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Ó olhos donde Amor suas frechas tira*
contra mim, cuja luz m'espanta, e cega,
ó olhos onde Amor s'esconde, e prega**
as almas, e em pregando-as, se retira!
Ó olhos, onde Amor amor inspira,
e amor promete a todos, e amor nega,
ó olhos onde Amor também s'emprega,
por quem tão bem se chora, e se suspira!
Ó olhos, cujo fogo a neve fria
acende, e queima; ó olhos poderosos
de dar à noite luz, e vida à morte!
Olhos por quem mais claro nasce o dia,
por quem são os meus olhos tão ditosos,
que de chorar por vós lhes coube em sorte!
[Poemas
Lusitanos]
Notas da
edição:
* Verso 1
— tira = atira.
** Verso
3 — prega = fere, traspassa.
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O
Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores],
Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ;
Antônio Ferreira (1528 — 1569), português e lisboeta, aluno do Colégio das
Artes — Universidade de Coimbra, formado em Humanidades e Leis (Direito) na mesma
universidade, foi desembargador e poeta; “doutíssimo” conhecedor dos idiomas grego
e latim, tido como um dos maiores representantes do Classicismo Renascentista em
língua portuguesa, é considerado o discípulo mais famoso de Sá de Miranda, outro
renomado poeta dessa geração Seiscentista; escreveu elegias, éclogas, sonetos, epístolas,
epigramas, odes, epitalâmios, tragédias e comédias; suas obras só foram publicadas
postumamente: Tragédia Mui Sentida e Elegante de Dona Inês de Castro (1587), Poemas
Lusitanos (coletânea de quase toda sua obra, 1598), Bristo e Cioso (comédias, 1622);
foi seu filho. Miguel Leite Ferreira, o responsável pela impressão de Poemas Lusitanos.


