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segunda-feira, 14 de julho de 2025

Tasso da Silveira: Rua do Assunguy

 
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Eu vou pela avenida ampla
e longa, e iluminada,
em que há palácios e torres,
e cúpulas1 de ouro erguidas
como as de velha estampa
da infância iluminada,
como as de velha estampa
que tanto me fez sonhar!

Eu vou pela avenida longa,
mas vou indiferente...
Porque no êxtase dos meus olhos,
como numa água morta,
uma beleza mágica
outrora se refletiu...
Outra mais linda imagem
outrora se refletiu...

Oh, não foi assim como esta
uma ampla avenida cheia
de palácios, torres, cúpulas.
Mas uma rua da aldeia
com a luz de um lampião morrente...

Que são estas luzes vivas
da avenida esplandecente2
perto daquele lampião,
que iluminava até o fundo
o grande abismo profundo
da minha imaginação?!...

E a minha ruela humilde
era mais longa... ia além...
Quando a noite se adensava
perdia-se ela na sombra,
uma sombra longa, infinita,
muito longe, para além,

... de onde eu, trêmulo, esperava
as coisas que nunca vêm...


Notas da edição:
1. Cúpulas Parte superior côncava de alguns edifícios;
2. Esplandecente Resplandecente, brilhante.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Tasso Azevedo da Silveira (1895 1968), paranaense e curitibano, fez o estudo secundário no Colégio D. Pedro II, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito da UFRJ), ambos no Rio, foi poeta ‘representante da ala espiritualista’ do modernismo, ensaísta e professor universitário, dedicou-se “principalmente à literatura e ao ensino de literatura”, e trabalhou como diretor de propaganda em “empresa de aviação”; foi cofundador da revista curitibana Fanal, periódico literário do Novo Cenáculo, e participou da Revista Festa, Rio de Janeiro, da qual também foi um dos fundadores; colaborou em várias revistas literárias do Rio e de São Paulo e na luso-brasileira Atlântico; foi professor de Literatura portuguesa na Universidade Católica e na Faculdade Santa Úrsula, ambas no Rio; publicações: em poesia: Fio d’Água (1918), A Alma Heróica dos Homens (1924), Alegorias do Homem Novo (1926), As Imagens Acesas (1928), Cântico do Cristo do Corcovado (1931), Discurso ao Povo Infiel (1933), Puro Canto (1956), em prosa: A Igreja Silenciosa (ensaios, 1922), Alegria Criadora, Definição do Modernismo Brasileiro (crítica literária, 1932), Caminhos do Espírito (ensaios, 1937), Sombras no Caos (romance, 1959), e outros títulos em verso e prosa; em 1957, recebeu o Prêmio Machado de Assis — ABL, pelo conjunto da obra.

domingo, 31 de outubro de 2021

Gabriela Mistral: Dá-me Tua Mão

 
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[traduzido por Tasso da Silveira]

Dá-me tua mão, e dançaremos;
dá-me tua mão, e me amarás.
Uma flor única seremos,
uma só flor, e nada mais...

a mesma estrofe1 cantaremos,
ao mesmo passo bailarás2.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais...

Chamas-te Rosa, eu Esperança;
mas o teu nome olvidarás3,
porque seremos uma dança
sobre a colina, e, nada mais...


Dame la mano

Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...

El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.

Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina, y nada más...

Notas da edição:
1. estrofe: conjunto de versos
2. bailarás: dançarás
3. olvidarás: esquecerás
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada em sua cidade natal, foi poetisa, educadora, diplomata e feminista; tornou-se referência em pedagogia ao trabalhar nos Planos de Reforma Educacional no Ministério de Educação do México; a poeta foi redatora da revista El Tiempo, de Bogotá, e colaborou no Jornal do Brasil; obras: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Lecturas para Mujeres (1923), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Recados Contando a Chile (1957), Poema de Chile (1967), e outros títulos; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Emiliano Perneta: Ao cair da tarde

Livro Ilusão e Outros Poemas por Emiliano Perneta.Broch
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Agora nada mais. Tudo silêncio. Tudo,
Esses claros jardins com flores de giesta,
Esse parque real, esse palácio em festa,
Dormindo à sombra de um silêncio surdo e mudo…

Nem rosas, nem luar, nem damas… Não me iludo.
A mocidade aí vem, que ruge e que protesta,
Invasora brutal. E a nós que mais nos resta,
Senão ceder-lhe a espada e o manto de veludo?

