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sábado, 15 de novembro de 2025

Baudelaire: A Carniça

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[traduzido por Ary de Mesquita]

Tu recordas, querida, aquilo que estou vendo
inda pela lembrança?
Na volta de uma estrada, um cadáver horrendo
Que sobre as pedras descansa.

As pernas para o ar, como uma fêmea ardente,
E que exale e que difunda
O veneno, ele expõe, cínico e indiferente,
Sua carne nauseabunda.

Nessa putrefação, brilhante, o sol luzia
Pra cozê-la devagar,
A fim de devolver à natureza, um dia,
O que ela pode juntar.

E contemplava o céu o fúnebre despojo
Abrir-se como uma flor.
Quem lhe estivesse ao pé vomitava de nojo
Ao lhe sentir o fedor.

Moscas vinham cheirar, nesse pútrido ventre,
As viscosas multidões
De vermes a vagar, negras e aquosas, entre
As fezes das podridões.

E tudo isto descia, e tudo isto subia,
E avançava borbulhando;
Dir-se-ia que um sopro o corpo revivia,
Cheio se multiplicando.

E esse pequeno mundo estranho produzia
Como os ventos um rumor,
Que lembra a água corrente, e lembra o grão que chia
Na joeira do semeador.

Sua forma esbateu-se em figura imprecisa
Como um debuxo que lança
No painel o pintor, e o esquece, e após precisa
Terminá-lo de lembrança.

Por detrás de uim rochedo, olhos de cão faminto
Nos olhavam irritados,
Espreitando a ocasião de saciar o instinto
Em mais dois ou três bocados.

Mas um dia serás igual à sordideza
Dessa horrenda podridão,
Luz dos meus olhos, sol da minha natureza,
Minha trágica paixão.

Ouve, serás assim, rainha das amadas,
Quando, sem vida, tu fores
Apodrecer teu corpo esbelto entre as ossadas,
Sob a erva e sob as flores.

Então, querida, diz aos vermes do monturo,
Que aos beijos te comerão,
Que eu guardei para mimo que havia de puro
Do teu ser em corrupção!

Charles Baudelaire

Une charogne

XXIX

Rappelez-vous l'objet que nous vîmes, mon âme,
Ce beau matin d'été si doux:
Au détour d'un sentier une charogne infame
Sur un lit semé de cailloux,

Les jambes en l'air, comme une femme lubrique,
Brûlante et suant les poisons,
Ouvrait d'une façon nonchalante et cynique
Son ventre plein d'exhalaisons.

Le soleil rayonnait sur cette pourriture,
Comme afin de la cuire à point,
Et de rendre au centuple à la grande Nature
Tout ce qu'ensemble elle avait joint.

Et le ciel regardait la carcasse superbe
Comme une fleur s'épanouir;
La puanteur était si forte, que sur l'herbe
Vous crûtes vous évanouir.

Les mouches bourdonnaient sur ce ventre putride,
D'où sortaient de noirs bataillons
De larves qui coulaient comme un épais liquide
Le long de ces vivants haillons.

Tout cela descendait, montait comme une vague
Ou s'élançait en pétillant;
On eût dit que le corps, enflé d'un souffle vague,
Vivait en se multipliant.

Et ce monde rendait une étrange musique
Comme l'eau courante et le vent,
Ou le grain qu'un vanneur d'un mouvement rythmique
Agite et tourne dans son van.

Les formes s'effaçaient et n'étaient plus qu'un rêve,
Une ébauche lente à venir
Sur la toile oubliée, et que l'artiste achève
Seulement par le souvenir.

Derrière les rochers une chienne inquiète
Nous regardait d'un oeil fâché,
Epiant le moment de reprendre au squelette
Le morceau qu'elle avait lâché.

 Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
A cette horrible infection,
Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,
Vous, mon ange et ma passion!

