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terça-feira, 17 de maio de 2022

Rafael Alberti: O anjo raivoso

 
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[traduzido por Amálio Pinheiro]

    São portas de sangue,
    milênios de ódios,
chuvas de rancores, mares.

    O que te fiz, dize-me,
    para que os saltes?
Para que teu acre hálito
incendeie todos meus anjos?

    Raios e machados
    bem pouco me valem.
Noites armadas, nem ventos
    leais.

    Rompes e me assaltas.
    Cativo me trazes
à tua luz, que não é a minha,
    para tornear-me.

À tua luz acre, tão acre,
    que ninguém a traga.

Rafael Alberti

El ángel rabioso

    Son puertas de sangre,
    milenios de odios,
lluvias de rencores, mares.

    ¿Qué te hice, dime,
    para que los saltes?
¿Para que con tu agrio aliento
me incendies todos mis ángeles?

    Hachas y relámpagos
    de poco me valen.
Noches armadas, ni vientos
    leales.

    Rompes y me asaltas.
    Cautivo me traes
a tu luz, que no es la mía,
    para tornearme.

A tu luz agria, tan agria,
    que no muerde nadie.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte Horizonte, Alfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; obras: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928 1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Entre el clavel y la espada, La arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987) e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Rafael Alberti: Engano

 
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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Alguém atrás, às tuas costas,
tapando com palavras os teus olhos.

Atrás de ti, sem corpo,
sem alma.
Nevoenta voz de sonho
cortado.
Nevoenta voz
cortada.

Com palavras, vidros falsos.

Cega, por um túnel de ouro,
de espelhos malvados,
com a morte
irás dar num subterrâneo.

Tu ali sozinha, com a morte,
em um subterrâneo.

E alguém atrás, às tuas costas,
tanto.

Rafael Alberti

Engaño

Alguien detrás, a tu espalda,
tapándote los ojos con palabras.

Detrás de ti, sin cuerpo,
sin alma.
Ahumada voz de sueño
cortado.
Ahumada voz
cortada.

Con palabras, vidrios falsos.

Ciega, por un túnel de oro,
de espejos malos,
con la muerte
darás en un subterráneo.

Y alguien detrás, a tu espalda,
siempre.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte Horizonte, Alfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; obras: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928 1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Entre el clavel y la espada, La arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987) e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Rafael Alberti: O anjo de areia

 
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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Subitamente, em teus olhos era o mar dois meninos que me espiavam,
temerosos de laços e palavras duras.
Dois meninos da noite, terríveis do céu expulsos,
cuja infância era um roubo de barcos e um crime de sóis e luas.
Dorme. Fecha-os.

Vi que o mar verdadeiro era um garoto que saltava desnudo,
Convidando-me a um prato de estrelas e a um repouso de algas.
Sim, sim! Minha vida ia ser, já o era, litoral desprendido.
Porém tu, despertando, me enfiaste em teus olhos.

Rafael Alberti

El ángel de arena

Seriamente, en tus ojos era la mar dos niños que me espiaban,
temerosos de lazos y palabras duras.
Dos niños de la noche, terribles, expulsados del cielo,
cuya infancia era un robo de barcos y un crimen de soles y de lunas.
Duérmete. Ciérralos.

Vi que el mar verdadero era un muchacho que saltaba desnudo,
invitándome a un plato de estrellas y a un reposo de algas.
¡Sí, sí! Ya mi vida iba a ser, ya lo era, litoral desprendido.
Pero tú, despertando, me hundiste en tus ojos.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte Horizonte, Alfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; obras: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928 1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Entre el clavel y la espada, La arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987) e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Rafael Alberti: O anjo tolo

 
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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Esse anjo,
esse que nega o limbo da sua fotografia
e faz pássaro morto
seu braço.

Esse anjo que terne que lhe peçam as asas,
que lhe beijem o bico,
seriamente,
sem contrato.

Se é do céu e tão tolo,
por que na terra? Fala-me.
Falai-me.

Não nas ruas, no todo,
Indiferente, néscio,
sempre o vejo.

O anjo tolo!

Já será desta terra!
Já, desta terra todo.

Rafael Alberti

El ángel tonto

Ese ángel,
ese que niega el limbo de su fotografía
y hace pájaro muerto
su mano.

Ese ángel que terne que le pidan las alas,
que le besen el pico,
seriamente,
sin contrato.

