terça-feira, 30 de abril de 2019

Lêdo Ivo: Noturno

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Bendito é o crepúsculo!
Permitem que andem
no Passeio Público
anões e corcundas,
os seres bizarros
que o início da noite
vomita no mundo.

Quando a noite cai
não se sentirá
um estranho no ninho
quem fala sozinho
e abre sua boca
para o sonho rouco
dos mansos e loucos.

Que sejam benditos
todos os que passam
pela Cinelândia:
escroques e putas,
bêbados, lunáticos,
e os que, de repente,
somem entre as árvores.

Os pivetes seguem
as sombras que passam.
São feras saídas
famintas das jaulas.
Noite compulsiva,
sudário que cobre
veados e lésbicas.

Noite transversal
da porta de acrílico
dos hotéis imundos
e das espeluncas.
O desejo crava
nas carnes suadas
as garras aduncas.

Que seja bendita,
noite das cadelas
que não se saciam,
covil do assassino,
pátria do mendigo
que busca o banquete
das latas de lixo.

Noite das insônias,
dos sonhos nefastos
e dos pederastas
que rondam as estátuas
desnudas das praças,
branca e enluarada
noite das desgraças.

Ó noite balsâmica
que embriaga os dormentes
e irrita os fanchonos,
foz das solidões,
feira do abandono,
noite dos fedores
e alucinações.

Pelo teus atalhos
por tralhas e malhas
andam os que sabem
que a vida é um fogo
só de maravalhas,
carta que termina
fora do baralho.

Noite putrefata
das valas e esgotos
e coitos perversos,
das pias que pingam
nas escuridões,
noite dos ladrões
e das maresias.

Noite dos suicidas
e dos derrotados,
noite de quem perde
no jogo da vida.
Que a escuridão
Para sempre esconda
Todos os vencidos.

Tenha Deus piedade
dos velhos sozinhos
que sonham sentados
nos bancos das praças.
Seus sonhos são moscas
que pousam alegres
na merda da vida.

Noite de amoníaco,
dos brancos ladrilhos
dos mictórios públicos.
Numa lanchonete
uma velha puta
cercada de espelhos
mastiga uma pizza.

Noite dos drogados,
da viagem negra
por entre relâmpagos
e mares de mármore
até a aduana
onde a morte mira
com o olhar dos clones.

Misericordioso
escuro que apaga
as manchas do mundo.
Na igreja fechada
Deus está sozinho
como um vagabundo
num banco de praça.

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Lêdo Ivo: Crepúsculo Civil — Poesia, 1990, Editora Record, São Paulo — SP; Lêdo Ivo (1924  2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito  hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945),  Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira  (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio  apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Carlos de Laet: Soneto futurista

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Noite. Calor. Concerto nos telhados.
Cubos esferoidais. Gatas e gatos.
Vênus. Graças. Aranhas. Carrapatos.
Melindrosas. Poetas assanhados.

Rabanetes azuis. Sóis encarnados.
Comida no alguidar *. Cuspo nos pratos.
Três rondas a cavalo. Mil boatos.
Prosa sesquipedal. Tropos safados.

Avenida deserta. Bondes. Grama.
Chopes Fidalga. Leite. Pão de ló.
Carros de irrigação. Salpicos. Lama.

Vacas magras. Esfinge. Triste. Só.
Tumor mole. São Paulo. Telegrama.
Dois secretas. Cubismo. Xilindró.

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* Nota de Idel Becker: alguidar: vaso de barro e metal, baixo, em forma de cone truncado e invertido.
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (1847 1927), nascido no Rio de Janeiro, foi polemista, epigramista, humorista, além de professor, filólogo, homem de imprensa e poeta; bacharel em Letras e formado em Engenharia pela Escola Central (atual Politécnica UFRJ), não seguiu carreira e voltou-se ao magistério e ao jornalismo; trabalhou em diversos periódicos (Diário do Rio, Jornal do Commercio) e também como colaborador e/ou redator na Tribuna Liberal, no Jornal do Brasil, no Jornal do Commercio de São Paulo e na revista Atlântida, nos quais deixou uma vasta produção sobre arte, história, literatura, crítica de poesia e crítica de costumes; escreveu e publicou Poesias (1873), Em Minas (1894), Antologia Nacional (em colaboração com Fausto Barreto, 1895), A Descoberta do Brasil (1900), Heresia Protestante (polêmica com o pastor Álvaro Reis, 1907), e outros títulos; opôs-se ao movimento nascido em São Paulo com a Semana da Arte Moderna de 1922, ironizando e combatendo o Modernismo.

domingo, 28 de abril de 2019

José Oiticica: A Saudação

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Irmãos, eu vos saúdo! Embora presos,
Ameaçados, malditos, sem futuro,
Temos, em nossos braços indefesos,
Asas de anjo e tendões de palinuro.

