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terça-feira, 3 de junho de 2025

Jorge Luis Borges: A John Keats (1795 — 1821)

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[traduzido por Augusto de Campos]

Desde o princípio até a jovem morte
A terrível beleza te espreitava
Como a outros tantos a propícia sorte
Ou a má. Nas auroras te esperava
De Londres, entre as páginas casuais
De um dicionário de mitologia,
Nas mais humildes dádivas do dia,
Em um rosto, uma voz, ou nos mortais
Lábios de Fanny Brawne. Ó sucessivo
E arrebatado Keats, que o tempo cega,
Esse alto rouxinol, essa urna grega
São tua eternidade, ó fugitivo.
Foste o fogo. Na pânica memória
Já não és mais a cinza. És a glória.

[Quase Borges. 20 transpoemas e uma entrevista. Tradução
de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.]

Jorge Luis Borges

A John Keats (1795 1821)

Desde el principio hasta la joven muerte
La terrible belleza te acechaba
Como a los otros la propicia suerte
O la adversa. En las albas te esperaba
De Londres, en las páginas casuales
De un diccionario de mitología,
En las comunes dádivas del día,
En un rostro, una voz, y en los mortales
Labios de Fanny Brawne. Oh sucesivo
Y arrebatado Keats, que el tiempo ciega,
El alto ruiseñor y la urna griega
Serán tu eternidad, oh fugitivo.
Fuiste el fuego. En la pánica memoria
No eres hoy la ceniza. Eres la gloria.

(El oro de los tigres — 1972)
[Quase Borges. 20 transpoemas e uma entrevista. Tradução
de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.]
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (1899 1986), argentino de Buenos Aires, aprendeu a língua inglesa com a avó paterna antes de falar espanhol, suas primeiras leituras se deram naquele idioma, foi poeta, contista, ficcionista, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor universitário e bibliotecário; aos 9 anos de idade escreveu La Visera Fatal, seu primeiro conto “inspirado em episódio da obra de Dom Quixote”; de 1914 a 1920, já com alfabetização bilíngue, viveu com a família na Europa, concluiu seus estudos secundários no Collège de Genève Suiça, ligou-se ao movimento altruísta literário de vanguarda na Espanha, de volta à Argentina, na década de 1920, publicou três livros de poesia e, a partir daí, deu início à publicação de seus contos, invariavelmente na revista Sur, a qual também editou seus livros de ficção; lecionou Literatura Inglesa na Universidade de Buenos Aires, trabalhou na Biblioteca Municipal Miguel Cané e dirigiu a Biblioteca Nacional; em 1956, já sendo proibido pelos oftalmologistas de ler e escrever, passou a conviver com a cegueira que, vindo de forma gradativa desde criança, se instalava em sua vida; suas obras: Fervor de Buenos Aires (poesia, 1923), Luna de enfrente (Lua defronte, poesia, 1925), Inquisiciones (ensaios, 1925), El idioma de los argentinos (ensaio, 1928), Cuaderno San Martín (Caderno San Martín, poesia, 1929), Evaristo Carriego (ensaio, 1930), Historia universal de la infamía (contos, 1935), Historia de la Eternidad (ensaios, 1936), Ficciones (contos, 1944), Nova refutação do tempo (ensaios, 1947), El Aleph (O Aleph, contos, 1949), A morte e a bússola (contos, 1951), El hacedor (1960), Para las seis cuerdas (1967), El oro de los tigres (1972), Elogio de la sombra (1969), Historia de la noche (1976), todos de poesia, e tantos outros títulos em verso e prosa, inclusive em traduções para mais de 35 idiomas; na publicação de seus textos, Jorge Luis Borges também fez uso de vários pseudônimos, entre os quais Alex Ander, Benjamín Beltrán, Andrés Corthis, Pascual Güida, Bernardo Haedo, José Tuntar, Honorio Bustos Domecq e Benito Suárez Linch; teve sua obra transferida para o cinema e a televisão, e também teve textos musicados pelo compositor e instrumentista Astor Piazzolla (Tangos & Milongas); Borges, mesmo cego, não deixou de produzir seus escritos, os quais eram ditados para María Kodama, sua ex-aluna, depois assistente literária e esposa; recebeu inúmeras premiações por sua obra.

quarta-feira, 26 de março de 2025

John Keats: Ao Ver os Mármores de Elgin


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Fraco está meu espírito a mortalidade
Oprime-me demais, qual sono indesejado;
Cada pico ou abismo de divino fado
De que não deixo de morrer me persuade,

Morrer como águia enferma, o olhar ao céu voltado.
É contudo um prazer amável prantear
Que eu os nebulosos ventos não haja de guardar
Frescos para o olho da manhã, mal descerrado.

