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sábado, 25 de junho de 2022

Ana Cruz: Retinta

 
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Mãe preta, bonita, sorriso longo, completo.
Nem parece que passou por tantas.
Deu um duro danado entre a roça e os bordados.
Virou ao avesso para não desbotar.
Dizia, não com soberba: esfrego chão dessas Senhoras.
Essa gente coloniza.
Se a pessoa não tiver orgulho de ser assim Zulu
fica domesticada.
Sem opinião. Se autodeprecia, adoece.

Guardados da memória — 2008

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ.

sábado, 4 de junho de 2022

Eduardo de Oliveira: Voz emudecida

 
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Eu me levanto aqui
na voz dos que não puderam falar.
No grito afogado na garganta
no desespero disforme da
mudez implacável.

As pulsações dos mundos
soterrados,
dos mundos submersos
convulsionam-se
para anunciar
na voz do sol e da verdade
a presença humilde dos que não viveram
porque não puderam sonhar.

Surgirei das chagas da dor
trazendo o bálsamo da vida
o perfume de um sonho
esquecido no coração dos homens.

Suavizarei todos os caminhos
para que as almas caminhem
leves e risonhas
como um destino de criança.

E tudo para quê?
Para tentar elevar o mundo
até junto de Deus.

Entretanto o que vejo?
Sobre este chão assisto o bailado das lágrimas
silenciosas dançando a dança macabra.
Seres amordaçados clamando por liberdade
dão no palco do universo
o espetáculo da dor e do sofrimento...
E os negros?
O que dizer dos negros?

Gestas líricas da negritude — 1967

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); obras: Além do pó (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1962), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Ana Cruz: Apaziguados

 
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Somos as marcas de um tempo
passado a limpo no limbo.
De fatos e acontecimentos
que somente se esclareceram
após nos consumirem por algumas horas
e que doeram tanto
para sair da carne.

Mulheres Q’ Rezam — 2001

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

José Carlos Limeira: Diariamente

 
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A mim me basta o espelho
a calça azul
o papel, o lápis
e essa coragem
de sair todos os dias de manhã
encontrar as mesmas pessoas
os mesmos sobressaltos
o relógio de ponto
o telefone
os documentos.

A mim basta
essa coragem teimosa
de engolir teimosia
de engolir o café das nove de fumar o quinto cigarro
com a mesma determinação
de destruir
o que resta dos pulmões.

Me basta mesmo essa coragem quase suicida
de erguer a cabeça
e ser um negro
vinte e quatro horas por dia.

Quilombo de palavras: a literatura
dos afrodescendentes — 2000

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; José Carlos Limeira Marinho Santos (1951 2016), baiano de Salvador, formou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade de Santa Úrsula Rio de Janeiro e em Letras pela Universidade Católica de Salvador BA, reconhecido mais por seu trabalho no campo das letras e como militante do Movimento Negro, foi poeta e escritor; obras: em poesia, Zumbi... dos (1971), Lembranças (1971), O arco-íris negro (com Éle Semog, 1978), Atabaques (com Éle Semog, 1983), Black intentions / Negras Intenções (edição bilíngue, 2003) e Encantadas (2015); participou dos Cadernos negros desde o início dos anos 80, teve ensaios e outros textos em verso e prosa divulgados em revistas e livros, inclusive com edições traduzidas para as línguas alemã e inglesa; foi fundador do Afro Axé Terê Babá, primeiro bloco Afro Cultural do Rio de Janeiro RJ, e do GENS Grupo de Escritores Negros de Salvador BA.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Cuti: Trincheira

 
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Falaram tanto que nosso cabelo era ruim
que a maioria acreditou
e pôs fim
(raspouqueimoualisoufrisouirelaxoucanecaloucuras)

ainda bem que as raízes continuam intactas
e há maravilhosos pelos
crespos
conscientes
no quilombo das regiões
íntimas
de cada um de nós.