Oui! telle vous serez, ô la reine des grâces,
Apres les derniers sacrements,
Quand vous irez, sous l'herbe et les floraisons grasses,
Moisir parmi les ossements.

Alors, ô ma beauté! dites à la vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j'ai gardé la forme et l'essence divine
De mes amours décomposés!

(Les Fleurs du Mal, poemas 1857)
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Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, foi aluno interno do Colégio Real de Lyon, concluiu seus estudos secundários no Liceu Louis-le-Grand em Paris, foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; não quis seguir carreira alguma, fez imersão no mundo literário, por pressão familiar partiu em viagem para Calcutá Índia, desistiu a meio caminho e retornou para a França; Baudelaire, ao atingir a maioridade tomou posse de parte da herança paterna, adquiriu independência econômica e, em Paris, passou a viver entre poetas e pintores, levando vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne); Baudelaire foi um dos precursores do Simbolismo e é reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal, poemas, 1857 e + reedições), Os Paraísos Artificiais (Les Paradis Artificiels, ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (Petits poèmes en prose ou Le Spleen de Paris, edição póstuma, 1869), outros vários títulos e alguns inacabados; As Flores do Mal, considerada a sua mais conhecida e principal obra, em sua 1ª edição e divulgação recebeu fortes contestações no campo da moral dos costumes e na justiça; em razão do lançamento, Baudelaire foi julgado, recebeu censuras e multas governamentais e, para a 2ª edição da obra, o poeta foi forçado a excluir alguns poemas (seis), e incluiu outros (dezoito); traduziu Edgar Allan Poe.

domingo, 10 de setembro de 2023

Charles Baudelaire: A giganta


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[traduzido por Décio Pignatari]

Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,
Gerava estranhos seres raros, dia a dia,
Uma giganta moça eis do eu gostaria,
Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato.

Ver seu corpo florir com a flor de sua alma
E crescer livremente em seus terríveis jogos;
Ver se não teria no peito alguma oculta chama,
Com as chispas molhadas que mostra nos olhos.

Percorrer à vontade a realeza das formas,
Escalar a vertente dos joelhos enormes
E, quando os sóis do estio, à complacência alheios,

Estendem-na, cansada, ao longo da campina,
Dormir descontraído à sombra dos seus seios,
Como abrigo tranqüilo ao pé de uma colina.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 03.06.85]

Charles Baudelaire

La géante

Du temps que la Nature en sa verve puissante
Concevait chaque jour des enfants monstrueux,
J’eusse aimé vivre auprès d’une jeune géante,
Comme aux pieds d’une reine un chat voluptueux.

J’eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme
Et grandir librement dans ses terribles jeux;
Deviner si son coeur couve une sombre flamme
Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux;

Parcourir à loisir ses magnifiques formes;
Ramper sur le versant de ses genoux énormes,
Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s’étendre à travers la campagne,
Dormir nonchalamment à l’ombre de ses seins,
Comme un hameau paisible au pied d’une montagne.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

domingo, 20 de agosto de 2023

Charles Baudelaire: Embriagai-vos


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[traduzido por José Saramago]

          Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
          Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.
          E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a todo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão: “São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”

Charles Baudelaire

Enivrez-vous

          Il faut être toujours ivre. Tout est là. C’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
          Mais de quoi? De vin, de poésie, ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
          Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront: “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.”

[Le spleen de Paris — Les cinquante petits poèmes en prose — 1869]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Charles Baudelaire: O vinho dos trapeiros

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[traduzido por José Saramago]

Muitas vezes, à luz vermelha de um candeeiro
Cuja chama o vento sacode e cujo vidro atormenta,
No coração de um velho subúrbio, labirinto lodoso.
Onde a humanidade se agita em fermentos tempestuosos,

Vê-se um trapeiro que vem, meneando a cabeça,
Tropeçando, e esbarrando nas paredes como um poeta,
E, sem dar atenção aos espiões, seus súbditos,
Expande todo o coração em gloriosos projectos.

