quarta-feira, 31 de maio de 2017

Mário de Andrade: Esse homem que vai sozinho

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Esse homem que vai sozinho
Por estas praças, por estas ruas,
Tem consigo um segredo enorme,
        É um homem.

Essa mulher igual às outras
Por estas ruas, por estas praças,
Traz uma surpresa cruel,
        É uma mulher.

A mulher encontra o homem,
Fazem ar de riso, e trocam de mão,
A surpresa e o segredo aumentam.
        Violentos

Mas a sombra do insofrido
Guarda o mistério na escuridão.
A morte ronda com sua foice,
        Em verdade, é noite.

Lira Paulistana — 1945 

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Mário de Andrade — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 60, Seleção, Apresentação e Notas de Dantas Motta, 1969, 2ª edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Mário Raul de Morais Andrade (1893 1945), paulista e paulistano, formou-se em Ciências e Letras e, depois, em Canto no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta, professor de Música e de Artes e um dos expoentes da Semana de Arte Moderna de 1922 e do Modernismo; fez parte do grupo da revista Klaxon (1922 a 1923), nela publicando poemas e críticas de literatura, artes plásticas, música e cinema, e também da Revista de Antropofagia (1928 a 1929), além de colaborar extensivamente nos mais variados periódicos e revistas de sua época: A Gazeta, O Echo, A Cigarra (em São Paulo), Papel e Tinta, Revista do Brasil e Terra Roxa (revistas modernistas em São Paulo e no Rio de Janeiro), Revista Nova (Belo Horizonte), América Brasileira, Estética, Boletim de Ariel, Diário de Notícias (Rio de Janeiro), O Estado de São Paulo, Festa (Rio de Janeiro), Diário Nacional (São Paulo), Revista Acadêmica (Rio de Janeiro) e em outros veículos informativos e de arte pelo país afora; escreveu e publicou Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia desvairada (1922), A escrava que não é Isaura (1925), Amar, verbo intransitivo (1927), Ensaios sobre a música brasileira (1928), Macunaíma (romance, 1928), Compêndio da História da Música (1929), Modinhas imperiais (1930), Música, doce música (1933), Belazarte (1934), O Aleijadinho de Álvares de Azevedo (1935), Música do Brasil (1941), Poesias (1941), O Movimento Modernista(1942), Aspectos da Literatura Brasileira (1943), Lira paulistana (1945) e tantos outros títulos em verso, prosa e canto.

domingo, 28 de maio de 2017

António Nobre: Adeus!

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Por uma tempestade da costa de Inglaterra.

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
A tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

Adeus! Na ausência meses são anos,
Dias são meses, que aí são ais;
Ah tu tens sonhos, eu tenho enganos,
Eu sou sozinho, tu tens teus Pais.

Adeus! Nas velas o Vento toca
“Aves” e “Paters” de imensa dor.
Enquanto rezas, fia na roca
Enquanto rezas, fia na roca
O linho branco do nosso amor.

Adeus! Paquete, que vais fugido
Com um Poeta lá dentro a orar!
Ai que destino tão parecido,
Andar aos ventos, ó Mar! ó Mar!

Adeus! Mar, quero que me respondas,
Aguas tão altas! dizei, dizei:
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Ou as que eu choro, que eu chorarei?

Adeus! (Que é isto? treme o Paquete!)
Fiel me seja teu Coração;
Não que eu fechei-o num aloque-te *
E a chave é de oiro, trago-a na mão!

Adeus! O Vento soluça e geme,
O Mar, é negro, mas “lá” é azul...
Francês tão moço, que vais ao leme,
Francês tão moço, que vais ao leme,
Ah se pudesses voltar ao Sul!

Adeus (Piloto, que nuvens essas
Façamos juntos o “pio sinal!”),
Menina e Moça, nunca me esqueças,
Que eu tenho os olhos em Portugal!

Adeus! Um brigue de pano roto
Vede que passa, faz-nos sinais:
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Seja pelas almas dos nossos Pais...

Adeus! “St. Jacques”, vai depressinha...
Meu Anjo, a esta hora, tu que farás?
O Mar faz medo (Salve, Rainha...)
E tu, meu Anjo, tão longe estás!

Adeus! Tão longe, tão longe a terra!
Longe de tudo, longe de ti!
A trinta milhas, fica a Inglaterra,
A trinta milhas, fica a Inglaterra,
A uma (ou menos) a Morte, ali...

Adeus! Na hora de me deixares,
Já pressentias o meu porvir:
“Meu Deus!” disseste, mostrando os ares...
Mas era urgente partir! partir!

Adeus! Já faltam os mantimentos,
Falta-nos água, falta-nos luz!
Morrer, à lua, sem sacramentos,
Morrer, à lua, sem sacramentos,
Morrer tão novo, Jesus! Jesus!

Adeus! E os dias nascem e morrem;
Tanta água e falta para beber!
E já puseram (rumores correm)
Sola de molho para comer. **

Adeus! Bons dias, meu Comandante,
A nossa sorte... morrer, talvez...
E o rude velho segue pra diante:
E o rude velho segue pra diante:
 Morrer, meu Amo, só uma vez!