Sim, que nos resta mais? Já não fulge e não arde
O sol! E no covil negro desse abandono,
Eu sinto o coração tremer como um covarde.

Para que mais viver, folhas tristes de outono?
Cerra-me os olhos, pois, Senhor. É muito tarde.
São horas de dormir o derradeiro sono.

1920
Setembro (póstumo, 1934)

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Ilusão e Outros Poemas — Emiliano Perneta, edição comemorativa do centenário, Organização de Tasso da Silveira — Introdução, Cronologia, Bibliografia e Fontes para Estudo por Andrade Muricy, 1966, Edições GRD, Rio de Janeiro — RJ; Emiliano David Perneta (1866  1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Nestor Vítor: Morte Póstuma

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Et vraiment quand la mort viendra
 que reste-t-il?
P. Verlaine

Desses nós vemos: lá se vão na vida,
Olhos vagos, sonâmbulos, calados;
O passo é a inconstância repetida,
E os sons que têm são como que emprestados.

Dia de luz.  Respiração contida
Para encontrá-los despreocupados,
Aí vem a morte, estúpida e bandida,
Rangendo em seco os dentes descarnados.

Mas embalde ela chega, embalde os chama:
Ali não acha nem de longe aqueles
Grandes assombros que aonde vai derrama!

E abre espantada os cavos olhos tortos:
Vê que se eles têm os olhos vítreos, que eles...
Eles já estão há muito tempo mortos!

(Transfigurações — 1902)

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Nestor Vítor — prosa e poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 74, Organização, Apresentação e Notas de Tasso da Silveira, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1963, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Nestor Vítor dos Santos (1868  1932), paranaense de Paranaguá, poeta, contista, ensaísta, crítico literário, conferencista e tradutor, foi um dos partícipes da escola literária simbolista, e, tendo sido amigo do poeta Cruz e Sousa e estudioso de sua obra, publicou um exaustivo estudo sobre o poeta negro e também suas Obras Completas; como crítico literário e ensaísta, colaborou com os periódicos O País, Correio Paulistano, O Globo e com a revista Os Anais; escreveu e publicou Signos (contos, 1897), Cruz e Sousa (1899), Amigos (1900), A Hora (1901), Transfigurações (poesias, 1902), Paris impressões de um brasileiro (1911), A Terra do Futuro  impressões do Paraná (1913), O Elogio da Criança (1915), Três Romancistas do Norte (1915), Farias Brito (1917), A Crítica de Ontem (1919), Folhas que ficam (1920), O Elogio do Amigo (1921), Cartas à Gente Nova (1924), Parasita (novela, 1928), e outros títulos.

Nestor Vítor: O Poeta Negro

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                    Cruz e Sousa, negro sem mescla, foi uma cerebração de primitivo genial, foi como que a revivescência de um núbio contemporâneo de Davi ou ao menos de Salomão, senão já educado à luz franca dos princípios mazdianos, mas que houvesse renascido no Ocidente e se desenvolvesse num meio cuja civilização é toda de empréstimo, já capaz de inspirar grandes requintes a um artista, porém no fundo ainda por modo muito falseado e ingênuo.
                    A visão de Cruz e Sousa, no que ele oferece de mais característico, é sem medida, sem precisão, chega a ser muitas vezes desconforme,  é oriental,  entretanto que a língua por ele para si criada dentro do idioma português é dúctil, é musical como até então não fora, é colorida, e,  o que mais admira,  é matizada, é nuançada como ainda se não manifestara. Não há nisso, porém, contradição, porque ela assim é principalmente no que afeta os cinco sentidos. Cruz e Sousa revela-se, como artista, sobretudo um sensual, na acepção lata da palavra, o que é tão lógico tratando-se de uma natureza de primitivo, ainda mais se africano.