Presta juramentos, dita leis sublimes,
Derruba os maus, ergue de novo as vítimas,
E sob o firmamento como um dossel suspenso
Enebria-se dos esplendores da sua própria virtude.

Sim, estes seres fatigados de desgostos domésticos,
Moídos do trabalho e atormentados pela idade,
Extenuados e vergados sob um monte de restos,
Vomitados confusos do enorme Paris,

Regressam, perfumados de um odor de tonéis,
Seguidos de companheiros, encanecidos nas batalhas,
Cujos bigodes pendem como os velhos estandartes.
As bandeiras, as flores e os arcos triunfais

Erguem-se diante deles, solene magia!
E na estrondosa e luminosa orgia
Dos clarins, do sol, dos gritos e do tambor,
Trazem a glória ao povo ébrio de amor!

Assim através da Humanidade frívola
O vinho rola ouro, deslumbrante Páctolo;
Com a garganta do homem canta as suas proezas
E reina por seus dons como os verdadeiros reis.

Para afogar o rancor e embalar a indolência
De todos esses velhos malditos que morrem em silêncio,
Deus, tocado de remorsos, fizera o sono;
O Homem juntou-lhe o Vinho, filho sagrado do Sol.

Charles Baudelaire

Le vin des chiffoniers

Souvent, à la clarté rouge d'un réverbère
Dont le vent bat la flamme et tourmente le verre,
Au coeur d'un vieux faubourg, labyrinthe fangeux
Où l'humanité grouille en ferments orageux,

On voit un chiffonnier qui vient, hochant la tête
Butant, et se cognant aux murs comme un poète,
Et sans prendre souci des mouchards, ses sujets,
Épanche tout son coeur en glorieux projets.

Il prête des serments, dicte des lois sublimes,
Terrasse les méchants, relève les victimes,
Et sous le firmament comme un dais suspendu
S'enivre des splendeurs de sa propre vertu.

Oui, ces gens harcelés de chagrins de ménage,
Moulus par le travail et tourmentés par l'âge,
Éreintés et pliant sous un tas de débris,
Vomissement confus de l'énorme Paris,

Reviennent, parfumés d'une odeur de futailles,
Suivis de compagnons, blanchis dans les batailles
Dont la moustache pend comme les vieux drapeaux.
Les bannières, les fleurs et les arcs triomphaux

Se dressent devant eux, solennelle magie!
Et dans l'étourdissante et lumineuse orgie
Des clairons, du soleil, des cris et du tambour,
Ils apportent la gloire au peuple ivre d'amour!

C'est ainsi qu'à travers l'Humanité frivole
Le vin roule de l'or, éblouissant Pactole;
Par le gosier de l'homme il chante ses exploits
Et règne par ses dons ainsi que les vrais rois.

Pour noyer la rancoeur et bercer l'indolence
De tous ces vieux maudits qui meurent en silence,
Dieu, touché de remords, avait fait le sommeil;
L'Homme ajouta le Vin, fils sacré du Soleil!

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Charles Baudelaire: A alma do vinho


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[traduzido por José Saramago]

Uma noite, a alma do vinho cantava nas garrafas:
«Homem, vai de mim para ti, ó caro deserdado,
Nesta prisão de vidro e de selos vermelhos,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

Sei quanto é preciso, sobre a colina em chamas,
De esforço, de suor e de sol esbraseante
Para engendrar-se a minha vida e ser-me dada alma;
Mas não serei ingrato nem malfazejo,

Pois é imensa a alegria que sinto quando caio
Na garganta de um homem gasto pelo trabalho,
E o seu cálido peito é um túmulo tranquilo
Onde melhor me sinto do que nas frias caves.

