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sábado, 24 de fevereiro de 2024

Lúcio de Mendonça: Alice


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Os seus olhos são como os das pombas,
sem falar no que está oculto dentro.
Cântico dos Cânticos, [Salomão, 1, 15.]

Imagina um sorriso só de criança,
Todo candura, e junta-lhe a meiguice
De um sorriso de mãe; e tens ideado
O sorriso de Alice.

Imagina um olhar mistério e sonho,
Cheio de luz, de glória, de doidice...
Com a sedução dos olhos da mãe-d’água;
E tens o olhar de Alice.

Imagina uma grave melodia,
Tão doce como nunca mais se ouvisse,
Como nunca se ouviu na terra ainda;
E tens a voz de Alice.

Já viste como o cisne fende o lago?
Como desliza a névoa na planície?
Como anda na clareira a pomba rola?
É ver o andar de Alice.

Olha o macio pétalo corado
De rosa que de todo não abrisse,
O mimo da conchinha nacarada,
É a boca de Alice.

Se um dia visses no alcantil dos cerros
A imaculada neve que caísse,
Verias, ai de mim! do que é formado
O coração de Alice.

[Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902)]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; sem o auxílio de professor para o aprendizado das “primeiras letras”, descobriu a leitura e a escrita “ligando sons e caracteres gráficos” e jornais e, aos 16 anos, matriculou-se no Colégio Pimentel, em São Gonçalo; em 1871, já em São Paulo, e já tendo iniciado o curso de Direito, também deu início às suas atividades poético-literárias: escreveu um caderno de versos, Risos e Lágrimas; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro, Colombo, de Campanha MG, Semana, de Valença RJ e O País, do Rio; traduziu poemas de Musset, Richepin, Heinrich Heine, Ludwig Uhland, Henri Mürger, Théophile Gautier, Victor Hugo, ...; suas obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); desde 1889, com a proclamação da república, passou a ocupar diversos cargos públicos até ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal e continua escrevendo para jornais, agora sob o pseudônimo de Juvenal Gavarni, entre outros; Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela; o poeta, com o agravamento de problemas na visão, aposentou-se e morreu completamente cego.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Lúcio de Mendonça: O Rebelde

Resultado de imagem para Páginas de Ouro da Poesia Brasileira
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É um lobo do mar: numa espelunca
Mora, à beira do Oceano, em rocha alpestre;
Ira-se a onda e, qual tigre silvestre,
De mortos vegetais a praia junca.

E ele, olhando como um velho mestre
O revoltoso que não dorme nunca,
Recurva o dedo, como garra adunca,
Sobre o cachimbo, único amor terrestre,

E então assoma-lhe um sorriso amargo...
É um rebelde também, cérebro largo,
Que odeia os reis e os padres excomunga.

À noite, dorme sem rezar: que importa?
Enorme cão fiel, guarda-lhe a porta
O velho mar soturno que resmunga.

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Páginas de Ouro da Poesia Brasileira — Seleção e Prefácio de Alberto de Oliveira, H. Garnier, Livreiro Editor, 1911, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 — 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo — atual USP Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha RJ; escreveu e publicou Névoas matutinas (1872), Alvoradas (1875), O marido da adúltera (1882), Visões do abismo (1888), Esboços e perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas jurídicas (1903), A caminho (1903); consta ter sido o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, cabendo-lhe a cadeira nº 11.