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Os seus olhos são como os das
pombas,
sem falar no que está oculto
dentro.
Cântico dos Cânticos, [Salomão, 1,
15.]
Imagina um sorriso só de criança,
Todo candura, e junta-lhe a
meiguice
De um sorriso de mãe; e tens ideado
O sorriso de Alice.
Imagina um olhar — mistério e sonho,Cheio de luz, de glória, de doidice...Com a sedução dos olhos da mãe-d’água;E tens o olhar de Alice.
Imagina uma grave melodia,
Tão doce como nunca mais se ouvisse,
Como nunca se ouviu na terra ainda;
E tens a voz de Alice.
Já viste como o cisne fende o lago?Como desliza a névoa na planície?Como anda na clareira a pomba rola?É ver o andar de Alice.
Olha o macio pétalo corado
De rosa que de todo não abrisse,
O mimo da conchinha nacarada,
É a boca de Alice.
Se um dia visses no alcantil dos cerrosA imaculada neve que caísse,Verias, ai de mim! do que é formadoO coração de Alice.
[Murmúrios e Clamores — poesias
completas (1902)]
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários
autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record
Editora, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado
de Mendonça (1854 — 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito
de São Paulo — atual USP do Largo São Francisco —, foi advogado, magistrado, jornalista,
contista e poeta; sem o auxílio de professor para o aprendizado das “primeiras letras”,
descobriu a leitura e a escrita “ligando sons e caracteres gráficos” e jornais e,
aos 16 anos, matriculou-se no Colégio Pimentel, em São Gonçalo; em 1871, já em São
Paulo, e já tendo iniciado o curso de Direito, também deu início às suas atividades
poético-literárias: escreveu um caderno de versos, Risos e Lágrimas; colaborou em
diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo,
A República, do Rio de Janeiro, Colombo, de Campanha — MG, Semana, de Valença —
RJ e O País, do Rio; traduziu poemas de Musset, Richepin, Heinrich Heine, Ludwig Uhland, Henri Mürger, Théophile Gautier, Victor Hugo, ...; suas obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido
da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas
(poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e
Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903);
desde 1889, com a proclamação da república, passou a ocupar diversos cargos
públicos até ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal e continua escrevendo para
jornais, agora sob o pseudônimo de Juvenal Gavarni, entre outros; Lúcio de Mendonça
foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como
um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo
patrono é o poeta Fagundes Varela; o poeta, com o agravamento de problemas na visão,
aposentou-se e morreu completamente cego.