Estes focos azuis em nós acesos
 Luz da grande Cidade que procuro 
Hão de arder ante os sátrapas surpresos,
Quando for Lei o que hoje é sonho puro.

 Guerreiros da Anarquia  os sofrimentos
São para nós auréola e honra sublime,
E mais nos honram quanto mais violentos.

Tenhamos por bem-vindas nossas dores,
Que a dor aos homens justos não oprime
E torna os mais humildes superiores.

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José Oiticica: Da anarquia à anarcopoesia — Maria Aparecida Munhoz de Omena, Apresentação de Diva Cardoso de Camargo, 2010, Annablume Editora, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 —  1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através de A Lanterna, SpartacusA PlebeLivre Pensador, e da revista A Vida; bibliografia: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Fonte Perene (sonetos, 1954), Roteiro de Fonética FisiológicaTécnica do Verso e Dicção (1955) e outros títulos.

sábado, 27 de abril de 2019

Hans Magnus Enzensberger: A classe dos filósofos

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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Que somos inteligentes, é verdade. Mas, longe
de transformar o mundo, tiramos no palco
coelhos do nosso cérebro, coelhos e pombos,
bandos de pombos brancos como a neve, que cagam
sem parar em cima dos livros. Que a razão seja razão
e não razão, para sacar isso,
a gente não precisa ser Hegel; para tanto basta
uma olhadela no espelho de bolso. Este nos mostra a nós
em casacões azuis, flutuantes, bordados
com estrelas prateadas e nas cabeças
chapéus pontiagudos. Reunimo-nos, no porão,
onde estão os arquivos mortos, para um congresso sobre Hegel,
e vamos ao trabalho. Abanamos
pareceres, pêndulos, pesquisas,
fazemos moverem-se as mesas, perguntamos:
Que grau de realidade tem a realidade? Malicioso,
Hegel sorri. Pintamos-lhe um bigode.
Já se parece com Stalin. O Congresso
dança. Por toda parte nenhum vulcão. Discretos,
os guardas estão de guarda. Tudo tranquilo,
nosso aparelho psíquico faz sair, como O cacete da mochila
dos irmãos Grimm, frases que acertam, e nós nos dizemos:
dentro de cada tira brutal há, sim,
um amigo compreensivo que dá proteção,
dentro do qual há um tira brutal. Abracadabra.
À guisa de um enorme lenço, desdobramos
a Teoria, enquanto diante do seminário, feito um bunker,
aguardam, modestos, os senhores de gabardina.
Fumam, usam pouco as armas de serviço,
e cuidam dos cargos oficiais, das flores de papel,
e da sujeira dos pombos que cobre tudo, branca como a neve.

(O afundamento do Titanic)

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Hans Magnus Enzensberger

Fachschaft Philosophie

Dass wir gescheit sind, ist wahr. Aber weit entfernt,
die Welt zu verändern, ziehen wir auf dem Podium
Kaninchen aus unserm Gehirn, Kaninchen und Tauben,
Schwärme von schneeweissen Tauben, die unverwandt
auf die Bücher kacken. Dass Vernunft Vernunft ist
und nicht Vernunft, um das zu kapieren,
braucht man nicht Hegel zu sein, dazu genügt
ein Blick in den Taschenspiegel. Er zeigt uns
in wallenden blauen Mäntelchen, bestickt
mit silbernen Sternen, und auf dem Kopf
einen spitzen Hut. Im Keller versammeln wir uns,
wo die Karteileichen liegen, zum Hegelkongress,
packen unsre Kristallkugeln und Horoskope aus
und machen uns an die Arbeit. Gutachten
schwenken wir, Pendel, Forschungsberichte,
wir lassen die Tische rücken, wir fragen:
Wie wirklich ist das, was wirklich ist? Schadenfroh
lächelt Hegel. Wir malen ihm einen Schnurrbart an.
Schon sieht er wie Stalin aus. Der Kongress
tanzt. Weit und breit kein Vulkan. Unauffällig
stehen die Posten Posten. In aller Ruhe wirft,
Knüppel aus dem Sack, unser psychischer Apparat
treffende Sätze aus, und wir sagen uns:
In jedem brutalen Bullen steckt doch
ein verständnisvoller Helfer und Freund,
in dem ein brutaler Bulle steckt. Simsalabim!
Wie ein enormes Taschentuch entfalten wir
die Theorie, während vor dem verbunkerten Seminar
bescheiden die Herren im Trenchcoat warten.
Sie rauchen, machen kaum Gebrauch von der Dienstwaffe,
und bewachen die Planstellen, die Papierblumen
und den schneeweiss alles bedeckenden Taubendreck.

