quinta-feira, 30 de novembro de 2023

García Lorca: A Mercedes em seu vôo


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[traduzido por Oscar Mendes]

Uma viola de luz, hirta e gelada
já eras pelas rochas lá da altura.
Uma voz sem garganta, voz escura
que soa em tudo sem soar em nada.

Teu pensamento é neve resvalada
na infindável glória da brancura.
Teu perfil é perene queimadura,
teu coração é pomba desatada.

Canta já pelo ar, livre e serena,
a matinal flagrante melodia,
monte de luz e chaga de açucena.

Que nós outros aqui de noite e dia
teceremos no ângulo da pena
uma grinalda de melancolia.

Federico Garcia Lorca

A Mercedes en su vuelo

¡Una viola de luz yerta y helada
eres ya por las rocas de la altura.
Una voz sin garganta, voz oscura
que suena en todo sin sonar en nada.

Tu pensamiento es nieve resbalada
en la gloria sin fin de la blancura.
Tu perfil es perenne quemadura,
tu corazón paloma desatada.

Canta ya por el aire sin cadena
la matinal fragante melodía,
monte de luz y llaga de azucena.

Que nosotros aquí de noche y día
haremos en la esquina de la pena
una guirnalda de melancolía.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; em Almeria iniciou seus estudos secundários e os primeiros estudos musicais, depois, mudando-se para Granada com a família, fez seus primeiros estudos universitários Filosofia e Letras e Direito ; em 1919 decidiu mudar-se para Madri e então conheceu Salvador Dalí, Luis Buñuel, Pedro Salinas, Rafael Alberti e outros; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Pereira da Silva: Estranho pássaro


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Pousa junto ao pomar, ao sol morrente,
Pássaro negro de plumagem feia.
E lá se queda, como que se enleia
Horas a fio misteriosamente...

À proporção que a lâmpada cadente
Do sol crepuscular mal bruxuleia,
Que estranhas coisas íntimas gorjeia
O solitário intérprete do Poente!

Ouvindo-lhes os prelúdios da linguagem,
Corre o verde nervoso da folhagem
Todo um vivo tremor de calafrio.

Voa. Enoitece. Num silêncio de Horto
Como que o bosque continua absorto
Nos trêmulos do pássaro sombrio...

(Solitudes, pág. 205)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876 1944), paraibano de Araruna, aos 14 anos foi matriculado no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, começou a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil, ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, formou-se em Direito, foi promotor público, jornalista, crítico literário e poeta; desiludindo-se da vocação jurídica, pediu exoneração da Promotoria e passou a se dedicar plenamente ao jornalismo; trabalhou como crítico literário nos jornais cariocas A Cidade do Rio, Gazeta de Notícias, Época, Jornal do Commercio e, depois, em A Noite, além de ter publicado nas revistas Mundo Literário, Rua do Ouvidor e outras; participou do grupo simbolista que criou a revista Rosa-Cruz, divulgadora deste movimento literário; escreveu e publicou Vae Soli! (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O pó das sandálias (1923), Senhora da Melancolia (1928), Alta Noite (1940), Poemas Amazônicos (publicação póstuma, 1958); o poeta é patrono da Academia Paraibana de Letras cadeira 34 e pertenceu à ABL Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Padre Corrêa de Almeida: Agradecimento


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Eu, apesar de ser do sexo feio,
por obséquio recebo a Mensageira,
revista literária, que me veio
causar uma surpresa verdadeira.

As produções lindíssimas, que leio,
abonam muita e muita Brasileira,
às quais dedico um simples galanteio,
falando-lhes assim desta maneira:

Obedecendo à Igreja, Santa Madre,
celibatário e macambúzio padre
alegrias domésticas não logra.

Porém eu (a consciência m’o exigia)
fiz a defesa e fiz a apologia
da injuriada e respeitável sogra.*

Barbacena, 9 de Dezembro de 1897.
Padre Corrêa de Almeida


* Nota da edição: Veja-se a página 120 das Produções da caducidade [1896].
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; José Joaquim Correia de Almeida (1820 1905), mineiro de Barbacena, foi professor de latim e poeta satírico; presbítero secular (padre), ordenado em 1844, Correia de Almeida logo teve as ordens sacerdotais cassadas por uma vez ter revelado, em poemas, coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou no segredo do confessionário; suas obras: Satyras, epigramas e outras poesias (1ª edição em 1854), A república dos tolos — dois volumes (1881 e 1887), Sonetos e sonetinhos (1884), Sonetos e sonetinhos — 2º volume (1887), Sensaborias métricas — 2 volumes (1890 e 1892), Decrepitudes metromaníacas (1894), Produções da caducidade (1896), Puerilidades de um macróbio (1898), entre outros.