(A Crítica de Ontem)

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Nestor Vítor — prosa e poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 74, Organização, Apresentação e Notas de Tasso da Silveira, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1963, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Nestor Vítor dos Santos (1868 1932), paranaense de Paranaguá, poeta, contista, ensaísta, crítico literário, conferencista e tradutor, foi um dos partícipes da escola literária simbolista, e, tendo sido amigo do poeta Cruz e Sousa e estudioso de sua obra, publicou um exaustivo estudo sobre o poeta negro e também suas Obras Completas; como crítico literário e ensaísta, colaborou com os periódicos O País, Correio Paulistano, O Globo e com a revista Os Anais; escreveu e publicou Signos (contos, 1897), Cruz e Sousa (1899), Amigos (1900), A Hora (1901), Transfigurações (poesias, 1902), Paris — impressões de um brasileiro (1911), A Terra do Futuro — impressões do Paraná (1913), O Elogio da Criança (1915), Três Romancistas do Norte (1915), Farias Brito (1917), A Crítica de Ontem (1919), Folhas que ficam (1920), O Elogio do Amigo (1921), Cartas à Gente Nova (1924), Parasita (novela, 1928), e outros títulos.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Emiliano Perneta: Quadras

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À memória do Albino Silva

Eu de certo não sei, se venho d'um gorila,
Ou se venho talvez do paraíso terreal...
Em todo caso pó, e quando muito argila...
Achei-me um dia aqui; quem sabe por meu mal!

Eu não sei d'onde vim; mas viesse d'onde viesse,
Da poeira ou da luz, do gorila ou de Adão,
Toda a minha ânsia é de subir como uma prece,
Toda a minha ânsia é de brilhar como um clarão.

Para onde vou? Não sei. Qual é o meu destino?
Também não sei. Porém desejo caminhar
Por essa estrada além, bem como um peregrino,
E o meu instinto é como um pássaro a voar!...

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Ilusão e Outros Poemas  Emiliano Perneta, edição comemorativa do centenário, Organização de Tasso da Silveira  Introdução, Cronologia, Bibliografia e Fontes para Estudo por Andrade Muricy, 1966, Edições GRD, Rio de Janeiro  RJ; Emiliano David Perneta (1866  1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Cruz e Sousa: Crianças Negras *

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.

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Em cada verso um coração pulsando,
sóis flamejando em cada verso, e a rima
cheia de pássaros azuis cantando,
desenrolada como um céu por cima.

Trompas sonoras de tritões marinhos
das ondas glaucas na amplidão sopradas
e a rumorosa música dos ninhos
nos damascos reais das alvoradas.

Fulvos leões do altivo pensamento
galgando da era a soberana rocha,
no espaço o outro leão do sol sangrento
que como um cardo em fogo desabrocha.

A canção de cristal dos grandes rios
sonorizando os florestais profundos,
a terra com seus cânticos sombrios,
o firmamento gerador de mundos.

Tudo, como panóplia sempre cheia
das espadas dos aços rutilantes,
eu quisera trazer preso à cadeia
de serenas estrofes triunfantes.

Preso à cadeia das estrofes que amam,
que choram lágrimas de amor por tudo,
que, como estrelas, vagas se derramam
num sentimento doloroso e mudo.

Preso à cadeia das estrofes quentes
como uma forja em labareda acesa,
para cantar as épicas, frementes
tragédias colossais da Natureza.

Para cantar a angústia das crianças!
não das crianças de cor de oiro e rosa,
mas dessas que o vergel das esperanças
viram secar, na idade luminosa.

Das crianças que vêm da negra noite,
dum leite de venenos e de treva,
dentre os dantescos círculos do açoite,
filhas malditas da desgraça de Eva.

E que ouvem pelos séculos afora
O carrilhão da morte que regela.
a ironia das aves rindo a aurora
e a boca aberta em uivos da procela.

