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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Tomás Antônio Gonzaga: Meu prezado Glauceste * . . . [Lira IX]

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Lira IX

          Meu prezado Glauceste,
          Se fazes o conceito,
          Que, bem que réu, abrigo
A cândida Virtude no meu peito;
Se julgas, digo, que mereço ainda
          Da tua mão socorro ;
          Ah! vem dar-mo agora,
          Agora sim que morro!

          Não quero que, montado
          No Pégaso fogoso,
          Venhas com dura lança
Ao monstro infame traspassar raivoso.
Deixa que viva a pérfida calúnia,
          E forje o meu tormento:
          Com menos, meu Glauceste,
          Com menos me contento.

          Toma a lira doirada,
          E toca um pouco nela:
          Levanta a voz celeste
Em parte que te escute a minha bela;
Enche todo o contorno de alegria;
          Não sofras, que o desgosto
          Afogue em pranto amargo
          O seu divino rosto.

          Eu sei, eu sei, Glauceste,
          Que um bom cantor havia,
          Que os brutos amansava;
Que os troncos, e os penedos atraía.
De outro destro Cantor também afirma
          A sábia Antiguidade,
          Que as muralhas erguera
          De uma grande Cidade.

          Orfeu as cordas fere;
          O som delgado, e terno
          Ao Rei Plutão abranda,
E o deixa, que penetre o fundo Averno.
Ah, tu a nenhum cedes, meu Glauceste,
          Na lira, e mais no canto:
          Podes fazer prodígios,
          Obrar ou mais, ou tanto.

          Levanta pois as vozes:
          Que mais, que mais esperas?
          Consola um peito aflito;
Que é menos inda, que domar as feras.
Com isto me darás no meu tormento
          Um doce lenitivo;
          Que enquanto a bela vive,
          Também, Glauceste, vivo.

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* Nota da EdiçãoGlauceste: Cláudio Manuel da Costa. Gonzaga ignorava que ele estivesse preso ou que tivesse morrido.
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Poesia do Ouro (Antologia) Os Mais Belos Versos da “Escola Mineira”, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Edições Melhoramentos, São Paulo SP; Tomás Antônio Gonzaga (1744 1810), português do Porto, foi jurista, ativista político e poeta; aos quatro anos de idade mudou-se para o Brasil, tendo estudado no Colégio dos Jesuítas, na Bahia, e se formado em Leis pela Universidade de Coimbra; posteriormente, retornando de Portugal, fixou residência em Vila Rica (atual Ouro Preto MG) e ali foi nomeado ouvidor e juiz; escreveu Marília de Dirceu (Dirceu foi um seu pseudônimo arcádico) e Cartas Chilenas; com participação ativa na Inconfidência Mineira, teve seus bens sequestrados, foi preso na Ilha das Cobras, Rio de Janeiro, e depois degredado para Moçambique, continente africano, onde cumpriu o restante da pena e morreu; parte de sua obra foi escrita na prisão e a primeira impressão só se deu com o poeta já no exílio.