Mostrando postagens com marcador Paulo Henriques Britto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulo Henriques Britto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ted Hughes: Horóscopo

 
____________________
[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Você queria estudar
Os seus astros os carcereiros
Da sua prisão, o zodíaco. Os planetas
Murmuravam fórmulas babilônicas
Como os ossos de um xamã. Você temia, com razão,
Que os ossos rugissem muito alto,
Que um ouvido captasse com clareza
O que os ossos sussurravam
Ainda que imersos em carne cálida.

Mas você não precisava calcular
Os graus do seu disruptor do ascendente
Em Áries. Nenhum significado definido nada mais,
Segundo o livro babilônico,
Que um rosto marcado. Que mágico
Poderia enxergar mais fundo sob a pele?

Para você, bastava olhar
No rosto mais próximo de uma metáfora
Tirada do seu armário ou de seu prato
Ou então do sol, da lua ou dos teixos
Para ver seu pai, sua mãe, ou a mim
A lhe trazer todo o seu Destino.

Ted Hughes

Horoscope

You wanted to study
Your stars the guards
Of your prison yard, their zodiac. The planets
Muttered their Babylonish power-sprach
Like a witchdoctor's bones. You were right to fear
How loud the bones might roar
How clear an ear might hear
What the bones whispered
Even embedded as they were in the hot body.

Only you had no need to calculate
Degrees for your ascendant disruptor
In Aries. It meant nothing certain no more
According to the Babylonian book
Than a scarred face. How much deeper
Under the skin could any magician peep?

You only had to look
Into the nearest face of a metaphor
Picked out of your wardrobe or off your plate
Or out of the sun or the moon or the yew tree
To see your father, your mother, or me
Bringing you your whole Fate.
____________________
Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ted Hughes, ou Edward James Hughes (1930 1998), inglês de Mytholmroyd Yorkshire, cursou o Schofield Street Junior School, frequentou o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou inglês no Pembroke College Cambridge, aprendeu antropologia e arqueologia, foi poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura infantil; ainda estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little Boys and the Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta e Chequer; em 1964, fundou a “literary magazineModern Poetry in Translation (MPT), juntamente com Daniel Weissbort, 1º número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar conhecidos, no ambiente literário britânico, escritores, poetas e obras do mundo afora; editou e traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda Amichai, János Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas obras: em poesia: The Hawk in the Rain (O Falcão na Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the Life and Songs of the Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown (1978, reeditado acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de Aniversário, 1998), Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de apenas 100 exemplares, 1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron Man (romance para crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é a Verdade?, 1984) e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e várias peças radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984), por What Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry Prize, T. S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award (1999), pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela apesar da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes], protegendo-as); em 1969, Assia Wevill, companheira de Hughes, também tirou a própria vida usando o mesmo método: asfixia por um fogão a gás, matando também sua filha cujo pai era Ted Hughes; em 2009, Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, sofreu suicídio por enforcamento [não era casado nem tinha filhos].

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Ted Hughes: O Minotauro

 
____________________
[traduzido por Paulo Henriques Britto]

A mesa de mogno que você quebrou
Era o tampo largo do aparador
Que minha mãe havia herdado
Mapa de riscos de toda a minha vida.

Foi isso que você martelou
Com um banco alto aquele dia,
Enlouquecida por eu estar vinte minutos
Atrasado para cuidar da criança.

“Maravilhoso!” gritei. “Isso mesmo,
Quebre tudo em pedacinhos.
Isso você não põe nos seus poemas!”
Depois, consciente, mais calmo,

“Ponha no ombro essas estrofes
E vamos.” No fundo da gruta do seu ouvido
O gnomo estalou os dedos.
O que lhe dera eu, afinal?

A ponta sangrenta da madeixa
Que desenredou o seu casamento,
Deixou os seus filhos ecoando
Como túneis de um labirinto,

Deixou a sua mãe num beco sem saída,
Levou você ao touro enfurecido
Da tumba do seu pai ressuscitado
E deixou-a morta lá dentro.

Ted Hughes

The Minotaur

The mahogany table-top you smashed
Had been the broad plank top
Of my mother's heirloom sideboard
Mapped with the scars of my whole life.

That came under the hammer.
That high stool you swung that day
Demented by my being
Twenty minutes late for baby-minding.

'Marvellous!' I shouted, 'Go on,
Smash it into kindling.
That's the stuff you're keeping out of your poems!'
And later, considered and calmer,

'Get that shoulder under your stanzas
And we'll be away.' Deep in the cave of your ear
The goblin snapped his fingers.
So what had I given him?

