____________________
[traduzido por Thiago de
Mello]
Que o verso seja como chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa
voando;
Quando os olhos vejam seja
criado,
E fique estremecida a alma do
ouvinte
Inventa mundos novos e cuida
de tua palavra;
O adjetivo quando não dá vida,
mata.
Estamos no céu dos nervos.
O músculo se pendura
Como lembrança nos museus.
Mas nem por isso menos força
temos:
O vigor verdadeiro
Reside na cabeça
[ . . . ]
(de El espejo de agua — 1916)
Arte
poética
Que el verso sea como una
llave
Que abra mil puertas.
Una hoja cae; algo pasa
volando;
Cuanto miren los ojos creado
sea,
Y el alma del oyente quede
temblando.
Inventa mundos nuevos y cuida
tu palabra;
El adjetivo, cuando no da
vida, mata.
Estamos en el ciclo de los
nervios.
El músculo cuelga,
Como recuerdo, en los museos;
Mas no por eso tenemos menos
fuerza:
El vigor verdadeiro
Reside en la cabeza.
[Por
qué cantáis la rosa, ¡oh Poetas!
Hacedla
florecer en el poema;
Sólo
para nosotros
Viven
todas las cosas bajo el Sol.
El
Poeta es un pequeño Dios.]
(El espejo de agua — 1916)
____________________
Poetas da América de Canto
Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago
de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global
Editora, São Paulo — SP; Vicente
García Huidobro Fernández (1893 — 1948), chileno de Santiago do Chile, foi poeta
e escritor de vanguarda estética; o poeta passou boa parte de sua vida na
Europa, transitando entre a França e a Espanha e foi um dos promotores da
poesia de vanguarda na América Latina; teve participação ativa nas revistas Sic
e Nord-Sud, ao lado de Apollinaire e outros; foi o mentor do que passou a se
chamar criacionismo poético, e que consistia em buscar a inovação na poesia
como uma necessidade e uma obsessão, um paroxismo na procura do novo, um
bilinguismo textual; suas obras: Ecos del Alma (1911), La gruta del silencio e
Canciones en la noche (ambos em 1913), Pasando y pasando e Las pagodas ocultas
(ambos em 1914), Adán e El espejo de agua (ambos em 1916), Horizon carré
(1917), Poemas árticos, Ecuatorial, Tour Eiffel e Hallali (todos em 1918), Manifestes
(1925), Mio Cid Campeador (1929), Altazor o el viaje en paracaídas (1931),
Sátiro, o El poder de las palabras (1939) e tantos outros títulos; Huidobro
escreveu algumas de suas obras em francês; em diferentes períodos, colaborou
com as revistas de arte Dada (Espanha), Nord-Sud e L’Esprit Noveau (França),
Vanity Fair (Estados Unidos) e dirigiu, em conjunto com Tristan Tzara, o
caderno literário da revista Feuielle Volante; também participou como fundador
e/ou co-fundador das revistas Musa Joven e Azul (Chile), entre outras
atividades; escreveu roteiro para o filme cubista Cagliostro, fez crítica de
cinema na imprensa argentina, foi conferencista e deu palestras sobre poesia;
durante a 2ª Guerra, alistou-se nas tropas aliadas, participou como correspondente
de guerra na França, transmitiu crônicas do campo de batalha para A Voz da
América; foi militante do partido comunista chileno.