Essas glórias que a ideia forma vagamente
Cercam de intensa má vontade o coração:
Tais maravilhas trazem dor e confusão

Que mesclam a grandeza grega com o inclemente
Passar do velho Tempo com um mar fremente
  Um sol a sombra de sublime condição.

John Keats

On Seeing the Elgin Marbles *

My spirit is too weak mortality
    Weighs heavily on me like unwilling sleep,
    And each imagin’d pinnacle and steep
Of godlike hardship tells me I must die
Like a sick Eagle looking at the sky.
    Yet ’tis a gentle luxury to weep
    That I have not the cloudy winds to keep,
Fresh for the opening of the morning’s eye.
Such dim-conceived glories of the brain
    Bring round the heart an undescribable feud;
So do these wonders a most dizzy pain,
    That mingles Grecian grandeur with the rude
Wasting of old time with a billowy main
    A sun a shadow of a magnitude.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Keats foi ver os mármores que lorde Elgin trouxera da Grécia, os do frontão sul do Partenon, em companhia de Haydon, a quem enviou um par de sonetos a propósito. Isso antes de 3 de março de 1817 — data em que Haydon agradeceu a remessa —, tendo sido os dois sonetos publicados no Examiner e no Champion quase em seguida, no dia 9. [verso] 8 — olho da manhã: o sol. [verso] 14 — the shadow of a magnitude: “a concepção de algo tão grandioso que só pode ser obscuramente apreendido” (Allott).
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Poemas de John Keats — edição bilíngue, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 1, 1987, 2ª edição revista, Art Editora, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

John Keats: Ode a um rouxinol

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Meu peito dói; um sono insano sobre mim
         Pesa, como se eu me tivesse intoxicado
De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,
         Há um só minuto, e após no Letes me abismado:
Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,
         É do excesso de ser que aspiro em tua paz
                Quando, Dríade leve-alada em meio à flora,
                        Do harmonioso recorte
         Das verdes árvores e sombras estivais,
                Lanças ao ar a tua dádiva sonora.

Ah! um gole de vinho refrescado longamente
         Na solidão do solo muito além do chão,
Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente,
         Dança e Provença e sol queimando na canção!
Ah! uma taça de luz do Sul, plena e solar,
         Da fonte de Hipocrene enrubescida e pura,
                Com bolhas de rubis à beira rebordada
                        Nos lábios a brilhar,
         Para eu saciar a sede até chegar ao nada
                E contigo fugir para a floresta escura.

Fugir e dissolver-me, enfim, para esquecer
         O que das folhas não aprenderás jamais:
A febre, o desengano e a pena de viver
         Aqui, onde os mortais lamentam os mortais;
Onde o tremor move os cabelos já sem cor
         E o jovem pálido e espectral se vê finar,
                Onde pensar é já uma antevisão sombria
                        Da olhipesada dor,
         Onde o Belo não pode erguer a luz do olhar
                E o Amor estremecer por ele mais que um dia.

Adeus! Adeus! Eu sigo em breve a tua via,
         Não em carro de Baco e guarda de leopardos,
Antes, nas asas invisíveis da Poesia,
         Vencendo a hesitação da mente e os seus retardos;
Já estou contigo! suave é a noite linda,
         Logo a Rainha-Lua sobe ao trono e luz
                Com a legião de suas Fadas estelares,
                        Mas aqui não há luz,
         Salvo a que o céu por entre as brisas brinda
                Em meio à sombra verde e ao musgo dos lugares.

Não posso ver as flores a meus pés se abrindo,
         Nem o suave olor que desce das ramagens,
Mas no escuro odoroso eu sinto defluindo
         Cada aroma que incensa as árvores selvagens,
A impregnar a grama e o bosque verde-gaio,
         O alvo espinheiro e a madressilva dos pastores,
                Violetas a viver sua breve estação;
                        E a princesa de maio,
         A rosa-almíscar orvalhada de licores
                Ao múrmuro zumbir das moscas do verão.

Às escuras escuto; em mais de um dia adverso
         Me enamorei, de meio-amor, da Morte calma,
Pedi-lhe docemente em meditado verso
         Que dissolvesse no ar meu corpo e minha alma.
Agora, mais que nunca, é válido morrer,
         Cessar, à meia-noite, sem nenhum ruído,
                Enquanto exalas pelo ar tua alma plena
                        No êxtase do ser!
         Teu som, enfim, se apagaria em meu ouvido
                Para o teu réquiem transmudado em relva amena.

