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... seria mais seguro para mim não partir,
sem primeiro me ter liberdade deste
escrúpulo, compondo poemas
e obedecendo ao sonho.
Platão, Fédon
A Ángel Crespo
Entrei na morada que me competia.
Entre seres sociáveis e pacíficos:
pertenço, como desejei, a um núcleo
de abelhas. Retomarei a antiga
forma, talvez dê origem a um homem
temperante. Vi a parte ínfima
do Tártaro, lobos e abutres
infindamente em pedras desertas.
Breve nelas estarão os onze
magistrados dos Atenienses.
No fim da vida compus poemas
e com aquela beberagem libei a Apolo.
Ainda o não contemplei. Sem repugnância
ousei crer na subterrânea vida.
Platão, não falaste da entrada nas plantas
da alma humana: aí se acolhem,
purificados, os mais valorosos
e ainda as nuvens decorrentes
(por isso parecem dissolúveis
nas árvores emergentes da floresta).
Abelha, prossigo na mesma curiosidade:
indago a natureza do pólen,
partilho como obreiro do que germina
e perfuma e frutifica
por obediência a um mandato solar,
sou insaciável de seiva, copulo
equânime, cada flor,
componho doçura não oprimente.
Nunca usarei este aguilhão
cuja utilidade agasta e maldigo.
Lembrai-vos do galo
que todos devemos a Asclépio
e do guarda que me deu a taça
que bebi sem enfado, da sua generosidade
vertendo por mim lágrimas.
Dizei-lhe que me orgulho da minha morte.
Confio em que alguém ainda me exceda,
os mártires sejam inumeráveis
a ponto de transformarem o mundo, e eu possa,
transmigrando, obedecer de novo ao sonho.
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Poesia portuguesa
contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota
inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno &
Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Gabriel Maranca Osório de
Castro (1933 — 2021), português de Setúbal, formado em Direito e em Ciências
Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi poeta,
ensaísta e advogado; desde 1954 colaborou em revistas literárias, fundou a
revista Anteu (1972) e, no mesmo ano, estreou com seu livro A Raiz Afetuosa;
colaborou regularmente com o J.L. — Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), foi
diretor da Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores
Juristas e, como advogado, fundou e dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e Ordenamento
do Território; suas obras: a já citada A Raiz Afetuosa (1972), A Ignorância da
Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Antologia de um Emigrante do Paraíso
(1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva, e o Mais (1983), Planetário e Zoo dos
Homens (1990), Casa das Sementes (2006), A Luz Fraterna (2009), todos de
poesia, e A Mitologia Fadista (ensaios, 1974); tem obras traduzidas e
publicadas no Brasil, Espanha, França, Bélgica, Itália, Alemanha, Romênia,
Croácia, Estados Unidos ..., além de poemas em revistas francesas, inglesas e
catalãs; pertenceu à Academia de Ciências de Lisboa; recebeu premiações: Prêmio
Literário Município de Lisboa (1982), Prêmio P.E.N. Clube Português de Poesia
(1991), Prêmio Autores (2010); o poeta António Osório foi também fazendeiro na
Aldeia de Irmãos, Azeitão.