____________________
[trecho]
Clara manhã; rutilante1
Ascende o sol no horizonte;
Corre uma aragem flagrante2
Por vale, planície e monte,
Trazendo nas frias asas
Um lindo som de cantigas.
De cima daquelas casas,
Casinhas brancas e amigas,
Sobem fumos3 azulados;
E há pombos pelos telhados.
Cresce o rumor das cantigas...
Surge um farrancho4 de gente
Alegre, farta e contente,
De samburás e de gigas.
Andam colhendo as espigas
Do milharal pardo e seco;
É dali que vem o eco
De tão boas cantigas...
Cantai, cantai, raparigas!
[ . . . ]
[Val de Lírios — 1900]
Notas da edição:
1. rutilante: brilhante
2. fragrante: cheiroso
3. fumos: fumaça
4. farrancho: grupo
* Nota deste Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que,
em B. Lopes: Poesias — Volume 63 da Coleção Nossos
Clássicos, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ, o organizador Andrade Muricy anota o seguinte acerca
do poema "Per Rura": ‘A influência do delicado ruralista Ezequiel Freire [poeta,
1850 — 1891] é nítida neste poema, —
uma das melhores expressões da poesia de sentido regionalista e do naturalismo
brasileiros. Nele está presente, porém com maior singeleza e tom popular mais
acentuado, o mesmo profundo sentimento de envolvente tropicalismo nativo que
inspirou “Alma em Flor”, a obra-prima de perene juventude, de Alberto de
Oliveira [poeta, 1857 — 1937]. Josué Montello indicou em certa passagem de “Per
Rura” uma “presença” de Antonio Nobre [poeta, 1867 — 1900].’
____________________
Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização
de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro
Publicações, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes
(1859 — 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito — RJ, começou a
trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário
público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o
periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio
de Janeiro; obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona
Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900),
Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres,
etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país,
ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o
poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora
tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se
à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.
