Tu não nasceste para a morte, ave imortal!
         Não te pisaram pés de ávidas gerações;
A voz que ouço cantar neste momento é igual
         À que outrora encantou príncipes e aldeões:
Talvez a mesma voz com que foi consolado
         O coração de Rute, quando, em meio ao pranto,
                Ela colhia em terra alheia o alheio trigo;
                        Quem sabe o mesmo canto
         Que abriu janelas encantadas ao perigo
                Dos mares maus, em longes solos, desolado.

Desolado! a palavra soa como um dobre,
         Tangendo-me de ti de volta à solidão!
Adeus! A fantasia é véu que não encobre
         Tanto como se diz, duende da ilusão.
Adeus! Adeus! Teu salmo agora tristemente
         Vai-se perder no campo, e além, no rio silente,
                Nas faldas da montanha, até ser sepultado
                        Sob o vale deserto:
         Foi só uma visão ou um sonho acordado?
                A música se foi durmo ou estou desperto?

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 05.08.84]

John Keats

Ode to a Nightingale

My heart aches, and a drowsy numbness pains
         My sense, as though of hemlock I had drunk,
Or emptied some dull opiate to the drains
         One minute past, and Lethe-wards had sunk:
‘Tis not through envy of thy happy lot,
         But being too happy in thine happiness,
                That thou, light-winged Dryad of the trees
                        In some melodious plot
         Of beechen green, and shadows numberless,
                Singest of summer in full-throated ease.

O, for a draught of vintage! that hath been
         Cool’d a long age in the deep-delved earth,
Tasting of Flora and the country green,
         Dance, and Provencal song, and sunburnt mirth!
O for a beaker full of the warm South,
         Full of the true, the blushful Hippocrene,
                With beaded bubbles winking at the brim,
                        And purple-stained mouth;
         That I might drink, and leave the world unseen,
                And with thee fade away into the forest dim:

Fade far away, dissolve, and quite forget
         What thou among the leaves hast never known,
The weariness, the fever, and the fret
         Here, where men sit and hear each other groan;
Where palsy shakes a few, sad, last gray hairs,
         Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
                Where but to think is to be full of sorrow
                        And leaden-eyed despairs,
         Where Beauty cannot keep her lustrous eyes,
                Or new Love pine at them beyond to-morrow.

Away! away! for I will fly to thee,
         Not charioted by Bacchus and his pards,
But on the viewless wings of Poesy,
         Though the dull brain perplexes and retards:
Already with thee! tender is the night,
         And haply the Queen-Moon is on her throne,
                Cluster’d around by all her starry Fays;
                        But here there is no light,
         Save what from heaven is with the breezes blown
                Through verdurous glooms and winding mossy ways.

I cannot see what flowers are at my feet,
         Nor what soft incense hangs upon the boughs,
But, in embalmed darkness, guess each sweet
         Wherewith the seasonable month endows
The grass, the thicket, and the fruit-tree wild;
         White hawthorn, and the pastoral eglantine;
                Fast fading violets cover’d up in leaves;
                        And mid-May’s eldest child,
         The coming musk-rose, full of dewy wine,
                The murmurous haunt of flies on summer eves.

Darkling I listen; and, for many a time
         I have been half in love with easeful Death,
Call’d him soft names in many a mused rhyme,
         To take into the air my quiet breath;
Now more than ever seems it rich to die,
         To cease upon the midnight with no pain,
                While thou art pouring forth thy soul abroad
                        In such an ecstasy!
         Still wouldst thou sing, and I have ears in vain
                To thy high requiem become a sod.

Thou wast not born for death, immortal Bird!
         No hungry generations tread thee down;
The voice I hear this passing night was heard
         In ancient days by emperor and clown:
Perhaps the self-same song that found a path
         Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
                She stood in tears amid the alien corn;
                        The same that oft-times hath
         Charm’d magic casements, opening on the foam
                Of perilous seas, in faery lands forlorn.

Forlorn! the very word is like a bell
         To toil me back from thee to my sole self!
Adieu! the fancy cannot cheat so well
         As she is fam’d to do, deceiving elf.
Adieu! adieu! thy plaintive anthem fades
         Past the near meadows, over the still stream,
                Up the hill-side; and now ‘tis buried deep
                        In the next valley-glades:
         Was it a vision, or a waking dream?
                Fled is that music: Do I wake or sleep?

Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. E Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

John Keats: Esta Mão Viva


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Esta mão viva, agora quente e pronta
Para um sincero aperto, se estivesse fria
E ao silêncio gélido da tumba,
Viria de tal forma te obsedar os dias
E esfriar-te as noites sonhadoras
Que quererias esgotar o sangue de teu coração
Para que em minhas veias
Pudesse inda uma vez correr a vida rubra
E tranquila tivesses a consciência:
Vê-a, aqui está, estendo-a para ti.

