sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

B. Lopes: Per Rura*

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[trecho]

Clara manhã; rutilante1
Ascende o sol no horizonte;
Corre uma aragem flagrante2
Por vale, planície e monte,
Trazendo nas frias asas
Um lindo som de cantigas.

De cima daquelas casas,
Casinhas brancas e amigas,
Sobem fumos3 azulados;
E há pombos pelos telhados.

Cresce o rumor das cantigas...
Surge um farrancho4 de gente
Alegre, farta e contente,
De samburás e de gigas.

Andam colhendo as espigas
Do milharal pardo e seco;
É dali que vem o eco
De tão boas cantigas...

Cantai, cantai, raparigas!

[ . . . ]

[Val de Lírios — 1900]

B. Lopes

Notas da edição:
1. rutilante: brilhante
2. fragrante: cheiroso
3. fumos: fumaça
4. farrancho: grupo
* Nota deste Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que, em B. Lopes: Poesias — Volume 63 da Coleção Nossos Clássicos, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ, o organizador Andrade Muricy anota o seguinte acerca do poema "Per Rura": ‘A influência do delicado ruralista Ezequiel Freire [poeta, 1850 — 1891] é nítida neste poema, — uma das melhores expressões da poesia de sentido regionalista e do naturalismo brasileiros. Nele está presente, porém com maior singeleza e tom popular mais acentuado, o mesmo profundo sentimento de envolvente tropicalismo nativo que inspirou “Alma em Flor”, a obra-prima de perene juventude, de Alberto de Oliveira [poeta, 1857 — 1937]. Josué Montello indicou em certa passagem de “Per Rura” uma “presença” de Antonio Nobre [poeta, 1867 — 1900].
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Shelley: Prometeu Libertado [trecho]

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

[ . . . ]

Ato II  Cena I

Das rajadas do céu, de todas, tu desceste,
Como um espírito, ou um pensamento, faz.
Indesejado o pranto afluir os córneos olhos
E palpitar o desolado coração,
Que devera aprender a repousar: desceste
No berço das tormentas: Primavera, acordas!
Filha de muitos ventos! Tão subitamente
Tu chegas, tal como a recordação de um sonho
Que é triste agora porque foi encantador,
Tal como o gênio ou alegria que se eleva
Como da terra e veste de umas nuvens áureas
O deserto da nossa vida.
A quadra é esta, é este o dia, a hora é esta;
Virias ao raiar do sol, doce irmã minha,
Há muito desejada e tão morosa, vem!
Como vermes de morte arrastam-se os momentos!
O ponto de uma estrela branca ainda tirita
Fundo na luz laranja da manhã crescente,
Além dos montes púrpura: através da fenda
Feita na bruma pelo vento, o lago escuro
Reflete-a; esvai-se agora; brilha novamente,
Como desmaia a vaga, e como os fios ardentes
Da entretecida nuvem se desfazem no ar;
Perdeu-se; e em picos de uma neve como nuvem
Tremula a rósea luz do sol; não ouço a música
Eólia de suas plumas, verdes como o mar,
Abanando a aurora carmesim?

[ . . . ]

Percy Bysshe Shelley

Prometheus Unbound

[ . . . ]

Act II  Scene I

From all the blasts of heaven thou hast descended;
Yes, like a spirit, like a thought, which makes
Unwonted tears throng to the horny eyes,
And beatings haunt the desolated heart,
Which should have learnt repose; thou hast descended
Cradled in tempests; thou dost wake, O Spring!
O child of many winds! As suddenly
Thou comest as the memory of a dream,
Which now is sad because it hath been sweet;
Like genius, or like joy which riseth up
As from the earth, clothing with golden clouds
The desert of our life.
This is the season, this the day, the hour;
At sunrise thou shouldst come, sweet sister mine,
Too long desired, too long delaying, come!
How like death-worms the wingless moments crawl!
The point of one white star is quivering still
Deep in the orange light of widening morn
Beyond the purple mountains; through a chasm
Of wind-divided mist the darker lake
Reflects it: now it wanes: it gleams again
As the waves fade, and as the burning threads
Of woven cloud unravel in pale air:
'T is lost! and through yon peaks of cloud-like snow
The roseate sunlight quivers; hear I not
The Æolian music of her sea-green plumes
Winnowing the crimson dawn?

[ . . . ]
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Poesias de Shelley — Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1995, Coleção Toda Poesia nº 14, Art Editora Ltda., São Paulo — SP; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821) e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Chacal: o poeta que há em mim . . .

