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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Jules Laforgue: Caso Redibitório (Matrimônio)

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

Minh’alma tem sete dons raros
e, em número maior que as obras-
primas, micróbios, aos milhares,
tornam-me campo de manobras.

Ora, o sufrágio universal!
Que chicaneia e clama insultos,
Cada instante, ao menor sinal,
Entre meus mil órgãos ocultos!…

Quisera viver com sucesso,
segundo um clássico programa,
associando-me, em congresso,
a alguma clássica madama.

Pode-se cogitar, na pauta,
em tirar exemplares, para
si, de si mesmo, quando falta,
porém, uma ideia, mais clara?…

(Revista Código nº 8, 1983, Salvador — BA)

Jules Laforgue

Cas rédhibitoire (Mariage)

Ah! mon âme a sept facultés!
Plus autant qui ‘il de chefs-d’oeuvre,
Plus mille microbes ratés
Qui m’ont pris pour champ de manoeuvre.

Oh! le suffrage universel
Qui se bouscule et se chicane,
À chaque instant, au moindre appel,
Dans mes mille occultes organes!…

J’aurais voulu vivre à grands traits,
Le long d’un classique programme
Et m’associant en un congrès
Avec quelque classique femme.

Mais peut-il être question
D’aller tirer des exemplaires
De son individu si on
N’en a pas une idée plus claire?…
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica, e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendante; postumamente, editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada em 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Jules Laforgue: Domingos nº 2

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

No domingo exerço
Dizer o meu terço
Às irmãs de berço.

Orfeu, belo Orfeu!
Harém, corifeu
Das margens do Alfeu...

Jovem Parsifal!
Pendão virginal
Nos muros do mal...

Preso Prometeu!
Plá que percorreu
Séculos ateus...

Nabuco’nosor
Moloch-esplendor
Nosso imperador?

Vós filhas de Eva
Irmãs, berço e seiva,
Destino que enleva!

Salomé de Nada!
Múmia embalsamada
Dormem as amadas...

Ofélia de Tudo
Vinde a mim (outubro)
Sou surdo e sou mudo.

Casta Salambô!
A lua e seu halo,
Lava meu mantô...

Irmã Messalina!
Ó pantera fina
Rasga musselinas...

E tu Cinderela
Reprisa a novela
Palco sem janela!

Ou Paulo e Virgínia
Vinheta bendita
Dos céus das colônias...

Ó louca psiquê!
Pecado-nenê
Sem quê nem pra quê...

Jules Laforgue

Dimanches nº 2

Le Dimanche, on se plaît
À dire un chapelet
À ses frères de lait.

Orphée, ô jeune Orphée!
Serials des coriphées
Aux soirs du fleuve Alphée…

Parcifal, Parcifal!
Étendart virginal
Sur les ramparts du mal…

Prométhée, Prométhée!
Phrase répercutée
Par les siècles athées...

Nabucodonosor!
Moloch des âges d’or
Régissez-nous encor?...

Et vous donc, filles d’Ève,
Soeurs de lait, soeurs de sève,
Des destines qu’on se rêve!

Salomé, Salomé!
Sarcophage embaumé
Où dort maint Bien-Aimé…

Ophélie toi surtout
Viens moi par ce soir d’août
Ce sera entre nous.

Salammbo, Salammbo!
Lune au chaste halo
Qui laves nos tombeaux…

Grande soeur, Messaline!
Ô panthère câline
Griffant nos mousselines…

Oh! même Cendrillon
Reprisant ses haillons
Au foyer sans grillon…

Ou Paul et Virginie,
Ô vignette bénie
Des ciels des colonies…

— Psyché, folle Psyché,
Feu-follet du péché,
Vous vous ferez moucher!...

(Des Fleurs de bonne volonté [di Jules Laforgue —
Barbaro Pietro Vaccaro, 1994, Catania — Italia])
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Litanias da lua: Jules Laforgue — edição bilíngue, Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio; teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Lua na Província

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

Ah! Lua, formosa e cheia,
Gorda, qual fortuna alheia!

A corneta soa ao fundo,
Passa, o senhor adjunto.

Um cravo toca a vidraça,
Um gato atravessa a praça:

É a província que dorme,
Lançando o último acorde!

