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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Afonso Schmidt: Simpatia

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Numa tarde longa e mansa,
os dois pela estrada vão:
o cão estima a criança
e a criança estima o cão.

Que delicada aliança
dos seres da criação:
uma risonha criança,
um robustíssimo cão.

Deus percebeu a lembrança
e sorriu lá na amplidão:
ele gosta da criança
que trata bem o seu cão.

Por isso, na tarde mansa,
os dois, felizes, lá vão:
a delicada criança
e o robustíssimo cão.

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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, não concluiu o curso primário, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; Afonso Schmidt, por vezes, assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Afonso Schmidt: Alegria de menina que gosta de leite de cabra

 
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Quando acorda a corruíra do pessegueiro,
eu acordo também;
é a hora dourada em que passa o cabreiro
com suas cabrinhas tão bonitinhas…
São cerca de quarenta mas, contando bem,
talvez não passem de trinta…
A pintada, aquela que vai correndo na frente
e que não tem medo da gente
é a que leva o guizo alegre que tilinta.
As outras vão correndo atrás,
vão pulando,
vão chifrando,
vão berrando
                    bé, bé, bé…
Eu pego no copo e vou para o portão
chamar o cabreiro:
Seu cabreiro, me tire este copo de leite,
mas quero daquela cabrinha malhada
que leva na boca uma folha dourada.
E o cabreiro chama a cabrinha:
                    bit, bit, bit…
Põe-se a tirar o leite:
puxa que puxa,
espicha que espicha,
escorrupicha…
Mamãe, que me espia sob o pé de brincos-de-princesa,
me fala:
Menina que gosta de leite de cabra vira cabrita!
(mas isso é bobagem, ninguém acredita).
Depois o cabreiro e suas cabrinhas vão
pelas ruas do bairro, encharcadas de sol.

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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, não concluiu o curso primário, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; Afonso Schmidt, por vezes, assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Afonso Schmidt: Anhangabaú


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Nos piques, vagando à toa,
É raro quem não pressinta
Uma toada indistinta
Que, sob as pedras, ressoa.

Conta moedas, tilinta,
Como refrão de uma loa,
A fonte exilada e boa,
Há muitos anos extinta.

Sua alma que ali revoa,
De céus e de ares faminta,
Repete a cada pessoa

Uma novela sucinta:
Noturnos, capas, garoa,
Mil oitocentos e trinta...

[Mocidade — 1921]

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; Afonso Schmidt, por vezes, assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

domingo, 28 de novembro de 2021

Afonso Schmidt: Brinquedos

 
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São Nicolau de barbas brancas,
de alto capuz beneditino1,
nas costas levava um grande saco
e vai seguindo o seu destino...

É muito tarde. Nas janelas,
há sapatinhos ao sereno:
a cada espera corresponde
o sonho leve de um pequeno.

Súbito, estaca na calçada;
uma janela está vazia
e, pelas frinchas de uma porta,
chegam rumores de alegria.

O Santo pára; está amuado,
acha que o mundo é muito mau
e estas crianças já não querem
esperar por São Nicolau.

Mas, logo fica curioso,
quer descobrir porque naquela
casa não há um sapatinho
no canto escuro da janela.

Vai espiar pelo buraco
da fechadura...  Pobrezinhos,
são os meninos do trapeiro,
nunca tiveram sapatinhos...

E vê que, à falta de bonecas,
eles divertem o casal,
enquanto o avô fuma num canto,
São Nicolau, mas de avental...

Todos estão muito contentes
o Santo ri de olhos molhados
e vai seguindo à luz branquinha
do plenilúnio2 nos telhados.

Pisa de leve sobre as folhas,
diz a sorrir palavras mansas:
 “Essas crianças são os brinquedos
e esses papais são as crianças...”


Notas da edição — Vocabulário:
1. Beneditino: é o nome que se dá aos frades da Ordem de São Bento. Na poesia [acima] a palavra é usada como adjetivo de capuz.
2. Plenilúnio: a lua cheia.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversos autores), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, não concluiu o curso primário, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; Afonso Schmidt, por vezes, assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Afonso Schmidt: A nossa fogueira

 
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A fim de festejar o nosso dia,
Pois o dia dos míseros não tarda,
Vamos fazer uma vermelha orgia
Para que o mundo das mentiras arda.

Fogo na lei parcial que nos mentia
E que se impunha a tiros de espingarda,
Fogo nos santarrões de sacristia,
Fogo na toga, no burel, na farda!

Fogo nos bairros proletários onde
A vergonha dos míseros se esconde;
Que o conforto pertence a quem trabalha.

A nova máquina social, do povo,
Precisa ser como um alfange novo
Que sai do coração de uma fornalha.

