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sábado, 14 de junho de 2025

B. Lopes: Marcha dos Beijos


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Olhai: é o beijo azul dos namorados,
na boca em flor da carne pubescente;
beijo cinza na face, o indiferente;
beijos da sedução, beijos doirados.

Beijo verde, de um par de mal-casados;
e o da ternura, em nácar esplendente;
beijo rubro, minaz, mostrando o dente,
beijo do ciúme, dos desesperados!

Beijo da mágoa, beijo da desgraça,
em roxo, em lírio, e em desolado assomo,
o beijo róseo dos amantes passa...

Beijo amarelo e um outro negro vejo:
os de inveja e traição; mas nenhum como
o branco, o eterno, o derradeiro beijo!

[Plumário — 1905]

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Antologia de Poetas Fluminenses (várias autorias) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança, em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares no mesmo arraial onde nasceu; depois, mudando-se para o Rio de Janeiro, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio; suas obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (comédia elegante, em versos, Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1890), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, ...; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

sábado, 24 de maio de 2025

B. Lopes: Velho Muro


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Velho muro da chácara! Parcela
Do que já foste: resto do passado,
Bolorento, musgoso, úmido, orlado
De uma coroa víride e singela.

Forte e novo eu te vi, na idade bela
Em que, falando para o namorado,
Tinhas no ombro de pedra debruçado
O corpo senhoril de uma donzela…

Linda epoméia te bordava a crista;
Eras, ao luar de leite, um linho albente,
Folha de prata, ao sol, ferindo a vista.

Em ti pousava a doce borboleta…
E quantas noites viste, ermo e silente,
Romeu beijando as mãos de Julieta!

[Plumário — 1905]

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Antologia de Poetas Fluminenses (várias autorias) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança, em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares no mesmo arraial onde nasceu; depois, mudando-se para o Rio de Janeiro, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio; suas obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (comédia elegante, em versos, Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1890), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, ...; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

B. Lopes: Per Rura*

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[trecho]

Clara manhã; rutilante1
Ascende o sol no horizonte;
Corre uma aragem flagrante2
Por vale, planície e monte,
Trazendo nas frias asas
Um lindo som de cantigas.

De cima daquelas casas,
Casinhas brancas e amigas,
Sobem fumos3 azulados;
E há pombos pelos telhados.

Cresce o rumor das cantigas...
Surge um farrancho4 de gente
Alegre, farta e contente,
De samburás e de gigas.

Andam colhendo as espigas
Do milharal pardo e seco;
É dali que vem o eco
De tão boas cantigas...

Cantai, cantai, raparigas!

[ . . . ]

[Val de Lírios — 1900]

B. Lopes

Notas da edição:
1. rutilante: brilhante
2. fragrante: cheiroso
3. fumos: fumaça
4. farrancho: grupo
* Nota deste Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que, em B. Lopes: Poesias — Volume 63 da Coleção Nossos Clássicos, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ, o organizador Andrade Muricy anota o seguinte acerca do poema "Per Rura": ‘A influência do delicado ruralista Ezequiel Freire [poeta, 1850 — 1891] é nítida neste poema, — uma das melhores expressões da poesia de sentido regionalista e do naturalismo brasileiros. Nele está presente, porém com maior singeleza e tom popular mais acentuado, o mesmo profundo sentimento de envolvente tropicalismo nativo que inspirou “Alma em Flor”, a obra-prima de perene juventude, de Alberto de Oliveira [poeta, 1857 — 1937]. Josué Montello indicou em certa passagem de “Per Rura” uma “presença” de Antonio Nobre [poeta, 1867 — 1900].
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

B. Lopes: Ciúme

 
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Infunde-me um pavor de Hora tremenda
Teu braço a arder em seda purpurina,
Terminando em tulipa de alva renda,
Donde emerge essa mão nervosa e fina.

Evoca imagens de sinistra lenda,
Onde há, soltando, a extrema cavatina,
Um bardo e amante, sobre o luar, na tenda,
E uma rainha pálida e assassina...

Braço, de ânsias, paixão e orgulho feito!
Nunca me caias tu, gracioso vime,
As rajadas do Ciúme sobre o peito,

Que essa mão de princesa altiva e louca
Jamais, nos lances trágicos do Crime,
Me apague os olhos e me feche a boca!