Sanga — poesia, 2002

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nascido em 1951, paulista de Ourinhos, formado em Letras (Português e Francês) pela USPSP, com mestrado (Teoria da Literatura) e doutorado (Literatura Brasileira) pelo Instituto de Estudos da Linguagem UNICAMP, é poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e militante da causa negra; o poeta Cuti foi um dos fundadores e membro da ONG QuilombhojeLiteratura e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros; obras: Poemas da carapinha (1978), Batuque de tocaia (poesia, 1982), Suspensão (dramaturgia, 1983), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (poesia, 1987), Quizila (contos, 1987), A pelada peluda no Largo da Bola (infanto-juvenil, 1988), Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (dramaturgia, 1991, 2ª edição revisada e ampliada, 2009), Negros em contos (1996), Castro, ouves a poesia negra? (não-ficção, 1997), Um desafio submerso: “Evocações”, de Cruz e Souza (dissertação de mestrado, 1999), Sanga (poesia, 2002), Negroesia — Antologia Poética (2007), Poemaryprosa (poesia, 2009), Contos crespos (2009), A consciência do impacto nas obras de Cruz e Souza e Lima Barreto (não-ficção, 2009), Literatura negro-brasileira (não-ficção, 2010), Lima Barreto (biografia, 2011), Kizomba de vento e nuvem (poesia, 2013), Negrhúmus líricos (poesia, 2017), além de publicação de textos em coautorias várias e participação em antologias poéticas e em prosa.

domingo, 6 de março de 2022

José Carlos Limeira: Detalhe relevante

 
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Tinha um ar correto,
Uma postura coerente,
Combinava o terno e a gravata
Aspectos exteriores.

Revistaram-lhe a face,
Currículo geral,
Vida, fatos,
Quando repentinamente
Por descuido próprio,
Deixou que lhe percebessem
Um lado da mente.

Foi preterido.
Imperfeito por dentro,
Positivamente, concluíram depois,
ele não tinha alma branca.

Quilombo de palavras: a literatura
dos afrodescendentes — 2000

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; José Carlos Limeira Marinho Santos (1951 2016), baiano de Salvador, formou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade de Santa Úrsula Rio de Janeiro e em Letras pela Universidade Católica de Salvador BA, reconhecido mais por seu trabalho no campo das letras e como militante do Movimento Negro, foi poeta e escritor; obras: em poesia, Zumbi... dos (1971), Lembranças (1971), O arco-íris negro (com Éle Semog, 1978), Atabaques (com Éle Semog, 1983), Black intentions / Negras Intenções (edição bilíngue, 2003) e Encantadas (2015); participou dos Cadernos negros desde o início dos anos 80, teve ensaios e outros textos em verso e prosa divulgados em revistas e livros, inclusive com edições traduzidas para as línguas alemã e inglesa; foi fundador do Afro Axé Terê Babá, primeiro bloco Afro Cultural do Rio de Janeiro RJ, e do GENS Grupo de Escritores Negros de Salvador BA.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Eduardo de Oliveira: Banzo

 
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Ao meu irmão Patrice Lumumba

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Trago em meu corpo a marca das chibatas
como rubros degraus feitos de carne
pelos quais as carretas do progresso
iam buscar as brenhas do futuro.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Eu vi nascer mil civilizações
erguidas pelos meus potentes braços;
mil chicotes abriram na minh'alma
um deserto de dor e de descrença
anunciando as tragédias de Lumumba.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Do fundo das senzalas de outros tempos
se levanta o clamor dos meus avós
que tiveram seus sonhos esmagados
sob o peso de cangas e libambos
amando, ao longe, o sol das liberdades.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Eu sinto a mesma angústia, o mesmo banzo
que encheram, tristes, os mares de outros séculos,
por isso é que ainda escuto o som do jongo
que fazia dançar os mil mocambos...
e que ainda hoje percutem nestas plagas.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Balouça sobre mim, sinistro pêndulo
que marca as incertezas do futuro
enquanto que me atiram nas enxergas
aqueles que ainda ontem exploravam
o suor, o sangue nosso e a nossa força.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.

Banzo 1965 [2ª edição]

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); obras: Além do pó (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1962), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Esmeralda Ribeiro: Enigma de amor

 
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Há uma ilha
há marfim
há tristes arquipélagos em mim.

Sou aquela atriz que ensaia
todos os dias
o mesmo caso de amor
vivido por um triz.

Dentro de mim
solidão vestida de Arlequim.

Sou aquela cheia de hematomas,
as que faz do corpo relva
com aroma de canela
pro seu nego dormir.

Dentro de mim
ilusões traçadas à nanquim.

Sou aquela mulher
tentando despertar belas adormecidas
mas, no íntimo, sou eu a princesa
em profunda letargia.

Dentro de mim
força guerreira vestida de cetim.

Sou aquela que à noite
esconde como camaleão
gotas de pérolas d'olho
na cálida paixão.

