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Conto aqui neste cordel
Uma história inspiradora
De uma preta muito forte
Que foi tão batalhadora
E com sua inteligência
Se mostrou norteadora.
Era uma catarinense
De Antonieta nomeada
Sendo de origem pobre
Teve a vida permeada
Por muita dificuldade
E por luta semeada.
Ela ainda era criança
Quando órfã se tornou
O seu pai que faleceu
E na vida lhe deixou
Com a mãe que a criava
E que muito lhe inspirou.
Tinha dezessete anos
Quando conseguiu entrar
Na escola normalista
Para mais se dedicar
Aos estudos que gostava
Querendo aperfeiçoar.
No entanto, é preciso
Uma coisa mencionar
Inda era os anos vinte
Quando ela foi estudar
Veja só que grande feito
Ela estava a desbravar!
Pois não era só mulher
O que era já difícil
Era negra num passado
De racismo, de suplício
Bem pior que atualmente
E sem sucesso propício.
No ano de vinte e dois
Antonieta então fundou
Um Curso Particular
Onde ela ensinou
Por toda a sua vida
Como muito acreditou.
Para que a população
Pudesse alfabetizar
Foi que Antonieta fez
Esse curso prosperar
Cheia de dedicação
Colocou-se a lecionar.
Tinha muito envolvimento
Com o assunto cultural
E ainda em vinte e dois
Ela fundou um jornal
Que chamou de A
Semana
Escrevendo para o tal.
De política falava
Com bastante habilidade
Também sobre educação
E sobre a desigualdade
Na denúncia do machismo
E ao racismo no combate.
Ela também dirigiu
Uma revista quinzenal
Intitulada Vila
Ilhoa
Como mais novo canal
Trabalhou diariamente
E rompeu com o banal.
Já alguns anos depois
Quis um livro publicar
E usou um outro nome
Para enfim concretizar
Como Maria da Ilha
Escreveu seu exemplar.
Foi também profissional
De grande orientação
Professora e diretora
Com convicta intenção
Foram várias as escolas
Onde pôs a sua mão.
Por seu grande caráter
Era muito admirada
Pelos seus jovens alunos
Ela era celebrada
Porque era obstinada
Coerente e respeitada.
Já na década de trinta
Se juntou ao movimento
Por Progresso Feminino
Exigido no momento
Era o FBPF
Com que teve envolvimento.
Conto ainda mais um fato
Que ela protagonizou
E marcou a nossa história
Como líder de valor
Pois abriu mais uma porta
Pro futuro que chegou.
Deputada federal
Antonieta se tornou
A primeira do estado
Como assim se registrou
E foi a primeira negra
Que o país efetivou.
Com essa grande conquista
Chegou a se transformar
Na primeira mulher negra
Com um mandato popular
Pelo Partido Liberal
Pela educação lutar.
Então veio a ditadura
De Estado Novo conhecida
E depois de sua queda
Ela fez-se embravecida
Conquistando muito mais
Grandemente merecida.
Antonieta foi incrível
Na política um destaque
Foi a pura pioneira
Sempre pronta pro combate
A primeira mulher negra
Para vários dos debates.
Por inteira a sua vida
Viveu como educadora
Jornalista ou deputada
Se manteve ensinadora
Com lições educativas
E também libertadoras.
As palavras que usou
Espalhou pela nação
E com tudo semeou
A melhor revolução
Pelo espaço feminino
Pela sua Negra Ação.
É por isso que eu digo
Antonieta é exemplar
E além de inspiradora
Pode muito desbravar
Foi abrindo os caminhos
Pra gente também passar.
Pras mulheres brasileiras
Ela é grande liderança
Deve ser muito lembrada
De adulto até criança
Pela sua honestidade
Por sua perseverança.
Nas escolas não ouvimos
Essa história impressionante
Mas eu uso o meu cordel
Que também é importante
Para que você conheça
E não fique ignorante.
Que você também espalhe
Isso que acabou de ler
Para que muitas pessoas
Tenham a chance de saber
Quem foi essa Antonieta
Como foi o seu viver.
Esse é o nosso papel
Considero obrigação
Pra acabar o preconceito
Pra espalhar a informação
Destruindo esse racismo
E gerando inspiração.
Eu e todas as mulheres
Neste verso agradecemos
E esperamos que em frente
Sempre juntas caminhemos
E lembrando Antonieta
Certo que nós venceremos.
Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis — Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline
Gomes de Jesus, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz — São Paulo — SP; Jarid Arraes, nascida em
1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e
poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos
poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog
Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras
Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho
em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019),
além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil;
fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres,
foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas
e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para
o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara
et les esclaves libres, 2018).

