
des chevreuils roux et des quartiers
de cerfs aux ramures superbes.

Les eunuques silencieux
versent les liqueurs parfumées
dans les fines coupes gemmées
et dans les hanaps précieux;
tandis que pour charmer la fête,
des esclaves de Bassora
dansent au son du tamboura
avec un sabre sur la tête.
Un oiseau rose, oiseau joli,
oiseau qui parle, tel un homme,
l'on ne sait d'où, l'on ne sait comme,
il entre et dit: "Agha Véli
ta belle aux yeux et ta blonde,
ta blonde aux baisers de carmin,
on va la marier demain
au fils du roi de Trébizonde."

il va trouver ses chevaux roux,
tachetés comme une panthère,
qui du sabot bêchent la terre,
la dent longue et l'oeil en courroux.
"plus vite qu'un cerf dans la plaine,
plus vite que l'aile du vent,
bien avant le soleil levant,
au bout du monde qui me mène?"
un vieux cheval, cheval pur sang,
aux flancs meurtris de mainte entaille
dans le combat et la bataille,
hume la brise en hennissant:
"plus vite qu'un cerf dans la plaine,
plus vite que l'aile du vent,
bien avant le soleil levant,
au bout du monde je te mène."

ils laissent derrière les monts,
derrière ils laissent les montagnes:
par les forêts, par les campagnes,
ils passent comme des démons.
Les houx géants mordent la selle,
et le sabot saigne au caillou,
et dans l'air glacé le hibou
les frôle, en fuyant, de son aile.
Ils laissent derrière les monts,
derrière, la campagne brune;
dans la rafale, au clair de lune,
ils passent comme des démons.
Le pic où la lamie hiverne
est descendu sitôt monté,
et le dragon épouvanté
frissonne au fond de sa caverne,

ils vont, pareils à des démons,
passant le gué, sautant le fleuve,
ils vont, qu'il grêle, ils vont, qu'il pleuve,
par les ravins et par les monts.
Le sang zèbre sa peau de bistre,
la vase lui monte aux mollets;
voilà que le pont du palais
tremble sous leur galop sinistre.
Nul chant de luth répercuté
dans la tourelle et sous les porches;
de rouges languettes de torches
oscillent dans l'obscurité.
Une procession arrive
escortant un cercueil tout blanc,
et Véli demande, tremblant
comme le roseau sur la rive:

"les prêtres et les fossoyeux,
dites, quelle est la jeune morte
que dans ce cercueil on emporte
couchée en ses cheveux soyeux?
c' est la belle aux yeux bleus, la blonde,
la blonde aux baisers de carmin;
elle allait épouser demain
le fils du roi de Trébizonde."
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro  nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Ioannis A. Papadiamantopoulos, conhecido no ambiente literário pelo pseudônimo Jean Moréas (1856 1910), grego e ateniense, viveu em Paris França, estudou Direito, foi poeta, romancista, ensaísta e crítico literário; teve seus poemas publicados nas revistas Lutèce e Le Chat Noir, e, em 1886, no Prefácio de sua obra Les cantilènes, Moréas se anunciou simbolista; ainda em 1886, com a apresentação do Manifesto do Simbolismo (Le Symbolisme), de sua autoria e divulgado no suplemento literário do jornal Le Figaro, o poeta passou a ser reconhecido como o iniciador daquele movimento que surgia na França e que até então não tinha nome; foi cofundador da revista Le Symboliste, com Paul Adam e Gustave Kahn; suas obras: Les syrtes (Os sirtes, 1884), Les cantilènes (As cantilenas, 1886), Le pélerin passioné (O peregrino apaixonado, 1891), Stances (Estâncias, 1899/1901) e outros títulos.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Jean Moréas: Conto de Amor

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

[VII]

Inverno; a brisa ansiante...
A neve, lá fora, em breve,
Vai cair, oh doce amante,
Em nossas almas, a neve...

Ontem, os sóis de oiro ardendo,
O verão ainda, os ribeiros,
O cristal da água correndo
À sombra dos amieiros.

Ontem, rosas, lírios e alvas,
Boninas, campos floridos;
Amanhã, pálidas malvas,
Os arvoredos pendidos.

Que o vento os galhos balança
Sobre as venturas finadas!
Amanhã, funérea dança
Das lembranças sepultadas!

Amanhã, penas, cansaços.
Martirizados desejos...
É o dormir sem teus braços,
É o despertar sem teus beijos!

Jean Moréas

Conte d'amour [VII]

Hiver: La bise se lamente,
La neige couvre le verger.
Dans nos cœurs aussi, pauvre amante,
Il va neiger, il va neiger.

