
I
Os relâmpagos chicoteiam com
fúria
os cavalos cinzentos das
nuvens,
para chegar mais depressa à
terra.
As trovoadas longínquas
parecem
Caminhões cheios de água em
disparada
por velhas ruas mal calçadas.
E o vento rasteiro,
vestido de poeira,
passa faminto como um cão,
farejando a terra.
II
A chuva já passou.
A noite límpida é um menino,
saindo detrás das montanhas.
E ele vem correndo, vem
correndo,
alegremente,
todo molhado.
Os homens assombrados,
julgando-o perdido,
estavam já desanimados.
Mas ele vem correndo, vem
correndo,
alegremente,
todo molhado.
Vem correndo… E, quando
encontra
os homens cheios de olhares,
ele pára e estende os braços
úmidos,
e vai espalhando pelo céu,
cheio de orgulho,
os mil pedaços ainda móveis
da verde cobra fosforescente
que matou na floresta, atrás
das montanhas…
(Klaxon, nº 4, São Paulo, 15 ago. 1922, p. 6.)

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Klaxon — Revistas do
Modernismo 1922 — 1929 (edição fac-similar), Organização de Pedro Puntoni e
Samuel Titan Jr. e Ensaio de Gênese Andrade, 2014, Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo, São Paulo — SP; Carlos Tácito Alberto de
Almeida Araújo (1889 — 1940), paulista de Campinas, formado
pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco),
foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de
Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas;
participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon,
revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto
de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção
poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém,
escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista
modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias,
1922).

