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sábado, 26 de novembro de 2022

Neno Vasco: A Marselhesa do Fogo

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Coro:

A chama a crepitar! Em círculo formai!
Dançai!
Dançai!
De archote aceso o mundo iluminai!

Correi, correi, filhos do Povo!
Deixai a pena e vinde ver...
Vinde assistir ao quadro novo:
O burgo vil a arder, a arder!
A chama alegre, a crepitar,
Anda a correr entre os casebres:
Arde um covil de fome e febres:
A chama heróica sobe ao ar...

A chama heróica sobe, voa,
Sobre as pocilgas rubro véu:
E a crepitar o fogo entoa
Uma canção que sobe ao céu...
Quanta miséria desinfecta
A chama audaz de rubro tom!
O burgo é velho, o fogo é bom!
A chama sobe em linha recta...

O burgo todo se esboroa
A chama varre a podridão
Oh! como a terra será boa!
Oh! quantas messes brotarão!
Colhe as panteras no covil
Queimada vá! Colhe as serpentes!
A chama tem línguas frementes,
E põe no céu um tom febril...

A chama faz cair tugúrios,
E faz ruir prisões também:
Lambe quartéis, mantos purpúreos,
A podridão que a terra tem...
E enquanto o burgo se reduz,
As brasas rubras fumegantes
[As chamas têm tons fulgurantes]
Duma potente e nova luz.

A chama canta, salta e corre,
O velho burgo tomba enfim...
Oh! quanto abutre cai e morre!
Oh! quanto abutre em seu festim!
De face a arder que a chama crésta!
Oh párias nus vinde dançar.
Dançar em roda, correr, cantar,
Que esta fogueira é vossa festa!

[A] Guerra Social,16/7/1911,
[nº2], p. 3, [Rio de Janeiro].

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Neno Vasco (1878 1920) ou Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos, português de Penafiel, distrito do Porto, estudou no Liceu, de Amarante, formou-se pela Faculdade de Direito de Coimbra, foi advogado, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo e militante anarco-sindicalista; colaborou com o jornal lisboeta O Mundo, a revista A Sementeira, também portuguesa, A Voz do Trabalhador, em São Paulo, tendo sido fundador dos jornais Amigo do Povo, A Terra Livre, e lançado a revista Aurora, periódicos de ideário anarquista; Neno Vasco viveu parte de sua vida e militância no Brasil; suas obras: A Academia de Coimbra ao Povo Português (1901), Pecado de Simonia (peça teatral, 1907), Anedota em 1 acto (peça teatral, 1911), Geórgias: ao trabalhador rural (1913), Da Porta da Europa — factos e idéias: a questão religiosa, a questão política, a questão econômica 1911 — 1912 (1913), A Concepção Anarquista do Sindicalismo (1920), Greve de inquilinos (farsa teatral em 1 acto, 1923); como tradutor, verteu para a língua portuguesa Élizée Reclus — Evolução, Revolução e Ideal Anarquista (1904) e o hino A Internacional (1909).

terça-feira, 11 de maio de 2021

Neno Vasco: A chama canta, salta e corre, * . . .

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A chama canta, salta e corre,
O velho burgo tomba enfim...
Oh! Quanto abutre cai e morre!
Oh! Quanto abutre em seu festim!
De face a arder, que a chama cresta!
Ó párias nus, vindes dançar,
Dançar em roda, correr, cantar,
Que esta fogueira é vossa festa!
            A chama a crepitar!
Em círculo formai!
            Dançai!
            Dançai!
De archote aceso, o mundo iluminai!