Ouves tu ressoar as canções dos domingos?
E a esperança que ri no meu seio palpitante?
De cotovelos na mesa e arregaçando as mangas,
Tu me glorificarás e estarás radiante;

Iluminarei os olhos de tua mulher encantada;
A teu filho darei a cor e as forças
E serei para esse frágil atleta da vida
O óleo que reforça os músculos dos lutadores.

Em ti cairei, vegetal ambrósia,
Grão precioso lançado pelo eterno Semeador,
Para que do nosso amor nasça a poesia
Que subirá a Deus como uma rara flor!»


L’âme du vin

Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
"Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l'âme;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j'éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d'un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l'espoir qui gazouille en mon sein palpitant?
Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
Tu me glorifieras et tu seras content;

J'allumerai les yeux de ta femme ravie;
A ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L'huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l'éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur!"

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Charles Baudelaire: O vinho do assassino


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[traduzido por José Saramago]

Minha mulher está morta, sou livre!
Posso agora beber quanto quiser.
Quando chegava a casa sem dinheiro
Rasgava-me as fibras aos gritos.

Sou tão feliz como um rei;
O ar é puro, o céu admirável...
Tivemos um Verão assim!
Quando me apaixonei por ela.

A horrível sede que me dilacera
Precisaria para se satisfazer
De tanto vinho quanto pode conter
O túmulo dela; e não é dizer pouco:

Atirei-a ao fundo de um poço,
E empurrei-lhe mesmo para cima
Todas as pedras do bucal.
Hei-de esquecê-lo se puder!

Em nome dos juramentos de ternura,
De que nada pode desligar-nos,
E para nos reconciliarmos
Como nos bons tempos do nosso entusiasmo,

Implorei-lhe um encontro,
À noite, numa rua escura.
Ela veio! doida criatura!
Todos somos mais ou menos doidos!

Estava ainda bonita,
Embora fatigada! e eu,
Amava-a de mais! por isso
Lhe disse: Sai desta vida!

Ninguém pode entender. Um só
Desses bêbedos estúpidos
Terá pensado nas noites mórbidas
Fazer do vinho uma mortalha?

Essa crápula invulnerável
Como as máquinas de ferro
Nunca, de Verão ou de Inverno,
Conheceram o verdadeiro amor,

Com os seus negros bruxedos,
Seu cortejo infernal de alarmes,
Seus frascos de veneno, suas lágrimas,
Sem ruídos de grilhões e de ossadas!

Eis-me livre e solitário!
Esta noite estarei bêbedo a cair;
Depois, sem medo e sem remorso,
Deitar-me-ei no chão,

E dormirei como um cão!
A galera de pesadas rodas
Carregada de pedras e de lamas,
O vagão desgarrado pode vir

Esmagar-me a cabeça culpada
Ou cortar-me pelo meio,
Rio-me de tudo como de Deus,
Do Diabo ou da Santa Mesa!

Charles Baudelaire

Le vin de l’assassin

Ma femme est mort, je suis libre!
Je puis donc boire tout mon soûl.
Lorsque je rentrais sans un sou,
Ses cris me déchiraient la fibre.

Autant qu'un roi je suis heureux;
L'air est pur, le ciel admirable...
Nous avions un été semblable
Lorsque j'en devins amoureux!

L'horrible soif qui me déchire
Aurait besoin pour s'assouvir
D'autant de vin qu'en peut tenir
Son tombeau; ce n'est pas peu dire:

Je l'ai jetée au fond d'un puits,
Et j'ai même poussé sur ele
Tous les pavés de la margelle.
Je l'oublierai si je le puis!

Au nom des serments de tendresse,
Dont rien ne peut nous délier,
Et pour nous réconcilier
Comme au beau temps de notre ivresse,

J'implorai d'elle un rendez-vous,
Le soir, sur une route obscure.
Elle y vint! folle créature!
Nous sommes tous plus ou moins fous!

Elle était encore jolie,
Quoique bien fatiguée! et moi,
Je l'aimais trop! voilà pourquoi
Je lui dis: Sors de cette vie!

