domingo, 30 de setembro de 2018

Genésio dos Santos: trens, haicais & que tais

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um telegrafista
conversa em código-morse
batuque de teclas

homens ferroviários
dormentes britas e trilhos
sonho que esfumaça

pastos postes pontes
vidas correndo pra trás
janela de trem

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rumo ao escadão
na garganta surge um nó
trem que já se foi

pobre maquinista
acordando de repente
viu que era sonho

máquina a vapor
puxando mais de um vagão
e no fim caboose

Minha foto
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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SPFolha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Georg Trakl: Lamento

De Profundis: e Outros Poemas
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Sono e morte, as tenebrosas águias
Rodeiam a noite inteira essa cabeça:
A imagem dourada do Homem
Engolida pela onda fria
Da eternidade. Em medonhos recifes
Despedaça-se o corpo purpúreo
E a voz escura lamenta
Sobre o mar.
Irmã de tempestuosa melancolia
Vê, um barco aflito afunda
Sob estrelas,
Sob o rosto calado da noite.

(1914)

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Klage

Schlaf und Tod, die düstern Adler
Umrauschen nachtlang dieses Haupt:
Des Menschen goldnes Bildnis
Verschlänge die eisige Woge
Der Ewigkeit. An schaurigen Riffen
Zerschellt der purpurne Leib
Und es klagt die dunkle Stimme
Über dem Meer.
Schwester stürmischer Schwermut
Sieh ein ängstlicher Kahn versinkt
Unter Sternen,
Dem schweigenden Antlitz der Nacht.

(1914)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em agosto de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

Genésio dos Santos: izakaya

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eu na praça olavo
bilac sushi temaki
haicai alinhavo

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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou  Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981);  como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SPFolha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

Friedrich Nietzsche *: Declaração de Amor (na qual, porém, o poeta caiu num fosso)

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Apêndice
Canções do príncipe Vogelfrei

Que maravilha! Ele ainda está voando?
Ele sobe e as suas asas repousam?
Que é que o levanta e carrega?
Qual é, para ele, a meta, o curso e o freio?

Como as estrelas e a eternidade
Vive ele agora em alturas de que a vida foge,
Tendo compaixão até mesmo da inveja :
E voou alto quem apenas o viu planar!

Ó pássaro albatroz!
Para o alto me empurra um eterno impulso.
Pensei em ti: então me correram
Lágrimas e lágrimas  sim, eu te amo!

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Friedrich Nietzsche

Anhang
Lieder des Prinzen Vogelfrei

Liebeserklärung
(bei der aber der Dichter in eine Grube fiel ).

Oh Wunder! Fliegt er noch?
Er steigt empor, und seine Flügel ruhn?
Was hebt und trägt ihn doch?
Was ist ihm Ziel und Zug und Zügel nun?

Gleich Stern und Ewigkeit
Lebt er in Höhn jetzt, die das Leben flieht,
Mitleidig selbst dem Neid :
Und hoch flog, wer ihn auch nur schweben sieht!

Oh Vogel Albatross!
Zur Höhe treibt’s mit ew’gem Triebe mich.
Ich dachte dein: da floss
Mir Thrän’ um Thräne,  ja, ich liebe dich!


* Nota deste aprendiz de blogueiro: No Posfácio de A Gaia Ciência, o tradutor Paulo César de Souza expõe que Nietzsche, ao mesmo tempo em que trabalhava no quarto capítulo (ou “livro”, como o filósofo chamava), desta obra, informava ao seu editor o encaminhamento em breve de um manuscrito intitulado “Die fröhliche Wissenschaft”, que continha “muitos epigramas em versos”; do conjunto da obra nietzschiana, relata ainda o tradutor, ser A Gaia Ciência a que contém maior variedade formal, pois aí se encontram versos humorísticos, aforismos, textos argumentativos, diálogos, parábolas, alegorias e poemas em prosa.
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A Gaia Ciência — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 3ª reimpressão, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844  1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876),  Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883  1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886),  Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

W. B. Yeats: Um Casaco *

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Fiz um casaco de meu canto
e recobri-o com bordados
de velhos mitos retirados:
pescoço aos pés, forrava tanto.
Porém os tolos, dando um jeito,
usaram-no, roupa festiva,
no mundo, qual se a houvessem feito.
Seja meu canto assim vestido,
porquanto há mais iniciativa
em caminhar despido.