(Der Untergang der Titanic)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929, alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, é poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; bibliografia: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991) Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também faz uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Lisindo Coppoli: Exportação

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Grita-se:  Produzir para exportar;
Não mais temos divisas! A Nação
Precisa incrementar a exportação
Para poder viver e prosperar. 

Calma! Não há razão para gritar;
Nós exportamos muito, como não!
Mas não é mais o mísero algodão
Nem o cacau ou coisa similar.

Ministros, Deputados, Senadores
É o que nós exportamos. Não há dia
Em que não zarpe algum desses senhores.

As lindas asas como pombas soltam
Cruzando o mar em busca da alegria,
E fazem bem! O diabo é que eles voltam...

Setembro  1952
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Política em versos — Sonetos Humorísticos de Lisindo Coppoli, Apresentação de Aldo Della Nina e capa do caricaturista Manolo, 1954, Livraria Editora Antonio de Carvalho, São Paulo — SP; acerca do autor do Política em versos, a página de Antonio Lisboa Carvalho de Miranda (www.antoniomiranda.com.br), biblioteconomista, professor, pesquisador, escritor e poeta, nos informa que Lisindo Coppoli, poeta, humorista e parodista, escreveu e publicou o livro ora apresentado; o aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa acrescenta que o poeta humorista também traduziu poemas-fábulas de Trilussa, publicando Cento e uma fábulas de Trilussa — tradução; fica o agradecimento a quem se aprofundar a respeito e quiser repartir com o blogue.

Georg Heym: Cabeça empinada, lá vem ele . . .

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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Cabeça empinada, lá vem ele por sobre os telhados
Arrastando seus cabelos amarelos,
O feiticeiro quieto, subindo para os aposentos do céu
Pelo sinuoso atalho de flores bem estrelado.

Embaixo, todos os animais na floresta e nas brenhas
Têm as cabeças limpas e penteadas,
Cantando o coral lunar. Mas as crianças,
De camisões brancos, ajoelham-se nas camas.

O mar infinito de minh’alma
Baixa devagar em suave maré.
Sou todo verde por dentro. Vou desaparecendo
Como um balão de vidro.

(1911)

Georg Heym

Spitzköpfig kommt er...

Spitzköpfig kommt er über die Dächer hoch
Und schleppt seine gelben Haare nach,
Der Zauberer, der still in die Himmelszimmer steigt
In vieler Gestirne gewundenem Blumenpfad.

Alle Tiere unten im Wald und Gestrüpp
Liegen mit Häuptern sauber gekämmt,
Singend den Mond-Choral. Aber die Kinder
Knien in den Bettchen in weißem Hemd.

Meiner Seele unendliche See
Ebbet langsam in sanfter Flut.
Ganz grün bin ich innen. Ich schwinde hinaus
Wie ein gläserner Luftballon.

(1911)
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Poesia Expressionista Alemã: uma antologia, Organização e Tradução de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue ilustrada, 2000, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Georg Heym (1887 — 1912), alemão de Hirschberg, Baixa Silésia (hoje região pertencente à Polônia), estudou no Liceu de Neuruppin, em Brandemburgo, cursou Direito em Würzburg e Berlim, foi escritor e poeta; em 1910, em Berlim, passou a ter contato com o recém fundado Der Neue Club (Novo Clube), um círculo literário que se reunia no recém fundado Neopathetisches Cabaret e, ali, Georg Heym e outros promissores poetas, compartilhavam do mesmo sentimento rebelde contra a então cultura contemporânea e deixavam aflorar o desejo de agitação política e estética; publicou seu primeiro poema no Herold e, depois, no Demokrat; seus textos registravam a cidade dos miseráveis, doentes e pedintes, dos hospitais abarrotados, das vielas de fome e miséria, das crianças maltratadas e negligenciadas, o expondo como um visionário do terror e do grotesco, e o tornavam próximo a Poe e a Baudelaire; o poeta morreu afogado no rio Havel, ainda jovem; teve um primeiro e único livro editado em vida, Der ewige Tag (O dia eterno, poesia, 1911); George Heym escreveu Der Athener Ausfahrt (drama, 1907), Der Feldzug nach Sizilien (drama, 1907/10) Spartacus (drama, 1908), Versuch einer neuen Religion (ensaio, 1909), Atalanta oder die Angst (drama, 1910), Dissertation über den Freiherrn von Stein (versos escolhidos, 1911), Der Dieb (romance, 1911/13), Über Genie und Staat (ensaio, 1912), Zu den Wahlen (ensaio, 1912), Umbra vitae (1912), Gedichte aus dem Nachlaß (poesia) Tagebücher (diários)...; editorialmente ignorado por décadas, as companhias passaram a vê-lo e a editá-lo em grande escala, e o poeta foi reabilitado e reconhecido pela intelectualidade e crítica alemãs como o autor de obras primas do nihilismo literário deste século.