Victor Hugo: A Palavra


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[traduzido por Álvaro Reis]

Cautela, precaução em tudo o que dizeis.
Tudo pode surgir, todos vós compreendeis,
De uma palavra que se deixa no caminho,
Quer no meio de um grupo ou falando sozinho.
Tudo. O ódio e o luto. E não me repliqueis jamais,
Que o vosso amigo é certo, e que baixo falais.
Escutai isto bem: Dizei, porta fechada,
A sós, na vossa casa, em sala reservada,
Aos ouvidos do mais circunspecto da grei
Do amigo do peito, um segredo, dizei.
Ou, melhor murmurai quase indistintamente,
Num fundo subterrâneo, uma frase veemente,
Desagradável a um indivíduo qualquer.
E a frase que julgais ninguém ouvido ter,
Que dissestes tão baixo e num lugar sombrio,
Apenas emitida, ela não se demora...
A tal palavra corre e sai da sombra fora;
De olhos fechados sabe o caminho, marchando;
Possui dois pés, e empunha um bastão formidando,
Tem brutais sapatões e um passaporte em regra,
Se é mister, ela toma as asas da águia negra
E vos escapa, e foge, e nada a deterá:
Segue o cais, atravessa a praça, longe está;
Passa a água sem batel na estação das enchentes;
Das ruas através do dédalo animado,
Vai rente ao cidadão de que haveis murmurado.
Sabe o número, o andar, o interior do sobrado;
Leva as chaves; e sobe a alta escada, e abre as portas
E passa e entra e chega; entra até as horas mortas,
E, num riso insidioso, olhando fixamente
O homem que ali está, diz logo, frente a frente:
Eis-me. Da boca eu vim de um fulano de tal...
E pronto. Tendes um inimigo mortal!

Victor Hugo

Le mot

Jeunes gens, prenez garde aux choses que vous dites.
Tout peut sortir d'un mot qu'en passant vous perdîtes.
Tout, la haine et le deuil! Et ne m'objectez pas
Que vos amis sont sûrs et que vous parlez bas...
Ecoutez bien ceci:

Tête-à-tête, en pantoufle,
Portes closes, chez vous, sans un témoin qui souffle,
Vous dites à l'oreille au plus mystérieux
De vos amis de coeur, ou, si vous l'aimez mieux,
Vous murmurez tout seul, croyant presque vous taire,
Dans le fond d'une cave à trente pieds sous terre,
Un mot désagréable à quelque individu;
Ce mot que vous croyez que l'on n'a pas entendu,
Que vous disiez si bas dans un lieu sourd et sombre,
Court à peine lâché, part, bondit, sort de l'ombre!
Tenez, il est dehors! Il connaît son chemin.
Il marche, il a deux pieds, un bâton à la main,
De bons souliers ferrés, un passeport en règle;
Au besoin, il prendrait des ailes, comme l'aigle!
Il vous échappe, il fuit, rien ne l'arrêtera.
Il suit le quai, franchit la place, et caetera,
Passe l'eau sans bateau dans la saison des crues,
Et va, tout à travers un dédale de rues,
Droit chez l'individu dont vous avez parlé.
Il sait le numéro, l'étage; il a la clé,
Il monte l'escalier, ouvre la porte, passe,
Entre, arrive, et, railleur, regardant l'homme en face,
Dit: Me voilà! je sors de la bouche d'un tel.

Et c'est fait. Vous avez un ennemi mortel.

[Toute la lyre — 1888]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Victor-Marie Hugo (1802 1885), francês de Besançon, fez seus primeiros estudos no Seminário de Los Nobles de Madri e no Liceu Luis le Grand de Paris, foi poeta, escritor e dramaturgo do Romantismo francês; compôs poemas desde muito jovem e aos quinze anos foi premiado em concurso de poesia da Academia Francesa; em 1822 integrou-se ao Romantismo e logo tornou-se porta voz deste movimento; em 1825, liderando um grupo de jovens escritores, criou o Cenáculo; o poeta lutou contra Napoleão III e, quando este se tornou imperador, recusou a anistia e foi para o exílio em Bruxelas, Guernsey e Jersey; suas obras: Bug Jargal (novela, 1820), Odes et Poésies Diverses (1822), Odes et Ballades (1826), Cromwell (drama, cujo prefácio foi considerado o Manifesto do Romantismo contra o Classicismo, 1826), Marion de Lorme (peça teatral censurada, 1829), Les Orientales (poesias, 1829), Hernani (peça teatral, representando o fim do Classicismo, 1830), Notre Dame de Paris (romance histórico, 1831), Lucrèce e Marie Tudor (dramas, 1833), Littérature et Philosophie Mêlées e a novela Claude Gueux (ambas em 1834), Chants du Crépuscule (1835), Les Voix Intérieures (poesias, 1837), Les Rayons et les Ombres (poesias, 1840), Les Burgraves (teatro, 1843), Les Misérables (1845-1861) Os Castigos (1853), As Contemplações (1856), O Homem que Ri (1869) e outros títulos; Victor Hugo também foi estadista, elegendo-se deputado da Assembléia Nacional e, depois, elegendo-se senador.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Áurea Pires: Riso pungente