John Keats

This Living Hand *

This living hand, now warm and capable
Of earnest grasping, would, if it were cold
And in the icy silence of the tomb,
So haunt thy days and chill thy dreaming nights
That thou wouldst wish thine own heart dry of blood
So in my veins red life might stream again,
And thou be conscience-calm’dsee here it is
I hold it towards you.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Estes versos foram escritos, talvez, em novembro ou dezembro de 1819, numa página do manuscrito de “The Cap and Bells”, parece que durante a composição do poema. Supõem alguns que fossem dirigidos a Fanny Brawne; outros que se destinavam a utilização posterior, em peça ou poema. Como se vê, simples conjeturas.
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Poemas de John Keats — edição bilíngue, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 1, 1987, 2ª edição revista, Art Editora, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

John Keats: Soneto escrito em repulsa à vulgar superstição

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[traduzido por Jorge de Sena]

Os sinos dobram com melancolia
chamando o povo para as devoções,
e outras tristezas, outras contrições,
e o hórrido sermão que o padre esfia.

Sem dúvida que os homens por magia
sinistra, estão vencidos se as visões
ao canto do seu lar, ou as canções
pagãs permutam por tal fantasia.

E dobram, dobram... Mas não me estremece
funéreo calafrio, pois que os sei
morrendo aos poucos, qual candeia finda.

Eles choram a morte que os empece.
Há de florir de novo a humana grei,
em pura glória mais eterna ainda.

John Keats

Sonnet. Written In Disgust Of Vulgar Superstition

The church bells toll a melancholy round,
Calling the people to some other prayers,
Some other gloominess, more dreadful cares,
More hearkening to the sermon's horrid sound.

Surely the mind of man is closely bound
In some black spell; seeing that each one tears
Himself from fireside joys, and Lydian airs,
And converse high of those with glory crown'd.

Still, still they toll, and I should feel a damp,
A chill as from a tomb, did I not know
That they are dying like an outburnt lamp;

That 'tis their sighing, wailing ere they go
Into oblivion; that fresh flowers will grow,
And many glories of immortal stamp.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

John Keats: Ao Sono


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Tu que embalsamas meia-noite, a sossegada,
    E que bondoso fechas, com esse toque atento,
Olhos, da luz guardados, a que a treva agrada,
    Ensombrecidos em divino esquecimento;
Sono, ó bem suave! fecha, se isso te convém,
    Em meio a este hino teu, meus olhos que consentem,
Ou que tua papoula atire, só no amém,
    Em torno ao leito meu esmolas que acalentem.
    Salva-me então do inquisitivo pensamento,
Que pelas trevas com suas forças vem
Cavar como toupeira: ou voltar-me-á a brilhar
    No travesseiro o dia, em si tão doloroso!
Na fechadura faze a chave, hábil, girar,
    E sela de minha alma o escrínio silencioso.

John Keats

To Sleep *

O soft embalmer of the still midnight,
    Shutting, with careful fingers and benign,
Our gloom-pleas'd eyes, embower'd from the light,
    Enshaded in forgetfulness divine:
O soothest Sleep! if so it please thee, close
    In midst of this thine hymn my willing eyes,
Or wait the "Amen," ere thy poppy throws
    Around my bed its lulling charities.
Then save me, or the passed day will shine
Upon my pillow, breeding many woes,
    Save me from curious Conscience, that still lords
Its strength for darkness, burrowing like a mole;
    Turn the key deftly in the oiled wards,
And seal the hushed Casket of my Soul.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Em data de 30 de abril de 1819, Keats transcreveu para George e Georgina [seu irmão e sua cunhada] este soneto experimental em matéria de rimas, que obedecem ao seguinte esquema: abab cdcd bc efef, prendendo o sistema de rimas da sextilha final às da oitava. 11 [11º verso] — lords, hoards. Há no original um problema textual, sendo a variante hoards de [Richard] Woodhouse, mas perfilhada uma vez por Keats. Há precedente para lords no Endimião, explicando Garrod que neste soneto significa “captained”, “marshalled”. “Conscience marshals, arrays, disposes proudly and boastfully, its power for darkness.” Na tradução o problema desaparece na paráfrase: com suas forças vem.
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Poemas de John Keats — edição bilíngue, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 1, 1987, 2ª edição revista, Art Editora, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

quarta-feira, 23 de março de 2022

John Keats: Ode a uma urna grega

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Noiva da quietude, ainda inviolada,
Pupila do silêncio e do tempo remansoso,
Campestre historiadora que assim podes narrar
Mais doce que nossos versos, um conto florido,
Que legenda, debruada de folhagem, povoa tua forma
De deidades ou mortais, ou mesmo de ambos,
Em Tempe ou nos vales da Arcádia?
Que homens ou deuses estes? Que virgens relutantes?
Que louca perseguição? Que esforços para escapar?
Que frautas e pandeiros? Que transe de alegria?