(Cottin * [Afonso Schmidt])


* Notas de Yara Aun Khoury, historiadora e autora do Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura  Revista Brasileira de História Nº 15: Recorte impresso, sem referências. Cottin é um pseudônimo de Afonso Schmidt, literato, simpatizante libertário. “A Plebe” publica poesias e artigos seus; no texto/documento A Poesia Anarquista [págs 215-247 da referida revista] no qual a historiadora apresenta 40 poemas de autores libertários, lê-se o seguinte: ... “É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; é instigante descobrir pseudônimos, saber que Souza Passos é também Felipe Gil, escrevendo em “A Plebe”. que Afonso Schmidt assina por vezes Cottin, no mesmo jornal; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância;” ...
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, vários autores, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; por vezes, Afonso Schmidt assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

domingo, 2 de setembro de 2018

Afonso Schmidt: Rosas loucas

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A rosa louca é a rosa mais singela
De todas as rosas, mas é bela
Porque nasce nas cercas, nos caminhos
E conta menos flores do que espinhos.

A rosa louca é a rosa mais plebéia
Dentre todas as rosas, traz à idéia
A moçoila do bairro, tão bonita
Com vestidos de cor, feitos de chita.

A rosa louca é a rosa que se olha
Sem tirar do pé, porque desfolha;
Ela pede perdão de não ter graça;

Desponta, desabrocha, encanta... e passa.
Estas rosas são breves e são poucas,
Como o riso feliz em nossas bocas...

(Garoa  1932)

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Nova Antologia Brasileira da Árvore — Maria Thereza Cavalheiro, Prefácio de Guilherme de Almeida, e Organização e Apresentação de Maria Thereza Cavalheiro, 1974, 1ª edição, Livraria Editora Iracema, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890  1964), nascido em Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro)  que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São PauloO Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa,  BrutalidadeOs impunesO Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianasPassarinho verdeA revolução brasileira (crônicas), A nova conflagraçãoO evangelho dos livrosOs negrosA sombra de Júlio Frank  (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas),  São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso diversas vezes por expressar o que pensava como ativista libertário.

domingo, 23 de agosto de 2015

Afonso Schmidt: Zingarella


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Certa noite, na Itália, quando eu vinha
Para meu quarto, achei-a junto à porta;
Era tão bela, mas tão pobrezinha!
De fome e frio estava quase morta.
                    Ela, pálida e franzina,
                    Eu, de sobretudo roto:
                     Buona sera, signorina!
                     Buona sera, giovanotto!

Ofereci-lhe o quarto de estudante,
De minha estreita cama fiz a sua,
E enquanto ela dormia palpitante
Eu vagava, sem teto, pela rua.
                    De manhã, voltando à casa,
                    Perguntei o nome dela:
                     Come ti chiami, ragazza?
                     Io mi chiamo Zingarella.

Depois... Eu tinha vinte e três janeiros,
Ela contava quinze primaveras.
Eram tão juntos nossos travesseiros...
Veio a paixão. Amamo-nos deveras...
                    Foi o quadro mais risonho
                    Desta vida fugidia:
                    — Zingarella, sei mio sogno!
                    — E tu sei la vita mia.

Mas, um dia, ao voltar do meu estudo,
Cheio de mágoas, de ânsias e de frio,
Não encontrei seus olhos de veludo:
O quarto estava gélido e vazio.
                    Grito embalde o nome dela,
                    Numa tristeza infinita:
                   
 Dove sei, ó Zingarella?
                     Dove sei, ó mia vita?

E a minha vida prosseguiu inglória...
Fiz coisas de rapaz... Não me envergonho
De recordar ainda aquela história,
Quase desvanecida como um sonho:
                    Ela, pálida e franzina;
                    Eu, de sobretudo roto:
                    
 Buona sera, signorina!
                     Buona sera, giovanotto!


(Janelas abertas, 1923 
 2ª edição, págs. 32 e 33)

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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), nascido em Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso diversas vezes por expressar o que pensava como ativista libertário.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Afonso Schmidt: O Poema da Casa Que Não Existe

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Onde a cidade acaba* em chácaras quietas
e a campina se alarga em sulcados caminhos
**,
achei a solidão amiga dos poetas
numa casa que é ninho, entre todos os ninhos.

Térrea, branquinha, com portadas muito largas,
desse azul português das antiquadas vilas
e uma decoração de laranjas amargas
que perfumam da tarde as aragens tranqüilas.

Ergue-se no pendor suave da colina,
escondida por trás dos eucaliptos calmos;
tem jardim, tem pomar, tem horta pequenina,
solar de Liliput que a gente mede aos palmos...

Neste ponto, a ilusão, a miragem, se some;
olho para você, eu triste, você triste.
Enganei uma boba! O bairro não tem nome,
a estrada não tem sombra, a casa não existe!

(Poesia, edição definitiva, 1945,
Cia. Editora Nacional, São Paulo)



Notas do Organizador:
* No volume das Obras Primas da Lírica Brasileira, organizado por Manuel Bandeira e Edgard Cavaro, S. Paulo (1957) pág. 242, lê-se "morre", ao invés de "acaba";
** Ibidem, o verso está assim: E se perdem no mato os últimos caminhos.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), nascido em Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso diversas vezes por expressar o que pensava como ativista libertário.