The bloody end of the skein
That unravelled your marriage,
Left your children echoing
Like tunnels in a labyrinth,

Left your mother a dead-end,
Brought you to the horned, bellowing
Grave of your risen father
And your own corpse in it.
____________________
Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ted Hughes, ou Edward James Hughes (1930 1998), inglês de Mytholmroyd Yorkshire, cursou o Schofield Street Junior School, frequentou o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou inglês no Pembroke College Cambridge, aprendeu antropologia e arqueologia, foi poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura infantil; ainda estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little Boys and the Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta e Chequer; em 1964, fundou a “literary magazineModern Poetry in Translation (MPT), juntamente com Daniel Weissbort, 1ª número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar conhecidos, no ambiente literário britânico, escritores, poetas e obras do mundo afora; editou e traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda Amichai, János Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas obras: em poesia: The Hawk in the Rain (O Falcão na Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the Life and Songs of the Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown (1978, reeditado acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de Aniversário, 1998), Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de apenas 100 exemplares, 1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron Man (romance para crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é a Verdade?, 1984) e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e várias peças radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984), por What Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry Prize, T. S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award (1999), pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela apesar da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes], protegendo-as); em 1969, Assia Wevill, poeta que vivia e morava com Ted Hughes, também tirou a própria vida usando o mesmo método: asfixia por gás de fogão, antes matando também sua filha cujo pai era Hughes; em 2009, Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, suicidou-se por enforcamento [não foi casado nem tinha filhos].

terça-feira, 7 de abril de 2026

Elizabeth Bishop: Posto de Gasolina

 
____________________
[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Ah, mas como ele é sujo!
esse posto de gasolina,
impregnado de óleo,
até ficar de um negrume
transluzente, assustador.
Cuidado com esse fósforo!

O pai usa um macacão
sujo, impregnado de óleo,
que o aperta nas axilas,
e o ajudam vários filhos
respondões, rápidos, sujos
(o posto é de uma família)
de graxa, todos imundos.

Será que moram no posto?
Atrás das bombas se vê
uma varanda de cimento,
com mobília de palhinha
amassada e suja de graxa;
no sofá, um cachorro
bem sujo se refestela.

Há revistas em quadrinhos
o único toque de cor
bem definida largadas
sobre o caminho-de-mesa
que enfeita um banquinho (o qual
combina com os outros móveis),
e uma begônia hirsuta.

Por que essa planta deslocada?
Por que o banquinho? Por quê,
por que o caminho-de-mesa?
(Bordado em ponto de cruz
com margaridas, creio eu,
e um pesado crochê cinzento.)

Alguém bordou esse pano.
Alguém põe água na planta,
ou óleo, sei lá. Alguém
dispõe as latas de modo
a fazê-las sussurrar:
ESSOSOSOSO
pros automóveis nervosos.
Alguém nos ama, a nós todos.

(Questões de Viagem 1965)

Elizabeth Bishop

Filling Station

Oh, but it is dirty!
this little filling station,
oil-soaked, oil-permeated
to a disturbing, over-all
black translucency.
Be careful with that match!

Father wears a dirty,
oil-soaked monkey suit
that cuts him under the arms,
and several quick and saucy
and greasy sons assist him
(it’s a family filling station),
all quite thoroughly dirty.

Do they live in the station?
It has a cement porch
behind the pumps, and on it
a set of crushed and grease-
impregnated wickerwork;
on the wicker sofa
a dirty dog, quite comfy.

Some comic books provide
the only note of color
of certain color. They lie
upon a big dim doily
draping a taboret
(part of the set), beside
a big hirsute begonia.

Why the extraneous plant?
Why the taboret?
Why, oh why, the doily?
(Embroidered in daisy stitch
with marguerites, I think,
and heavy with gray crochet.)

Somebody embroidered the doily.
Somebody waters the plant,
or oils it, maybe. Somebody
arranges the rows of cans
so that they softly say:
ESSOSOSOSO
to high-strung automobiles.
Somebody loves us all.

(Questions of Travel — 1965)
____________________
O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick — Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Elizabeth Bishop: O Incréu

 
____________________
[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Ele dorme no alto de um mastro. Bunyan

Ele dorme no alto de um mastro
com os olhos bem fechados.
As velas se abrem lá embaixo
como os lençóis de seu leito,
deixando a cabeça exposta à noite e ao relento.

Dormindo foi levado ali,
dormindo enrodilhou-se
numa bola dourada no alto do mastro,
ou então se enfiou
numa ave dourada, ou nela, cego, montou.

“Tenho pilares de mármore”,
disse uma nuvem. “Não me movo nunca.
Vê os pilares lá no mar?”
Ele, tranquilo, introspecto,
olha os pilares d’água de seu próprio reflexo.

Uma gaivota com as asas
sob as dele comentou que o ar
“parecia mármore”. Disse ele: “Cá em cima
eu vôo mais alto que o céu,
com as asas de mármore que a torre me deu”.