 
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o poeta que há em mim
não é como o escrivão que há em ti
funcionário autárquico

o profeta que há em mim
não é como a cartomante que há em ti
cigana fulana

o panfleta que há em mim
não é como o jornalista que há em ti
matéria paga

o pateta que há em mim
não é como o esteta que há em ti
cana a la kant

o poeta que há em mim
é como o voo no homem pressentido

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Chacal, nascido em 1951, carioca, pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, é poeta, cronista, letrista e produtor cultural; literariamente, o poeta, que foi aluno de Comunicação Social da UFRJ, veio à luz com os grupos dos anos 70, denominados Geração Mimeógrafo e Poesia Marginal, e que se esparramavam por Sampa, Rio de Janeiro, Brasília, Bahia, Minas e outras praças; tais grupos se viam esquecidos ou marginalizados pela imprensa, editoras e estudiosos da literatura; Chacal é tido como um dos precursores daquelas gerações; em 1971, em edição mimeografada de cem exemplares, publica seu primeiro livro, Muito Prazer, Ricardo, depois reeditado como Muito Prazer (1997); colaborou com a revista Navilouca, junto aos poetas Waly Salomão e Torquato Neto; escreveu crônicas para os jornais Correio Braziliense, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil, foi letrista parceiro de compositores e músicos Jards Macalé, Lulu Santos, Moraes Moreira; obras: Drops de Abril (1983), Comício de Tudo (crônicas, 1986), Letra Elétrika (1994) Posto Nove (1998), A Vida é curta pra ser pequena (2002), Belvedere (2007), Uma História à margem (romance autobiográfico, 2010), Murundum (2012), Tudo e mais um pouco (2016), Alô, poeta (2016) etc.; o poeta, que também trabalhou com grupos teatrais, escreveu, para eles, Aquela Coisa Toda, Recordações do Futuro ...

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Petrarca: Triunfo da morte [trecho]

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trecho do primeiro capítulo

[traduzido por Camões]

Aquela bela dama1 e gloriosa,
que hoje é nu [e]spírito e pouca terra,
e foi alta coluna e valorosa,

tornava com grande honra de sua guerra,
deixando já vencido o grande imigo
que com seu doce fogo o mundo aterra,

não com mais armas que respeito altivo,
honestidade em rosto e pensamento,
coração casto e de virtude amigo.

Grande espanto era ver tal vencimento,
as armas d'Amor rotas e desfeitas,
e os vencidos dele em mor tormento.

A bela dama e as outras eleitas
se vinham gloriando da vitória,
em bela esquadra juntas e restreitas.

Poucas eram, que rara é vera glória,
mas di[g]nas, da primeira à derradeira,
de claríssimo poema e de história.

Traziam, por insígnia, na bandeira
em campo verde um branco armelino
d'ouro fino, e topazes a coleira.

Não humano, certamente, mas divino
era o seu doce andar, e o que diziam:
ditosa é a que na[s]ce a tal destino!

Estrelas e sol em meio pareciam,
em cujo resplendor o seu consiste;
de rosas coroadas todas iam.

Como nobre coração que honra aquiste,
cada uma em sua virtude se alegra,
quando outra insígnia vi, escura e triste;

e uma fera dona em veste negra,
com tal furor qual eu não sei se atrás,
no tempo dos gigantes, fosse em Flegra2,

chamou e disse: “Donzela, tu que vás
de beleza e virtude alterada,
de tua vida o termo não saberás?

Eu sou a ‘importuna’, a ‘celerada’
chamada de vós, gente surda e cega
a quem a morte vem antecipada.

Eu sou a que matei a gente grega
e troiana, e no último os romãos,
que todos minha fouce corta e sega.

Não deixo povos gentios nem cristãos,
chego quando por mim menos se espera,
atalho mil pensamentos, todos vãos.

[ . . . ]

Francesco Petrarca

Trionfo della morte [Triumphus Mortis]

[trecho do] Capitolo Primo

Quella leggiadra e gloriosa donna
ch'è oggi ignudo spirto e poca terra
e fu già di valor alta colonna,

tornava con onor da la sua guerra,
allegra, avendo vinto il gran nemico,
che con suo' ingegni tutto 'l mondo atterra,

non con altr'arme che col cor pudico
e d'un bel viso e de' pensieri schivi,
d'un parlar saggio e d'onestate amico.

Era miracol novo a veder ivi
rotte l'arme d'Amore, arco e saette,
e tal morti da lui, tal presi e vivi.

La bella donna e le compagne elette
tornando da la nobile vittoria
in un bel drappelletto ivan ristrette;

poche eran, perché rara è vera gloria,
ma ciascuna per sé parea ben degna
di poema chiarissimo e d'istoria;

era la lor vittoriosa insegna
in campo verde un candido ermellino,
ch'oro fino e topazi al collo tegna;

non uman veramente, ma divino
lor andar era, e lor sante parole:
beato s'è qual nasce a tal destino!

Stelle chiare pareano, in mezzo un sole
che tutte ornava e non togliea lor vista,
di rose incoronate e di viole.

