— É TUDO que tem a me dizer? — perguntou ele.
— É — respondeu ela.
— Você disse tão pouco.
— Disse o que tinha para dizer.
— Sempre se pode dizer mais alguma coisa.
— Que coisa?
— Sei lá. Alguma coisa.
— Você queria que eu repetisse?
— Não. Queria outra coisa.
— Que coisa é outra coisa?
— Não sei. Você que devia saber.
— Por que eu devia saber o que você não sabe?
— Qualquer pessoa sabe mais alguma coisa que o outro não sabe.
— Eu só sei o que sei.
— Então não vai mesmo me dizer mais nada?
— Mais nada.
— Se você quisesse...
— Quisesse o quê?
— Dizer o que você não tem para me dizer. Dizer o que não sabe, o que eu queria ouvir de você. Em amor é o que há de mais importante: o que a gente não sabe.
— Mas tudo acabou entre nós.
— Pois isso é o mais importante de tudo: o que acabou.Você não me diz mais nada sobre o que acabou? Seria uma forma de continuarmos.
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Carlos Drummond de Andrade — Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro — RJ; o poeta Drummond (1902 — 1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere; e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";
Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de tão inocente quebra-cabeça.