* Notas de Yara Aun Khoury, historiadora e autora do Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15: Recorte impresso, sem título nem outras referências; no texto/documento A Poesia Anarquista [págs 215-247 da referida revista] no qual a historiadora apresenta 40 poemas de vários autores libertários, lê-se o seguinte trecho: ... “Os amantes da poesia, habituados a obras requintadas, poderão, muitas vezes, se frustrar ao lê-las. São, entretanto, um material rico para o pesquisador dedicado a recuperar as problemáticas vividas pelos sujeitos sociais, suas formas de pensar, seus valores e aspirações. Para um observador atento, acompanhar os nomes dos autores, seus dados biográficos, relacioná-los com informações que seguem as poesias e com outros registros deste acervo é obter subsídios para construir aspectos da militância anarquista, numa multiplicidade de práticas e de relações que os combatentes estabelecem com outros sujeitos sociais. É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica;” ...
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, [vários autores], Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Neno Vasco (1878 1920) ou Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos, português de Penafiel, distrito do Porto, formado pela Faculdade de Direito do Liceu, foi advogado, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo e militante anarco-sindicalista; colaborou com o jornal lisboeta O Mundo, a revista A Sementeira, também portuguesa, A Voz do Trabalhador, em São Paulo, tendo sido fundador dos jornais Amigo do Povo, A Terra Livre, e lançado a revista Aurora, periódicos de ideário anarquista; Neno Vasco viveu parte de sua vida e militância no Brasil; suas obras: A Academia de Coimbra ao Povo Português (1901), Pecado de Simonia (peça teatral, 1907), Anedota em 1 acto (peça teatral, 1911), Geórgias: ao trabalhador rural (1913), Da Porta da Europa — factos e idéias: a questão religiosa, a questão política, a questão econômica 1911 — 1912 (1913), A Concepção Anarquista do Sindicalismo (1920), Greve de inquilinos (farsa teatral em 1 acto, 1923); como tradutor, verteu para a língua portuguesa Élizée Reclus — Evolução, Revolução e Ideal Anarquista (1904) e o hino A Internacional (1909).

