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quinta-feira, 30 de novembro de 2023

García Lorca: A Mercedes em seu vôo


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[traduzido por Oscar Mendes]

Uma viola de luz, hirta e gelada
já eras pelas rochas lá da altura.
Uma voz sem garganta, voz escura
que soa em tudo sem soar em nada.

Teu pensamento é neve resvalada
na infindável glória da brancura.
Teu perfil é perene queimadura,
teu coração é pomba desatada.

Canta já pelo ar, livre e serena,
a matinal flagrante melodia,
monte de luz e chaga de açucena.

Que nós outros aqui de noite e dia
teceremos no ângulo da pena
uma grinalda de melancolia.

Federico Garcia Lorca

A Mercedes en su vuelo

¡Una viola de luz yerta y helada
eres ya por las rocas de la altura.
Una voz sin garganta, voz oscura
que suena en todo sin sonar en nada.

Tu pensamiento es nieve resbalada
en la gloria sin fin de la blancura.
Tu perfil es perenne quemadura,
tu corazón paloma desatada.

Canta ya por el aire sin cadena
la matinal fragante melodía,
monte de luz y llaga de azucena.

Que nosotros aquí de noche y día
haremos en la esquina de la pena
una guirnalda de melancolía.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; em Almeria iniciou seus estudos secundários e os primeiros estudos musicais, depois, mudando-se para Granada com a família, fez seus primeiros estudos universitários Filosofia e Letras e Direito ; em 1919 decidiu mudar-se para Madri e então conheceu Salvador Dalí, Luis Buñuel, Pedro Salinas, Rafael Alberti e outros; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

terça-feira, 8 de março de 2022

Federico García Lorca: Canção Tonta

 
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[traduzido por J. Carlos Lisboa]

Mamãe,
eu quero ser de prata.

Filhinho,
terás muito frio.

Mamãe,
eu quero ser de água.

Filhinho,
terás muito frio.

Mamãe,
borda-me na tua almofada.

Isso, sim:
agora mesmo!

F. García Lorca

Canción tonta

Mamá,
yo quiero ser de plata.

Hijo,
tendrás mucho frío.

Mamá.
Yo quiero ser de agua.

Hijo,
tendrás mucho frío.

Mamá.
Bórdarme en tu almohada.

¡Eso sí!
¡Ahora mismo!

[Canciones 1921 — 1924 (1928)]
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Federico García Lorca: O Lagarto Está Chorando

 
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[traduzido por J. Carlos Lisboa]

O lagarto está chorando.
A lagarta está chorando.

O lagarto e a lagarta
com seus aventaizinhos brancos.

Perderam, não sabem como,
as alianças1 de casados.

Ai, o anelzinho de chumbo,
ai, anelzinho chumbado!

Um céu imenso e sem gente
levanta em seu globo2 os pássaros.

O sol, capitão redondo,
veste um jaleco3 dourado.

Repara como são velhos,
tão velhinhos os lagartos!

Ai, como choram e choram;
como os dois estão chorando!

Federico García Lorca

El lagarto está llorando

El lagarto está llorando.
La lagarta está llorando.

El lagarto y la lagarta
con delantalitos blancos.

Han perdido sin querer
su anillo de desposados.

¡Ay, su anillito de plomo,
ay, su anillito plomado!

Un cielo grande y sin gente
monta en su globo a los pájaros.

El sol, capitán redondo,
lleva un chaleco de raso.

¡Miradlos qué viejos son!
¡Qué viejos son los lagartos!

¡Ay, cómo lloran y lloran!
¡ay, ¡ay, cómo están llorando!

Notas da edição:
1. as alianças: os anéis
2. globo: espaço
3. jaleco: casaco
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Federico García Lorca: Alma ausente

 
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[traduzido por William Agel de Mello]

O touro não te conhece, nem a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
O menino não te conhece, nem a tarde,
porque morreste para sempre.

O lombo da pedra não te conhece,
nem o chão negro em que te destroças.
Nem te conhece a tua recordação muda,
porque morreste para sempre.

