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Olha, ó virgem, — não te
iludas, —
Eu só tenho a lira e a
cruz.
Junqueira Freire
Eu fui outrora Cavaleiro,
Era
de argentum meu solar;
O meu brial de Cavaleiro
Era de lírio e de luar;
O meu broquel de Cavaleiro
Era um sol de ouro a
rutilar.
Em minhas torres de
esmeralda
Iam-se os Astros refletir,
Eram esperanças de
esmeralda
De suavíssimo luzir;
Eram blandícias de
esmeralda,
Astros e Pérolas de Ofir.
Vinham-se frotas do
Oriente,
Sonhos e púrpura, — ao
Sol!
Elfos e Silfos do Oriente,
Meu coração era um farol;
Era um santelmo do Oriente
Efluviado pelo Sol.
Mas, nos recontros, o
Destino
Quebrou-me a lança de
cristal;
Desci às luras do Destino,
Perdeu alvores o brial;
As minhas torres o Destino
Vestiu de crepe sepulcral.
Vestes de monge da Saudade
Cingiram alma e coração;
Alma, no exílio da
saudade,
Palmilho estranha solidão;
Os meus saltérios de
saudade
São violetas da Ilusão.
Invoco as sombras do
Passado,
Violo túmulos de amor;
Entro sepulcros do Passado
Levando outonos de
amargor;
Nos sitiais de meu passado
Apenas reza a minha dor.
Nos atanores da Magia
Achei mercúrio, enxofre e
sal
Filtros ocultos da Magia,
Ó luz estranha, ó luz feral!...
Corvo soturno da Magia,
Onde os alvores do brial?
As esmeraldas da Esperança
Na luz astral vão
refulgir;
O
vivo argentum da Esperança
Brilha nas pérolas de
Ofir;
Fulvos leões, rubra
esperança,
Tecel da Morte e do
Porvir.
Extingue a lâmpada,
Alquimista!
A Lua desce para o Além...
Rutila o Sol... — Velho
Alquimista,
Dá-me esse filtro que faz
bem!
Santelmo fui, velho
Alquimista,
E fui saltério, — Alma do
Além.
Ó Renascença, ó filtro de ouro,
— XX —: mistérios do Binário!
Entra, minha alma, os sólios
de ouro
Desse esplendente santuário!
Brilham Santelmos, — prata
e ouro, —
Analogias do Binário.
(Cinerário — 1929)
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Do Encantamento à
Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando
Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Dario Persiano de Castro Vellozo
(1869 — 1937), nascido no Rio de Janeiro, formado Mestre em Hermetismo pela Escola
Superior de Ciências Herméticas, de Paris, foi encadernador, tipógrafo, poeta simbolista,
narrador, ensaísta, orador, educador, pensador e catedrático em História; em sua
juventude, estudou e aprendeu encadernação e tipografia, o que serviu para que ele
mesmo compusesse tipograficamente os livros que escrevia; ainda jovem, radicou-se
no Paraná e, em Curitiba, colaborou com jornais e revistas, fundou diversos periódicos
— entre estes a revista O Cenáculo — e outras de cunho literário simbolista, além
de ter exercido o ofício de professor de História; suas obras: Efêmeras (versos,
Curitiba, 1890), Esquifes (prosa poética, 1896), Alma Penitente (poema, Curitiba,
1897), Esotéricas (Curitiba, Imprensa Paranaense, 1900), Helicon (Curitiba, 1908),
Rudel (poema, Curitiba, 1912), Horto de Lísis (Curitiba, 1922), Cinerário (Curitiba,
Livraria Mundial, 1929), Atlântida (poema, São Paulo, 1938), Fogo Sagrado
(1941) e outros títulos.


