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Dores — águas que vão e
voltam... Águas
Do coração, sem margens e sem
fundo.
Ides a vida entre parcéis e
fráguas,
Prolongando a esse eterno
moribundo.
Onde, pois, ancorar? Saudades?
Trago-as
Em torrentes de lágrimas e inundo
Com elas meu caminho e minhas
mágoas,
Tão diversas das mágoas deste
mundo.
Tudo me foi contrário! A
adolescência
Vendo-me o rosto pálido e
desfeito,
Sorriu-me com um sorriso de
piedade.
E, assim, atravessei essa
existência,
Sem ver um só desejo
satisfeito,
Quer na velhice, quer na
mocidade!

* Nota da Flávia Amparo: Este soneto
foi publicado após a morte do poeta. (Hemeroteca do Arquivo Luís Murat, Julho
de 1929. Centro de Memória da ABL.)
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Luís Murat — Série Essencial 58,
Academia Brasileira de Letras, Organização de Flávia Amparo, 2012, Imprensa
Oficial do Estado, São Paulo — SP; Luís Norton Barreto Murat (1861 — 1929), fluminense de Itaguaí, formado
em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo — atual USP Largo São Francisco —, foi poeta, jornalista e político; fez sua estreia
literária em 1879, no Ensaio Literário, um jornal redigido por ele e outros
colegas, ainda em São Paulo; mudando-se para o Rio de Janeiro, fundou o jornal
Vida Moderna, depois colaborou no Cidade do Rio, jornal de José do Patrocínio,
em A Rua e outros periódicos cariocas; bibliografia: Quatro poemas (livro de
estreia, 1885), A última noite de Tiradentes (poema dramático, 1886), Ondas — 1ª série (1890), Ondas — 2ª série (1895), Ondas — 3ª série (1910), Ritmos e Ideias (1920) etc.; Luís Murat foi um dos fundadores da Academia Brasileira de
Letras, cabendo-lhe a cadeira nº 1 cujo patrono o poeta Adelino Fontoura.