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Lira IX
Meu prezado Glauceste,
Se fazes o conceito,
Que, bem que réu, abrigo
A cândida Virtude no meu peito;
Se julgas, digo, que mereço ainda
Da tua mão socorro ;
Ah! vem dar-mo agora,
Agora sim que morro!
Não quero que, montado
No Pégaso fogoso,
Venhas com dura lança
Ao monstro infame traspassar raivoso.
Deixa que viva a pérfida calúnia,
E forje o meu tormento:
Com menos, meu Glauceste,
Com menos me contento.
Toma a lira doirada,
E toca um pouco nela:
Levanta a voz celeste
Em parte que te escute a minha bela;
Enche todo o contorno de alegria;
Não sofras, que o desgosto
Afogue em pranto amargo
O seu divino rosto.
Eu sei, eu sei, Glauceste,
Que um bom cantor havia,
Que os brutos amansava;
Que os troncos, e os penedos atraía.
De outro destro Cantor também afirma
A sábia Antiguidade,
Que as muralhas erguera
De uma grande Cidade.
Orfeu as cordas fere;
O som delgado, e terno
Ao Rei Plutão abranda,
E o deixa, que penetre o fundo Averno.
Ah, tu a nenhum cedes, meu Glauceste,
Na lira, e mais no canto:
Podes fazer prodígios,
Obrar ou mais, ou tanto.
Levanta pois as vozes:
Que mais, que mais esperas?
Consola um peito aflito;
Que é menos inda, que domar as feras.
Com isto me darás no meu tormento
Um doce lenitivo;
Que enquanto a bela vive,
Também, Glauceste, vivo.
Lira IX
Meu prezado Glauceste,
Se fazes o conceito,
Que, bem que réu, abrigo
A cândida Virtude no meu peito;
Se julgas, digo, que mereço ainda
Da tua mão socorro ;
Ah! vem dar-mo agora,
Agora sim que morro!
Não quero que, montado
No Pégaso fogoso,
Venhas com dura lança
Ao monstro infame traspassar raivoso.
Deixa que viva a pérfida calúnia,
E forje o meu tormento:
Com menos, meu Glauceste,
Com menos me contento.
Toma a lira doirada,
E toca um pouco nela:
Levanta a voz celeste
Em parte que te escute a minha bela;
Enche todo o contorno de alegria;
Não sofras, que o desgosto
Afogue em pranto amargo
O seu divino rosto.
Eu sei, eu sei, Glauceste,
Que um bom cantor havia,
Que os brutos amansava;
Que os troncos, e os penedos atraía.
De outro destro Cantor também afirma
A sábia Antiguidade,
Que as muralhas erguera
De uma grande Cidade.
Orfeu as cordas fere;
O som delgado, e terno
Ao Rei Plutão abranda,
E o deixa, que penetre o fundo Averno.
Ah, tu a nenhum cedes, meu Glauceste,
Na lira, e mais no canto:
Podes fazer prodígios,
Obrar ou mais, ou tanto.
Levanta pois as vozes:
Que mais, que mais esperas?
Consola um peito aflito;
Que é menos inda, que domar as feras.
Com isto me darás no meu tormento
Um doce lenitivo;
Que enquanto a bela vive,
Também, Glauceste, vivo.

* Nota da Edição: Glauceste:
Cláudio Manuel da Costa. Gonzaga ignorava que ele estivesse preso — ou que
tivesse morrido.
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Poesia do Ouro (Antologia) — Os Mais Belos Versos da “Escola Mineira”, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Tomás Antônio Gonzaga (1744 — 1810), português do Porto, foi jurista, ativista político e poeta; aos quatro anos de idade mudou-se para o Brasil, tendo estudado no Colégio dos Jesuítas, na Bahia, e se formado em Leis pela Universidade de Coimbra; posteriormente, retornando de Portugal, fixou residência em Vila Rica (atual Ouro Preto — MG) e ali foi nomeado ouvidor e juiz; escreveu Marília de Dirceu (Dirceu foi um seu pseudônimo arcádico) e Cartas Chilenas; com participação ativa na Inconfidência Mineira, teve seus bens sequestrados, foi preso na Ilha das Cobras, Rio de Janeiro, e depois degredado para Moçambique, continente africano, onde cumpriu o restante da pena e morreu; parte de sua obra foi escrita na prisão e a primeira impressão só se deu com o poeta já no exílio.
Poesia do Ouro (Antologia) — Os Mais Belos Versos da “Escola Mineira”, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Tomás Antônio Gonzaga (1744 — 1810), português do Porto, foi jurista, ativista político e poeta; aos quatro anos de idade mudou-se para o Brasil, tendo estudado no Colégio dos Jesuítas, na Bahia, e se formado em Leis pela Universidade de Coimbra; posteriormente, retornando de Portugal, fixou residência em Vila Rica (atual Ouro Preto — MG) e ali foi nomeado ouvidor e juiz; escreveu Marília de Dirceu (Dirceu foi um seu pseudônimo arcádico) e Cartas Chilenas; com participação ativa na Inconfidência Mineira, teve seus bens sequestrados, foi preso na Ilha das Cobras, Rio de Janeiro, e depois degredado para Moçambique, continente africano, onde cumpriu o restante da pena e morreu; parte de sua obra foi escrita na prisão e a primeira impressão só se deu com o poeta já no exílio.