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( . . . )
III
Faz um dia transparente
E infiltra o sol, dardejando,
Certa moleza na gente...
No ar parado, sobre as roças,
Anda um gavião gritando.
Estala o sapé das choças:
Sinal de chuva ou borrasca
Lá pelos altos — nenhum!
O céu — azul como a casca
De um ovo enorme de anum.
E as horas se fazem longas
Escoadas ao compasso
Do canto das arapongas,
Longínquo, nervoso e fino.
Sonoras, claras e lentas
Vão rolando pelo espaço
As badaladas de um sino.
Tem umas cores cinzentas
O aspecto da serrania.
Alveja, em floco, distante,
Doce névoa flutuante
Sobre a cabeça dos montes,
De uma aparência sombria
Na tela dos horizontes.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Um dos homens do trabalho
Sulca as areias da estrada...
Da fronte o suor lhe pinga.
Traz a camisa em retalho,
Numa das mãos a moringa,
Aos ombros — lustrosa enxada.
Vai buscando, pelo atalho,
A direção da vivenda,
Onde ele encontra já posta
Sobre um pedaço de esteira
A refeição da merenda,
Cobrindo a louça as alvuras
De uma toalha grosseira.
Ele... que fome, Teresa!
Ela, a sorrir, parte à mesa
Belas laranjas maduras...
Proveito e paz, criaturas!
IV
Desce a tarde modorrenta
Sobre as casas pitorescas
Daquela pequena aldeia...
Lá, na penumbra cinzenta,
Recortam-se uns arabescos
Por cima da alta cadeia
De pontiagudas montanhas.
Enche-se o vago infinito
De sinfonias estranhas
E um colorido bonito.
Alveja e ronca distante,
— Urso branco agonizante —
A cachoeira que rola
Sobre as agruras da rocha.
Nem um lírio desabrocha,
Nem abre a funda corola
Naquela pedra musgosa
A flor de um cardo silvestre!
Vem na aragem suspirosa
Certo perfume campestre.
E os campônios vão chegando,
Ora rindo, ora cantando,
— Uns trigueiros e outros pretos —
Para o sossego das granjas,
Trazendo ao ombro queimado
Grosso feixe de gravetos,
Um samburá com laranjas,
Ou a ração para o gado...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Na torre branca, distante,
Trindade, doce Trindade,
Longo, triste e soluçante,
Bate o sino de uma herdade...
Bateu-me n’alma a Saudade!
V
Quem habita aquela casa
De laranjeiras cercada,
Em que as pombas batem asa?
Vejamos: abre-se à porta
Toda florida e bordada
De trepadeiras vermelhas,
Onde revoa, zumbindo,
Um loiro enxame de abelhas...
Cantam coleiros na horta.
Doira o sol glorioso e quente
O dia plácido e lindo!
Eis surge um par, coisa linda!
Um à porta, e outro à janela,
Ele marido, ela esposa.
Ele — chapéu posto ao alto,
Pito à boca e ainda moço;
Ela — morena e singela,
Lenço grande no pescoço,
De olhos formosos, no entanto
Tristes e rasos de pranto!...
O moço lesto e de um salto
Ganha o selim do cavalo,
Preso a um arbusto vizinho.
Vai estalando o chicote
Pelas curvas do caminho,
Ao choto de um largo trote...
A moça quer espiá-lo
Até perder-se adiante;
Por vezes o caminhante
Vira o rosto para trás...
Deus te acompanhe, rapaz!
( . . . )
Val de Lírios (1900)
* Nota de
Andrade Muricy: A influência do delicado ruralista Ezequiel Freire [poeta, 1850
— 1891] é nítida neste poema, — uma das
melhores expressões da poesia de sentido regionalista e do naturalismo
brasileiros. Nele está presente, porém com maior singeleza e tom popular mais
acentuado, o mesmo profundo sentimento de envolvente tropicalismo nativo que
inspirou “Alma em Flor”, a obra-prima de perene juventude, de Alberto de
Oliveira [poeta, 1857 — 1937]. Josué Montello indicou em certa passagem de “Per Rura” uma “presença”
de Antonio Nobre [poeta, 1867 — 1900].
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B. Lopes: poesia — Coleção Nossos Clássicos, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto
Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ;
B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 — 1916), nascido no Arraial de Boa
Esperança em Rio Bonito — RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto
frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do
Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Folha Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro;
bibliografia: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema,
1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio,
1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.;
consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao
lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o
poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora
tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se
à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções
sociais.