E come gentil cor onore acquista,
così venìa quella brigata allegra,
quando vidi un'insegna oscura e trista;

ed una donna involta in veste negra,
con un furor qual io non so se mai
al tempo de' giganti fusse a Flegra,

si mosse e disse: “O tu, donna, che vai
di gioventute e di bellezze altera,
e di tua vita il termine non sai,

io son colei che sì importuna e fera
chiamata son da voi, e sorda e cieca
gente, a cui si fa notte innanzi sera;

io ò condotto al fin la gente greca
e la troiana, a l'ultimo i Romani,
con la mia spada la qual punge e seca,

e popoli altri barbareschi e strani;
e giugnendo quand'altri non m'aspetta
ò interrotti infiniti penser vani.

[ . . . ]

Notas da edição:
1. aquela bela dama: Laura, amada de Petrarca.
2. Flegra: vale na Tessália em que Júpiter enterrou alguns dos gigantes que tentavam escalar o Olimpo.
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Petrarca: Triunfos — edição bilíngue italiano-português, Introdução de Pedro Heise e Tradução de Camões, 2006, Editora Hedra, São Paulo — SP; Francesco Petrarca (1304 — 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Castro Alves: Horas do martírio (Dama negra)

 
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De dia na soidão seguir-te os passos,
De noite vigiar-te à luz da alâmpada,
Se quem amas, e a sombra com quem sonhas
Eis minha eternidade!
Maciel Monteiro.

Quando longe de ti eu vegeto
Nestas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes
Marca séc’los, s’esquece de andar.
Fito o céu é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra é uma várzea sem flores.
O universo é um deserto de dores
A madona não brilha no altar.

Então lembro os momentos passados,
Então lembro tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas
Uma a uma desfia na mão.
Como a virgem, que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos, que deste-me um dia,
Que rolaram no meu coração.

Me recordo o lugar onde estavas.
O rugir de teu lindo vestido,
Como as asas de um anjo caído
Quando roçam nas flores do val...
Vejo ainda os teus olhos quebrados,
Este olhar de tão fúlgidos raios,
Este olhar que me mata em desmaios,
Doce, terno, amoroso, fatal...

Tuas frases... são garças, que voam,
É meu peito o seu cândido ninho...
Teus amores a flor do caminho,
Que eu apanho, viajante do amor.
Quer os cardos me firam as plantas,
Quer os ventos me açoitem a fronte,
Dou-lhe orvalho do pranto na fonte,
Dou-lhe sol do meu peito no ardor.

Oh! se Deus algum dia orgulhoso
O seu livro infinito volvesse,
E nas letras de estrelas relesse
Seu passado nas folhas azuis
Não teria o orgulho que tenho,
Quando o abismo dest'alma sondando,
No infinito de amor me abismando
Eu me engolfo num pego de luz...

Teu amor... teu amor me engrandece,
Dá-me forças nos transes da vida,
E a borrasca fatal, insofrida,
Faz-me dó, faz-me rir de desdém...
Se eu cair, rolarei no teu seio...
Se eu sofrer, ouvirei o teu canto!
Sentirei nos meus dias de pranto
Que inda longe de mim vela alguém!

Meu amor... Meu amor é um delírio...
É volúpia, que abrasa e consome
Meu amor é uma mescla sem nome.
És um anjo, e minh’alma um altar.
Oh! meu Deus! manda ao tempo, que fuja,
Que deslizem em fio os instantes,
E o ponteiro, que passa os quadrantes,
Marque a hora em que a possa beijar.


Convento de S. Francisco no Recife,
julho de 1866.
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Magalhães de Azeredo: O Beijo

 
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Cousa tão simples, afinal, o beijo!
Simples como um olhar, como um aceno;
Mas que precioso vinho benfazejo
Nele se bebe ou que mortal veneno!

Quanto ele diz, em rápido lampejo!...
Leves carícias de um amor sereno,
Insistentes reclamos do desejo,
Triunfante expressão de gosto pleno...

E ora o sangue nas veias eletriza,
Ora as almas eleva e diviniza,
Num sagrado esplendor de preces mudas...

Beijo de mãe, beijo de irmã confiante,
Beijo faminto e cálido de amante...
Mas há também o beijo vil da Judas!

(Procelárias — 1898, Porto: Empresa
Literaria e Typographica, p.47.)

