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sábado, 28 de junho de 2025

Antônio Osório: Sócrates

 
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... seria mais seguro para mim não partir,
sem primeiro me ter liberdade deste
escrúpulo, compondo poemas
e obedecendo ao sonho.
Platão, Fédon

A Ángel Crespo

Entrei na morada que me competia.
Entre seres sociáveis e pacíficos:
pertenço, como desejei, a um núcleo
de abelhas. Retomarei a antiga
forma, talvez dê origem a um homem
temperante. Vi a parte ínfima
do Tártaro, lobos e abutres
infindamente em pedras desertas.
Breve nelas estarão os onze
magistrados dos Atenienses.
No fim da vida compus poemas
e com aquela beberagem libei a Apolo.
Ainda o não contemplei. Sem repugnância
ousei crer na subterrânea vida.
Platão, não falaste da entrada nas plantas
da alma humana: aí se acolhem,
purificados, os mais valorosos
e ainda as nuvens decorrentes
(por isso parecem dissolúveis
nas árvores emergentes da floresta).

Abelha, prossigo na mesma curiosidade:
indago a natureza do pólen,
partilho como obreiro do que germina
e perfuma e frutifica
por obediência a um mandato solar,
sou insaciável de seiva, copulo
equânime, cada flor,
componho doçura não oprimente.
Nunca usarei este aguilhão
cuja utilidade agasta e maldigo.
Lembrai-vos do galo
que todos devemos a Asclépio
e do guarda que me deu a taça
que bebi sem enfado, da sua generosidade
vertendo por mim lágrimas.
Dizei-lhe que me orgulho da minha morte.
Confio em que alguém ainda me exceda,
os mártires sejam inumeráveis
a ponto de transformarem o mundo, e eu possa,
transmigrando, obedecer de novo ao sonho.

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Gabriel Maranca Osório de Castro (1933 2021), português de Setúbal, formado em Direito e em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi poeta, ensaísta e advogado; desde 1954 colaborou em revistas literárias, fundou a revista Anteu (1972) e, no mesmo ano, estreou com seu livro A Raiz Afetuosa; colaborou regularmente com o J.L. — Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), foi diretor da Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores Juristas e, como advogado, fundou e dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e Ordenamento do Território; suas obras: a já citada A Raiz Afetuosa (1972), A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Antologia de um Emigrante do Paraíso (1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva, e o Mais (1983), Planetário e Zoo dos Homens (1990), Casa das Sementes (2006), A Luz Fraterna (2009), todos de poesia, e A Mitologia Fadista (ensaios, 1974); tem obras traduzidas e publicadas no Brasil, Espanha, França, Bélgica, Itália, Alemanha, Romênia, Croácia, Estados Unidos ..., além de poemas em revistas francesas, inglesas e catalãs; pertenceu à Academia de Ciências de Lisboa; recebeu premiações: Prêmio Literário Município de Lisboa (1982), Prêmio P.E.N. Clube Português de Poesia (1991), Prêmio Autores (2010); o poeta António Osório foi também fazendeiro na Aldeia de Irmãos, Azeitão.

domingo, 6 de outubro de 2024

Antônio Osório: Casa das sementes

 
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É triste não possuir uma casa de sementes.
Não adiante amar essas partículas ali ociosas,
nem desejar que nidifiquem sem granizo
e irrompam como a chama de uma vela.

É triste pagar um preço pelo qual há-de nascer,
que o bersim perca a cor alazã penetrando na terra
e o trevo da Pérsia alimente a boca das reses.

É triste que não recusem essa densa, pródiga,
obstinada servidão, a vitalidade apaixonada pelo sol,
e não façam, como um camponês, as suas contas,
exigindo a Deus e aos homens o salário da maquinação.

(1993)

(A Ignorância da Morte — 1978)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Gabriel Maranca Osório de Castro (1933 2021), português de Setúbal, formado em Direito e em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi poeta, ensaísta e advogado; desde 1954 colaborou em revistas literárias, fundou a revista Anteu (1972) e, no mesmo ano, estreou com seu livro A Raiz Afetuosa; colaborou regularmente com o J.L. — Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), foi diretor da Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores Juristas e, como advogado, fundou e dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e Ordenamento do Território; suas obras: a já citada A Raiz Afetuosa (1972), A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Antologia de um Emigrante do Paraíso (1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva, e o Mais (1983), Planetário e Zoo dos Homens (1990), Casa das Sementes (2006), A Luz Fraterna (2009), todos de poesia, e A Mitologia Fadista (ensaios, 1974); tem obras traduzidas e publicadas no Brasil, Espanha, França, Bélgica, Itália, Alemanha, Romênia, Croácia, Estados Unidos ..., além de poemas em revistas francesas, inglesas e catalãs; pertenceu à Academia de Ciências de Lisboa; recebeu premiações: Prêmio Literário Município de Lisboa (1982), Prêmio P.E.N. Clube Português de Poesia (1991), Prêmio Autores (2010); o poeta António Osório foi também fazendeiro na Aldeia de Irmãos, Azeitão.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Antônio Osório: Fazendeiro

 
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à Maria José e ao Jan

Fazendeiro de aquedutos,
surribas,
eucaliptos à procura de água.

Fazendeiro vivente
de aveias, alcachofras,
batatas, beringelas,
sabendo como crescem
e são prestáveis.

Fazendeiro com bacelo
e qualquer coisa de eterno,
o vinho, bornal dos homens
e das vacas quando parem.

Fazendeiro com coelhos, ovos,
patos, novilhos, que alimenta
e trata como filhos
de outrem, a seu cargo.

Fazendeiro com casal
pertencente a ratazanas, pombos,
cachorros,
os ossos das estações.

Fazendeiro com sótão
de aranhas, cemitério
de lanternas, enxadas,
remoções de arreios, espantalhos,

a adega com vazios tonéis,
garrafas revestidas a pó
e dedadas, póstumas algumas,
almudes de mosto velho,
agora casa de palha, alfaias
e pardais.

Fazendeiro de romãs
que se abrem no dia de finados,
burocrata de nêsperas,
escrevendo maçã como ancas,
celeiros.

(A Ignorância da Morte — 1978)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Gabriel Maranca Osório de Castro (1933 2021), português de Setúbal, formado em Direito e em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi poeta, ensaísta e advogado; desde 1954 colaborou em revistas literárias, fundou a revista Anteu (1972) e, no mesmo ano, estreou com seu livro A Raiz Afetuosa; colaborou regularmente com o J.L. — Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), foi diretor da Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores Juristas e, como advogado, fundou e dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e Ordenamento do Território; suas obras: a já citada A Raiz Afetuosa (1972), A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Antologia de um Emigrante do Paraíso (1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva, e o Mais (1983), Planetário e Zoo dos Homens (1990), Casa das Sementes (2006), A Luz Fraterna (2009), todos de poesia, e A Mitologia Fadista (ensaios, 1974); tem obras traduzidas e publicadas no Brasil, Espanha, França, Bélgica, Itália, Alemanha, Romênia, Croácia, Estados Unidos ..., além de poemas em revistas francesas, inglesas e catalãs; pertenceu à Academia de Ciências de Lisboa; recebeu premiações: Prêmio Literário Município de Lisboa (1982), Prêmio P.E.N. Clube Português de Poesia (1991), Prêmio Autores (2010); o poeta António Osório foi também fazendeiro na Aldeia de Irmãos, Azeitão.