(Sinhá Flor — 1899)

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Coleção Nossos Clássicos — B. Lopes, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

B. Lopes: Namorados

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Nessas manhãs alegres, perfumadas,*
De éter sadio e claro firmamento,
Acariciando o mesmo pensamento
Percorremos o parque, de mãos dadas.

Aves trinando em cima das ramadas,
Alvos patos e um cisne a nado lento
Sobre as águas do lago, num momento
Pela brasa do sol ensanguentadas...

Brilha o sereno trêmulo nas pontas
Do vistoso gramal, como se fosse
Solto rosário de opalinas contas...

Enquanto uns casos rústicos de aldeia
Eu vou narrando-lhe, em linguagem doce,
Escuto a queixa de seus pés na areia!**

Brasões (1895)


Notas de Andrade Muricy:
* Ainda uma vez, entre muitas, em que o poeta exprime impressão de frescura e leveza matutinas, avivada ainda pela referência às águas “ensanguentadas” do lago;
** Metáfora dinâmico-auditiva de raro alcance.
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Coleção Nossos Clássicos — B. Lopes, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, poeta e jornalista; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; bibliografia: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mestiço, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

sábado, 17 de abril de 2021

B. Lopes: Nome

 
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Ao céu erguendo-a, a cornucópia de ouro
Do Estro emboquei; e, a fortes clarinadas,
Pelo esplendor das límpidas estradas
Fui soprando o teu nome imorredouro!

Era o pregão da Luz por campo louro
 Águia cantante, asas de sol raiadas 
Que nas tiorbas de bronze consteladas
Iam os ecos assoalhando, em coro...

Letras sidéreas, épica derrama
De astros, em choque, pela tuba afora,
Que o alto império da Forma em ti proclama;

Bandeiras eólias, desfraldadas, flora
De sons da Ilíada, ostentosa gama
Da vida acesa na explosão da aurora!

(Sinhá Flor — 1899)

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Coleção Nossos Clássicos — B. Lopes, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; bibliografia: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

terça-feira, 30 de março de 2021

B. Lopes: Magnífica

 
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Láctea, da lactescência das opalas,*
Alta, radiosa, senhoril e guapa,
Das linhas firmes do seu corpo escapa
O aroma aristocrático das salas.

Flautas, violinos, harpas de ouro, em alas!
Labaredas do olhar, batei-lhe em chapa!
Vênus que surge, roto o céu da capa,
Num delírio de sons, luzes e galas!

Simples coisa é mister, simples e pouca,
Para trazer a estrela enamorada
De homens e deuses a cabeça louca:

Quinze jardas de seda bem talhada,
Uma rosa ao decote, árias na boca,
E ela arrebata o sol de uma embaixada!

Brasões (1895)


* Nota de Andrade Muricy: A influência de Cruz e Sousa de Broquéis é manifesta.
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Coleção Nossos Clássicos — B. Lopes, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, poeta e jornalista; escreveu artigos para o Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; bibliografia: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mestiço, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

sábado, 20 de março de 2021

B. Lopes: Paraíso perdido

 
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Outro, não eu, que desespero, ao cabo
De, em pedrarias de arte e versos de ouro,
Ter dissipado todo o meu tesouro,
Como os florins e as jóias de um nababo;

Outro, não eu, que para o chão desabo,
Esquecendo-te as culpas e o desdouro,
E a teus pés de marfim, como o rei mouro
Em torrentes de lágrimas acabo;

Outro conspurca-te a beleza augusta,
Cujo anseio de posse ainda me custa
Como um verme faminto andar de rastros.

E mais deploro este meu sonho falso
Ao recordar que andei no teu encalço
Pelo caminho rútilo dos astros!

(Sinhá Flor — 1899)

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Coleção Nossos Clássicos — B. Lopes, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; bibliografia: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

quarta-feira, 10 de março de 2021

B. Lopes: Piquenique

 
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Domingo de ócio, ao matinal repique
De um sino argênteo, na risonha tinta
Com que de oiro e rosa o céu se pinta,
Tenho-a, em trajo de campo, alegre e chique.

