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terça-feira, 28 de maio de 2024

José María de Heredia: A concha

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[traduzido por Raul Machado]

Por quanto mar gelado, e desde quantos anos,
quem o dirá jamais, róseo e equóreo tesouro?!
a vaga, a correnteza, a enchente e o sorvedouro
te levaram, rolando, em seus golfões insanos?

Hoje, livre, porém, dos vórtices tiranos,
tentas, feliz, dormir sobre as areias de ouro.
Mas o tentas em vão! Pois, largo e imorredouro,
soluça, no teu seio, o choro dos oceanos!

Minh'alma também lembra uma prisão sonora!
E como, forte, em ti, ainda suspira e chora
da antiga voz do mar a música das águas,

assim, no coração, morto de amor por Ela,
surdo e eterno bramir de longínqua procela
ruge em mim o clamor de inesquecíveis mágoas!

José María de Heredia

La conque

Par quels froids Océans, depuis combien d'hivers,
Qui le saura jamais, Conque frêle et nacrée!
La houle sous-marine et les raz de marée
T'ont-ils roulée au creux de leurs abîmes verts?

Aujourd'hui, sous le ciel, loin des reflux amers,
Tu t'es fait un doux lit de l'arène dorée.
Mais ton espoir est vain. Longue et désespérée,
En toi gémit toujours la grande voix des mers.

Mon âme est devenue une prison sonore:
Et comme en tes replis pleure et soupire encore
La plainte du refrain de l'ancienne clameur;

Ainsi du plus profond de ce coeur trop plein d'Elle,
Sourde, lente, insensible et pourtant éternelle,
Gronde en moi l'orageuse et lointaine rumeur.

[Les Trophées — 1893]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, em Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).