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[traduzido por Ary de Mesquita]
Tu recordas, querida, aquilo que estou vendo
inda pela lembrança?
Na volta de uma estrada, um cadáver horrendo
Que sobre as pedras descansa.
As pernas para o ar, como uma fêmea ardente,
E que exale e que difunda
O veneno, ele expõe, cínico e indiferente,
Sua carne nauseabunda.
Nessa putrefação, brilhante, o sol luzia
Pra cozê-la devagar,
A fim de devolver à natureza, um dia,
O que ela pode juntar.
E contemplava o céu o fúnebre despojo
Abrir-se como uma flor.
Quem lhe estivesse ao pé vomitava de nojo
Ao lhe sentir o fedor.
Moscas vinham cheirar, nesse pútrido ventre,
As viscosas multidões
De vermes a vagar, negras e aquosas, entre
As fezes das podridões.
E tudo isto descia, e tudo isto subia,
E avançava borbulhando;
Dir-se-ia que um sopro o corpo revivia,
Cheio se multiplicando.
E esse pequeno mundo estranho produzia
Como os ventos um rumor,
Que lembra a água corrente, e lembra o grão
que chia
Na joeira do semeador.
Sua forma esbateu-se em figura imprecisa
Como um debuxo que lança
No painel o pintor, e o esquece, e após
precisa
Terminá-lo de lembrança.
Por detrás de uim rochedo, olhos de cão
faminto
Nos olhavam irritados,
Espreitando a ocasião de saciar o instinto
Em mais dois ou três bocados.
Mas um dia serás igual à sordideza
Dessa horrenda podridão,
Luz dos meus olhos, sol da minha natureza,
Minha trágica paixão.
Ouve, serás assim, rainha das amadas,
Quando, sem vida, tu fores
Apodrecer teu corpo esbelto entre as ossadas,
Sob a erva e sob as flores.
Então, querida, diz aos vermes do monturo,
Que aos beijos te comerão,
Que eu guardei para mimo que havia de puro
Do teu ser em corrupção!
Une
charogne
XXIX
Rappelez-vous l'objet que nous
vîmes, mon âme,
Ce beau matin d'été si doux:
Au détour d'un sentier une
charogne infame
Sur un lit semé de cailloux,
Les jambes en l'air, comme une
femme lubrique,
Brûlante et suant les poisons,
Ouvrait d'une façon nonchalante
et cynique
Son ventre plein
d'exhalaisons.
Le soleil rayonnait sur cette
pourriture,
Comme afin de la cuire à
point,
Et de rendre au centuple à la
grande Nature
Tout ce qu'ensemble elle avait
joint.
Et le ciel regardait la
carcasse superbe
Comme une fleur s'épanouir;
La puanteur était si forte,
que sur l'herbe
Vous crûtes vous évanouir.
Les mouches bourdonnaient sur
ce ventre putride,
D'où sortaient de noirs
bataillons
De larves qui coulaient comme
un épais liquide
Le long de ces vivants
haillons.
Tout cela descendait, montait
comme une vague
Ou s'élançait en pétillant;
On eût dit que le corps, enflé
d'un souffle vague,
Vivait en se multipliant.
Et ce monde rendait une
étrange musique
Comme l'eau courante et le
vent,
Ou le grain qu'un vanneur d'un
mouvement rythmique
Agite et tourne dans son van.
Les formes s'effaçaient et
n'étaient plus qu'un rêve,
Une ébauche lente à venir
Sur la toile oubliée, et que
l'artiste achève
Seulement par le souvenir.
Derrière les rochers une
chienne inquiète
Nous regardait d'un oeil
fâché,
Epiant le moment de reprendre
au squelette
Le
morceau qu'elle avait lâché.
— Et pourtant vous serez
semblable à cette ordure,
A cette horrible infection,
Étoile de mes yeux, soleil de
ma nature,
Vous, mon ange et ma passion!
Oui! telle vous serez, ô la
reine des grâces,
Apres les derniers sacrements,
Quand vous irez, sous l'herbe
et les floraisons grasses,
Moisir parmi les ossements.
Alors, ô ma beauté! dites à la
vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j'ai gardé la forme et
l'essence divine
De mes
amours décomposés!
(Les Fleurs du Mal, poemas — 1857)
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Clássicos Jackson,
Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas
de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), francês
e parisiense, foi aluno interno do Colégio Real de Lyon, concluiu seus estudos secundários
no Liceu Louis-le-Grand em Paris, foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor
e literato; não quis seguir carreira alguma, fez imersão no mundo literário, por
pressão familiar partiu em viagem para Calcutá — Índia, desistiu a meio caminho
e retornou para a França; Baudelaire, ao atingir a maioridade tomou posse de parte
da herança paterna, adquiriu independência econômica e, em Paris, passou a viver
entre poetas e pintores, levando vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno
da Universidade de Sorbonne); Baudelaire foi um dos precursores do Simbolismo e
é reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia,
sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX;
obras: As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal, poemas, 1857 e + reedições), Os Paraísos
Artificiais (Les Paradis Artificiels, ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos
poemas em prosa (Petits poèmes en prose ou Le Spleen de Paris, edição póstuma, 1869),
outros vários títulos e alguns inacabados; As Flores do Mal, considerada a sua mais
conhecida e principal obra, em sua 1ª edição e divulgação recebeu fortes contestações
no campo da moral dos costumes e na justiça; em razão do lançamento, Baudelaire
foi julgado, recebeu censuras e multas governamentais e, para a 2ª edição da obra,
o poeta foi forçado a excluir alguns poemas (seis), e incluiu outros (dezoito);
traduziu Edgar Allan Poe.