Docemente enlaçada pela cinta
Vou levando-a de pé, montanha a pique,
Para o dueto floral de um piquenique
Às sombrarias de uma velha quinta.

Antes que a árvore glauca nos arranche,
Vai dando o assalto aos araçás e aos jambos
E estroina e loira ma petite Blanche.

E a rir levamos, entre ditirambos,
Eu, no açafate, as provisões do lanche,
Ela, um beijo a trinar nos lábios flambos!

(Sinhá Flor — 1899)

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Coleção Nossos Clássicos — B. Lopes, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; bibliografia: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Gonzaga Duque: Instantâneo de B. Lopes

 
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                    Entra o poeta, espalhafatoso no seu vestuário, uma camisa azul, enorme laçaria de sede creme presa sob as pontas largas dum colarinho branco, calças de xadrez dançando nas pernas, polainas de brim, um pára-sol de “foulard” amarelo, um chapéu de palha branca, e na lapela do jaquetão um “bouquet”, verdadeiramente um “bouquet”. Nada menos de três cravos vermelhos e duas rosas “tela de ouro”.
                    “Sinhá Flor” está ali, a dois passos, bebericando um vermouth, em companhia dumas raparigas.
                    Lopes entra, pára, relanceia o olhar pela sala, corresponde à saudação de alguns camaradas com um gesto intraduzível pelo que tinha de largo e de ridículo e, sem a menor consciência da responsabilidade daquelas senhoras, arranca da lapela o seu “bouquet” e desfolha-o, “desfolha-o” na cabeça da Mameluca!
                    O escândalo foi indizível.
                    Ato contínuo, como se houvera feito a coisa mais simples deste mundo, e, enquanto as senhoras assim afrontadas se retiravam, dirige-se ao balcão, pede um copo de vinho do Porto e numa voz estridente, volta-se para os assistentes: “Viva la Gracia”!
                    
(Do Diário Íntimo, in Autores e Livros,
 suplemento literário de A Manhã, 18-10-1942.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 2ª edição, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Luís de Gonzaga Duque Estrada (1863 — 1911), carioca, frequentou os colégios Abílio, Paixão (Petrópolis) e Meneses Vieira, foi jornalista e escritor; em 1880, foi cofundador da revista Guanabara, depois colaborou na revista Gazetinha, do dramaturgo e poeta Artur Azevedo, e na Gazeta da Tarde, órgão abolicionista de José do Patrocínio, foi crítico de arte em A Semana, também foi cofundador da Rio Revista, da revista simbolista Galáxia, dos periódicos Mercúrio e Fon-Fon, além de ter colaborado nas revistas simbolistas Vera Cruz, Rosa Cruz e Kosmos; bibliografia: Mocidade Morta (1889, 2ª edição em 1971), Horto de Mágoas (contos e fantasias em prosa poética, 1914); de sua biografia, consta ter sido uma das mais importantes expressões do Simbolismo brasileiro.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

B. Lopes: "Per Rura" *

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( . . . )

III

Faz um dia transparente
E infiltra o sol, dardejando,
Certa moleza na gente...
No ar parado, sobre as roças,
Anda um gavião gritando.

Estala o sapé das choças:
Sinal de chuva ou borrasca
Lá pelos altos nenhum!
O céu azul como a casca
De um ovo enorme de anum.

E as horas se fazem longas
Escoadas ao compasso
Do canto das arapongas,
Longínquo, nervoso e fino.
Sonoras, claras e lentas
Vão rolando pelo espaço
As badaladas de um sino.

Tem umas cores cinzentas
O aspecto da serrania.

Alveja, em floco, distante,
Doce névoa flutuante
Sobre a cabeça dos montes,
De uma aparência sombria
Na tela dos horizontes.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um dos homens do trabalho
Sulca as areias da estrada...
Da fronte o suor lhe pinga.
Traz a camisa em retalho,
Numa das mãos a moringa,
Aos ombros lustrosa enxada.

Vai buscando, pelo atalho,
A direção da vivenda,
Onde ele encontra já posta
Sobre um pedaço de esteira
A refeição da merenda,
Cobrindo a louça as alvuras
De uma toalha grosseira.

