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[traduzido por Paulo Quintela]
De novo enches bosque e vale
De bruma luzente, calma,
Também libertas, afinal,
Toda a minh’alma;
Sobre os meus campos estendes,
Como um bálsamo, a vista,
Como amigo que com ternura olhasse
Meu tudo que o contrista.
Ecos de dias alegres e sombrios
Ferem-me o coração.
Vagueio assim entre alegria e dor
Por esta solidão.
Corre, corre, amado rio!
Minha alagria acabou;
Como tu, passaram beijos e gracejos,
E a lealdade passou.
Pois não tive outrora eu já
A preciosa graça?!
Oh! o martírio de não poder ‘squecer,
Saber que tudo passa!
Corre, rio, sussurrante pelo vale,
Sem parar, noites e dias!
Corre múrmuro, ensina ao meu cantar
Secretas melodias.
Quando em noites de inverno
Bravejante desbordas,
Ou quando o esplendor da primavera
Com teu murmúrio acordas!
Feliz aquele que do mundo vão
Sem ódio deixa a luta,
E aperta um amigo ao coração
E com ele desfruta.
O que, sem que o homem sequer saiba
Ou nisso atente,
Através do labirinto da alma
Erra à noite, silente.
An den Mond
Füllest wieder Busch und Tal
Still mit Nebelglanz
Lösest endlich auch einmal
Meine Seele ganz;
Breitest über mein Gefild
Lindernd deinen Blick,
Wie des Freundes Auge mild
Über mein Geschick.
Jeden Nachklang fühlt mein Herz
Froh- und trüber Zeit,
Wandle zwischen Freud’ und Schmerz
In der Einsamkeit.
Fließe, fließe, lieber Fluß!
Nimmer werd’ ich froh;
So verrauschte Scherz und Kuß
Und die Treue so.
Ich besaß es doch einmal,
was so köstlich ist!
Daß man doch zu seiner Qual
Nimmer es vergißt!
Rausche, Fluß, das Tal entlang,
Ohne Rast und Ruh,
Rausche, flüstre meinem Sang
Melodien zu!
Wenn du in der Winternacht
Wütend überschwillst
Oder um die Frühlingspracht
Junger Knospen quillst.
Selig, wer sich vor der Welt
Ohne Haß verschließt,
Einen Freund am Busen hält
Und mit dem genießt,
Was, von Menschen nicht gewußt
Oder nicht bedacht,
Durch das Labyrinth der Brust
Wandelt in der Nacht.
([1789]1798 [?])
* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: À lua (An den Mond). Diz Kühnemann
que esta é ”a mais perfeita canção de língua alemã”. Trata-se da versão definitiva,
incluída no conjunto denominado Lieder, de poesia que Goethe publicou pela primeira vez em 1789, a partir da
tragédia de uma jovem que se suicidou no rio Ilm tendo à mão um exemplar do Werther.
Goethe escreveu os versos para uma música de Kayser, enviando-os uns e outra a Charlotte
von Stein, que modificou a poesia. Goethe retomou-a para fazer a versão final,
cujos versos incluem trechos sugeridos pela amiga. Nasceu, assim, uma nova canção,
“tão espontânea e tão autêntica, como a primeira, e artisticamente mais
perfeita” (P. Quintela). Musicada por Schubert, Zelter, Fibich, Reichardt, Romberg
e outros.
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Goethe: Poesias escolhidas
[múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e
Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de
Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições
PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de
Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância
educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta,
romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e
funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções
e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von
Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther
(Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto
Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa]
1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich
Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798),
Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de
aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810),
Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade,
autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817),
West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827),
Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em
poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos
literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e
influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia
musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz
Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes
Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann
Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky,
Giuseppe Verdi, Richard Wagner...