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W. B. Yeats

A Coat

I made my song a coat
Covered with embroideries
Out of old mythologies
From heel to throat;
But he fools caught it,
Wore it in the world's eyes
As though they'd wrought it.
Song, let them take it,
For there's more enterprise
In walking naked.

* Nota do tradutor: Neste famoso poema, de 1912, ( … ) Yeats reafirma que, para livrar-se da multidão de imitadores de sua maneira primitiva, o jeito era mudar de estilo. Tiraria seu casaco bordado de mitologia e andaria nu (i.é., escreveria com simplicidade. Ellmann [Richard David Ellman, crítico literário e biógrafo] acentua, contudo, que Yeats não quis negar seus antigos símbolos, mas apenas frisar que de então por diante estes não mais fariam parte de sua roupagem exterior, e sim de sua própria pele.
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Poemas de W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, Coleção Toda Poesia 4, edição bilíngue, 1987, Art Editora, São Paulo — SP;  William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 — 1939),  irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems  (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays  (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon  (1924), October Blast — poetry (1927), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Georg Trakl: Meu coração ao crepúsculo


De Profundis: e Outros Poemas
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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

No crepúsculo ouve-se o grito dos morcegos.
Dois cavalos saltam no gramado. 
O ácer vermelho sussurra.
Ao andarilho surge no caminho a pequena taberna.
Maravilhoso o sabor de vinho novo e nozes.
Maravilhoso: cambalear bêbado na floresta crepuscular.
Pelos galhos negros ressoam sinos aflitos.
No rosto pinga orvalho.

(1912)


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Zu Abend Mein Herz

Am Abend hört man den Schrei der Fledermäuse.
Zwei Rappen springen auf der Wiese.
Der rote Ahorn rauscht.
Dem Wanderer erscheint die kleine Schenke am Weg.
Herrlich schmecken junger Wein und Nüsse.
Herrlich: betrunken zu taumeln in dämmernden Wald.
Durch schwarzes Geäst tönen schmerzliche Glocken.
Auf das Gesicht tropft Tau.
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887  1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em agosto de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Elizabeth Barrett Browning: Estas flores colhidas no jardim . . . [soneto]

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[traduzido por Leonardo Fróes]

44

Estas flores colhidas no jardim
Que me trazias no verão, no inverno,
Poderiam, no escuro quarto interno,
Sem sol ou chuva ter crescido em mim.
Em nome deste amor toma as ideias
Que de igual modo aqui desabrocharam,
Do coração provindo, e acompanharam
Dias frios ou quentes. Estão cheias
De ervas amargas, cardos e lamentos
De que te incumbo. Juntas também vão
Rosas silvestres. Dá-lhes tratamento
Bom como eu dou às flores que me dão.
Que a cor persista ao teu olhar atento.
Das raízes, te lembra, eu sou o chão.