Doces são ouvidas melodias; mais doces, porém,
As que não se ouvem; tocai, tocai, pois, maviosas frautas,
Não para o ouvido corpóreo; mais enternecidas.
Tocai para o espírito silenciosas cantigas.
Belo mancebo, sob as frondes não podes estancar
Teu canto, nem essas árvores podem-se despir;
Amante audaz, nunca, nunca darás teu beijo,
Embora tão próximo ao alvo não te queixes, todavia;
Se não fruis teu gozo, ela não pode estiolar-se,
Para sempre amá-la-ás, e ela não será bela!

Felizes, ramos felizes, que não podeis soltar
Vossas folhas, nem jamais dar adeus à primavera;
E tu, afortunado melodista, infatigável,
Para sempre tocando árias sempre novas;
Mais venturoso amor! Feliz, feliz amor!
Para sempre ardente, sem nunca ser possuído,
Sempre ofegante e para sempre jovem;
Muito, muito acima das paixões humanas,
Que deixam o coração triste e entediado,
A fronte em brasa, a língua ressequida.

Quem são estes rumando ao sacrifício?
A que altar virente, Ó sacerdote misterioso,
Levas essa novilha a mugir para os céus,
Os flancos sedosos cobertos de guirlandas?
Que cidadezinha à ourela de rio ou mar,
Esvaziou-se desta gente, nesta pia manhã?
Ah, pequena vila, para sempre tuas ruas
Ficarão silenciosas; e nenhuma alma que diga
Por que estás deserta, jamais tornará.

Oh, forma ática! Nobre equilíbrio! Num friso
De mármore, homens e virgens vos rendilham,
Ramos, e a erva sob os pés calcada;
Tu, forma silente, nosso pensamento dilaceras
Como a eternidade gélida pastoral!
Quando a idade consumir os vivos de hoje,
Tu permanecerás, em meio a outros tormentos,
Outros que os nossos, a amiga do homem,
A quem dizes: “Beleza é verdade, verdade beleza”,
Eis tudo que sabeis na terra, tudo que é mister saber.

John Keats

Ode on a grecian urn

Thou still unravish’d bride of quietness,
        Thou foster-child of silence and slow time,
Sylvan historian, who canst thus express
        A flowery tale more sweetly than our rhyme:
What leaf-fring’d legend haunts about thy shape
        Of deities or mortals, or of both,
            In Tempe or the dales of Arcady?
What men or gods are these? What maidens loth?
        What mad pursuit? What struggle to escape?
            What pipes and timbrels? What wild ecstasy?

Heard melodies are sweet, but those unheard
        Are sweeter; therefore, ye soft pipes, play on;
Not to the sensual ear, but, more endear'd,
        Pipe to the spirit ditties of no tone:
Fair youth, beneath the trees, thou canst not leave
        Thy song, nor ever can those trees be bare;
            Bold lover, never, never canst thou kiss
Though winning near the goal yet, do not grieve;
        She cannot fade, though thou hast not thy bliss,
            For ever wilt thou love, and she be fair!

Ah, happy, happy boughs! that cannot shed
        Your leaves, nor ever bid the Spring adieu;
And, happy melodist, unwearied,
        For ever piping songs for ever new;
More happy love! more happy, happy love!
        For ever warm and still to be enjoy’d,
            For ever panting, and for ever young;
All breathing human passion far above,
        That leaves a heart high-sorrowful and cloy’d,
            A burning forehead, and a parching tongue.

Who are these coming to the sacrifice?
        To what green altar, O mysterious priest,
Lead’st thou that heifer lowing at the skies,
        And all her silken flanks with garlands dressed?
What little town by river or sea shore,
        Or mountain-built with peaceful citadel,
            Is emptied of this folk, this pious morn?
And, little town, thy streets for evermore
        Will silent be; and not a soul to tell
            Why thou art desolate, can e’er return.

O Attic shape! Fair attitude! with brede
        Of marble men and maidens over wrought,
With forest branches and the trodden weed;
        Thou, silent form, dost tease us out of thought
As doth eternity: Cold Pastoral!
        When old age shall this generation waste,
            Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say’st,
            «Beauty is truth, truth beauty,»  that is all
            Ye know on earth, and all ye need to know.
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e  2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.