Hier: c’était les soleils jaunes,
Hier, c’était encor l’été,
C’était l’eau courant sous les aulnes
Dans le val de maïs planté.

Hier, c’était les blancs, les roses
Lis, les lis d’or érubescent
Et demain: c’est les passeroses,
C’est les ifs plaintifs, balançant,

Balançant leur verdure dense,
Sur nos bonheurs ensevelis;
Demain, c’est la macabre danse
Des souvenirs aux fronts pâlis.

Demain, c’est les doutes, les craintes,
C’est les désirs martyrisés,
C’est le coucher sans tes étreintes,
C’est le lever sans tes baisers.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Ioannis A. Papadiamantopoulos, conhecido no ambiente literário pelo pseudônimo Jean Moréas (1856 1910), grego e ateniense, viveu em Paris França, estudou Direito, foi poeta, romancista, ensaísta e crítico literário; teve seus poemas publicados nas revistas Lutèce e Le Chat Noir, e, em 1886, no Prefácio de sua obra Les cantilènes, Moréas se anunciou simbolista; ainda em 1886, com a apresentação do Manifesto do Simbolismo (Le Symbolisme), de sua autoria e divulgado no suplemento literário do jornal Le Figaro, o poeta passou a ser reconhecido como o iniciador daquele movimento que surgia na França e que até então não tinha nome; foi cofundador da revista Le Symboliste, com Paul Adam e Gustave Kahn; obras: Les syrtes (Os sirtes, 1884), Les cantilènes (As cantilenas, 1886), Le pélerin passioné (O peregrino apaixonado, 1891), Stances (Estâncias, 1899/1901) e outros títulos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Jean Moréas: Estâncias [I, 11 & III, 12]

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

I, 11

Nunca diga: esta vida é um alegre festim;
É de fútil espírito, alma inferior.
Mais ainda não diga: é ela dor sem fim;
É uma falsa coragem e se torna torpor.

Ri como ramos a vibrar nas primaveras,
Chore qual a maré na areia ou como o vento,
Sofre todos os males e goze os prazeres;
E diga: é muito e é a sombra de um alento.

III, 12

Ó tu que nos meus dias tristes, de fastio,
                   Só ainda iluminada,
Como céu estrelado que em noite de um rio,
                   Quebra as flechas douradas,

Envolve meu espírito, poesia bela,
                   Com sutil elemento,
Que eu me transforme em água, em flama e na procela,
                   Na folha e no sarmento;

E, sem perturbar com o que agita o homem,
                   Que eu cresça verdejante
Qual divino carvalho, e no eu que me consome
                   Como o fogo brilhante!

Jean Moréas

I, 11

Ne dites pas: la vie est un joyeux festin;
Ou c’est d’un esprit sot ou c’est d’une âme basse.
Surtout ne dites point: elle est malheur sans fin;
C’est d’un mauvais courage et qui trop tôt se lasse.

Riez comme au printemps s’agitent les rameaux,
Pleurez comme la bise ou le flot sur la grève,
Goûtez tous les plaisirs et souffrez tous les maux;
Et dites: c’est beaucoup et c’est l’ombre d’un rêve.

III, 12

Ô toi qui sur mes jours de tristesse et d’épreuve
                   Seule reluis encor,
Comme un ciel étoilé qui, dans la nuit d’un fleuve,
                   Brise ses flèches d’or,

Aimable Poésie, enveloppe mon âme
                   D’un subtil élément,
Que je devienne l’eau, la tempête et la flamme,
                   La feuille et le sarment:

Que, sans m’inquiéter de ce qui trouble l’homme,
                   Je croisse verdoyant
Tel un chêne divin, et que je me consomme
                   Comme le feu brillant!
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Ioannis A. Papadiamantopoulos, conhecido pelo pseudônimo Jean Moréas (1856 1910), grego e ateniense, viveu em Paris França, estudou Direito, foi poeta, romancista, ensaísta e crítico literário; teve seus poemas publicados nas revistas Lutèce e Le Chat Noir, e, em 1886, no Prefácio de sua obra Les cantilènes, Moréas se anunciou simbolista; ainda em 1886, com a apresentação do Manifesto do Simbolismo (Le Symbolisme), de sua autoria e divulgado no suplemento literário do jornal Le Figaro, o poeta passou a ser reconhecido como o iniciador daquele movimento que surgia na França e que até então não tinha nome; foi cofundador da revista Le Symboliste, com Paul Adam e Gustave Kahn; obras: Les syrtes (Os sirtes, 1884), Les cantilènes (As cantilenas, 1886), Le pélerin passioné (O peregrino apaixonado, 1891), Stances (Estâncias, 1899/1901) e outros títulos.