Mas ele dorme no alto do seu mastro
com os olhos bem apertados.
A gaivota investigou-lhe o sonho,
que era assim: “Não posso cair.
O mar cintilante quer me ver cair.
É duro como diamante; ele nos quer destruir”.

Elizabeth Bishop

The Unbeliever

He sleeps on the top of a mast. — Bunyan

He sleeps on the top of a mast
with his eyes fast closed.
The sails fall away below him
like the sheets of his bed,
leaving out in the air of the night the sleeper's head.

Asleep he was transported there,
asleep he curled
in a gilded ball on the mast's top,
or climbed inside
a gilded bird, or blindly seated himself astride.

"I am founded on marble pillars,"
said a cloud. "I never move.
See the pillars there in the sea?"
Secure in introspection
he peers at the watery pillars of his reflection.

A gull had wings under his
and remarked that the air
was "like marble." He said: "Up here
I tower through the sky
for the marble wings on my tower-top fly."

But he sleeps on the top of his mast
with his eyes closed tight.
The gull inquired into his dream,
which was, "I must not fall.
The spangled sea below wants me to fall.
It is hard as diamonds; it wants to destroy us all."
____________________
O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Emily Dickinson: O céu vai baixo, as nuvens mesquinhas

 
____________________
[traduzido por Jorge Wanderley]

O céu vai baixo, as nuvens mesquinhas...
Um floco de neve, errante,
Entre celeiros, estradas,
Não sabe se segue adiante.

Por todo o dia, uma brisa franzina
Que alguém feriu, se lastima;
Às vezes, como nós, a natureza
É flagrada sem seu diadema.

Emily Dickinson

The sky is low, the clouds are mean

The sky is low, the clouds are mean,
A travelling flake of snow
Across a barn or through a rut
Debates if it will go.

A narrow wind complains all day
How some one treated him;
Nature, like us, is sometimes caught
Without her diadem.
____________________
Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa [várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo Carneiro, Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo Henriques Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Emily Elizabeth Dickinson (1830 1886), nascida em Amherst, Massachusetts, Estados Unidos, foi poeta; cursou durante um ano o South Hadley Female Seminary e o abandonou após recusa pública em declarar sua fé, daí passou a viver reclusa em sua própria casa, por mais de vinte anos; nada publicou em vida; após sua morte, uma sua irmã, Lavínia, encontrou todos seus textos, uma grande quantidade de poemas inéditos, em cadernos e folhas soltas [ao todo, 1.775 poemas], e dispôs-se a publicá-los; editou-se, assim, Poems by Emily Dickinson (1890); Emily Dickinson, que ao tornar-se reclusa havia optado por um “suicídio em vida”, teve publicado seus poemas em edição completa e ordenada somente em 1954.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Elizabeth Bishop: Anáfora

 
____________________
[traduzido por Paulo Henriques Britto]

In memoriam Marjorie Carr Stevens

Cada dia, cerimonioso,
começa com pássaros, e fábricas
a apitar, estrepitosas;
diante de céus aurialvos
tão claros nossos olhos se abrem,
e por um instante perguntamos:
“De onde essa música, essa energia?
Para qual inefável criatura
que não vimos, foi feito este dia?”.
Logo, logo ela surge, e assume
    sua natureza terrena
    e cai vítima da intriga,
    sob o ônus da memória,
    da mortal, mortal fadiga.

Mais lentamente, aparecem
os rostos sarapintados,
condensam sua luz, e a escurecem;
apesar de tantos sonhos
gastos nela em tal olhar,
atura nosso uso e abuso,
mergulha no fluxo de corpos,
mergulha no fluxo de classes
até chegar ao mendigo exausto,
sem livro, sem luz, no lusco-fusco,
    imerso em estupendos estudos:
    este incandescente evento
    de cada dia em constante
    constante consentimento.

(Norte & Sul — 1946)

Elizabeth Bishop

Anaphora

In memory of Marjorie Carr Stevens

Each day with so much ceremony
begins, with birds, with bells,
with whistles from a factory;
such white-gold skies our eyes
first open on, such brilliant walls
that for a moment we wonder
"Where is the music coming from, the energy?
The day was meant for what ineffable creature
we must have missed?" Oh promptly he
appears and takes his earthly nature
    instantly, instantly falls
    victim of long intrigue,
    assuming memory and mortal
    mortal fatigue.

More slowly falling into sight
and showering into stippled faces,
darkening, condensing all his light;
in spite of all the dreaming
squandered upon him with that look,
suffers our uses and abuses,
sinks through the drift of bodies,
sinks through the drift of classes
to evening to the beggar in the park
who, weary, without lamp or book
    prepares stupendous studies:
    the fiery event
    of every day in endless
    endless assent.

