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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Boa Defunta

 
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[paráfrase* de Régis Bonvicino]

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

Jules Laforgue

Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient: "J'ai deviné 
Hélas! que tu m'as reconnue!"

Je la suivis illuminé!
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue;
OEillet blanc, d'azur trop veiné;
Oh! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
Oh! je rentrerai sans dîner!

Vrai, je ne l'ai jamais connue.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino:Esta tradução é, de fato, uma paráfrase. A alternância rímica está toda modificada. Mantive a métrica de oito sílabas.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendantepostumamente editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada en 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes"; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Jules Laforgue: Noturnamente

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[traduzido por Régis Bonvicino]

Ó Lua, corra em minha veia,
E que eu já bem bambo na teia,

Creia apertar-te em meu peito!
És pálida, de meter medo!

Mostras pela tez, pelo jeito,
Que tua cor é só degredo!

E retornas, passando mal,
Ao teu cachemire sideral,

Necrópole, Delos errante,
Quero que sigas adiante.

Eu te prometo como ex-voto
Putifares do meu mantô!

Veja, adeus! entro na cidade
Em marcha, idílios de verdade,

Anunciando-me o Hino
Do epitalâmio ao teu Nihil.

Jules Laforgue

Nuitamment

Ô Lune, coule dans mes veines
Et que je me soutienne à peine,

Et croie t'aplatir sur mon cœur!
Mais, elle est pâle à faire peur!

Et montre par son teint, sa mise,
Combien elle en a vu de grises!

Et ramène, se sentant mal,
Son cachemire sidéral,

Errante Delos, nécropole,
Je veux que tu fasses école;

Je te promets en ex-voto
Les Putiphars de mes manteaux!

Et tiens, adieu; je rentre en ville
Mettre en train deux ou trois idylles,

En m'annonçant par un Péan
D'épithalame à ton Néant.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Jules Laforgue: Litanias dos quartos crescentes da lua

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

Lua bendita,
De selenitas,

Medalhão branco
De Endimião

Astro argila
Que tudo exila,

Tumba mantô
De Salambô,

Cais aéreo
Todo Mistério,

Madona, Miss
Diana-Artemis

Santa Vigia
Dessas orgias

Jetaturá
Do bacará

Dama bem lassa
De nossas praças,

Filtro perfume
De vagalumes,

Rosácea-palma
Últimos salmos,

Olho de gata
Que nos resgata,

Seja ambulância
De nossas ânsias,

Seja edredão
Do grão perdão!

Jules Laforgue

Litanies des premiers quartiers de la lune

Lune bénie
Des insomnies,

Blanc médaillon
Des Endymions,

Astre fossile
Que tout exile,

Jaloux tombeau
De Salammbô,

Embarcadère
Des grands Mystères,

Madone et miss
Diane-Artémis,

Sainte Vigie
De nos orgies

Jettatura
Des baccarats,

Dame très-lasse
De nos terrasses,

Philtre attisant
Les vers luisants,

Rosace et dôme
Des derniers psaumes,

Bel œil-de-chat
De nos rachats,

Sois l'Ambulance
De nos croyances!

Sois l'édredon
Du Grand-Pardon!
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

sábado, 14 de maio de 2022

Jules Laforgue: Lamento do pobre corpo humano

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

O Homem e a fêmea são servos
Do corpo: cloaca basbaque
De malhas de harpas de nervos
Servos de tudo, de tais baques
De seu repertório de ataque.

Eis sua cantilena,
Ó, é de fazer pena!

Limpo e certo no seu contorno,
Decorado por modas vãs,
Ele se admira, bravo corpo,
E se endominga, de manhã,
Após a semana de afã.

Vamos, sim, vamos, fêmea,
Esta é nossa cena!

Vejamo-lo: tocante, nu,
Num décor de folhas, virtuose,
Com tics reflexos de frufru.
Ais e uis de mundanas poses;
Sobre um fundo verde: clorose.

Eis sua cantilena,
Ó, é de fazer pena!

As virtudes e seus Desejos
Baqueiam-lhe a engrenagem,
Vive tão só para o manejo
Das rendas da divina imagem,
À lei da morte: sabotagem!

Vamos, sim, vamos, fêmea,
Nós somos alma gêmea!

Nutre-se de postas de arte,
Droga-se pinta-se perfuma,
Empanturra-se, morre tarde;
E a cozinha que se resuma
Em mais de mil infecções póstumas.