Das crianças vergônteas dos escravos
desamparadas, sobre o caos, à toa
e a cujo pranto, de mil peitos bravos,
a harpa das emoções palpita e soa.

Ó bronze feito carne e nervos, dentro
do peito, como em jaulas soberanas,
ó coração! és o supremo centro
das avalanches das paixões humanas.

Como um clarim a gargalhada vibras,
vibras também eternamente o pranto
e dentre o riso e o pranto te equilibras
de forma tal que a tudo dás encanto.

És tu que à piedade vens descendo.
Como quem desce do alto das estrelas
e a púrpura do amor vais estendendo
sobre as crianças, para protegê-las.

És tu que cresces como o oceano, e cresces
até encher a curva dos espaços
e que lá, coração, lá resplandeces
e todo te abres em maternos braços.

Te abres em largos braços protetores,
em braços de carinho que as amparam,
a elas, crianças, tenebrosas flores,
tórridas urzes que petrificaram.

As pequeninas, tristes criaturas
ei-las, caminham por desertos vagos,
sob o aguilhão de todas as torturas,
na sede atroz de todos os afagos.

Vai, coração! na imensa cordilheira
da Dor, florindo como um loiro fruto
partindo toda a horrível gargalheira
da chorosa falange cor do luto.

As crianças negras, vermes da matéria,
colhidas do suplício a estranha rede,
arranca-as do presídio da miséria
e com teu sangue mata-lhes a sede!

Cruz e Sousa
Nota de Tasso da Silveira:
* Erguido ao cume da mais alta piedade humana é, no entanto, sobre as cabeças das crianças negras que o poeta estende sua grande benção comovida, como para protegê-las da dor da raça.
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Cruz e Sousa — Poesia, Apresentação e Seleção de Tasso da Silveira, Volume 4 da Coleção Nossos Clássicos, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 — 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (1893, poemas em prosa) e Broquéis (1893, poemas); em 1885, publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cruz e Sousa: Litania dos Pobres *

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.

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Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
Cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados
Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
Das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios.
Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos Destinos!

O pobres! o vosso bando
É tremendo, é formidando!

Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo...

Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.

Nos areais e nas serras
Em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,
Das Esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas
De torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece.

Ó Pobres de ocultas chagas
Lá das mais longínquas plagas!

Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho...

Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas

De torpores, d’indolências
E graças e quint’essências.

Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.

Vêm nimbadas de magia,
De morna melancolia!

Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
Dos sopros que vêm do largo...

Radiantes d’ilusionismos,
Segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos
Bóiam nelas cisnes vagos...

Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.

Que vestes a pompa ardente
Do velho Sonho dolente.

Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.


                                 

Nota de Tasso da Silveira:
* Só nos poemas dos escravos, de Castro Alves, encontram ressonância tão funda quanto a que vibra neste poema de Cruz e Sousa da dor dos pobres desprotegidos.
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Cruz e Sousa — Poesia, Apresentação e Seleção de Tasso da Silveira, Volume 4 da Coleção Nossos Clássicos, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro  RJ; João da Cruz e Sousa (1861  1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

sábado, 22 de setembro de 2012

Cruz e Souza: Canção do Bêbado *

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Na lama e na noite triste
Aquele bêbado ri!
Tua alma velha onde existe?
Quem se recorda de ti?

Por onde andam teus gemidos,
Os teus notâmbulos ais?
Entre os bêbados perdidos
Quem sabe do teu  jamais?

Por que é que ficas à lua
Contemplativo, a vagar?
Onde a tua noiva nua
Foi tão depressa a enterrar?

Que flores de graça doente
Tua fronte vem florir
Que ficas amargamente
Bêbado, bêbado a rir?

Que vês tu nessas jornadas?
Onde está o teu jardim
E o teu palácio de fadas,
Meu sonâmbulo arlequim?

De onde trazes essa bruma,
Toda essa névoa glacial
De flor de lânguida espuma,
Regada de óleo mortal?

Que soluço extravagante,
Que negro, soturno fel
Põe no teu ser doudejante
A confusão da Babel?