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Magalhães de Azeredo — Série Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto Portugal, complementados no Colégio São Luís, em Itu SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, entre outros veículos informativos; obras: Alma Primitiva (contos, 1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias (contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903), Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921), Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936) etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano, em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Oscar Wilde: O Mestre

 
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[traduzido por Dilermando Duarte Cox]

          Quando as trevas começaram a cair sobre a terra, José de Arimathéa acendeu uma tocha de pinheiro e desceu da colina para o vale. Tinha o que fazer em casa. E, ajoelhando-se sobre as pedras do Vale da Desolação, viu um jovem que estava nu e chorava. Seus cabelos eram da cor do mel e o corpo tão branco como uma flor; mas ferira o corpo nos espinhos e sobre os cabelos pusera cinza à guisa de coroa.
          E José, que possuía grandes virtudes, disse ao jovem que se encontrava nu e chorava:
           Não me admira que o teu sentimento seja tão grande, porque, realmente, Ele foi um homem justo.
          E o jovem respondeu:
           Não é por Ele que eu choro, mas por mim mesmo. Eu também mudei a água em vinho, curei o leproso e restituí a vista ao cego. Andei sobre as águas e das profundezas dos sepulcros expulsei os demônios. Alimentei os famintos no deserto onde não havia comida; ergui os mortos dos leitos exíguos e à minha ordem, diante de imensa multidão, uma figueira seca novamente frutificou. Tudo que esse homem realizou eu também realizei e, todavia, não me crucificaram.

Oscar Wilde

The Master

          Now when the darkness came over the earth Joseph of Arimathea, having lighted a torch of pinewood, passed down from the hill into the valley. For he had business in his own home.
          And kneeling on the flint stones of the Valley of Desolation he saw a young man who was naked and weeping. His hair was the colour of honey, and his body was as a white flower, but he had wounded his body with thorns and on his hair had he set ashes as a crown.
          And he who had great possessions said to the young man who was naked and weeping, 'I do not wonder that your sorrow is so great, for surely He was a just man.'
          And the young man answered, 'It is not for Him that I am weeping, but for myself. I too have changed water into wine, and I have healed the leper and given sight to the blind. I have walked upon the waters, and from the dwellers in the tombs I have cast out devils. I have fed the hungry in the desert where there was no food, and I have raised the dead from their narrow houses, and at my bidding, and before a great multitude, of people, a barren fig-tree withered away. All things that this man has done I have done also. And yet they not crucified me.”
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Oscar Wilde: Poemas em Prosa e Salomé, Tradução de Dilermando Duarte Cox, Introdução de Walmir Ayala e Ilustrações de Aubrey Beardsley, Clássicos de Bolso Ediouro 90368, sem data, Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro — RJ; Oscar Wilde (1854 1900), irlandês de Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres; em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência, teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; obras: Poems (coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888), A House of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Balad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.

Lúcio de Mendonça: XIII — A propriedade (no cemitério)

 
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[Visões do abismo]

Aqui jaz o calor da juventude,
As generosas ambições de glória,
O amor a luz da vida transitória,
O entusiasmo e os sonhos e a virtude...

Tudo enterrou-se aqui: o áspero e rude
Egoísmo, e o orgulho e a ilusória
Esperança... Aqui jaz toda uma história
Encadernada em cada um ataúde.

Neste fúnebre pouso derradeiro
A eternidade no silêncio fala...
Mas ainda tem altares o dinheiro,

Que nem a Morte a humanidade iguala:
Para o rico o epitáfio lisonjeiro,
E para o pobre o anônimo da vala!

(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo — atual USP do Largo de São Francisco —, foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha —  MG;  obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Johann Wolfgang von Goethe: Canção do mignon

 
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[traduzido por João Ribeiro]

Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro;
No céu azul perpassa a brisa num gemido,
A murta nem se move e nem palpita o louro...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!

A casa, sabes tu? em luzes brilha toda,
E a sala e o quarto. O teto em colunas descansa.
Olham, como a dizer-me, as estátuas em roda:
 Que fizeram de ti, ó mísera criança!
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu senhor, meu bem!

Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!

Goethe

Mignon *

Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,
Im dunkeln Laub die Goldorangen glühn,
Ein sanfter Wind vom blauen Himmel weht,
Die Myrte still und hoch der Lorbeer steht,
Kennst du es wohl?  Dahin! Dahin
Möcht ich mit dir, o mein Geliebter, ziehn.

Kennst du das Haus? Auf Säulen ruht sein Dach,
Es glänzt der Saal, es schimmert das Gemach,
Und Marmorbilder stehn und sehn mich an:
Was hat man dir, du armes Kind, getan?
Kennst du es wohl?  Dahin! Dahin
Möcht ich mit dir, o mein Beschützer, ziehn.

Kennst du den Berg und seinen Wolkensteg?
Das Maultier sucht im Nebel seinen Weg,
In Höhlen wohnt der Drachen alte Brut;
Es stürzt der Fels und über ihn die Flut,
Kennst du ihn wohl?  Dahin! Dahin
Geht unser Weg! O Vater, lass uns ziehn!

* Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que, em algumas pesquisas googleanas, também encontrou como título original deste poema tão só o seu primeiro verso: Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.