____________________
Às vezes se não durmo, o pensamento
deixando o corpo sobre a cama quente,
me leva mais ousado, que prudente,
dos astros a medir o movimento.
Peso, calculo, meço e observo atento,
quantos globos encerra o céu luzente:
contemplo os turbilhões, e finalmente
me transporto até sobre o firmamento.
Descartes lá descubro: e nesse espaço,
que existência só tem na fantasia,
também meus orbes risco, e mundo faço.
E eis que vem com mais certa geometria
uma pulga, e me morde no cachaço;
uma pulga, e me morde no cachaço;
vou-me arranhar; e adeus filosofia.
Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias
de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense,
São Paulo — SP; também conhecido como Abade de Jazente, Paulino António Cabral de
Vasconcelos (1719 — 1789), português de Amarante, formado em Direito Canônico pela
Universidade de Coimbra, foi poeta satírico, além de padre; entre os antigos poetas
da língua portuguesa, é tido como um dos melhores satíricos ao lado de Bocage, Tolentino
e Gregório de Matos; bibliografia: Poesias de Paulino Cabral de Vasconcelos, volume
I (1786) e Poesias de Paulino António Cabral, volume II (1787).

