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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Diálogo Final


 É TUDO que tem a me dizer?  perguntou ele.
           É — respondeu ela.
           Você disse tão pouco.
           Disse o que tinha para dizer.
           Sempre se pode dizer mais alguma coisa.
           Que coisa?
           Sei lá. Alguma coisa.
           Você queria que eu repetisse?
           Não. Queria outra coisa.
           Que coisa é outra coisa?
           Não sei. Você que devia saber.
           Por que eu devia saber o que você não sabe?
           Qualquer pessoa sabe mais alguma coisa que o outro não sabe.
           Eu só sei o que sei.
           Então não vai mesmo me dizer mais nada?
           Mais nada.
           Se você quisesse...
           Quisesse o quê?
           Dizer o que você não tem para me dizer. Dizer o que não sabe, o que eu queria ouvir de você. Em amor é o que há de mais importante: o que a gente não sabe.
           Mas tudo acabou entre nós.
           Pois isso é o mais importante de tudo: o que acabou.Você não me diz mais nada sobre o que acabou? Seria uma forma de continuarmos.

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Carlos Drummond de Andrade — Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro — RJ; o poeta Drummond (1902  1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

sábado, 1 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Queijo para dois


A SITUAÇÃO comia o queijo sozinha, a Oposição tinha fome e também lhe apetecia comer do queijo.
           Negativo  respondeu a Situação  O queijo não dá para todos. Mesmo que desse, o queijo nunca é para todos.
           Então eu vou aí e tiro o queijo todo para mim - ameaçou a Oposição.
          E a Situação continuava comendo queijo, comendo queijo. Até que ele acabou. Vendo que tinha acabado, ela se queixou da Oposição:
           Viu o que você me arrumou? De tanto reclamar uma fatia de queijo, ele foi minguando, minguando, e me deixou com fome. Você botou olho-grande. Quando eu arranjar outro queijo vou comê-lo escondido.
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Carlos Drummond de Andrade — Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro  RJ; o poeta Drummond (1902  1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Poesia sem deuses


A MÁQUINA de fazer versos foi invenção de um moço do Pará, que levou cinco anos para torná-la perfeita. Os poetas locais e do país protestaram contra a novidade, alegando que a poesia é negócio de deuses, e baixa pra cada um em hora imprevisível. Estácio, o inventor, nem ligou. Produzia sonetos, baladas, rondéis, haicais, martelos agalopados, vilancicos, da melhor fatura.
          Quem desejasse assumir a autoria de um poema encomendava-o a Estácio e, sob sigilo, era atendido. Cobrava caro. Os clientes ganhavam prêmios acadêmicos e distinções várias, justificando a tabela. Em dezembro, os negócios atingiam o ápice. Junho era mês de renovação de estoque, para poetas menores.
          Estácio enriqueceu e morreu, deixando aos filhos a máquina maravilhosa. Eles não souberam acioná-la, e daí resulta que a produção corrente de poesia, divulgada no país, não é de qualidade superior.
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Carlos Drummond de Andrade  Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro  RJ; o poeta Drummond (1902  1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Carlos Drummond de Andrade: A imagem no espelho



Aos 20 anos escreveu suas memórias. Daí por diante é que começou a viver. Justificava-se:

— Se eu deixar para escrever minhas memórias quando tiver 70 anos, vou esquecer muita coisa e mentir demais. Redigindo-as logo de saída, serão mais fiéis e terão a graça das coisas verdes.

O que viveu depois disto não foi precisamente o que constava do livro, embora ele se esforçasse por viver o contado, não recuando nem diante de coisas desabonadoras. Mas os fatos nem sempre correspondiam ao texto e, para ser franco, direi que muitas vezes o contradiziam.

Querendo ser honesto, pensou em retificar as memórias à proporção que a vida as contrariava. Mas isto seria falsificação do que honestamente pretendera (ou imaginara) devesse ser a sua vida. Ele não tinha fantasiado coisa alguma. Pusera no papel o que lhe parecia próprio de acontecer. Se não tinha acontecido, era certamente traição da vida, não dele.

Em paz com a consciência, ignorou a versão do real, oposta ao real prefigurado. Seu livro foi adotado nos colégios, e todos reconheceram que ele era o único livro de memórias totalmente verdadeiro. Os espelhos não mentem.
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Carlos Drummond de Andrade  Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro  RJ; o poeta Drummond (1902  1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Carlos Drummond de Andrade: Ou isto ou aquilo

Estátua: Drummond, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ

O dono da usina, entrevistado, explicou ao repórter que a situação é grave. Há excedente de leite no país, e o consumo não dá pra absorver a produção intensiva:

– Uma calamidade. Imagine o senhor que o jornal aqui do município reclama contra a poluição do rio, que está coberto por uma camada alvacenta. Não é nenhum corpo estranho não, é leite. Estão jogando leite no rio porque não têm mais onde jogar. Os bueiros estão entupidos. A população, como o senhor deve saber, é insuficiente para beber toda essa leitalhada ou comê-la em forma de queijo, requeijão, manteiga e coisinhas.

– Insuficiente? Parece que a produção de crianças ainda é maior que a produção de leite.

– Numericamente sim, mas não têm capacidade econômica para beber leite. Têm apenas boca, entende? Então nada feito. Se falta dinheiro aos pais dos garotos para adquirir o produto, ainda bem que se joga leite fora, em vez de jogar os garotos.
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Carlos Drummond de Andrade  Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro  RJ; o poeta Drummond (1902 – 1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

Carlos Drummond de Andrade: O nome

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        Na República mais ou menos federativa da Copaíba, a situação não estava nada boa, pelo quê os maiorais do Partido da Situação (PSI) se reuniram para encontrar uma saída.
           Temos de mudar a situação, afirmou um.
           Não temos condições para mudar a situação, objetou outro.
          Sugeriu o terceiro:
         Se a situação é isso que a gente está vendo, e se não podemos mudar a situação, mudemos pelo menos o nome do Partido da Situação.
        Idéia aprovada, lembraram-se diversos nomes. Partido da Situação em Termos (PST) não foi julgado conveniente. Partido sem Culpa pela Situação (PSC) afigurou-se escapista. Não se considerou objeto de exame a proposta de Partido Qualquer Coisa (PQC).
          Alcançou dois votos a lembrança de Partido do Ovo (PO). era simples e expressivo, por ser o ovo a célula inicial de que resultaria nova situação. Com a vantagem de se poder acrescentar-lhe, em época de eleições, uma consoante sugestiva: Partido do P'Ovo.
          A idéia foi afastada sob a alegação de que Ovo, só, não define orientação e dá margem a perguntas: Frito? Estrelado? Poché? Galado? Gorado? De Colombo?
        Venceu finalmente a proposta mais sábia: Partido, simplesmente (P). Com este nome, enfrenta-se qualquer situação, e até mesmo a falta de situação.


Drummond
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Carlos Drummond de Andrade  Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), 1985, 2ª edição, José Olympio Editora, Rio de Janeiro RJ; o poeta Drummond (1902 1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano, ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.