(North & South — 1946)
____________________
O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Elizabeth Bishop: Convite a Marianne Moore

 
____________________
[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Do Brooklyn, sobre a Brooklyn Bridge, nesta manhã tão bela,
      venha voando.
Numa clara nuvem química de fogo,
      venha voando,
ao rápido rufar de mil tambores azuis
a descer do céu encarneirado
e se espalhar sobre a arquibancada brilhante da enseada,
      venha voando.

Apitos, fumaça e flâmulas dançam ao vento. Navios
trocam sinais cordialmente com uma abundância de bandeiras
que sobem e descem como pássaros por todo o porto.
Entram dois rios, portando, graciosos,
tantas geleiazinhas translúcidas
em centros de mesa de cristal a arrastar correias de prata.
É céu de brigadeiro, conforme o combinado.
As ondas se sucedem como versos nesta manhã tão bela.
      Venha voando.

Venha traçando com o bico fino de cada sapato preto
uma trilha cor de safira,
a capa cheia de asas de borboleta e blagues,
e só Deus sabe quantos anjos encarapitados
na aba negra e larga do chapéu,
      venha voando.

Trazendo um ábaco inaudível, musical,
a fronte um pouco franzida de censura, e fitas azuis,
      venha voando.
Fatos e arranha-céus brilham na água; Manhattan
está inundada de moral e bons costumes nesta manhã tão bela,
      por isso venha voando.

Singrando os céus com heroísmo natural,
sobrevoando os acidentes, os filmes perniciosos,
todos os táxis e injustiças à solta,
enquanto as buzinas ressoam nos seus belos ouvidos
que ao mesmo tempo escutam
uma harmonia suave, incriada, digna do almiscareiro,
      venha voando.

Por quem os museus severos hão de comportar-se
como corteses tangarás,
por quem os simpáticos leões aguardam
na escadaria da Biblioteca Pública,
ansiosos por seguir-lhe os passos
até as salas de leitura,
      venha voando.
Podemos chorar; podemos ir às compras,
ou jogar o jogo de estar sempre equivocadas
com nossos preciosos vocabulários,
ou, implacáveis, nos queixar, mas por favor
      venha voando.

Com dinastias de estruturas negativas
escurecendo e morrendo a sua volta,
com uma sintaxe que de súbito vira e brilha
qual maçaricos a voar em bando,
      venha voando.

Venha feito uma luz no alvo céu encarneirado,
feito um cometa à luz do dia
com uma cauda longa de palavras nem um pouco nebulosos,
do Brooklyn, por sobre a Brooklyn Bridge, nesta manhã tão bela,
      venha voando.

(Uma Primavera Fria — 1955)

Elizabeth Bishop

Invitation to Miss Marianne Moore

From Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
      please come flying.
In a cloud of fiery pale chemicals,
      please come flying,
to the rapid rolling of thousands of small blue drums
descending out of the mackerel sky
over the glittering grandstand of harbor-water,
      please come flying.

Whistles, pennants and smoke are blowing.  The ships
are signaling cordially with multitudes of flags
rising and falling like birds all over the harbor.
Enter: two rivers, gracefully bearing
countless little pellucid jellies
in cut-glass epergnes dragging with silver chains.
The flight is safe; the weather is all arranged.
The waves are running in verses this fine morning.
      Please come flying.

Come with the pointed toe of each black shoe
trailing a sapphire highlight,
with a black capeful of butterfly wings and bon-mots,
with heaven knows how many angels all riding
on the broad black brim of your hat,
      please come flying.

Bearing a musical inaudible abacus,
a slight censorious frown, and blue ribbons,
      please come flying.
Facts and skyscrapers glint in the tide; Manhattan
is all awash with morals this fine morning,
      so please come flying.

Mounting the sky with natural heroism,
above the accidents, above the malignant movies,
the taxicabs and injustices at large,
while horns are resounding in your beautiful ears
that simultaneously listen to
a soft uninvented music, fit for the musk deer,
      please come flying.

For whom the grim museums will behave
like courteous male bower-birds,
for whom the agreeable lions lie in wait
on the steps of the Public Library,
eager to rise and follow through the doors
up into the reading rooms,
      please come flying.
We can sit down and weep; we can go shopping,
or play at a game of constantly being wrong
with a priceless set of vocabularies,
or we can bravely deplore, but please
      please come flying.

With dynasties of negative constructions
darkening and dying around you,
with grammar that suddenly turns and shines
like flocks of sandpipers flying,
      please come flying.

Come like a light in the white mackerel sky,
come like a daytime comet
with a long unnebulous train of words,
from Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
      please come flying.

(A Cold Spring — 1955)
____________________
O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto — MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.