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Ah!   Não te rias, que teu riso abala
Todas as fibras de minh´alma ardente!
Ela se estorce convulsivamente,
Das grandes mágoas percorrendo a escala!

Como o violino que soluça e fala
E geme e grita apaixonadamente,
Sob os dedos do artista inteligente,
Entusiasmado n'um salão de gala!...

Se ouve a risada límpida e sonora
Dos lábios teus, ela estremece e chora,
Como o violino sob as mãos do artista!

Minh'alma é fraca, tímida e sensível!...
Cesse o teu riso este martírio incrível!
Que outra mais forte talvez não resista!

28 — 3 — 1899
[revista A Mensageira, de 15 de abril de 1899,
Ano II, nº 27, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Áurea Pires da Gama (1876 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos 14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro SP, ali foi cofundadora do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registando ali alguns de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.

domingo, 26 de novembro de 2023

Carlos D. Fernandes: Ante o cadáver de Cruz e Sousa


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Ah! que eterno poder maravilhoso
Era esse que o corpo te animava,
E que a tu’alma límpida vibrava
Como um plangente carrilhão mavioso?...

Que sol ardente, que fecunda lava,
Que secreto clarão, mago e radioso,
Dentro em teu ser, como um vulcão raivoso,
Eternamente em convulsões estuava?...

Que anjos celestes, cândidos e graves,
Faziam do teu ser floridas naves,
Cheias de augusto cânticos eternos?...

Que mão foi essa, lívida e gelada.
Que sufocou tu’alma, acrisolada
Na tortura de todos os infernos?!...

(Vanitas Vanitatum, pág. 49)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Carlos Augusto Furtado de Mendonça Dias Fernandes (1874 1942), paraibano de Mamanguape, formado em Direito no Recife, foi poeta, romancista, contista, biógrafo, pedagogo e jornalista; suas obras: Solaus (Paris, 1902), Vanitas Vanitatum (Belém, 1906), Canção de Vesta (Recife, 1908), A Renegada (romance, Recife, 1908), Os Cangaceiros (romance, Paraíba, 1914), Palma de Acantos (Paraíba, 1917), Escola Pitoresca (livro didático “de leitura para as escolas de terceiro grau e complementares”, Paraíba, 1918), Mirian (1920), Livro das Parcas (Paraíba, 1921), Terra da Promissão (Paraíba, 1923), Sansão e Dalila (Paraíba, 1923), A Vindicta (1931), Fretana (romance autobiográfico, 1936), entre outros títulos em verso e prosa; no romance autobiográfico Fretana “evoca episódios e figuras do movimento simbolista”; Carlos Fernandes, poeta da geração simbolista, andarilho, percorreu vários Estados, residiu em diversas cidades do país e, por onde passou, escreveu em muitos jornais e revistas, entre os quais n’A Gazeta da Tarde, A Cidade do Rio, Jornal do Comércio e na Revista Rosa-Cruz  de inspiração simbolista, periódicos do Rio de Janeiro, A Gazeta de Belém e Província do Pará, ambas do Pará, A União, da Paraíba; o poeta jornalista Carlos Fernandes também foi fundador da revista Meridional e cofundador da já mencionada revista Rosa-Cruz, ao lado de Saturnino Meirelles, também poeta simbolista, e outros; é patrono da Academia Paraibana de Letras cadeira 32; veio a falecer no Rio de Janeiro.

sábado, 25 de novembro de 2023

Voltaire: Madrigal

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[traduzido por R. Magalhães Júnior]

(À princesa Úlrica, da Prússia)

Às vezes a realidade
Mescla-se à mentira mais grosseira!
Ontem sonhei ser, a noite inteira,
Imperador de excelsa majestade.
Eu vos amava e o confessava, a sério...
Despertei... Mas, ó deuses, em verdade,
Só perdi meu império...