Nul ne peut me comprendre. Un seul
Parmi ces ivrognes stupides
Songea-t-il dans ses nuits morbides
A faire du vin un linceul?

Cette crapule invulnérable
Comme les machines de fer
Jamais; ni l'été ni l'hiver,
N'a connu l'amour véritable,

Avec ses noirs enchantements,
Son cortège infernal d'alarmes,
Ses fioles de poison, ses larmes,
Ses bruits de chaîne et d'ossements!

Me voilà libre et solitaire!
Je serai ce soir ivre mort;
Alors, sans peur et sans remord,
Je me coucherai sur la terre,

Et je dormirai comme un chien!
Le chariot aux lourdes roues
Chargé de pierres et de boues,
Le wagon enragé peut bien

Écraser ma tête coupable
Ou me couper par le milieu,
Je m'en moque comme de Dieu,
Du Diable ou de la Sainte Table!

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

domingo, 14 de maio de 2023

Charles Baudelaire: O vinho do solitário


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[traduzido por José Saramago]

O olhar singular de uma mulher galante
Que desliza para nós como o raio branco
Que a lua ondulosa envia ao lago trémulo
Quando quer banhar nele a beleza preguiçosa;

O último saco de escudos nas mãos de um jogador;
Um beijo libertino da magra Adeline;
Os sons de uma música enervante e carinhosa,
Semelhante ao grito distante da dor humana,

Tudo isto não vale, ó garrafa profunda,
Os bálsamos penetrantes que a tua pança fecunda
Reserva ao coração sedento do poeta piedoso;

Tu deitas-lhe a esperança, a juventude e a vida,
E o orgulho, tesouro da indigência,
Que nos torna triunfantes e iguais aos Deuses!

Charles Baudelaire

Le vin du solitaire

Le regard singulier d'une femme galante
Qui se glisse vers nous comme le rayon blanc
Que la lune onduleuse envoie au lac tremblant,
Quand elle y veut baigner sa beauté nonchalante;

Le dernier sac d'écus dans les doigts d'un joueur;
Un baiser libertin de la maigre Adeline;
Les sons d'une musique énervante et câline,
Semblable au cri lointain de l'humaine douleur,

Tout cela ne vaut pas, ô bouteille profonde,
Les baumes pénétrants que ta panse féconde
Garde au coeur altéré du poète pieux;

Tu lui verses l'espoir, la jeunesse et la vie,
Et l'orgueil, ce trésor de toute gueuserie,
Qui nous rend triomphants et semblables aux Dieux.

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Charles Baudelaire: O vinho dos amantes


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[traduzido por José Saramago]

Hoje o espaço é esplêndido!
Sem freio, sem esporas, sem brida,
Partamos a cavalo no vinho
Para um céu feérico e divino!

Como dois anjos atormentados
Por calentura implacável,
No azul cristal da manhã
Sigamos a miragem distante!

Suavemente balouçados sobre a asa
Do turbilhão inteligente,
Em um delírio paralelo,

Minha irmã, nadando lado a lado,
Fugiremos sem descanso nem tréguas
Para o paraíso dos meus sonhos!

Charles Baudelaire

Le vin des amants

Aujourd'hui l'espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture,
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balances sur l'aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Charles Baudelaire: A solidão


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[traduzido por Alessandro Zir]