O outono virá com caracóis,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá mirar teus olhos,
porque morreste para sempre.

Porque morreste para sempre,
como todos os mortos da Terra,
como todos os mortos que se olvidam
em um montão de cachorros apagados.

Ninguém te conhece. Não. Porém eu te canto.
Eu canto sem tardança teu perfil e tua graça.
A madureza insigne do teu conhecimento.
A tua apetência de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve a tua valente alegria.

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Canto-lhe a elegância com palavras que gemem
E recordo uma triste brisa nos olivais.

(Pranto por Ignacio Sánchez Mejías — 1935)

Federico García Lorca

Alma ausente

No te conoce el toro ni la higuera,
ni caballos ni hormigas de tu casa.
No te conoce el niño ni la tarde
porque te has muerto para siempre.

No te conoce el lomo de la piedra,
ni el raso negro donde te destrozas.
No te conoce tu recuerdo mudo
porque te has muerto para siempre.

El otoño vendrá con caracolas,
uva de niebla y monjes agrupados,
pero nadie querrá mirar tus ojos
porque te has muerto para siempre.

Porque te has muerto para siempre,
como todos los muertos de la Tierra,
como todos los muertos que se olvidan
en un montón de perros apagados.

No te conoce nadie. No. Pero yo te canto.
Yo canto para luego tu perfil y tu gracia.
La madurez insigne de tu conocimiento.
Tu apetencia de muerte y el gusto de tu boca.
La tristeza que tuvo tu valiente alegría.

Tardará mucho tiempo en nacer, si es que nace,
un andaluz tan claro, tan rico de aventura.
Yo canto su elegancia con palabras que gimen
y recuerdo una brisa triste por los olivos.

(Llanto por Ignacio Sánchez Mejías — 1935)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, edição bilíngue, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Pranto por Ignacio Sánchez Mejías (Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, 1935), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Federico García Lorca: Corpo presente

 
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[traduzido por William Agel de Mello]

A pedra é uma fronte onde os sonhos gemem
sem água curva nem ciprestes gelados.
A pedra é uma espádua para levar ao tempo
com árvores de lágrimas e cintas e planetas.

Eu vi chuvas cinzentas correrem rumo às ondas
levantando seus ternos brancos esburacados,
para não ser caçadas pela pedra estendida
que desfaz seus membros sem se empapar de sangue.

Porque a pedra recolhe sementes e nuvens,
ossadas de calhandras e lobos de penumbra;
mas não produz sons, nem cristais, nem fogo,
senão praças e praças e outras praças sem muros.

Já está sobre a pedra Ignacio, o bem-nascido.
Já se acabou; o que acontece? Contemplai a sua figura:
a morte o cobriu de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de escuro minotauro.

Já se acabou. A chuva penetra-lhe pela boca.
O ar como louco escapa de seu peito afundado,
e o Amor, empapado de lágrimas de neve,
se aquece no topo dos currais.

Que dizem? Um silêncio com fedores repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara onde rouxinóis havia
e vêmo-la encher-se de buracos sem fundo.

Quem enruga o sudário? Não é verdade o que diz!
Aqui ninguém mais canta, nem chora lá no lado,
nem aplica as esporas, nem espanta a serpente:
aqui não quero nada mais que os olhos redondos
para ver esse corpo sem possível descanso.

Eu quero ver aqui os homens de voz dura.
Os que domam cavalos e dominam os rios:
os homens cuja ossada ressoa, e cantam
com uma boca cheia de sol e pedernais.

Aqui eu quero vê-los. Diante da pedra.
Diante deste corpo com as rédeas arrebentadas.
Eu quero que me mostrem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.

Eu quero que me mostrem um pranto com um rio
que tenha doces névoas e praias profundas,
para levar o corpo de Ignacio e que se perca
sem escutar o duplo resfolegar dos touros.

Que se perca na praça redonda da lua
que finge ao ser menina dolente rês imóvel;
que se perca na noite sem canto dos peixes
e na maleza branca do fumo congelado.

