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1.
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da ideia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
da ideia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar. *
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar. *
* Nota dos Organizadores: O
trabalho poético do escritor vai contra os princípios do espontaneísmo romântico.
Sob esse aspecto, há um “antilirismo” que dá origem dialeticamente a um novo
lirismo depurado de sua tradição eminentemente subjetivista.
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João Cabral de Melo Neto — Literatura
Comentada, seleção de textos por José Fulaneti de Nadai, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por Samira Youssef Campedelli e Benjamin Abdala Junior, 1982, Editora Abril, São Paulo — SP; João Cabral de Melo Neto (1920 — 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários
países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia
brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O
cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e
vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de
tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa
histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por
diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.