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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Carlos Drummond de Andrade: Esboço de figura

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Antônio Cândido ou
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antônio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antônio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antônio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antônio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?

Arguto, sutil Antônio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antônio Cândido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.

Amar se aprende amando — 1985

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Amar Se Aprende Amando, poesia de convívio e de humor — Carlos Drummond de Andrade, 6ª edição, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Alphonsus de Guimaraens: Rosas

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Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que já se foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas…

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas…
Sois aroma de alfombras silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço e de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura?

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Presença da Literatura Brasileira II: Do Romantismo ao Simbolismo — Antonio Candido e José Aderaldo Castello, 1976, 6ª edição, Difel, São Paulo — SP; Alphonsus de Guimaraens (1870 1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães, mineiro de Ouro Preto, cursou Direito, foi juiz, promotor de justiça, poeta e escritor; colaborou nos jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de São Paulo e A Gazeta; principais obras publicadas: Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Mendigos (prosa, 1920), Pauvre Lyre (1921) e, postumamente, Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923), Escada de Jacó e Púlvis.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Augusto dos Anjos: O fim das coisas

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Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!

Rasgue os broncos basaltos negros, cave
Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo do orbe, invente
A limpada aflogística de Davy!

Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio...

E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!

Eu (Poesias Completas),
Rio de Janeiro, São José, 1963.

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Presença da Literatura Brasileira II: Do Romantismo ao Simbolismo — Antonio Candido e José Aderaldo Castello, 1976, 6ª edição, Difel, São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Augusto dos Anjos: Vítima do dualismo

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Ser miserável dentre os miseráveis
Carrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconciliáveis
E as mais opostas idiossincrasias!

Muito mais cedo do que o imagináveis
Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias
Cóleras dos dualismos implacáveis
E à gula negra das antinomias!

Psiquê biforme, o Céu e o Inferno absorvo...
Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,
Feita dos mais variáveis elementos,

Ceva-se em minha carne, como um corvo,
A simultaneidade ultramonstruosa
De todos os contrastes famulentos!

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Presença da Literatura Brasileira II: Do Romantismo ao Simbolismo — Antonio Candido e José Aderaldo Castello, 1976, 6ª edição, Difel, São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

sábado, 5 de outubro de 2019

Augusto dos Anjos: O lamento das coisas

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Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada
O cantochão dos dínamos profundos
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é em suma, o subconsciente aí formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

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Presença da Literatura Brasileira II: Do Romantismo ao Simbolismo — Antonio Candido e José Aderaldo Castello, 1976, 6ª edição, Difel, São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil. 

domingo, 8 de setembro de 2019

Alphonsus de Guimaraens: A Catedral

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Entre brumas, ao longe, surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
          Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
          Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
          “Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
          Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
          Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
          “Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
          Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho,
          Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
          “Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
          Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
          Como um astro que já morreu.

E o sino chora em lúgubres responsos:
          “Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Obra completa, Rio de Janeiro, Aguilar, 1960.

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Presença da Literatura Brasileira II: Do Romantismo ao Simbolismo — Antonio Candido e José Aderaldo Castello, 1976, 6ª edição, Difel, São Paulo — SP; Alphonsus de Guimaraens (1870 1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães, mineiro de Ouro Preto, cursou Direito, foi juiz, promotor de justiça, poeta e escritor; colaborou nos jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de São Paulo e A Gazeta; principais obras publicadas: Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Mendigos (prosa, 1920), Pauvre Lyre (1921) e, postumamente, Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923), Escada de Jacó e Púlvis.

domingo, 25 de agosto de 2019

Cruz e Sousa: Música da Morte

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A Música da Morte, a nebulosa,
estranha, imensa musica sombria,
passa a tremer pela minh’alma e fria
gela, fica a tremer, maravilhosa…

Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
letes sinistro e torvo da agonia,
recresce a lancinante sinfonia,
sobe, numa volúpia dolorosa…

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,
tremenda, absurda, imponderada e larga,
de pavores e trevas alucina…

E alucinando e em trevas delirando,
como um ópio letal, vertiginando,
os meus nervos, letárgica, fascina…

Faróis (publicação póstuma, 1900)

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Presença da Literatura Brasileira II: Do Romantismo ao Simbolismo — Antonio Candido e José Aderaldo Castello, 1976, 6ª edição, Difel, São Paulo — SP; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

domingo, 18 de agosto de 2019

Cruz e Sousa: Olhos do Sonho

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Certa noite soturna, solitária,
vi uns olhos estranhos que surgiam
do fundo horror da terra funerária
onde as visões sonâmbulas dormiam...

Nunca da terra neste leito raso
com meus olhos mortais, alucinados...
nunca tais olhos divisei acaso
outros olhos eu vi transfigurados.

A luz que os revestia e alimentava
tinha o fulgor das ardentias vagas,
um demônio noctâmbulo espiava
de dentro deles como de ígneas plagas.

