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domingo, 10 de março de 2024

Antônio Ferreira: Ó olhos donde Amor suas frechas tira . . . [soneto]


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Ó olhos donde Amor suas frechas tira*
contra mim, cuja luz m'espanta, e cega,
ó olhos onde Amor s'esconde, e prega**
as almas, e em pregando-as, se retira!

Ó olhos, onde Amor amor inspira,
e amor promete a todos, e amor nega,
ó olhos onde Amor também s'emprega,
por quem tão bem se chora, e se suspira!

Ó olhos, cujo fogo a neve fria
acende, e queima; ó olhos poderosos
de dar à noite luz, e vida à morte!

Olhos por quem mais claro nasce o dia,
por quem são os meus olhos tão ditosos,
que de chorar por vós lhes coube em sorte!

[Poemas Lusitanos]


Notas da edição:
* Verso 1 — tira = atira.
** Verso 3 — prega = fere, traspassa.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Ferreira (1528 1569), português e lisboeta, aluno do Colégio das Artes Universidade de Coimbra, formado em Humanidades e Leis (Direito) na mesma universidade, foi desembargador e poeta; “doutíssimo” conhecedor dos idiomas grego e latim, tido como um dos maiores representantes do Classicismo Renascentista em língua portuguesa, é considerado o discípulo mais famoso de Sá de Miranda, outro renomado poeta dessa geração Seiscentista; escreveu elegias, éclogas, sonetos, epístolas, epigramas, odes, epitalâmios, tragédias e comédias; suas obras só foram publicadas postumamente: Tragédia Mui Sentida e Elegante de Dona Inês de Castro (1587), Poemas Lusitanos (coletânea de quase toda sua obra, 1598), Bristo e Cioso (comédias, 1622); foi seu filho. Miguel Leite Ferreira, o responsável pela impressão de Poemas Lusitanos.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Antônio Ferreira: Aquela, cujo amor a meus escritos . . . [soneto]

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Aquela, cujo amor a meus escritos
Que a meu amor dará melhor ventura,
Toda a virtude, toda a formosura,
Qu’após si leva os olhos, e os espritos,

Aquela, branda em tudo, só aos gritos
Meus surda, áspera aos rogos, a Amor dura,
Podia com sorriso, ua brandura
D’olhos curar meu mal, ornar meus ditos.

Mas que dará de si ua estéril veia?
Um desprezado amor? ua cruel chama?
Senão desconcertado e triste pranto?

Quem de tristezas vive, só me leia:
Cante a quem inspire Amor mais doce canto,
Busco piedade só, não glória, ou fama.

(Poemas Lusitanos — vol. I.
Lisboa, Liv. Sá da Costa, 1939.)

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Antônio Ferreira (1528 1569), português de Lisboa, formado em Humanidades e Leis (Direito) na Universidade de Coimbra, foi desembargador e poeta; tido como um dos maiores representantes do Classicismo Renascentista em língua portuguesa, é considerado o discípulo mais famoso de Sá de Miranda, renomado poeta dessa geração Seiscentista; conhecedor dos idiomas Grego e Latim, escreveu elegias, éclogas, epístolas, epigramas, odes, epitalâmios, tragédias e comédias; obras publicadas postumamente: Tragédia Mui Sentida e Elegante de Dona Inês de Castro (1587), Poemas Lusitanos (coletânea de quase toda sua obra, 1598), Bristo e Cioso (comédias, 1622).

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Antônio Ferreira: Quando entoar começo com voz branda . . . [soneto]

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Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome d’amor. doce, e suave,
A terra, o mar, vento, água, flor, folha, ave
Ao brando som s’alegra, move, e abranda.

Nem nuvem cobre o céu, nem na gente anda
Trabalhoso cuidado ou peso grave,
Nova cor toma o Sol, ou se erga, ou lave
No claro Tejo, e nova luz nos manda.

Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo mundo parece que renova.
Nem há triste planeta, ou dura sorte.

A minh'alma só chora, e se entristece,
Maravilha d’Amor cruel e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

Poemas Lusitanos. Lisboa,
Liv. Sá da Costa, 1939, vol. I.

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Antônio Ferreira (1528 1569), português de Lisboa, formado em Humanidades e Leis (Direito) na Universidade de Coimbra, foi desembargador, poeta e também escreveu para teatro; tido como um dos maiores representantes do Classicismo Renascentista em língua portuguesa, é considerado o discípulo mais famoso de Sá de Miranda, renomado poeta dessa geração Seiscentista; conhecedor dos idiomas Grego e Latim, escreveu elegias, éclogas, epístolas, epigramas, odes, epitalâmios, tragédias e comédias; obras publicadas postumamente: Tragédia Mui Sentida e Elegante de Dona Inês de Castro (1587), Poemas Lusitanos (coletânea de quase toda sua obra, 1598), Bristo e Cioso (comédias, 1622).

segunda-feira, 30 de março de 2015

Antônio Ferreira: Solitário, que segues tão contente . . . [soneto]

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Solitário, que segues tão contente
O caminho mais árduo, que nos guia
Da nossa escura noite àquele dia,
Em que vive tão clara a imortal gente;

Esperta esse meu sono, em que dormente
Tive até agora est’alma, sê-me guia,
Por onde eu suba aos céus, que antes não via,
De mim mesmo enganado cegamente.

Escuro, triste, morto, e mal vivido
Tempo, de mágoa, e de arrependimento,
Gastado em vãos desejos, vãos cuidados!

Já achou meu vago espírito seu assento:
Sejam ou esquecidos, ou chorados
Os tristes dias, em que andei perdido.

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Antônio Ferreira (1528  1569), português de Lisboa, formado em Humanidades e Leis (Direito) na Universidade de Coimbra, foi desembargador e poeta; tido como um dos maiores representantes do Classicismo Renascentista em língua portuguesa, é considerado o discípulo mais famoso de Sá de Miranda, renomado poeta dessa geração Seiscentista; conhecedor dos idiomas Grego e Latim, escreveu elegias, éclogas, epístolas, epigramas, odes, epitalâmios, tragédias e comédias; obras publicadas postumamente: Tragédia Mui Sentida e Elegante de Dona Inês de Castro (1587), Poemas Lusitanos (coletânea de quase toda sua obra, 1598), Bristo e Cioso (comédias, 1622).