domingo, 11 de dezembro de 2016

Neno Vasco: Os parasitas

Resultado de imagem para contos anarquistas antonio arnoni prado
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          Numa ilha fértil, solitária no meio de um grande mar, vivia uma família ociosa, bem nutrida e agasalhada, que se dizia dona e senhora de toda a ilha, proprietária das terras, casas, choupanas, arados, gado, tudo.
          Para manter essa família na mandriice e na fartura, esfalfavam-se, desde manhã até a noite, meia dúzia de trabalhadores ossudos, sujos, tostados do sol, mal alimentados e mal abrigados, eles, suas mulheres e seus filhos. Só eles conheciam o seu trabalho, sabiam as épocas das semeaduras, os modos de cultivar as terras, o manejo do arado e de todos os instrumentos de trabalho e eram eles que entre si combinavam e distribuíam as tarefas, ajuntando-se nas mais rudes, dividindo-se nas mais leves e curtas.
          Quanto aos filhos do patrão, em vez de ajudar, como faziam os filhos e as mulheres dos trabalhadores, vinham estorvar e inquietar as pessoas e estragar as sementeiras. E o proprietário, então? Esse não fazia mais que vigiar os serviços, de mãos atrás das costas, dizendo de vez em quando, todo ancho e satisfeito:
           Ah! Se não fosse eu, como haviam vocês de viver?
          E os pobres homens, muito humildes, respondiam, descobrindo-se:
          — É verdade, é verdade: se não fosse o patrão que nos dá trabalho e nos sustenta, que havia de ser de nós?
          Ora, um belo dia — belo no começo, feio depois , o proprietário foi com a família toda dar um grande passeio pelo mar, na sua linda e veloz chalupa. E tendo-se afastado muito da costa, sobreveio um grande temporal, que afundou a embarcação e afogou todos os que nela iam. Dias depois, os trabalhadores horrorizados encontraram na praia os cadáveres dos patrões, vomitados pelos vagalhões furiosos.
          A princípio ficaram cheios de aflição e parecia-lhes que estavam ao desamparo. Mas os trabalhos não pararam. Acostumados a combinar e a distribuir entre si as tarefas, ajuntando-se nas mais rudes, dividindo-se nas mais breves e fáceis, os trabalhadores da ilha começaram a lavrar, a semear e a colher, a fiar e a tecer o linho e a lã, a criar o gado, a manejar o arado, a foice e o tear — e a terra continuou a produzir, os rebanhos a crescer e a multiplicar-se, o sol a brilhar sobre as searas.
          Os trabalhadores não tardaram a reparar que tudo se fazia melhor do que antes, que já não tinham quem os estorvasse e vigiasse, que comiam melhor, andavam mais agasalhados e tinham melhor habitação e que podiam produzir mais e melhor. E por isso, no dia em que fez um ano que a tempestade os livrara dos patrões, quando palestravam sobre o caso e suas consequências, o mais velho disse tudo em poucas palavras:
          — Que grandes cavalgaduras que nós éramos!
          Assim dirão os teus iguais, quando se tiverem livrado dos amos, que, longe de serem úteis ou precisos, têm interesses contrários aos teus e aos dos teus irmãos de trabalho.
          Os amos querem pagar de salário o menos possível, para ganhar o mais possível; e vós precisais de vos deixar roubar cada vez menos nos frutos de vosso trabalho  e isso só o conseguis associados, pois reparados, desunidos, nada podeis.
          Os amos têm interesse em haver muitos trabalhadores desunidos e muitos desocupados, para que as soldadas sejam pequenas; e vós precisais de trabalhar todos, e de estar unidos, para não haver quem tenha de aceitar uma côdea por qualquer escasso serviço que apareça.
          Os amos, para vender caro e com lucro, precisam de refrear a produção das coisas, de reter, enceleirar, açambarcar os produtos, e até  de os deixar apodrecer; e vós quereis satisfazer as vossas necessidades. Assim é que há tantas terras incultas, tantas máquinas inativas, tantos materiais desempregados, quando há tanta gente a sustentar, a vestir e a abrigar e tantos braços desocupados ou mal ocupados.
          Vós fareis como os trabalhadores da ilha; mas não podeis, como eles, contar com uma tempestade providencial. A tempestade libertadora tereis de a preparar e fazer vós mesmos.
          Tu e os teus iguais tendes de vos associar desde já, ainda que não seja senão para resistir à constante ganância dos amos, para estudar e defender os vossos interesses, para conhecer bem o vosso trabalho e as vossas necessidades, assim como o melhor modo de arranjar e combinar o primeiro e de satisfazer as segundas.
          E assim, quando tiverdes a força e as capacidades necessárias, com a ajuda indispensável dos vossos irmãos das cidades, passareis a viver sem amos nem mandriões, e a arranjar tudo por vossas mãos e vossa conta.

A Plebe (SP) (nova fase), ano III, nº. 86, (13 abr.1935).

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Contos Anarquistas (diversos autores), Organização, Introdução e Notas de Antonio Arnoni Prado e Francisco Foot Hardman, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Neno Vasco (1878  1920) ou Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos, português de Penafiel, distrito do Porto, formado pela Faculdade de Direito do Liceu, foi advogado, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo e militante anarco-sindicalista; colaborou com o jornal lisboeta O Mundo, a revista A Sementeira, também portuguesa, A Voz do Trabalhador, em São Paulo, tendo sido fundador dos jornais Amigo do Povo, A Terra Livre, e lançado a revista Aurora, periódicos de ideário anarquista; Neno Vasco viveu parte de sua vida e militância no Brasil; bibliografia: A Academia de Coimbra ao Povo Português (1901), Pecado de Simonia (peça teatral, 1907), Anedota em 1 acto (peça teatral, 1911), Geórgias: ao trabalhador rural (1913), Da Porta da Europa — factos e idéias: a questão religiosa, a questão política, a questão econômica 1911 — 1912 (1913), A Concepção Anarquista do Sindicalismo (1920), Greve de inquilinos (farsa teatral em 1 acto, 1923); como tradutor, verteu para a língua portuguesa Élizée Reclus  Evolução, Revolução e Ideal Anarquista (1904) e o hino A Internacional (1909).