Si es del cielo y tan tonto,
¿por qué en la tierra? Dime.
Decidme.

No en las calles, en todo,
indiferente, necio,
me lo encuentro.

¡El ángel tonto!

¡Si será de la tierra!
Sí, de la tierra sólo.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte Horizonte, Alfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; obras: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928 1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Entre el clavel y la espada, La arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987) e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Rafael Alberti: Os anjos embolorados

 
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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Houve luz que trouxe*
amêndoa amarga por osso.

Voz que por cantiga
a madeixa da chuva
cortada por machado.

Alma que por corpo
a bainha arejada
de uma dupla espada.

Veias que por sangue
fel de mirra e de retama.

Corpo que por alma
o vazio, nada.

Rafael Alberti

Los ángeles mohosos

Hubo luz que trajo
por hueso una almendra amarga.

Voz que por sonido,
el fleco de la lluvia,
cortado por un hacha.

Alma que por cuerpo,
la funda de aire
de una doble espada.

Venas que por sangre,
Y el de mirra y de retama.

Cuerpo que por alma,
el vacío, nada.

* Nota do tradutor Amálio Pinheiro: O que a conhecida fala bíblica (“Disse Deus: ‘Haja luz’; houve luz”, Gênesis, I, v. 3) introduz aqui é justamente a ocupação dos sentidos pela herança religiosa, da vista ao tato, estrofe a estrofe.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte Horizonte, Alfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; obras: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928 1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Entre el clavel y la espada, La arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987) e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Rafael Alberti: A alma penada

 
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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Essa alma penada,
essa alma só e sempre perseguida
por um resplendor morto.
Por um morto.

Ferrolhos, chaves, portas
saltam de chofre
e cortinas geladas pela noite se alongam,
se estiram,
se incendeiam,
se prolongam.

Te conheço,
te relembro,
círio inerte, lívido halo, nimbo defunto,
te conheço ainda ataques diluído no vento.

Pálpebras desveladas
caem por terra.
Sísmicas chicotadas tombam sonhos,
terremotos demolem as estrelas.
Catástrofes celestes jogam no mundo escombros,
asas quebradas, alaúdes, cordas
de harpas, restos de anjos.

Não há entrada no céu para vivalma.

Alma penada sempre,
alma perseguida.
À contraluz, sempre,
nunca alcançada, solitária alma
solitária.

Aves contra barcos,
homens contra rosas,
as perdidas batalhas pelos trigos,
nas ondas a explosão sanguinolenta.
E o fogo.
O fogo morto,
o resplendor sem vida,
sempre vigilante na sombra.

Alma penada:
o resplendor sem vida,
tua rota.

Rafael Alberti

El alma en pena

Ese alma en pena, sola,
ese alma en pena siempre perseguida
por un resplendor muerto.
Por un muerto.

Cerrojos, llaves, puertas
saltan a deshora
y cortinas heladas en la noche se alargan,
se estiran,
se incendian,
se prolongan.

Te conozco,
te recuerdo,
bujía inerte, lívido halo, nimbo difunto,
te conozco aunque ataques diluido en el viento.

Párpados desvelados
vienen a tierra.
Sísmicos latigazos tumban sueños,
terremotos derriban las estrellas.
Catástrofes celestes tiran al mundo escombros,
alas rotas, laúdes, cuerdas de arpas,
estos de ángeles.

No hay entrada en el cielo para nadie.

En pena, siempre en pena,
alma perseguida.
A contraluz, siempre,
nunca alcanzada, sola,
alma sola.

Aves contra barcos,
hombres contra rosas,
las perdidas batallas en los trigos,
la explosión de la sangre en las olas.
Y el fuego.
El fuego muerto,
el resplandor sin vida,
siempre vigilante en la sombra.

Alma en pena:
el resplandor sin vida,
tu derrota.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte Horizonte, Alfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; obras: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928 1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Entre el clavel y la espada, La arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987) e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Rafael Alberti: Convite ao ar livre *

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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Sombra, ao ar lhe convido.
Sombra de vinte séculos,
à verdade do ar livre,
do ar, do ar, ar livre.

Sombra que não sai nunca
da sua cova, e ao mundo
não devolve o assovio
que lhe ensinou o ar livre,
o ar, o ar, o ar livre.