Dentro de mim
enfim mora
o enigma do amor.

Sou aquela que nenhum verbo traduz
diante da solidão e da dor
aquela que tem atitudes insanas
Esta sou eu, a eterna
Maria Joana.

Cadernos negros 19 — 1996

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Esmeralda Ribeiro, nascida em 1958, paulista e paulistana, é jornalista, escritora e poeta presente no Movimento Negro; atua no projeto Quilombhoje e na coordenação da série Cadernos negros; obras: Malungos e Milongas (contos, 1988), Orukomi — meu nome. Ilustrações de Edmilson Quirino dos Reis (Quilombhoje SP, 2007), além de ensaios e participações nos Cadernos negros, em Pau de Sebo: antologia de poesia negra (1988), em Finally Us: contemporary black brazilian women writers (1995), em Ancestral House (1995), em Terra de palavras: contos (2004) etc.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Ana Cruz: Cuidado, não vai esquecer a lição...

 
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Nasci filha de seu Zé que muito pouco tinha de José
carpinteiro de Nazaré, a não ser
a determinação e o gosto pelo trabalho.
Seu Zé, conhecido popularmente como marido de
D. Margarida,
uma flor que descansa plena, em outra dimensão,
isso porque sempre foi justa nunca abusou da sua
autoridade.
Precavida, desde cedo nos ensinou a detestar a
escravidão,
por conta disso, nossa primeira lição de casa foi:
nunca sair de canelas russas e nem esconder cabelos
por debaixo dos panos
e ouvidos bem apurados.
Quilombola que se presa não ri à toa
não aceita provocação e olha firme
no fundo dos olhos daqueles que possuem
nariz arrebitado e andam sempre aprumados.
Já dizia meu avô!

Mulheres Q’ Rezam — 2001

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

José Carlos Limeira: Mais um negro

 
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Sou um negro,
mais um,
destes que não aceitam,
como adjetivo a alma branca.

Sou um negro,
mais um,
consciente da nossa história,
que não se ilude com os heróis
que me forçam a aceitar.

Sou um negro,
mais um,
destes que não usariam henê no cabelo,
por não querer cabelos lisos.

Sou um negro,
mais um,
meio louco,
meio torto
esperando muitos outros
para engrossar o cordão,
e horrorizar de espanto,
este engodo imbecil,
a tal convencionada,
Democracia Racial.

Atabaques — 1983

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; José Carlos Limeira Marinho Santos (1951 2016), baiano de Salvador, formou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade de Santa Úrsula Rio de Janeiro e em Letras pela Universidade Católica de Salvador BA, reconhecido mais por seu trabalho no campo das letras e como militante do Movimento Negro, foi poeta e escritor; obras: em poesia, Zumbi... dos (1971), Lembranças (1971), O arco-íris negro (com Éle Semog, 1978), Atabaques (com Éle Semog, 1983), Black intentions / Negras Intenções (edição bilíngue, 2003) e Encantadas (2015); participou dos Cadernos negros desde o início dos anos 80, teve ensaios e outros textos em verso e prosa divulgados em revistas e livros, inclusive com edições traduzidas para as línguas alemã e inglesa; foi fundador do Afro Axé Terê Babá, primeiro bloco Afro Cultural do Rio de Janeiro RJ, e do GENS Grupo de Escritores Negros de Salvador BA.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Esmeralda Ribeiro: Ensinamentos

 
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Ser invisível quando não se quer ser
é ser mágico nato.

Não se ensina, não se pratica, mas se aprende.
No primeiro dia de aula aprende-se
que é uma ciência exata.

O invisível exercita o ser "zero à esquerda"
o invisível não exercita a cidadania.
As aulas de emprego, casa e comida
são excluídas do currículo da vida.

Ser invisível quando não se quer ser
é ser um fantasma que não assusta ninguém.
Quando se é invisível sem querer
ninguém conta até dez
ninguém tapa ou fecha os olhos
a brincadeira agora é outra
os outros brincam de não nos ver.

Saiba que nos tornamos invisíveis
sem truques, sem mágicas.
Ser invisível é uma ciência exata.
Mas o invisível é visto no mundo financeiro
é visto para apanhar da polícia
é visto na época das eleições
é visto para acertar as contas com o Leão
para pagar prestações e mais prestações.

É tanto zero à esquerda que o invisível
na levada da vida soma-se
a outros tantos zeros à esquerda
para assim construir-se humano.