Adeus!  Gajeiro!  boa criança!
Que vais em cima no mastaréu,
Vê lá se avistas terras de França...
 Ah nada avisto, só água e céu!

Adeus! Ó Lua, Lua dos Meses,
Lua dos Mares, ora por nós!...
O Mar antigo dos Portugueses,
O Mar antigo dos Portugueses,
O Mar antigo dos meus Avós!

Adeus! Ai triste de quem embarca
Sem ver a sorte que o espera ao fim!
Façamos vela prá Dinamarca,
Que Hamlet espera no Cais por mim.

Adeus! À Vida sinto-me preso,
(Morrer não custa) pelas paixões...
Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso
Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso
Das minhas trinta desilusões!

Adeus! Que estranha Visão é aquela
Que vem andando por sobre o mar?
Todos exclamam de mãos para ela:
“Nossa Senhora! que vens a andar!”

Adeus! A Virgem com um afago,
Pôs manso o Oceano, que assim o quis:
O Mar agora parece um lago,
O Mar agora parece um lago...
O rio Lima do meu País!

Adeus! Menina, que estás rezando,
Desceu a Virgem e já te ouviu:
Agora, quero ver-te cantando,
A Santa Virgem já me acudiu.

Adeus! Os Ventos são meigas brisas
E brilha a Lua como um farol!
Ponde nas vergas vossas camisas,
Ponde nas vergas vossas camisas,
Ó Marinheiros, que a Lua é o Sol!

Adeus! “St. Jacques” lá entra a barra,
Nossa Senhora vai indo a pé:
Com o seu cabelo fez uma amarra,
Lá vai puxando, que boa ela é!

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
A tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

(Paris, 1893)

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Notas de Luís da Câmara Cascudo:
* Aloquete: Cadeado, ferrolho;
** Sola de molho: Reminiscência do romance Nau Catarineta.
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António Nobre — Poesia, Coleção Nossos Clássicos nº 41, por Luís da Câmara Cascudo, 1967, 2ª edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; escreveu e publicou (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Astrid Cabral: O gume camuflado

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Envelhecer é o jeito
sorrateiro que a morte acha
de ir penetrando na gente.
Crueldade mascarada
ou autêntica bondade,
o gume camuflado?
Afinal não nos guardamos
da vil sujeira do mundo,
mãos na maciez das pelicas?
Não calçamos com mil feltros
os infinitos atritos?
Não temperamos de ilusões
insossos feijões sem alho?
Afinal não nos protegemos
sempre ternos e paternos?
E embora sequer ousemos
confessar-nos uns coitados,
no fundo bem nos sabemos
sacaneados, ó dores
de doenças e carências,
coitas de amor malogrado
vãs sabenças e cuidados
variadíssimas raivas
engolidas, vomitadas.
Ai de nós sem pôr acúcar
nos cotidianos venenos.
Ai de nós não fossem as máscaras
e as pílulas caridosas.


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Lição de Alice, poemas (1980 — 1983) — Astrid Cabral, 1986, Philobiblion, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 21 de maio de 2017

Genésio dos Santos: plano b

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pra não desandar
dê razão ao coração
deixe ele mandar

São Paulo,
agosto de 2015

Minha foto
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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Eduardo de Oliveira: Prisão que nos liberta

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para Rosa Parks

Eu me sinto, na terra, um prisioneiro
do teu ser, que é ternura e santidade;
de tua graça simples, sem vaidade,
que, sem querer, encanta o mundo inteiro.

Neste teu corpo em flor vejo primeiro,
sob as bençãos de tua castidade,
algo que lembra a própria divindade
da Mulher do mais Santo Carpinteiro.

Por teus méritos, hoje, me encarcero
neste amor, que é tão puro e tão sincero,
que é a mais doce de todas as prisões,

por ser uma prisão que nos liberta
do desastre de uma aventura incerta,
que infelicita os nosso corações!

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Carrossel de Sonetos — Eduardo de Oliveira, Prefácio de Fernandes Neto e Apresentações de Eunice Aparecida de Jesus Prudente e Alípio Rocha Marcelino, 1994, Editora Pannartz São Paulo — SP; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); escreveu e publicou Além do (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1965), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

domingo, 14 de maio de 2017

Geir Campos: Um epitáfio

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O moço que ia ser líder
falava
rápido
e tão
rápido
pensava
que em sua boca a palavra vindoura
era presente
e a presente
verdade.
Todos ouviam magnetizados
o moço que ia ser líder
até que um dia interveio a mulher
com uma frase doméstica qualquer
e o moço que ia ser líder
foi para um canto triste e começou
rápido
a envelhecer.