Voltaire

A Madame la princesse Ulrique de Prusse

Souvent un peu de vérité
Se mêle au plus grossier mensonge:
Cette nuit, dans l’erreur d’un songe,
Au rang des rois j’étais monté.
Je vous aimais, princesse, et j’osais vous le dire!
Les dieux à mon réveil ne m’ont pas tout ôté:
Je n’ai perdu que mon empire.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Voltaire (1694 1778), ou François Marie Arouet, francês e parisiense, estudou com os jesuítas, foi escritor, ensaísta, polemista satírico e filósofo do Iluminismo francês; tornou-se conhecido literária e filosoficamente pelo seu pseudônimo; escritor prolífico, Voltaire produziu algumas dezenas de obras nas mais diversas formas literárias peças de teatro, poemas, romances, ensaios, textos científicos e históricos, milhares de cartas e panfletos; alguns de seus escritos: Édipo (peça teatral, 1715), La Henríade (poema épico, 1728), Cartas Filosóficas (Lettres philosophiques, 1734), Zadig ou la Destinée (1747), Poème Sur Le Désastre De Lisbonne (1756), Cândido ou o Otimismo (Candide, novela satírica, 1759), Tratado sobre a Tolerância (Traité sur la Tolérance, 1763), Dictionnaire philosofhique portatif (1764) etc.; por usar suas obras para criticar a Igreja Católica e o Absolutismo, os privilégios do clero e da nobreza, foi duas vezes preso.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Friedrich Nietzsche: 2. A razão do mundo & outros aforismos

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Segunda parte — O andarilho e sua sombra

1. Da árvore do conhecimento. — Verossimilhança, mas não verdade; aparência de liberdade, mas não liberdade1 é por causa desses dois frutos que a árvore do conhecimento não pode ser confundida com a árvore da vida.
2. A razão do mundo. Que o mundo não é a quintessência de uma racionalidade eterna é algo demonstrado definitivamente pelo fato de que esta porção de mundo que conhecemos refiro-me à nossa razão humana não é muito racional. E se ela não é sábia e racional a todo tempo e completamente, o mundo restante também não será; aí vale a conclusão a minori ad majus, a parte ad totum [do menor para o maior, da parte para o todo], e com força decisiva.
3. “No início era2. — Glorificar a gênese esse é o broto metafísico que torna a rebentar quando se considera a história, e faz acreditar que no início de todas as coisas está o mais valioso e essencial.
4. Medida para o valor da verdade. — O esforço requerido para subir uma montanha certamente não é uma medida para a altura da montanha. E na ciência deve ser diferente! dizem alguns que querem passar por iniciados , o esforço para alcançar a verdade deve justamente decidir quanto ao valor da verdade! Essa louca moral parte do pensamento de que as “verdades” não seriam mais do que aparelhos de ginástica, em que teríamos que trabalhar arduamente até a fadiga uma moral para atletas e ginastas do espírito.
5. Linguagem corrente e realidade. — Há um simulado desprezo por todas as coisas que as pessoas consideram realmente mais importantes, por todas as coisas mais próximas. Diz-se, por exemplo, que “se come apenas para viver” uma execrável mentira, como aquela que fala da procriação como o autêntico propósito da volúpia. Pelo contrário, a alta estima das “coisas mais importantes” quase nunca é genuína: os sacerdotes e metafísicos certamente nos habituaram a uma linguagem hipocritamente exagerada nessas áreas, mas não nos mudaram o sentimento, que não considera essas coisas mais importantes tão importantes quanto aquelas desprezadas coisas mais próximas. Uma deplorável consequência dessa dupla hipocrisia, no entanto, é não tomar as coisas mais próximas, como alimentação, moradia, vestuário, relacionamentos, por objeto de reflexão e reorganização contínua, desassombrada e geral, mas sim afastar delas nossa seriedade intelectual e artística, pois aplicar-se a elas é tido por degradante: enquanto, por outro lado, nossas constantes agressões às mais simples leis do corpo e do espírito nos colocam a todos, jovens e velhos, numa vergonhosa dependência e falta de liberdade refiro-me à dependência, na verdade supérflua, de médicos, professores e pastores, cuja pressão ainda hoje se faz sentir em toda a sociedade.

