quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Genésio dos Santos: Não sei se me é possível reproduzir num soneto

Não sei se me é possível reproduzir num soneto
o tudo que já te disse e que ora estou sentindo,
é que junto nasce o medo que eu me vá delinqüindo
e delinqüir num poema quase o torna obsoleto.

Contudo, me compreendas, eu, que vivia fugindo,
um dia vislumbrei trilhas onde havia um quase gueto,
vi transbordar de poesia o frio e duro panfleto
e, sem perceber, meu mundo contigo fui dividindo.

E tudo ficou mais doce, e a vida se coloria...
E quanto mais te ausentavas, mais perto de mim te via
preenchendo meus espaços, tornando meu ser completo.

Um sentimento explica o que carrego comigo,
com tua sempre presença, com teu ombro mais que amigo.
É com certeza paixão! É muito mais que afeto!
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Genésio dos Santos, dezembro/2001

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Carlos Drummond de Andrade: Mãos dadas

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Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

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Drummond, em Sentimento do Mundo [1940]: Carlos Drummond de Andrade  Poesia e Prosa, Volume Único, 1979, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro  RJ.

Quatro meses não são quatro dias nem muito menos quatro horas!

Parceira de vôo,

Pois é! Neste 25 de janeiro completamos quatro meses de pleno vôo, com algumas pequenas paradas apenas para nos reabastecermos. A viagem, bem sabemos, não nos traz novidade nenhuma. O que há de novo é a nossa disposição de seguirmos juntos. Tem sido esta a nossa escolha.

Quando, nos intervalos, adentro o meu barril, confesso que já nem me lembro da Filó. Será que ela existiu um dia, mesmo? E, se existiu, será que ela ainda persiste em existir? Te juro que disso nada sei. E o que eu entendia saber pode ter sido só imaginação minha.

No entanto voamos e, como disse o poeta, vamos de mãos dadas.

Neste vinte e cinco de janeiro também comemorei meus cinquenta e oito anos, vinte e dois dias, algumas horas e diversos minutos de vida nesta oca a qual chamamos genericamente Terra.

Diógenes, sem lanterna.
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Genésio dos Santos, 58 anos, poeta e cronista, está vivo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Glauco Mattoso: 2.230 — Soneto téquinico

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Reflete a inflexão do X no verso,
contada como sílaba. Assim quis.
Portanto, o som dum "ex" vale "equis"
no ritmo brasileiro em que converso.

Da mesma forma, é "rítimo adiverso",
mas nunca "rimo averso" que se diz.
Se for no meio termo, como fiz,
às vezes um "submerso" é "subimerso".

a decisão é minha, soberano
que sou do meu soneto, como um rei.
Aqui não dita o crítico Fulano.

Aqui nunca confesso quando errei;
apenas justifico meu engano,
pois quanto mais pratico, menos sei.

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Geléia de Rococó — Sonetos Barrocos, Edições Ciência do Acidente, 1999, São Paulo — SP; Glauco Mattoso, ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP  São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil (de 1977 a 1981, compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo  SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro  RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo  SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo  SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo  SP), Panacéia Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo  SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo  SP), O que é: Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O que é: Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo  SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo  SP) etc etc etc, e bota etecétera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

Glauco Mattoso: 2.233 — Soneto sonetado

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Já li Lope de Vega e li Gegório,
pois ambos sonetaram do soneto,
seara na qual minha foice meto,
tentando fazer algo meritório.

Não quero usar o mesmo palavrório,
mas pilho-me, no meio do quarteto,
montando a anatomia do esqueleto.
No oitavo verso, o alívio é provisório.

Contagem regressiva: faltam cinco.
Mais quatro, e fico livre do problema.
Agora faltam três... Deus, dai-me afinco!

Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!

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Geléia de Rococó  Sonetos Barrocos, Edições Ciência do Acidente, São Paulo, 1999; Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias; Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP — São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo — SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro — RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo — SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo — SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo — SP), Panacéia — Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo — SP), O que é: Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo — SP), O que é: Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo — SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo — SP) etc etc etc, e bota etecétera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil.

Glauco Mattoso: 2.229 — Soneto inconsútil

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Se alguém inda rejeita metro e rima,
ou crê na obsolescência do soneto,
ao vate alagoano é que o remeto:
ninguém menos que o meu Jorge de Lima.

Aos treze sonetava, tudo em cima.
Ao modernismo adere de panfleto.
Mas, décadas depois, como cometo,
de novo dos catorze se aproxima.

O caso é que o soneto permanece
acima das marés que vêm e vão,
tal como se no céu sempre estivesse.

É um ponto que ilumina a escuridão,
e não, como o cometa, algo que desce
ou passa, vanguardando a ocasião.

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Geléia de Rococó - Sonetos Barrocos, Edições Ciência do Acidente, São Paulo, 1999; Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias; Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); Pedro José Ferreira da Silva, hoje aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Juó Bananére: O Varredore da Rua

(Gançó - c'oa musica dus Gondoléro du Amore)


TEUS oglio só pretto, pretto,
Uguali da pomarolla;
Só maise negro i oscuro,
Chi o fundo da gaçarolla.

Pindurada na gianella,
Imbaxo da luiz da lua,
Teus zoglios vê allegrá
O varredore da rua.

Tua voiz é una ganzone,
Ma proprio napuletana,
Chi faiz a genti vibrá
Uguali c'oa barbatana.

I come bebi a pinguigna,
O pirú i a pirúa,
Bebi os teus gantos aóra
O varredore da rua.

Tua risada quirida,
E' o toque d'un violó
Chi vê battê dirittigno,
Ingoppa u meu goraçó.

Quano a notte stá safada,
I non tê gaiz i né lua,
Tê a luiz do teu sorrizo
O varredore da rua.

Teu amore é una strella,
I é una lamparina,
Che mais migliore d'un sole,
Migna vita inlumina.

Tu é o meu begiaflôre,
- Un passarigno chi avua -
O amor, a namurada,
Do varredore da rua.
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La Divina Increnca, publicado em 1915 - Livro di Prupaganda da Literatura Nazionale. Juó Bananére, pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado (1892 -1933). Candidato á Gademia Baolista de Letras - Arma Virunque Cano! Ferri - E di sai du governimo acarregado nus braço du povo! Hermeze - A bandiera du P. R. C. á di sê pindurada na porta du Palazzo né chi sejia tutto furada di bala i lameada di sangue! Capitó - Edição fac-similar, 2001 - reimpressão, 2007 - Editora 34, São Paulo - SP.