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Antologia Poética — Geir Campos, Organização de Israel Pedrosa, 2003, Léo Christiano Editorial Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Geir Nuffer Campos (1924 1999), nascido em São José do Calçado ES, formado em Direção Teatral (FEFIERJMEC, Rio de Janeiro), mestre e doutor em Comunicação Social (UFRJ), foi piloto da marinha mercante, professor universitário, poeta, jornalista, radialista, tradutor e ativista cultural; deixou-nos extensa obra e de grande valor; escreveu e publicou Rosa dos Rumos (poesia, 1950), Arquipélago (poesia, 1952), Coroa de Sonetos (1953), Da Profissão do Poeta (1956), Canto Claro e poemas anteriores (1957), Operário do Canto (1959), O Gato Ladrão (teatro infantil, 1959), O Sonho de Calabar (teatro, 1959), A Verdadeira História da Cigarra e da Formiga (teatro infantil, 1960), Carta aos Livreiros do Brasil (ensaio, 1960), Cantigas de acordar mulher (1964), Rúben Dário, Poeta Participante (ensaio, 1967), Édipo-Rei, de Sófocles (teatro, 1967), Castro Alves ou o Canto da Esperança (teatro, 1972), Diz que sim & Diz que não, de Brecht (teatro, 1977), Canto de Peixe e Outros Cantos (1977), O Vestíbulo (conto, 1979), Tradução e Ruído na Comunicação Teatral (ensaio, 1981), Conto & Vírgula (1982), Pequeno Dicionário de Arte Poética (dicionário, 1960 e diversas outras edições), O que é Tradução (1986), etc etc etc, além de participação em muitas antologias poético-literárias; traduziu textos de Rilke, Kafka, Daniel Defoe, Brecht, Walt Whitman e outros autores; foi co-fundador, junto com o poeta Thiago de Mello, das Edições Hipocampo, em 1951, que revolucionaram as artes gráficas no Brasil.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Cruz e Sousa: 25 de março *

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Em Pernambuco para o Ceará

Bem como uma cabeça inteiramente nua
De sonhos e pensar, de arroubos e de luzes,
O sol de surpreso esconde-se, recua,
Na órbita traçada  de fogo dos obuses.

Da enérgica batalha estóica do Direito
Desaba a escravatura  a lei cujos fossos
Se ergue a consciência  e a onda em mil destroços
Resvala e tomba e cai o branco preconceito.

E o Novo Continente, ao largo e grande esforço
De gerações de heróis  presentes pelo dorso
À rubra luz da glória  enquanto voa e zumbe.

O inseto do terror, a treva que amortalha,
As lágrimas do Rei e os bravos da canalha,
O velho escravagismo estéril que sucumbe.

[O Livro Derradeiro/Sonetos] **

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  * Nota de Andrade Muricy e acréscimos deste aprendiz de blogueiro: Apud. A. Montenegro, p. 179. Epígrafe: A província do Ceará, sendo o berço de Alencar e Francisco Nascimento — o dragão do mar — é consequentemente a mãe da literatura e a mãe da humanidade; este Verso e Conversa acrescenta que Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde (1839  1914), também conhecido como Dragão do Mar, cearense de Canoa Quebrada, Aracati, foi um jangadeiro abolicionista; a História nos conta que, em 1881, Chico da Matilde liderou jangadeiros na recusa em transportar escravos aos navios negreiros aportados em Fortaleza e a serem vendidos e encaminhados ao sul do país; Ceará foi a província pioneira a decretar a abolição da escravatura no Brasil, a data foi 25 de março de 1884.

** Nota deste Verso e Conversa: Conforme Andrade Muricy, O Livro Derradeiro, editado em 1945, é composto de poemas até então inéditos, manuscritos, e/ou tão somente publicados em periódicos da época vivida pelo Poeta Negro; neste Cruz e Sousa, Obra Completa publicou-se, pela primeira vez, toda a produção em verso e prosa do poeta, incluídos os manuscritos, poemas autógrafos, dispersos, inéditos, encontrados em poder de sua esposa, Gavita Rosa Gonçalves, e/ou nas mãos de poetas amigos, e/ou publicados e encontrados em jornais e revistas de então. 
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Cruz e Sousa, Obra Completa — Edição Comemorativa do Centenário, Introdução Geral de Andrade Muricy, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável como arquivista na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Astrid Cabral: Filosofia de bolso

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O mistério é grande
mas a gente vai
e quebra a cabeça.
A água é funda
mas a gente dá
com os burros n'água.
A vida é dura
mas a gente dá murro
em ponta de faca.
A fome é feia
mas a gente tira
leite das pedras.
Tudo pra num triz
num piscar de olhos
vestir pijama de madeira
e ir comer capim pela raiz.

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Lição de Alice, poemas (1980 — 1983) — Astrid Cabral, 1986, Philobiblion, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Machado de Assis: No alto *

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O poeta chegara ao alto da montanha,
E quando ia a descer a vertente do oeste,
      Viu uma cousa estranha,
      Uma figura má.

Então, volvendo o olhar ao sutil, ao celeste,
Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,
      Num tom medroso e agreste
      Pergunta o que será.

Como se perde no ar um som festivo e doce,
      Ou bem como se fosse
      Um pensamento vão,

Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.
      Para descer a encosta
      O outro estendeu-lhe a mão.

Ocidentais — 1880

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Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* Baseia-se o soneto  na oposição entre Ariel e Caliban, personagens do The Tempest de Shakespeare; o primeiro era um gracioso espírito do ar, o segundo um escravo disforme.
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Machado de Assis — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 82, Seleção, Apresentação e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 — 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto — escrito em versos — publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.