Não quero que lhe tapem o rosto com lenços
para que se acostume com a morte que leva.
Vai-te, Ignacio: Não ouças o candente bramido.
Dorme, voa, repousa: O mar também morre!

(Pranto por Ignacio Sánchez Mejías — 1935)

F. García Lorca

Cuerpo presente

La piedra es una frente donde los sueños gimen
sin tener agua curva ni cipreses helados.
La piedra es una espalda para llevar al tiempo
con árboles de lágrimas y cintas y planetas.

Yo he visto lluvias grises correr hacia las olas
levantando sus tiernos brazos acribillados,
para no ser cazadas por la piedra tendida
que desata sus miembros sin empapar la sangre.

Porque la piedra coge simientes y nublados,
esqueletos de alondras y lobos de penumbra;
pero no da sonidos, ni cristales, ni fuego,
sino plazas y plazas y otras plazas sin muros.

Ya está sobre la piedra Ignacio el bien nacido.
Ya se acabó; ¿qué pasa? Contemplad su figura:
la muerte le ha cubierto de pálidos azufres
y le ha puesto cabeza de oscuro minotauro.

Ya se acabó. La lluvia penetra por su boca.
El aire como loco deja su pecho hundido,
y el Amor, empapado con lágrimas de nieve,
se calienta en la cumbre de las ganaderías.

¿Qué dicen? Un silencio con hedores reposa.
Estamos con un cuerpo presente que se esfuma,
con una forma clara que tuvo ruiseñores
y la vemos llenarse de agujeros sin fondo.

¿Quién arruga el sudario? ¡No es verdad lo que dice!
Aquí no canta nadie, ni llora en el rincón,
ni pica las espuelas, ni espanta la serpiente:
aquí no quiero más que los ojos redondos
para ver ese cuerpo sin posible descanso.

Yo quiero ver aquí los hombres de voz dura.
Los que doman caballos y dominan los ríos;
los hombres que les suena el esqueleto y cantan
con una boca llena de sol y pedernales.

Aquí quiero yo verlos. Delante de la piedra.
Delante de este cuerpo con las riendas quebradas.
Yo quiero que me enseñen dónde está la salida
para este capitán atado por la muerte.

Yo quiero que me enseñen un llanto como un río
que tenga dulces nieblas y profundas orillas,
para llevar el cuerpo de Ignacio y que se pierda
sin escuchar el doble resuello de los toros.

Que se pierda en la plaza redonda de la luna
que finge cuando niña doliente res inmóvil;
que se pierda en la noche sin canto de los peces
y en la maleza blanca del humo congelado.

No quiero que le tapen la cara con pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.
Vete, Ignacio: No sientas el caliente bramido.
Duerme, vuela, reposa: ¡También se muere el mar!

(Llanto por Ignacio Sánchez Mejías — 1935)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, edição bilíngue, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Pranto por Ignacio Sánchez Mejías (Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, 1935), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Antonio Machado: O crime foi em Granada *

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[traduzido por Dalila Teles Veras] **

A Federico Garcia Lorca

I

O crime

Viram-no, caminhando entre fuzis
por uma rua larga
sair para o campo frio
ainda com estrelas, na madrugada.
Mataram Federico
quando a luz surgia.
O pelotão de verdugos
não ousou mirá-lo na cara
todos fecharam os olhos;
resmungaram: nem Deus te salva!
Morto, caiu Federico
 Sangue pela fronte e chumbo nas entranhas 
... Que foi em Granada o crime
saibam  Pobre Granada! , em sua Granada...

II

O poeta e a morte

Viram-no a andar sozinho com Ela
sem medo de sua foice
 Já o sol de torre em torre; os martelos
de bigorna em bigorna retiniam nas forjas.
Falava Federico
seduzindo a morte. Ela escutava
"Porque ontem, em meu verso, companheira,
soava o golpe de tuas secas palmas
e deste o gelo a meu cantar, e à minha tragédia
o gume de teu cutelo de prata,
cantarei a carne que não tens
os olhos que te faltam
teus cabelos que o vento sacudia
os rubros lábios que beijavam...
Hoje, como ontem, cigana morte minha
permaneço a sós contigo
por estes ares de Granada, minha Granada!"