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Elizabeth Barrett Browning

XLIV

Beloved, thou hast brought me many flowers 
Plucked in the garden, all the summer through 
And winter, and it seemed as if they grew 
In this close room, nor missed the sun and showers, 
So, in the like name of that love of ours, 
Take back these thoughts which here unfolded too, 
And which on warm and cold days I withdrew 
From my heart’s ground. Indeed, those beds and bowers 
Be overgrown with bitter weeds and rue, 
And wait thy weeding; yet here’s eglantine, 
Here’s ivy!  take them, as I used to do 
Thy flowers, and keep them where they shall not pine. 
Instruct thine eyes to keep their colours true, 
And tell thy soul, their roots are left in mine. 
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Sonetos da Portuguesa — Elizabeth Barrett Browning, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Leonardo Fróes, Editora Rocco, São Paulo — SP; Elizabeth Barrett Browning (1806 1861), inglesa de Coxhoe Hall, Durham, foi poetisa do Romantismo e da época vitoriana; aos 15 anos de idade tornou-se praticamente inválida por problemas de coluna e, depois, teve sua saúde agravada por por complicações pulmonares; em 1846, casando-se com também poeta Robert Browning, mudou-se para Florença Itália, ali vivendo pelo resto da vida; escreveu seu primeiro poema aos 12 anos, The Battle of Marathon (A Batalha de Maratona), em 4 tomos, que seu pai mandou imprimir; sua bibliografia: An Essay on Mind and Other Poems (Um Ensaio sobre a Mente e Outros Poemas, 1826), Prometheus e Outros Poemas (1833), The Seraphim and Other Poems (Serafim e Outros Poemas, 1838), Sonnets from the Portuguese (Sonetos da Portuguesa, 1847), Casa Guidi Windows (Janelas da Casa Guidi, 1851), Aurora Leigh (1856), Poems Before Congress (Poemas Perante o Congresso, 1860) e outros, além de textos em prosa; traduziu a peça Prometeu Acorrentado (Prometheus Bound) atribuída a Ésquilo, dramaturgo da Grécia Antiga.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

José Oiticica: A Anarquia

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Para a anarquia vai a humanidade
Que da anarquia a humanidade vem!
Vide como esse ideal do acordo invade
As classes todas pelo mundo além!

Que importa que a fração dos ricos brade
Vendo que a antiga lei não se mantém?
Hão de ruir as muralhas da Cidade,
Que não há fortalezas contra o bem

Façam da ação dos subversivos crime,
Persigam, matem, zombem... tudo em vão...
A idéia, perseguida, é mais sublime,

Pois nos rudes ataques à opressão,
A cada herói que morra ou desanime
Dezenas de outros bravos surgirão.

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Os Libertários (José Oiticica, Maria Lacerda de Moura, Neno Vasco e Fábio Luz), Edgar Rodrigues, 1993, VJR Editores Associados, Rio de Janeiro  RJ; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882  1957), mineiro de Oliveira,  fez seus primeiros estudos em Maceió —  AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através de A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série  (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

domingo, 23 de setembro de 2018

William Shakespeare: Exausto da jornada, corro à cama, . . . [soneto]

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[traduzido por Vasco Graça Moura]

27.

Exausto da jornada, corro à cama
a dar aos membros uma paz tão cara,
mas na cabeça outra viagem chama,
trabalha a mente quando o corpo pára.
Meus pensamentos longe tu despertas
e até teu ser devotos peregrinam
e eis as pálpebras frouxas bem abertas
no negrume que os cegos descortinam.
Só que desta alma a vista imaginária
te mostra a sombra à vista sem visão
e, qual jóia na noite tumultuária,
com nova face brilha a escuridão.
     Assim de dia ao corpo, à noite à mente,
     nem por ti nem por mim paz se consente.

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William Shakespeare
27.

Weary with toil, I haste me to my bed,
The dear repose for limbs with travel tired;
But then begins a journey in my head
To work my mind, when body's work's expired:
For then my thoughts, from far where I abide,
Intend a zealous pilgrimage to thee,
And keep my drooping eyelids open wide,
Looking on darkness which the blind do see;
Save that my soul's imaginary sight
Presents thy shadow to my sightless view,
Which, like a jewel hung in ghastly night
Makes black night beauteous, and her old face new:
     Lo! thus, by day my limbs, by night my mind,
     For thee, and for myself, no quiet find.
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Os Sonetos Completos — William Shakespeare, Apresentação, Tradução e Notas de Vasco Graça Moura, edição bilingue, 2005, Landmark, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 —  1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura  que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo IIIHenrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).