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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Tácito de Almeida: A mesma tempestade

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I

Os relâmpagos chicoteiam com fúria
os cavalos cinzentos das nuvens,
para chegar mais depressa à terra.

As trovoadas longínquas parecem
Caminhões cheios de água em disparada
por velhas ruas mal calçadas.

E o vento rasteiro,
vestido de poeira,
passa faminto como um cão,
farejando a terra.

II

A chuva já passou.

A noite límpida é um menino,
saindo detrás das montanhas.

E ele vem correndo, vem correndo,
alegremente,
todo molhado.

Os homens assombrados,
julgando-o perdido,
estavam já desanimados.

Mas ele vem correndo, vem correndo,
alegremente,
todo molhado.

Vem correndo… E, quando encontra
os homens cheios de olhares,
ele pára e estende os braços úmidos,
e vai espalhando pelo céu,
cheio de orgulho,
os mil pedaços ainda móveis
da verde cobra fosforescente
que matou na floresta, atrás das montanhas…

(Klaxon, nº 4, São Paulo, 15 ago. 1922, p. 6.)

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Klaxon  Revistas do Modernismo 1922  1929 (edição fac-similar), Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr. e Ensaio de Gênese Andrade, 2014, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo  SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Luís Aranha: Paulicéia Desvairada

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Convulsões telúricas
Estesia
Fendas
Mário de Andrade escreve a Paulicéia
Nem o sismógrafo de Pachwitz mede os tremores do teu coração
Ebulição
Sarcasmo
Ódio vulcânico
Tua piedade
Escreveste com um raio de sol
No Brasil
Aurora de arte século XX
Como na pintura Anna Malfatti que pintou o teu retrato
Catodografia
Um momento de tua vida estampado no teu livro
Roentgen
Raios X
Mas há todos os brilhos
Ar rarefeito de poesia
Quilômetros quadrados 9 milhões
Tubo de Crookes
Os raios catódicos de teu lirismo colorem as materialidades incolores
Aquecimento
No tubo
Havia também uma cruz
Tua religião
Fluorescência
Não és futurista
Há nos teus poemas raios ultravioletas
Torrentes de cores
Teu retrato
Teu livro
Porque o arco íris é seu pincel
E é tua pena também

(Klaxon nº 4, São Paulo, 15 ago. 1922, p. 11)

LUIS ARANHA
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Klaxon — Revistas do Modernismo 1922 — 1929 (edição fac-similar), Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr. e Ensaio de Gênese Andrade, 2014, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, SP; Luís Aranha Pereira (1901 1987), paulista e paulistano, estudou no Colégio dos Irmãos Maristas, formou-se pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi poeta e diplomata; pelas relações familiares com Mário de Andrade, tomou contato com os modernistas, participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou regularmente com a revista Klaxon, periódico dos modernistas; abandonou a poesia, ingressou por concurso no Ministério das Relações Exteriores e passou a exercer a diplomacia em diversas funções em embaixadas brasileiras de vários países; sua poesia foi reunida em Cocktails (1984), por iniciativa do poeta Nelson Ascher e do arquiteto e crítico de arte Rui Moreira Leite: poemas publicados nas edições da Klaxon e ‘datilocristo’ do autor, entregue a Mario de Andrade na década de 20.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Tácito de Almeida: Tempestade

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Princípio de tarde. Carnaval no céu.
Máscaras negras, máscaras brancas,
máscaras cinzentas,
o sol experimenta todas as máscaras,
até que se esconde sob uma delas
e não aparece mais.

Desvairamento invisível.

Serpentinas de relâmpagos
atravessam o espaço.
E atrás dos montes longínquos,
mãos imponderáveis, mãos pobres
procuram em vão recolhê-las.

Serpentinas, mais serpentinas!

E as nuvens rápidas
agitam-se tanto,
tão nervosamente,
que já não têm mais forças.

Pobres braços desarticulados,
braços cansados,
descendo sem querer...

E a chuva fria cai, cai longamente,
cheia do perfume das folhas lustrosas,
cheia de éter, vaporosa,
cheia de céu...

E a chuva fria cai, cai docemente,
cada vez mais calma, cada vez mais fria,
até morrer...

E o magro céu, branco como um palhaço,
ergue e começa a arquear sobre a cidade
o arco-íris alegre e violento,
sob o qual vai passar triunfalmente,
nos cavalos lustrosos da noite,
o préstito invisível dos astros...

(Klaxon, nº 2, São Paulo, 15 jun. 1922, p. 56.)

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Klaxon  Revistas do Modernismo 1922  1929 (edição fac-similar), Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr. e Ensaio de Gênese Andrade, 2014, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo  SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).