Sombra sem luz, jazida
pelas profundidades
de vinte tumbas, vinte
séculos ocos sem ar livre,
sem ar, sem ar, ar livre.

Sombra, aos cimos, sombra,
da verdade do ar livre,
do ar, do ar, ar livre!

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Rafael Alberti

Invitación Al Aire

Te invito, sombra, al aire.
Sombra de veinte siglos,
a la verdad del aire,
del aire, aire, aire.

Sombra que nunca sales
de tu cueva, y al mundo
no devolviste el silbo
que al nacer te dio el aire,
el aire, aire, aire.

Sombra sin luz, minera
por las profundidades
de veinte tumbas, veinte
siglos huecos sin aire,
sin aire, aire, aire.

¡Sombra, a los picos, sombra,
de la verdad del aire,
del aire, aire, aire!


* Nota de Amálio Pinheiro: Este poema se aproveita da rapidez rítmica e voco-gestual de certos cantos populares (¡Ay, que se me lleva el aire!), junto à incidência de vogais claras e sibilantes, para arejar as sombras do poema e da Espanha.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902  1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte HorizonteAlfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; bibliografia:  Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928  1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933),  Entre el clavel y la espadaLa arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987), e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Rafael Alberti: O anjo mentiroso

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[traduzido por Amálio Pinheiro]

E fui derrotada
eu, sem violência,
com mel e palavras *.

E, só, nas províncias
da areia e do vento,
sem homem, cativa.

Sombra de alguém, quando
séculos com quícios
muraram meu sangue **.

Ai luzes! Comigo!

Que fui derrotada
eu, sem violência,
com mel e palavras.

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Rafael Alberti

El Ángel mentiroso

Y fui derrotada
yo, sin violencia
con miel y palavras.

Y, sola, en provincias
de arena y de viento,
sin hombre, cautiva.

Y, sombra de alguien,
cien puertas de siglos
tapiaron mi sangre.

¡Ay luces! ¡Conmigo!

Que fui derrotada
yo, sin violencia,
con miel y palavras.


Notas de Amálio Pinheiro:
* É visível aqui a alusão a uma derrota causada sutilmente, a conta-gotas, por uma pressão simbólica que esgrime com o estereótipo do sublime (“mel”) e com a fala trivial de cada dia. Daí a relação indireta do livro com a revolução vivida, cujo viés Alberti mais tarde acentuará: “A nadie, por otra parte, se le ocurría entonces pensar que la poesia sirviese para algo más que el goce íntimo de ella. A nadie se le ocurría. Pero los vientos que soplaban ya iban henchidos de presagios.” (La arboleda perdida, parte I, cit., p.277.)
** Alberti nunca deixa de nos fazer ler a relação entre as cargas sombrias da história religioso-fascistóide (“séculos com quícios”) e os seus efeitos ideológicos-linguísticos muscularmente concretos (“murmuram meu sangue”).
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902  1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte HorizonteAlfarRevista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; bibliografia:  Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928  1929), Sermones y moradas (1929  1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933),  Entre el clavel y la espadaLa arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987), e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Rafael Alberti: O anjo bom [I]

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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Já adormecido, um ano,
Alguém que não esperava
Parou em minha janela.

 Levanta-te! E meus olhos
viram plumas e espadas.

Atrás, montes e mares,
nuvens, bicos e alas,
ponentes, alvoradas.

Olha-a ali! Só sonho,
seu pingente do nada.

Oh anelo, fixo mármore,
fixa luz, fixas águas
móbiles da minha alma!

Alguém disse: levanta-te!
Eu estava na tua estância.

Rafael Alberti
Rafael Alberti

El ángel bueno

Un año, ya dormido,
alguien que no esperaba
se paró en mi ventana.

 ¡Levántate! Y mis ojos
vieron plumas y espadas.

Atrás, montes y mares,
nubes, picos y alas,
los ocasos, las albas.

 ¡Mírala ahí! Su sueño,
pendiente de la nada.

 ¡Oh anhelo, fijo mármol,
fija luz, fijas aguas
movibles de mi alma!

Alguien dijo: ¡Levántate!
Y me encontré en tu estancia.
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902  — 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte HorizonteAlfarRevista de OccidenteLitoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; bibliografia:  Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí  (1928), Cal y Canto (1928),  Sobre los ângeles (1928  1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933),  Entre el clavel y la espadaLa arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987), e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.