III

Viram-no a caminhar...
Edifiquem, amigos,
de pedra e sonho, em Alhambra,
um túmulo para o poeta
próximo a uma fonte onde a água chore
e eternamente diga:
o crime foi em Granada, em sua Granada!


El crimen fue em Granada

I

El crimen

Se le vio, caminando entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas, de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico
 sangre en la frente y plomo en las entrañas 
...Que fue en Granada el crimen
sabed  ¡pobre Granada! , en su Granada...

II

El poeta y la muerte

Se le vi caminar solo con Ella,
sin miedo a su guadaña.
— Ya el sol en torre y torre; los martillos
en yunque-yunque y yunque de las fraguas.
Hablaba Federico,
requebrando a la muerte. Ella escuchaba.
"Porque ayer en mi verso, compañera,
sonaba el golpe de tus secas palmas,
y diste el hielo a mi cantar, y el filo
a mi tragedia de tu hoz de plata,
te cantaré la carne que no tienes,
los ojos que te faltan,
tus cabellos que el viento sacudía,
los rojos labios donde te besaban...
Hoy como ayer, gitana, muerte mía,
qué bien contigo a solas,
por estes aires de Granada, ¡mi Granada!"

III

Se le vio caminar...
Labrad, amigos,
de piedra y sueño, en la Alhambra,
un túmulo al poeta,
sobre una fuente donde llore el agua,
y eternamente diga:
el crimen fue em Granada, ¡en su Granada!


* Nota de Andrés Morales: Publicado en la revista "Ayuda" el 17 de octubre de 1936. La primera edición en libro corresponde al libro colectivo preparado por Emilio Prados Homenaje al poeta García Lorca contra su muerte. Ediciones Españolas. Valencia-Barcelona, 1937. La editio princeps en libro de su autor corresponde a Machado, Antonio. La guerra. Editorial Espasa-Calpe. Madrid, 1937.
** Nota deste Verso e Conversa: este atrevido aprendiz de blogueiro faz constar que a tradução deste poema, feita por Dalila Teles Veras, foi colhida da página de Antonio Miranda, pesquisador, bibliotecário, tradutor e poeta, na internet (clique no título lá em cima).
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España Reunida  Antologia Poética de la Guerra Civil Española, 1936  1939, Estudio, Selección, Introducción y Notas de Andrés Morales, 1999, Ril Editores, Santiago de Chile  Chile; Antonio Cipriano José María Machado Ruiz, ou Antonio Machado (1875  1939), espanhol de Sevilha, ainda bem jovem mudou-se com sua família para Madrid, formou-se na Institución de Libre Enseñanza, foi professor de francês, tornando-se catedrático neste idioma no Instituto de Segunda Enseñanza de Soria e, depois, no Instituto Calderón de Madrid, foi dramaturgo e poeta modernista; colaborou como articulista nas revistas modernistas La caricatura, Helios e Alma española; em 1927 foi eleito membro da Real Academia Española de la Lengua; bibliografia: Soledades (1903), Soledades, galerías y otros poemas (1907), Campos de Castilla (1912), Poesías completas (1917, 1928, 1933, 1936), Nuevas canciones (1924), La guerra (1937), Poesía de guerra (1961) e Poesía y Prosa (1965); Antonio Machado também escreveu as peças de teatro La Lola se va a los puertos (1929) e La prima Fernanda (1931), ambas em co-autoria com Manuel Machado, seu irmão e também poeta, além de Juan de Mairena: Sentencias, donaires, apuntes de um profesor apócrifo (prosa, 1936) e outros textos; em 1936, com a eclosão da Guerra Civil, na luta contra o franquismo, ditadura imposta por Francisco Franco, o poeta foi forçado a retirar-se de Madrid, mudando-se para Valencia, depois para Barcelona, e daí partiu para o exílio em Paris, onde veio a falecer.