Cadernos negros 31 — 2008

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Esmeralda Ribeiro, nascida em 1958, paulista e paulistana, é jornalista, escritora e poeta presente no Movimento Negro; atua no projeto Quilombhoje e na coordenação da série Cadernos negros; obras: Malungos e Milongas (contos, 1988), Orukomi — meu nome. Ilustrações de Edmilson Quirino dos Reis (Quilombhoje SP, 2007), além de ensaios e participações nos Cadernos negros, em Pau de Sebo: antologia de poesia negra (1988), em Finally Us: contemporary black brazilian women writers (1995), em Ancestral House (1995), em Terra de palavras: contos (2004) etc.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Oliveira Silveira: Cabelos que negam

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Peruca lisa, cabelo alisado,
cabelo imitando o cabelo
da branca,
cabelo amaciado, ou seja,
cabelo meia-boca próximo
ao cabelo da branca;
cabelo artificial de tranças
longas para bons
trejeitos tipo branca;
cabelos que branca não tem
ou não usa
e exercem o mesmo ritual
do cabelo da branca:
rolam pelo ombro, espaldas
ou bem abrandados deslizam
no pente, escova, dedos
da preta que queria ser
a parda que queria ser
a clara que queria ser
a branca.

(Poemas: antologia — 2009)

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Oliveira Ferreira da Silveira (1941 2009), gaúcho de Touro Passo, distrito de Rosário do Sul, formado em Letras Português e Francês na Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS, foi professor, poeta, pesquisador e militante do Movimento Negro; como ativista, atuou através da revista Tição e do Grupo Semba; obras: Germinou (1962), Poemas regionais (1968), Banzo, saudade negra (1970), Décima do negro peão (1974), Praça da palavra (1976), Pelo escuro (1977), Roteiro dos tantãs (1981), Poema sobre Palmares (1987), Poemas: antologia (2009), além de ensaios em diversas publicações; participou ainda dos Cadernos negros 3, 11 e os melhores poemas (1980, 1988 e 1998), Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira (1982), Cadernos literários 19: poetas negros do Brasil (1983), A razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros (1986), Schwarze Poesie — Poesia negra (1988), Antologia da Poesia negra brasileira: o negro em versos (2005) e outros títulos; na década de 70, no Grupo Palmares, foi um dos intelectuais afro-descendentes a propor a criação de um Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Luiz Gama: Saudades do escravo

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Escravo  não, não morri
Nos ferros da escravidão;
Lá nos palmares vivi,
Tenho livre o coração!
Nas minhas carnes rasgadas,
Nas faces ensangüentadas
Sinto as torturas de cá;
Deste corpo desgraçado
Meu espírito soltado
Não partiu  ficou-me lá!...

Naquelas quentes areias,
Naquela terra de fogo,
Onde livre de cadeias
Eu corria em desafogo...
Lá nos confins do horizonte...
Lá nas planícies... nos montes...
Lá nas alturas do céu...
De sobre a mata florida
Esta minha alma perdida
Não veio  só parti eu.

A liberdade que eu tive
Por escravo não perdi-a;
Minha alma que lá só vive
Tomou-me a face sombria,
O zunir do fero açoite
Por estas sombras da noite
Não chega; não, aos palmares!...
Lá tenho terras e flores...
Minha mãe... os meus amores...
Nuvens e céus... os meus lares!...

Não perdi-a  que é mentira
Que eu viva aqui onde estou;
A toda hora suspira
Meu coração  pra lá vou!
Ouço as feras da floresta,
Em feia noite como esta
Enchendo o ar de pavor!
Ouço, oh! Ouço entre os meus prantos
Além dos mares os cantos
Das minhas aves de amor!

Oh! Nuvens da madrugada
Oh! Viração do arrebol.
Leva meu corpo à morada
Daquela terra do sol!
Morto embora nas cadeias
Vai pousá-la nas areias
Daqueles planos d’além,
Onde me chorem gemidos,
Pobres ais, prantos sentidos,
Na sepultura que tem.

Escravo  não, ainda vivo,
Inda espero a morte ali:
Sou livre, embora cativo,
Sou livre, inda não morri!
Meu coração bate ainda
Nesse bater que não finda;
Sou homem  Deus o dirá!
Deste corpo desgraçado
Meu espírito soltado
Não partiu  ficou-me lá!

In: Primeiras trovas burlescas  1859

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinelo primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867).