O piano bate a janela.
Que hora são agora bela?

Tranqüila Lua, que exílio!
Preciso dizer que brilho?

Lua — Lua diletante,
De nenhum clima distante,

Viste ontem o Missouri,
E as muralhas de Paris,

Fiordes do norte-europeu,
Pólos, mares, que sei eu?

Lua contente, assim olhas,
O comboio, a esta hora,

De sua viagem de núpcias!
Eles partiram pra Escócia.

Que cena, se, este inverno,
Ela seguisse meus versos!

Lua — Lua navegante,
Sejamos então amantes?

Ricas noites! Eu me deito,
A Província no meu peito!

E a Lua, bondosa velha,
Enfia algodão na orelha.

Jules Laforgue

Complainte de la lune en province

Ah! la belle pleine Lune,
Grosse comme une fortune!

La retraite sonne au loin,
Un passant, monsieur l’adjoint;

Un clavecin joue en face *,
Un chat traverse la place:

La province qui s’endort!
Plaquant un dernier accord,

Le piano clôt sa fenêtre.
Quelle heure peut-il bien être?

Calme Lune, quel exil!
Faut-il dire: ainsi soit-il?

Lune, ô dilettante Lune,
À tous les climats commune,

Tu vis hier le Missouri,
Et les remparts de Paris,

Les fiords bleus de la Norwège,
Les pôles, les mers, que sais-je?

Lune heureuse! ainsi tu vois,
À cette heure, le convoi

De son voyage de noce!
Ils sont partis pour l’Écosse.

Quel panneau, si, cet hiver,
Elle eût pris au mot mes vers!

Lune, vagabonde Lune,
Faisons cause et mœurs communes?

Ô riches nuits! je me meurs,
La province dans le cœur!

Et la lune a, bonne vieille,
Du coton dans les oreilles.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino: ‘Traduzi “en face” por “vidraça”. “Vidraça capta o sentido de “em frente”, de “visibilidade”.
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio; teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Boa Defunta

 
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[paráfrase* de Régis Bonvicino]

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
— Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

Jules Laforgue

Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient: "J'ai deviné 
Hélas! que tu m'as reconnue!"

Je la suivis illuminé!
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue;
OEillet blanc, d'azur trop veiné;
Oh! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
— Oh! je rentrerai sans dîner!

Vrai, je ne l'ai jamais connue.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino: “Esta tradução é, de fato, uma paráfrase. A alternância rímica está toda modificada. Mantive a métrica de oito sílabas.”
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendante; postumamente editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada en 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes"; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Jules Laforgue: Noturnamente

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[traduzido por Régis Bonvicino]

Ó Lua, corra em minha veia,
E que eu já bem bambo na teia,

Creia apertar-te em meu peito!
És pálida, de meter medo!

Mostras pela tez, pelo jeito,
Que tua cor é só degredo!

E retornas, passando mal,
Ao teu cachemire sideral,

Necrópole, Delos errante,
Quero que sigas adiante.

Eu te prometo como ex-voto
Putifares do meu mantô!

Veja, adeus! entro na cidade
Em marcha, idílios de verdade,

Anunciando-me o Hino
Do epitalâmio ao teu Nihil.

Jules Laforgue

Nuitamment

Ô Lune, coule dans mes veines
Et que je me soutienne à peine,

Et croie t'aplatir sur mon cœur!
Mais, elle est pâle à faire peur!

Et montre par son teint, sa mise,
Combien elle en a vu de grises!

Et ramène, se sentant mal,
Son cachemire sidéral,

Errante Delos, nécropole,
Je veux que tu fasses école;

Je te promets en ex-voto
Les Putiphars de mes manteaux!

Et tiens, adieu; je rentre en ville
Mettre en train deux ou trois idylles,

En m'annonçant par un Péan
D'épithalame à ton Néant.
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Jules Laforgue: Litanias dos quartos crescentes da lua

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

Lua bendita,
De selenitas,

Medalhão branco
De Endimião

Astro argila
Que tudo exila,

Tumba mantô
De Salambô,

Cais aéreo
Todo Mistério,

Madona, Miss
Diana-Artemis

Santa Vigia
Dessas orgias

Jetaturá
Do bacará

Dama bem lassa
De nossas praças,

Filtro perfume
De vagalumes,

Rosácea-palma
Últimos salmos,

Olho de gata
Que nos resgata,

Seja ambulância
De nossas ânsias,

Seja edredão
Do grão perdão!

