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Bendito é
o crepúsculo!
Permitem
que andem
no
Passeio Público
anões e
corcundas,
os seres
bizarros
que o
início da noite
vomita no
mundo.
Quando a
noite cai
não se
sentirá
um
estranho no ninho
quem fala
sozinho
e abre
sua boca
para o
sonho rouco
dos
mansos e loucos.
Que sejam
benditos
todos os
que passam
pela
Cinelândia:
escroques
e putas,
bêbados,
lunáticos,
e os que,
de repente,
somem
entre as árvores.
Os
pivetes seguem
as
sombras que passam.
São feras
saídas
famintas
das jaulas.
Noite
compulsiva,
sudário
que cobre
veados e
lésbicas.
Noite
transversal
da porta
de acrílico
dos
hotéis imundos
e das
espeluncas.
O desejo
crava
nas carnes
suadas
as garras
aduncas.
Que seja
bendita,
noite das
cadelas
que não
se saciam,
covil do
assassino,
pátria do
mendigo
que busca
o banquete
das latas
de lixo.
Noite das
insônias,
dos
sonhos nefastos
e dos
pederastas
que
rondam as estátuas
desnudas
das praças,
branca e
enluarada
noite das
desgraças.
Ó noite
balsâmica
que
embriaga os dormentes
e irrita
os fanchonos,
foz das
solidões,
feira do
abandono,
noite dos
fedores
e
alucinações.
Pelo teus
atalhos
por
tralhas e malhas
andam os
que sabem
que a
vida é um fogo
só de
maravalhas,
carta que
termina
fora do
baralho.
Noite
putrefata
das valas
e esgotos
e coitos
perversos,
das pias
que pingam
nas
escuridões,
noite dos
ladrões
e das
maresias.
Noite dos
suicidas
e dos
derrotados,
noite de
quem perde
no jogo da
vida.
Que a
escuridão
Para
sempre esconda
Todos os
vencidos.
Tenha
Deus piedade
dos
velhos sozinhos
que
sonham sentados
nos
bancos das praças.
Seus
sonhos são moscas
que
pousam alegres
na merda
da vida.
Noite de
amoníaco,
dos
brancos ladrilhos
dos mictórios
públicos.
Numa
lanchonete
uma velha
puta
cercada
de espelhos
mastiga
uma pizza.
Noite dos
drogados,
da viagem
negra
por entre
relâmpagos
e mares
de mármore
até a
aduana
onde a
morte mira
com o
olhar dos clones.
Misericordioso
escuro
que apaga
as manchas
do mundo.
Na igreja
fechada
Deus está
sozinho
como um
vagabundo
num banco
de praça.
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Lêdo Ivo: Crepúsculo Civil — Poesia, 1990, Editora Record, São Paulo — SP; Lêdo Ivo (1924 — 2012), alagoano de
Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e
tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na
Faculdade Nacional de Direito — hoje UFRJ —, passou a colaborar
com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em
poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo
Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As
Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance,
1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no
Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A
Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia:
poesia (ensaio — apresentação, seleção e notas, 1958), Use
a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do
General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio
Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance,
1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e
Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um
poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio,
1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia,
1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos
outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em
muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações
literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês,
francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e
Dostoievski.