XXIII

     Um jornalista filantropo me disse que a solidão faz mal ao homem; e para apoiar sua tese ele cita, como todos os incrédulos, as palavras dos Padres da Igreja.
     Eu sei que o Demônio frequenta de boa vontade os lugares áridos, e que o Espírito assassino e lascivo muito espontaneamente se acende nos momentos de solidão. Mas é possível que essa solidão não seja perigosa senão para a alma ociosa e divagante que a povoa com suas paixões e quimeras.
     Ninguém duvida que um tagarela, cujo prazer supremo consiste em falar do alto de uma cátedra ou tribuna, corre um grande risco de se tornar um louco furioso na ilha de Robinson. Não exijo do meu jornalista as virtudes corajosas de Crusoé, mas peço que ele não impute, com suas acusações, os apaixonados pela solidão e o mistério.
     Há, nas nossas raças tagarelas, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo, se lhes fosse permitido proferir, do alto do cadafalso, uma copiosa arenga, sem medo de serem interrompidos intempestivamente pelos tambores de Santerre.
     Eu não os lamento, porque suponho que suas efusões de eloquência lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que outros obtêm do silêncio e do isolamento; mas eu os desprezo.
     Desejo, sobretudo, que meu tão estimado jornalista deixe-me me divertir como me aprouver.
      Você não sente nunca pergunta-me ele, tão fanho quanto apostólico a necessidade de partilhar suas alegrias?
     Observem a astúcia do invejoso! Ele sabe o quanto desdenho as suas, e quer se insinuar nas minhas, o miserável estraga-prazeres!
     “O grande infortúnio de não se aguentar ficar só!...”, escreve em alguma parte La Bruyère, como para envergonhar aqueles que correm à multidão em busca de esquecimento, porque temem sem dúvida não aguentar a si próprios.
     “Quase todas as nossas aflições advêm de não termos sabido ficar em nosso quarto”, afirma um outro sábio, creio que Pascal, dirigindo-se assim, na cela do recolhimento, a todos esses alterados que procuram a felicidade no movimento e em uma prostituição que eu poderia chamar de fraternal, se quisesse falar a bela língua do meu século.

Charles Baudelaire

La solitude

XXIII

     Un gazetier philanthrope me dit que la solitude est mauvaise pour l'homme; et à l'appui de sa thèse, il cite, comme tous les incrédules, des paroles des Pères de l'Eglise.
     Je sais que le Démon fréquente volontiers les lieux arides, et que l'Esprit de meurtre et de lubricité s'enflamme merveilleusement dans les solitudes. Mais il serait possible que cette solitude ne fût dangereuse que pour l'âme oisive et divagante qui la peuple de ses passions et de ses chimères.
     Il est certain qu'un bavard, dont le suprême plaisir consiste à parler du haut d'une chaire ou d'une tribune, risquerait fort de devenir fou furieux dans l'île de Robinson. Je n'exige pas de mon gazetier les courageuses vertus de Crusoé, mais je demande qu'il ne décrète pas d'accusation les amoureux de la solitude et du mystère.
     Il y a dans nos races jacassières, des individus qui accepteraient avec moins de répugnance le supplice suprême, s'il leur était permis de faire du haut de l'échafaud une copieuse harangue, sans craindre que les tambours de Santerre ne leur coupassent intempestivement la parole.
     Je ne les plains pas, parce que je devine que leurs effusions oratoires leur procurent des voluptés égales à celles que d'autres tirent du silence et du recueillement; mais je les méprise.
     Je désire surtout que mon maudit gazetier me laisse m'amuser à ma guise. "Vous n'éprouvez donc jamais, me dit-il, avec un ton de nez très apostolique, le besoin de partager vos jouissances?" Voyez-vous le subtil envieux! Il sait que je dédaigne les siennes, et il vient s'insinuer dans les miennes, le hideux trouble-fête!
     "Ce grand malheur de ne pouvoir être seul!..." dit quelque part La Bruyère, comme pour faire honte à tous ceux qui courent s'oublier dans la foule, craignant sans doute de ne pouvoir se supporter eux-mêmes.
     "Presque tous nos malheurs nous viennent de n'avoir pas su rester dans notre chambre", dit un autre sage, Pascal, je crois, rappelant ainsi dans la cellule du recueillement tous ces affolés qui cherchent le bonheur dans le mouvement et dans une prostitution que je pourrais appeler fraternitaire, si je voulais parler la belle langue de mon siècle.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.