Ele... que fome, Teresa!
Ela, a sorrir, parte à mesa
Belas laranjas maduras...

Proveito e paz, criaturas!

IV

Desce a tarde modorrenta
Sobre as casas pitorescas
Daquela pequena aldeia...
Lá, na penumbra cinzenta,
Recortam-se uns arabescos
Por cima da alta cadeia
De pontiagudas montanhas.

Enche-se o vago infinito
De sinfonias estranhas
E um colorido bonito.

Alveja e ronca distante,
Urso branco agonizante
A cachoeira que rola
Sobre as agruras da rocha.
Nem um lírio desabrocha,
Nem abre a funda corola
Naquela pedra musgosa
A flor de um cardo silvestre!

Vem na aragem suspirosa
Certo perfume campestre.

E os campônios vão chegando,
Ora rindo, ora cantando,
Uns trigueiros e outros pretos
Para o sossego das granjas,
Trazendo ao ombro queimado
Grosso feixe de gravetos,
Um samburá com laranjas,
Ou a ração para o gado...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Na torre branca, distante,
Trindade, doce Trindade,
Longo, triste e soluçante,
Bate o sino de uma herdade...

Bateu-me n’alma a Saudade!

V

Quem habita aquela casa
De laranjeiras cercada,
Em que as pombas batem asa?
Vejamos: abre-se à porta
Toda florida e bordada
De trepadeiras vermelhas,
Onde revoa, zumbindo,
Um loiro enxame de abelhas...
Cantam coleiros na horta.

Doira o sol glorioso e quente
O dia plácido e lindo!

Eis surge um par, coisa linda!
Um à porta, e outro à janela,
Ele marido, ela esposa.
Ele chapéu posto ao alto,
Pito à boca e ainda moço;
Ela morena e singela,
Lenço grande no pescoço,
De olhos formosos, no entanto
Tristes e rasos de pranto!...

O moço lesto e de um salto
Ganha o selim do cavalo,
Preso a um arbusto vizinho.
Vai estalando o chicote
Pelas curvas do caminho,
Ao choto de um largo trote...

A moça quer espiá-lo
Até perder-se adiante;
Por vezes o caminhante
Vira o rosto para trás...

Deus te acompanhe, rapaz!

( . . . )

Val de Lírios (1900)


* Nota de Andrade Muricy: A influência do delicado ruralista Ezequiel Freire [poeta, 1850 — 1891] é nítida neste poema, — uma das melhores expressões da poesia de sentido regionalista e do naturalismo brasileiros. Nele está presente, porém com maior singeleza e tom popular mais acentuado, o mesmo profundo sentimento de envolvente tropicalismo nativo que inspirou “Alma em Flor”, a obra-prima de perene juventude, de Alberto de Oliveira [poeta, 1857 — 1937]. Josué Montello indicou em certa passagem de “Per Rura” uma “presença” de Antonio Nobre [poeta, 1867  1900].
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B. Lopes: poesia — Coleção Nossos Clássicos, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Folha Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; bibliografia: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

domingo, 20 de março de 2016

B. Lopes: Só *

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Medito, e acho-me só. A olhar me ponho
Toda a paisagem, silenciosa e linda,
O verde é belo, o azul mais belo ainda...
Belo, talvez! mas pálido e tristonho.

Como ver flóreo o plaino e o céu risonho,
Se eu não ouço o tropel de sua vinda,
 O séquito imperial de uma berlinda 
Ao castelo fantástico do Sonho?

Agora o dia, como um lis aberto;
Logo mais o crepúsculo fechando
No cálix murcho o páramo deserto.

Depois a noite!... e eu sem a ver, sem tê-la,
O palácio do Sonho iluminando, **
Como profunda e solitária estrela!


Notas do editor:
* Solidão de um extrovertido; mais propriamente um momento de devaneio.
** A expressão castelo fantástico do Sonho nada tem de particular dentro da terminologia simbolista.O palácio do Sonho iluminando, porém, provirá, longinquamente, daquele "Palácio encantado da ventura", do soneto de Antero de Quental.
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Coleção Nossos Clássicos — B.Lopes, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, foi poeta e jornalista; escreveu Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brazões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.