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sábado, 10 de janeiro de 2026

Mário Quintana: Poema & A oferenda & Uma simples elegia

 
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Poema

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

(A Vaca e o Hipogrifo — 1977)

A oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

(Esconderijos do Tempo — 1980)

Uma simples elegia

Caminhozinho por onde eu ia andando
E de repente te sumiste,
o que seria que te aconteceu?
Eu sei… o tempo… as ervas más… a vida…
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu…

(Nariz de Vidro — 1984)

(Antologia Poética — 1985)

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Assombros cotidianos — Antologia: Mário Quintana, Organização de Márcio Vassallo, 2024, 1ª edição, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, fez seus estudos iniciais na Escola Elementar mista de Dona Mimi Contino e na escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, ali concluiu o curso primário, estudou em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre RS, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; na infância, aprendeu a ler folheando o jornal Correio do Povo e iniciou-se em noções de francês com os pais, em casa; teve seus primeiros textos literários publicados na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do colégio; como jornalista, trabalhou n’O Estado do Rio Grande, no Correio do Povo, além de ter colaborado na revista Província de São Pedro e em outros periódicos gaúchos; suas obras: A Rua dos Cataventos (sonetos, 1940), Canções (poemas, 1946), Sapato Florido (poesia e prosa, 1948), O Batalhão das Letras (literatura infantil, 1948), O Aprendiz de Feiticeiro (poemas, 1950), Espelho Mágico (quartetos, 1951), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Prosa e Verso (1978), Esconderijos do Tempo (1980), Lili inventa o Mundo (literatura infantil, 1983), O Sapato Amarelo (literatura infanto-juvenil, 1984), Nariz de Vidro (literatura infantil, 1984), Baú de Espantos (1986) etc.; além de participação em muitas antologias, o poeta teve + outras publicações e apresentações: discografia poemas declamados, Antologia Poética de Mário Quintana (disco de vinil, Polygram, 1983), música Recital Canto Coral Quintanares (1993) e Cantando o Imaginário do Poeta (1994), teatro Lili Inventa o Mundo (adaptação e montagem de Dilmar Messias, 1993); traduziu obras de Marcel Proust, Balzac, Mérimée, Virginia Woolf, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, Antoine de Saint-Exupéry entre outras autorias; foi laureado com o Prêmio Machado de Assis (da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra) e o Prêmio Jabuti, como personalidade literária, ambos em 1981, além de ter recebido outras premiações e honrarias.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Mário Quintana: O Poema & Mentiras & Mentira & Da cor

 
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O Poema

Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida...

Mentiras

Lili vive no mundo do Faz de conta... Faz de conta que isto é um avião. Zzzzuuu... Depois aterrissou em piquê e virou trem. Tuc tuc tuc tuc... Entrou pelo túnel chispando. Mas debaixo da mesa havia bandidos. Pum! Pum! Pum! O trem descarrilou. E o mocinho? Onde é que está o mocinho? Meu Deus! onde é que está o mocinho?! No auge da confusão, levaram Lili para a cama, à força. E o trem ficou tristemente derribado no chão, fazendo de conta que era mesmo uma lata de sardinha.

Mentira

A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.

Da cor

Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais a cor do tempo...

(Sapato Florido — 1948)

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Assombros cotidianos — Antologia: Mário Quintana, Organização de Márcio Vassallo, 2024, 1ª edição, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, fez seus estudos iniciais na Escola Elementar mista de Dona Mimi Contino e na escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, ali concluiu o curso primário, estudou em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre RS, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; na infância, aprendeu a ler folheando o Jornal Correio do Povo e iniciou-se em noções de francês com os pais, em casa; teve seus primeiros textos literários publicados na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do colégio; como jornalista, trabalhou n’O Estado do Rio Grande, no Correio do Povo, além de ter colaborado na revista Província de São Pedro e em outros periódicos gaúchos; suas obras: A Rua dos Cataventos (sonetos, 1940), Canções (poemas, 1946), Sapato Florido (poesia e prosa, 1948), O Batalhão das Letras (literatura infantil, 1948), O Aprendiz de Feiticeiro (poemas, 1950), Espelho Mágico (quartetos, 1951), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Prosa e Verso (1978), Lili inventa o Mundo (literatura infantil, 1983), O Sapato Amarelo (literatura infanto-juvenil, 1984), Baú de Espantos (1986) etc.; além de participação em muitas antologias, o poeta teve + outras publicações e apresentações: discografia poemas declamados, Antologia Poética de Mário Quintana (disco de vinil, Polygram, 1983), música Recital Canto Coral Quintanares (1993) e Cantando o Imaginário do Poeta (1994), teatro Lili Inventa o Mundo (adaptação e montagem de Dilmar Messias, 1993); traduziu obras de Marcel Proust, Balzac, Mérimée, Virginia Woolf, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, Antoine de Saint-Exupéry entre outras autorias; foi laureado com o Prêmio Machado de Assis (da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra) e o Prêmio Jabuti, como personalidade literária, ambos em 1981, além de ter recebido outras premiações e honrarias.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Mário Quintana: Eu nada entendo da questão social . . . [soneto]

 
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Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente,

Nem é deste Planeta… Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda…

Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!…

(A Rua dos Cataventos — 1940)

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Assombros cotidianos — Antologia: Mário Quintana, Organização de Márcio Vassallo, 2024, 1ª edição, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, fez seus estudos iniciais na Escola Elementar mista de Dona Mimi Contino e na escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, ali concluiu o curso primário, estudou em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre RS, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; na infância, aprendeu a ler folheando o jornal Correio do Povo e iniciou-se em noções de francês com os pais, em casa; teve seus primeiros textos literários publicados na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do colégio; como jornalista, trabalhou n’O Estado do Rio Grande, no Correio do Povo, além de ter colaborado na revista Província de São Pedro e em outros periódicos gaúchos; suas obras: A Rua dos Cataventos (sonetos, 1940), Canções (poemas, 1946), Sapato Florido (poesia e prosa, 1948), O Batalhão das Letras (literatura infantil, 1948), O Aprendiz de Feiticeiro (poemas, 1950), Espelho Mágico (quartetos, 1951), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Prosa e Verso (1978), Lili inventa o Mundo (literatura infantil, 1983), O Sapato Amarelo (literatura infanto-juvenil, 1984), Baú de Espantos (1986) etc.; além de participação em muitas antologias, o poeta teve + outras publicações e apresentações: discografia poemas declamados, Antologia Poética de Mário Quintana (disco de vinil, Polygram, 1983), música Recital Canto Coral Quintanares (1993) e Cantando o Imaginário do Poeta (1994), teatro Lili Inventa o Mundo (adaptação e montagem de Dilmar Messias, 1993); traduziu obras de Marcel Proust, Balzac, Mérimée, Virginia Woolf, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, Antoine de Saint-Exupéry entre outras autorias; foi laureado com o Prêmio Machado de Assis (da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra) e o Prêmio Jabuti, como personalidade literária, ambos em 1981, além de ter recebido outras premiações e honrarias.