sábado, 16 de maio de 2020

Federico García Lorca: Morte

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[traduzido por William Agel de Mello]

A Luis De La Serna

Que esforço!
Que esforço do cavalo para ser cão!
Que esforço do cão para ser andorinha!
Que esforço da andorinha para ser abelha!
Que esforço da abelha para ser cavalo!
E o cavalo,
que flecha aguda exprime da rosa!
que rosa gris levanta de seu beiço!
E a rosa,
que rebanho de luzes e alaridos
ata no vivo açúcar de seu tronco!
E o açúcar,
com que punhaizinhos sonha em sua vigília!;
e os punhais diminutos,
que lua sem estábulos, que nudezas,
pele eterna e rubor, andam buscando!
E eu, pelos beirais,
que serafim de chamas busco e sou!
Mas o arco de gesso,
quão grande, quão invisível, quão diminuto!,
sem esforço.

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Federico García Lorca

Muerte

A Luis De La Serna

¡Qué esfuerzo!
¡Qué esfuerzo del caballo por ser perro!
¡Qué esfuerzo del perro por ser golondrina!
¡Qué esfuerzo de la golondrina por ser abeja!
¡Qué esfuerzo de la abeja por ser caballo!
Y el caballo,
¡qué flecha aguda exprime de la rosa!,
¡qué rosa gris levanta de su belfo!
Y la rosa,
¡qué rebaño de luces y alaridos
ata en el vivo azúcar de su tronco!
Y el azúcar,
¡qué puñalitos sueña en su vigilia!;
y los puñales dimínutos,
¡qué luna sin establos, qué desnudos,
piel eterna y rubor, andan buscando!
Y yo, por los aleros,
¡qué serafín de llamas busco y soy!
Pero el arco de yeso,
¡qué grande, qué invisible, qué diminuto!,
sin esfuerzo.

Poeta en Nueva York — 1929 a 1930 (1940)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

sábado, 2 de maio de 2020

Federico García Lorca: Vaca

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[traduzido por William Agel de Mello]

A Luis Lacasa

Estendeu-se a vaca ferida;
árvores e arroios trepavam por seus chifres.
Seu focinho sangrava no céu.

   Seu focinho de abelhas
sob o bigode lento da baba.
Um alarido branco pôs de pé a manhã.

   As vacas mortas e as vivas,
rubor de luz ou mel de estábulo,
baliam com os olhos semicerrados.

   Que saibam as raízes
e aquele menino que afia sua navalha
que já podem comer a vaca.

    Em cima empalidecem
luzes e jugulares.
Quatro patas tremem no ar.

   Que saiba a lua
e essa noite de rochas amarelas:
que já se foi a vaca de cinza.

   Que já se foi balindo
pelo entulho dos céus hirtos
onde merendam morte os bêbados.

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Federico García Lorca

Vaca

A Luis Lacasa

Se tendió la vaca herida;
árboles y arroyos trepaban por sus cuernos.
Su hocico sangraba en el cielo.

   Su hocico de abejas
bajo el bigote lento de la baba.
Un alarido blanco puso en pie la mañana.

   Las vacas muertas y las vivas,
rubor de luz o miel de establo,
balaban con los ojos entornados.

   Que se enteren las raíces
y aquel niño que afila su navaja
de que ya se pueden comer la vaca.

   Arriba palidecen
luces y yugulares.
Cuatro pezuñas tiemblan en el aire.

   Que se entere la luna
y esa noche de rocas amarillas:
que ya se fue la vaca de ceniza.

   Que ya se fue balando
por el derribo de los cielos yertos
donde meriendan muerte los borrachos.

Poeta en Nueva York — 1929 a 1930 (1940)
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Romanceiro Gitano e outros poemas — Federico García Lorca, Tradução de William Agel de Melo, 1ª edição, 1993, Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, Poeta en Nueva York — 1929 a 1930, ambos em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.