E os olhos caminhavam pela treva
maravilhosos e fosforescentes...
enquanto eu ia como um ser que leva
pesadelos fantásticos, trementes...

Na treva só os olhos, muito abertos,
seguiam para mim com majestade,
um sentimento de cruéis desertos
me apunhalava com atrocidade.

Só os olhos eu via, só os olhos
nas cavernas da treva destacando:
faróis de augúrio nos ferais escolhos,
sempre, tenazes, para mim olhando...

Sempre tenazes para mim, tenazes,
sem pavor e sem medo, resolutos,
olhos de tigres e chacais vorazes
no instante dos assaltos mais astutos.

Só os olhos eu via!  o corpo todo
se confundia com o negror em volta...
ó alucinações fundas do lodo
carnal, surgindo em tenebrosa escolta!

E os olhos me seguiam sem descanso,
numa perseguição de atras voragens,
nos narcotismos dos venenos mansos,
como dois mudos e sinistros pajens.

E nessa noite, em todo meu percurso,
nas voltas vagas, vãs e vacilantes
do meu caminho, esses dois olhos de urso
lá estavam tenazes e constantes.

Lá estavam eles, fixamente eles,
quietos, tranquilos, calmos e medonhos...
Ah! quem jamais penetrará naqueles
olhos estranhos dos eternos sonhos!

(Jan. 1897)
Faróis (publicação póstuma, 1900)

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Presença da Literatura Brasileira II: Do Romantismo ao Simbolismo — Antonio Candido e José Aderaldo Castello, 1976, 6ª edição, Difel, São Paulo — SP; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Teófilo Dias: Carta

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Não sei que afã de ver-te me tortura
Desde que longe estás de mim, criança!
Só me alimenta a febre da esperança.
Tenho no olhar o espasmo da loucura.

De fundo abismo na espiral escura,
Que só de imaginá-lo a ideia cansa,
Mergulha-me o desgosto, a dor me lança,
Dor que só em te ver tivera cura.

Por isso é que ao mandar-te, angustiado,
Este soneto, de minh'alma cheio,
Comprimo o coração despedaçado

Com a mão palpitante, com receio
Que em ímpetos de amor arrebatado
Me fuja para ti, pelo  correio.

Fanfarras — 1882

Teófilo Dias
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Poesias Escolhidas, Teófilo Dias — Seleção, Prefácio, Introdução e Notas por Antonio Candido, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo, A República, O Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participa da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; escreveu e publicou Flores e Amores (1874), Contos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Baudelaire: A fonte do sangue

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[traduzido por Teófilo Dias]

Sinto o sangue escapar-me à veia enfebrecida,
Como fonte fugaz; 
 harmônico e purpúreo,
Escuto-o soluçar com lírico murmúrio,
Porém me apalpo em vão; não encontro ferida.

É-lhe leito a cidade, e nela se despenha;
Referve, e cada pedra em ilha transfigura;
E vai matando a sede a cada criatura,
Colorindo de rubro as coisas que desenha.

O vinho aguça a vista e apura mais o ouvido:
Talvez, por isso, em vão, que adormeça, hei pedido
O meu roaz terror um momento sequer;

Em vão também no amor procuro o esquecimento;
Mas o amor, quanto a mim, não é mais que um invento
Com que nos suga o sangue a seda da mulher.

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Baudelaire

La Fontaine de Sang

Il me semble parfois que mon sang coule à flots,
Ainsi qu'une fontaine aux rythmiques sanglots.
Je l'entends bien qui coule avec un long murmure,
Mais je me tâte en vain pour trouver la blessure.

À travers la cité, comme dans un champ clos,
Il s'en va, transformant les pavés en îlots,
Désaltérant la soif de chaque créature,
Et partout colorant en rouge la nature.

J'ai demandé souvent à des vins captieux
D'endormir pour un jour la terreur qui me mine;
Le vin rend l'oeil plus clair et l'oreille plus fine!

J'ai cherché dans l'amour un sommeil oublieux;
Mais l'amour n'est pour moi qu'un matelas d'aiguilles
Fait pour donner à boire à ces cruelles filles!


Nota de Antonio Candido: ‘La Fontaine de Sang’. Tradução muito boa, ajustando-se rigorosamente ao original.
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Poesias Escolhidas, Teófilo Dias — Seleção, Prefácio, Introdução e Notas por Antonio Candido, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês de Paris, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX. Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854  1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político, poeta e tradutor; colaborou com os jornais Província de São Paulo e A República, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participa da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; escreveu e publicou  Flores e Amores (1874), Contos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888).

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Álvares de Azevedo: Se eu morresse amanhã

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.
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Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
           Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro.
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
          Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
          Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
          Se eu morresse amanhã!


Grandes Poetas Românticos do Brasil,
Lep, 1949


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Presença da Literatura Brasileira, História e Antologia  Das Origens ao Realismo: Antonio Candido  e José Aderaldo Castello, 1987, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro RJ; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831  1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP  Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).