Jules Laforgue

Litanies des premiers quartiers de la lune

Lune bénie
Des insomnies,

Blanc médaillon
Des Endymions,

Astre fossile
Que tout exile,

Jaloux tombeau
De Salammbô,

Embarcadère
Des grands Mystères,

Madone et miss
Diane-Artémis,

Sainte Vigie
De nos orgies

Jettatura
Des baccarats,

Dame très-lasse
De nos terrasses,

Philtre attisant
Les vers luisants,

Rosace et dôme
Des derniers psaumes,

Bel œil-de-chat
De nos rachats,

Sois l'Ambulance
De nos croyances!

Sois l'édredon
Du Grand-Pardon!
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

sábado, 14 de maio de 2022

Jules Laforgue: Lamento do pobre corpo humano

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

O Homem e a fêmea são servos
Do corpo: cloaca basbaque
De malhas de harpas de nervos
Servos de tudo, de tais baques
De seu repertório de ataque.

Eis sua cantilena,
Ó, é de fazer pena!

Limpo e certo no seu contorno,
Decorado por modas vãs,
Ele se admira, bravo corpo,
E se endominga, de manhã,
Após a semana de afã.

Vamos, sim, vamos, fêmea,
Esta é nossa cena!

Vejamo-lo: tocante, nu,
Num décor de folhas, virtuose,
Com tics reflexos de frufru.
Ais e uis de mundanas poses;
Sobre um fundo verde: clorose.

Eis sua cantilena,
Ó, é de fazer pena!

As virtudes e seus Desejos
Baqueiam-lhe a engrenagem,
Vive tão só para o manejo
Das rendas da divina imagem,
À lei da morte: sabotagem!

Vamos, sim, vamos, fêmea,
Nós somos alma gêmea!

Nutre-se de postas de arte,
Droga-se pinta-se perfuma,
Empanturra-se, morre tarde;
E a cozinha que se resuma
Em mais de mil infecções póstumas.

Vamos, sim, vamos, fêmea,
Esta é nossa cena!

Mas o micróbio subversivo
Nada revela à Substância,
Cujos dilúvios corrosivos
Devolvem-no à Inocência:
Germes loucos da consciência.

Natura não tem pena,
Mata, nos envenena!

Jules Laforgue

Complante du pauvre corps humain

L´Homme est as compagne sont serfs
De corps, tourbirllonants cloaques
Aux mailles de harps de nerfs
Serves de tour et que détraque
Um fier répertoire d´attaques.

Voyex l´homme, voyez!
Si ça n´fait pas pitié!

Propre et correct en ses ressorts,
S´assaisonnant des modes vaines,
Il s´admire, ce brave corps,
Et s´endrimanche pour as peine,
Quand il a bien sué la semaine.

Et sa compagne! allons,
Ma bell´, nous vous valons.

Faudrait le voir, touchant et nu
Dans un décor d´oiseaux, de roses;
Ses tics réflexes d´ingénu,
Se plis pris de mondaines poses;
Bref, sur beau fond vert, as chlorose.

Voyez, l´Homme, voyez!
Si ça n´fait pas pitié!

Les Vertus et les Voluptés
Détraquant d´un rien sa machine,
Il ne vit que pour disputer
Ce domaine à rentes divines
Aux lois de mort qui le taquinent.

Et sa compagne! allons,
Ma bell´, nous nous valons.

Il se soutient de mets pleins d´art,
Se drogue, se tond, se parfume,
Se truffe tant, qu´il meurt trop tard;
Et la cuisine se résume
En mille infectiosn posthumes.

Oh! ce couple, voyez!
Non, ça fait trop pitié.

Mais se microbe subversif
Ne compte pas pour la Substance,
Dont les déluges corrosifs,
Renoient vite pour l´Innocence
Ces fols germes de conscience.

Nature est sans pitié
Pour son petit dernier.
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Pedro Kilkerry, Marcelo Gama, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.