Ah! das lágrimas insanas
Que ao vinho misturas bem,
Que de visões sobre-humanas
Tu'alma e teus olhos tem!

Boca abismada de vinho,
Olhos de pranto a correr,
Bendito seja o carinho
Que já te faça morrer!

Sim! Bendita a cova estreita
Mais larga que o mundo vão,
Que possa conter direita
A noite do teu caixão!

                  —



Nota de Tasso da Silveira:
* Do quase puro narcisismo de Broquéis (em cujos poemas o poeta perpetuamente se contempla nas coisas e nos seres), se vai o poeta desviando aos poucos para largo, embora doloroso, sentimento humano.
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Cruz e Souza — Poesia, Apresentação e Seleção de Tasso da Silveira, Volume 4, Coleção Nossos Clássicos, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; porém, com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); anteriormente, publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa, 1885), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo quando bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

sábado, 15 de setembro de 2012

Cruz e Sousa: Mendigos *

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Mendigos! Ah! são mendigos
Que voltam de vãos caminhos,
Que atravessaram perigos,
Urzes, pântanos, espinhos.

Que chegam desiludidos
Das portas a que bateram:
Humanos, grandes gemidos
Que nos tempos se perderam.

Que voltam como partiram,
Com mais amargor na volta
E mais sonhos que se abriram
Das estrelas na recolta.

Mendigos ricos no entanto,
Das pompas da natureza
E das auréolas do Encanto,
Os vinhos da sua mesa.

Mendigos que o sol, apenas,
Torna nababos felizes,
Torna um pouco mais serenas
As convulsas cicatrizes.

Mendigos que acham requinte
Na fumaça de um cachimbo,
Deixando que labirinte
O sonho em tão leve nimbo.

Mendigos da luz da aurora
Cantando celestemente,
Fresca, límpida, sonora,
Pelas fanfarras do Oriente.

Mendigos de áureas estradas,
De sonâmbulas veredas,
De riquezas encantadas,
Sem pedrarias e sedas.

Mendigos d'estranho aspecto
E sempiterna vigília,
Filhos nômades, sem teto,
De milenária Família.

Mendigos que erram eternos
Sem fadigas e sem sono.
Sob o augúrio dos Infernos,
Das Ilusões sobre o trono.

Mendigos de plaga nova,
De novas terras e mares,
Divinizados na cova
Como as hóstias nos altares.

Mendigos da grande esmola
Da luz das estrelas nobres,
Que fulge e dos altos rola,
Entre as suas mãos tão pobres!

Mendigos de céus remotos,
De sóis dos mais velhos ouros;
Com a sua fé e os seus votos
E os seus secretos tesouros.

Mendigos de olhar severo,
Boca murcha, meio amarga,
Tendo um vago revérbero
De sonhos na fronte larga.

Mendigos de ínvias florestas
E de bosques fabulosos,
De melancólicas sestas
Nos crepúsculos brumosos.

Mendigos da Eternidade,
Tremendo dos sóis, dos frios,
Nas mortalhas da Saudade
Amortalhados sombrios.

Mendigos dos Infinitos,
Das Esferas inefáveis,
Noctambulando malditos
Nos rumos imponderáveis.

Mendigos de fome e sede
De água e pão de outros mundos,
Embalados pela rede
Dos Idealismos profundos.

Mendigos do azul Mistério,
Cuja alma — nívea sereia —
Fica saciada no aéreo
Pão branco da lua cheia!

               

Nota de Tasso da Silveira:
* Evidente que esses mendigos são os poetas. Os poetas de todos os tempos e lugares. A riqueza de imagens com que vai Cruz e Sousa desdobrando, estrofe a estrofe, a alegoria comovente dar-lhe-ia  direito ao título que na Itália foi conferido a D’Annunzio: “O Imaginífico”
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Cruz e Souza — Poesia, Apresentação e Seleção de Tasso da Silveira, Volume 4, Coleção Nossos Clássicos, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); anteriormente, havia publicado Tropos e Fantasias (poemas em prosa, 1885), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).