Vamos, sim, vamos, fêmea,
Esta é nossa cena!

Mas o micróbio subversivo
Nada revela à Substância,
Cujos dilúvios corrosivos
Devolvem-no à Inocência:
Germes loucos da consciência.

Natura não tem pena,
Mata, nos envenena!

Jules Laforgue

Complante du pauvre corps humain

L´Homme est as compagne sont serfs
De corps, tourbirllonants cloaques
Aux mailles de harps de nerfs
Serves de tour et que détraque
Um fier répertoire d´attaques.

Voyex l´homme, voyez!
Si ça n´fait pas pitié!

Propre et correct en ses ressorts,
S´assaisonnant des modes vaines,
Il s´admire, ce brave corps,
Et s´endrimanche pour as peine,
Quand il a bien sué la semaine.

Et sa compagne! allons,
Ma bell´, nous vous valons.

Faudrait le voir, touchant et nu
Dans un décor d´oiseaux, de roses;
Ses tics réflexes d´ingénu,
Se plis pris de mondaines poses;
Bref, sur beau fond vert, as chlorose.

Voyez, l´Homme, voyez!
Si ça n´fait pas pitié!

Les Vertus et les Voluptés
Détraquant d´un rien sa machine,
Il ne vit que pour disputer
Ce domaine à rentes divines
Aux lois de mort qui le taquinent.

Et sa compagne! allons,
Ma bell´, nous nous valons.

Il se soutient de mets pleins d´art,
Se drogue, se tond, se parfume,
Se truffe tant, qu´il meurt trop tard;
Et la cuisine se résume
En mille infectiosn posthumes.

Oh! ce couple, voyez!
Non, ça fait trop pitié.

Mais se microbe subversif
Ne compte pas pour la Substance,
Dont les déluges corrosifs,
Renoient vite pour l´Innocence
Ces fols germes de conscience.

Nature est sans pitié
Pour son petit dernier.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Pedro Kilkerry, Marcelo Gama, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Jules Laforgue: Litanias dos quartos minguantes da lua

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[traduzido por Régis Bonvicino]

Eucaristia
De nossa arcádia

Que faz do amor
Coração-dor,

Céu dos idílios
Longe de auxílios,

Pia batismal
Pierrot leal,

Última hóstia
De nossa história,

Vortex-Umbigo
Do Nada-Antigo,

Bíblia e espelho
Desses esguelhos,

Hotel real
Do sideral,

Esfingioconda
Das mortas ondas,

Ó Canaã
Das coisas vãs,

Coisas vãs, Meca,
Bibliotecas,

Letes e Lótus
Exaudi nos!

Jules Laforgue

Litanies des derniers quartiers de lune

Eucharistie
De l'Arcadie,

Qui fais de l'œil
Aux cœurs en deuil,

Ciel des idylles
Qu'on veut stériles,

Fonts baptismaux
Des blancs pierrots,

Dernier ciboire
De notre Histoire,

Vortex-nombril
Du Tout-Nihil,

Miroir et Bible
Des Impassibles,

Hôtel garni
De l'infini,

Sphinx et Joconde
Des défunts mondes,

Ô Chanaan
Du bon Néant,

Néant, La Mecque
Des bibliothèques,

Léthé, Lotos,
Exaudi nos!
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quinta-feira, 31 de março de 2022

Jules Laforgue: Mediocridade

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saúdam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o seu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.

Jules Laforgue

Médiocrité

Dans l'Infini criblé d'éternelles splendeurs,
Perdu comme un atome, inconnu, solitaire,
Pour quelques jours comptés, un bloc appelé Terre
Vole avec sa vermine aux vastes profondeurs.

Ses fils, blêmes, fiévreux, sous le fouet des labeurs,
Marchent, insoucieux de l'immense mystère,
Et quand ils voient passer un des leurs qu'on enterre,
Saluent, et ne sont pas hérissés de stupeurs.

La plupart vit et meurt sans soupçonner l'histoire
Du globe, sa misère en l'éternelle gloire,
Sa future agonie au soleil moribond.

Vertiges d'univers, cieux à jamais en fête!
Rien, ils n'auront rien su. Combien même s'en vont
Sans avoir seulement visité leur planète.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860  1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia, consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Pedro Kilkerry, Marcelo Gama, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.