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[traduzido
por William Agel de Mello]
A pedra é uma fronte onde os sonhos
gemem
sem água curva nem ciprestes gelados.
A pedra é uma espádua para levar ao tempo
com árvores de lágrimas e cintas e planetas.
Eu vi chuvas cinzentas correrem
rumo às ondas
levantando seus ternos brancos esburacados,
para não ser caçadas pela pedra estendida
que desfaz seus membros sem se empapar de sangue.
Porque a pedra recolhe sementes e
nuvens,
ossadas de calhandras e lobos de penumbra;
mas não produz sons, nem cristais, nem fogo,
senão praças e praças e outras praças sem muros.
Já está sobre a pedra Ignacio, o
bem-nascido.
Já se acabou; o que acontece? Contemplai a sua figura:
a morte o cobriu de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de escuro minotauro.
Já se acabou. A chuva penetra-lhe
pela boca.
O ar como louco escapa de seu peito afundado,
e o Amor, empapado de lágrimas de neve,
se aquece no topo dos currais.
Que dizem? Um silêncio com fedores
repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara onde rouxinóis havia
e vêmo-la encher-se de buracos sem fundo.
Quem enruga o sudário? Não é
verdade o que diz!
Aqui ninguém mais canta, nem chora lá no lado,
nem aplica as esporas, nem espanta a serpente:
aqui não quero nada mais que os olhos redondos
para ver esse corpo sem possível descanso.
Eu quero ver aqui os homens de voz
dura.
Os que domam cavalos e dominam os rios:
os homens cuja ossada ressoa, e cantam
com uma boca cheia de sol e pedernais.
Aqui eu quero vê-los. Diante da
pedra.
Diante deste corpo com as rédeas arrebentadas.
Eu quero que me mostrem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.
Eu quero que me mostrem um pranto
com um rio
que tenha doces névoas e praias profundas,
para levar o corpo de Ignacio e que se perca
sem escutar o duplo resfolegar dos touros.
Que se perca na praça redonda da
lua
que finge ao ser menina dolente rês imóvel;
que se perca na noite sem canto dos peixes
e na maleza branca do fumo congelado.
Não quero que lhe tapem o rosto com
lenços
para que se acostume com a morte que leva.
Vai-te, Ignacio: Não ouças o candente bramido.
Dorme, voa, repousa: O mar também morre!
(Pranto por Ignacio Sánchez Mejías —
1935)
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| F. García Lorca |
Cuerpo presente
La piedra es una frente donde los
sueños gimen
sin tener agua curva ni cipreses helados.
La piedra es una espalda para llevar al tiempo
con árboles de lágrimas y cintas y planetas.
Yo he visto lluvias grises correr
hacia las olas
levantando sus tiernos brazos acribillados,
para no ser cazadas por la piedra tendida
que desata sus miembros sin empapar la sangre.
Porque la piedra coge simientes y
nublados,
esqueletos de alondras y lobos de penumbra;
pero no da sonidos, ni cristales, ni fuego,
sino plazas y plazas y otras plazas sin muros.
Ya está sobre la piedra Ignacio el
bien nacido.
Ya se acabó; ¿qué pasa? Contemplad su figura:
la muerte le ha cubierto de pálidos azufres
y le ha puesto cabeza de oscuro minotauro.
Ya se acabó. La lluvia penetra por
su boca.
El aire como loco deja su pecho hundido,
y el Amor, empapado con lágrimas de nieve,
se calienta en la cumbre de las ganaderías.
¿Qué dicen? Un silencio con hedores
reposa.
Estamos con un cuerpo presente que se esfuma,
con una forma clara que tuvo ruiseñores
y la vemos llenarse de agujeros sin fondo.
¿Quién arruga el sudario? ¡No es
verdad lo que dice!
Aquí no canta nadie, ni llora en el rincón,
ni pica las espuelas, ni espanta la serpiente:
aquí no quiero más que los ojos redondos
para ver ese cuerpo sin posible descanso.
Yo quiero ver aquí los hombres de
voz dura.
Los que doman caballos y dominan los ríos;
los hombres que les suena el esqueleto y cantan
con una boca llena de sol y pedernales.
Aquí quiero yo verlos. Delante de
la piedra.
Delante de este cuerpo con las riendas quebradas.
Yo quiero que me enseñen dónde está la salida
para este capitán atado por la muerte.
Yo quiero que me enseñen un llanto
como un río
que tenga dulces nieblas y profundas orillas,
para llevar el cuerpo de Ignacio y que se pierda
sin escuchar el doble resuello de los toros.
Que se pierda en la plaza redonda
de la luna
que finge cuando niña doliente res inmóvil;
que se pierda en la noche sin canto de los peces
y en la maleza blanca del humo congelado.
No quiero que le tapen la cara con
pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.
Vete, Ignacio: No sientas el caliente bramido.
Duerme, vuela, reposa: ¡También se muere el mar!
(Llanto por Ignacio Sánchez Mejías —
1935)
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Romanceiro Gitano e outros poemas —
Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, edição bilíngue, 1ª edição, 1993,
Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 — 1936),
espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta;
escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro
de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita,
a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924
a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma
(teatro, 1934), Pranto por Ignacio Sánchez Mejías (Llanto por Ignacio Sánchez
Mejías, 1935), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de
Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia;
Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit,
Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras
vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do
General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.