(O Espelho SP — Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A — Agcen-SP — Ano II — n° 12 — Março de 1981)
(...continuação do número anterior)
Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão!... B.B. Chimite foi rabiscando no papel de anotações, até ver preenchida a última linha. O olho mágico, por sua vez, continuava vomitando informações e mais informações.
Falava sobre as frequentes invasões de tribos cearasianas que saqueavam vilas de regiões fronteiriças no território prazilandense. E, informando ser iminente a declaração de guerra à Cearásia, convocava todos os cidadãos ativos a se alistarem nas fileiras das Legiões do Povo, que já estavam entrando em regime de prontidão. Informava também que cearasianos muito bem treinados andavam se transferindo clandestinamente para Prazilândia e que tais incursões tinham o evidente propósito de arregimentar forças a se sublevarem contra o Grande Irmão. Por isso, a voz do olho mágico argumentava que a Patrulha do Pensamento encontrava rebeldes em todos os lugares e a qualquer hora do dia e da noite. E foi num lampejo que Chimite percebeu que já podia se considerar como um rebelde.
Aquelas frases repetidas incansavelmente na folha de anotações eram a certeza de sua rebelião. Elas o denunciavam perante a Patrulha e perante si mesmo. E já não havia a possibilidade de qualquer negativa. O mal, raciocinou, já estava feito. Mais dia menos dia, mais hora menos hora, a Patrulha do Pensamento o interceptaria e aí seria o fim ou o começo de tudo. No entanto Chimite se sentia aliviado.
Sabia que a Cearásia, já há alguns anos, vinha perdendo todas suas safras devido à seca que assolava aquela região. E, acossados pelo desespero da fome e da sede, os cearasianos invadiam os celeiros nas fronteiras de Prazilândia. Esta notícia Chimite só soubera por acaso. Ouvira em cochichos de encarregados de seu andar que militavam nas Legiões do Povo e que tinham acesso a essas informações. Do olho mágico ele só ouvia o que qualquer prazilandense mal informado já estava sabendo: que rebeldes cearasianos estavam invadindo e saqueando vilas de Prazilândia e que, consequentemente, a guerra entre cearasianos e prazilandenses ia ser decretada pelo Grande Irmão.
Com mais um pouco de reflexão, Chimite percebeu que antes mesmo de ter rabiscado aquelas frases no papel já poderia ser classificado como rebelde ante a Patrulha do Pensamento. Muito antes até do dia em que casualmente ouvira os cochichos dos militantes das Legiões. Lembrava-se, embora de uma forma um tanto difusa, da última vez em que estivera com seus pais.
Chimite devia ter seus sete anos quando muito. Recordava de uma confusão nas ruas, dois corpos sendo arrastados à força e uma voz seca que dizia, a alguém seu acompanhante, algo parecido como ser necessário instruir à criança que seus pais haviam morrido honrosamente lutando nas Legiões quando em combate contra forças inimigas. Mas ele não se lembrava bem do rosto da voz que falava aquilo nem a quais inimigos a voz se referia.
Também não dava para afirmar se aquela criança do passado era ele próprio. Às vezes recordava-se de outras passagens, também difusas, e ouvia vozes que julgava serem de seus pais. Eram marcadas pelo ódio às Legiões do Povo e ao antecessor do Grande Irmão. Era isso o que conseguia captar do seu passado, mas era o suficiente. Chimite começou a sentir que já não acreditava cegamente no Grande Irmão. Só então ele percebeu o passo que havia dado.
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Satélio, P. da Silva, B. B. Chimite e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.