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domingo, 12 de dezembro de 2021

Oliveira Silveira: Cabelos que negam

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Peruca lisa, cabelo alisado,
cabelo imitando o cabelo
da branca,
cabelo amaciado, ou seja,
cabelo meia-boca próximo
ao cabelo da branca;
cabelo artificial de tranças
longas para bons
trejeitos tipo branca;
cabelos que branca não tem
ou não usa
e exercem o mesmo ritual
do cabelo da branca:
rolam pelo ombro, espaldas
ou bem abrandados deslizam
no pente, escova, dedos
da preta que queria ser
a parda que queria ser
a clara que queria ser
a branca.

(Poemas: antologia — 2009)

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Oliveira Ferreira da Silveira (1941 2009), gaúcho de Touro Passo, distrito de Rosário do Sul, formado em Letras Português e Francês na Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS, foi professor, poeta, pesquisador e militante do Movimento Negro; como ativista, atuou através da revista Tição e do Grupo Semba; obras: Germinou (1962), Poemas regionais (1968), Banzo, saudade negra (1970), Décima do negro peão (1974), Praça da palavra (1976), Pelo escuro (1977), Roteiro dos tantãs (1981), Poema sobre Palmares (1987), Poemas: antologia (2009), além de ensaios em diversas publicações; participou ainda dos Cadernos negros 3, 11 e os melhores poemas (1980, 1988 e 1998), Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira (1982), Cadernos literários 19: poetas negros do Brasil (1983), A razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros (1986), Schwarze Poesie — Poesia negra (1988), Antologia da Poesia negra brasileira: o negro em versos (2005) e outros títulos; na década de 70, no Grupo Palmares, foi um dos intelectuais afro-descendentes a propor a criação de um Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Oliveira Silveira: O negro de fogo

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O negro de fogo
que usava camisa encarnada
incendiou o futebol
incendiou o samba
                 a rumba
                 a conga
                 o espiritual
e o coração das mulheres.

O negro de fogo
enrubesceu maçã do rosto
de encabuladas moças
pintadas de ruge e batom.

O negro de fogo
de carvão e brasa
piche e sangue.

O negro de fogo
incendiou a União Sul-Africana
e lançou fósforo aceso
sobre os Estados Unidos
(que assim não era possível).

O negro de fogo
pôs labaredas (não era possível)
nos organismos internacionais.

O negro de fogo
(assim não era possível)
atou num poste e jogou na fogueira
o ditador português
e Sua Majestade Britânica.

O negro de fogo
— sempre chamado de sujo 
para ter bem-estar físico
impôs ao mundo uma higiene mental.

E assim  queimadas a gaiola, a grade
purificado o ar e limpo o céu 
entoou com voz azul
seu canto de liberdade.

[In: Banzo, saudade negra, 1970.]

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Oliveira Ferreira da Silveira (1941  2009), gaúcho de Touro Passo, distrito de Rosário do Sul, formado em Letras  Português e Francês na Universidade Federal do Rio Grande do Sul  UFRGS, foi professor, poeta, pesquisador e militante do Movimento Negro; como ativista, atuou através da revista Tição e do Grupo Semba; escreveu e publicou Germinou (1962), Poemas regionais (1968), Banzo, saudade negra (1970), Décima do negro peão (1974), Praça da palavra (1976), Pelo escuro (1977), Roteiro dos tantãs (1981), Poema sobre Palmares (1987), além de ensaios em diversas publicações; participou ainda dos Cadernos negros 3, 11 e os melhores poemas (1980, 1988 e 1998), Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira (1982), Cadernos literários 19: poetas negros do Brasil (1983), A razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros (1986), Schwarze Poesie  Poesia negra (1988), Antologia da Poesia negra brasileira: o negro em versos (2005) e outros títulos; na década de 70, no Grupo Palmares, foi um dos intelectuais afro-descendentes a propor a criação de um Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.