Friedrich Nietzsche

Zweite Abteilung: Der Wanderer und sein Schatten

1
Vom Baume der Erkenntnis. — Wahrscheinlichkeit, aber keine Wahrheit: Freischeinlichkeit, aber keine Freiheit, diese beiden Früchte sind es, derentwegen der Baum der Erkenntnis nicht mit dem Baum des Lebens verwechselt werden kann.
2
Die Vernunft der Welt. — Daß die Welt nicht der Inbegriff einer ewigen Vernünftigkeit ist, läßt sich endgültig dadurch beweisen, daß jenes Stück Welt, welches wir kennen ich meine unsre menschliche Vernunft , nicht allzu vernünftig ist. Und wenn sie nicht allezeit und vollständig weise und rationell ist, so wird es die übrige Welt auch nicht sein; hier gilt der Schluß a minori ad majus, a parte ad totum, und zwar mit entscheidender Kraft.
3
»Am Anfang war«. — Die Entstehung verherrlichen das ist der metaphysische Nachtrieb, welcher bei der Betrachtung der Historie wieder ausschlägt und durchaus meinen macht, am Anfang aller Dinge stehe das Wertvollste und Wesentlichste.
4
Maß für den Wert der Wahrheit. — Für die Höhe der Berge ist die Mühsal ihrer Besteigung durchaus kein Maßstab. Und in der Wissenschaft soll es anders sein! sagen uns einige, die für eingeweiht gelten wollen , die Mühsal um die Wahrheit soll gerade über den Wert der Wahrheit entscheiden! Diese tolle Moral geht von dem Gedanken aus, daß die »Wahrheiten« eigentlich nichts weiter seien, als Turngerätschaften, an denen wir uns wacker müde zu arbeiten hätten, eine Moral für Athleten und Festturner des Geistes.
5
Sprachgebrauch und Wirklichkeit. — Es gibt eine erheuchelte Mißachtung aller Dinge, welche tatsächlich die Menschen am wichtigsten nehmen, aller nächsten Dinge. Man sagt zum Beispiel »man ißt nur, um zu leben«, eine verfluchte Lüge, wie jene, welche von der Kindererzeugung als der eigentlichen Absicht aller Wollust redet. Umgekehrt ist die Hochschätzung der »wichtigsten Dinge« fast niemals ganz echt: die Priester und Metaphysiker haben uns zwar auf diesen Gebieten durchaus an einen heuchlerisch übertreibenden Sprachgebrauch gewöhnt, aber das Gefühl doch nicht umgestimmt, welches diese wichtigsten Dinge nicht so wichtig nimmt wie jene verachteten nächsten Dinge. Eine leidige Folge dieser doppelten Heuchelei aber ist immerhin, daß man die nächsten Dinge, zum Beispiel Essen, Wohnen, Sich-Kleiden, Verkehren, nicht zum Objekt des stetigen unbefangenen und allgemeinen Nachdenkens und Umbildens macht, sondern, weil dies für herabwürdigend gilt, seinen intellektuellen und künstlerischen Ernst davon abwendet; so daß hier die Gewohnheit und die Frivolität über die Unbedachtsamen, namentlich über die unerfahrene Jugend, leichten Sieg haben: während andererseits unsere fortwährenden Verstöße gegen die einfachsten Gesetze des Körpers und Geistes uns alle, Jüngere und Ältere, in eine beschämende Abhängigkeit und Unfreiheit bringen, ich meine in jene im Grunde überflüssige Abhängigkeit von Ärzten, Lehrern und Seelsorgern, deren Druck jetzt immer noch auf der ganzen Gesellschaft liegt.

Notas do tradutor Paulo César de Souza:
1. “Verossimilhança: o termo original, Wahrscheinlichkeit, que também se traduz por “probalididade”, é substantivação do adjetivo wahrscheinlich, que se compõe de wahr (“verdadeiro” e Schein (“aparência”). Já o termo traduzido em seguida por “aparência de liberdade”, Freischeinlichkeit, foi cunhado por Nietzsche com base no primeiro, pois frei, significa “livre”, e Freiheit, “liberdade”, formando, assim, uma refinada contrapartida a Wahrscheinlichkeit e Wahrheit (“verdade”). As versões estrangeiras consultadas também usam “verossimilhança” no primeiro caso com exceção da inglesa, que prefere probability e “aparência de liberdade” no segundo caso, exceto a espanhola, que inova com liberosimilitud.
     As duas árvores de que fala o aforismo são, evidentemente, uma alusão à mitologia hebraica: cf. Gênesis 2, 9.
2. Cf. João 1, 1: na mesma linha, o termo traduzido por “broto” é Nachtrich (nach = depois, Trich = rebento), para o qual as versões estrangeiras consultadas oferecem: resabio, germoglio, surpousse, idem, after-shoot; a única edição brasileira que encontramos desse texto (O viandante e sua sombra, trad. Haroldo Barbuy, de 1939) traz suprarrebento, pois foi traduzida da primeira versão francesa. [ . . . ]
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Humano, Demasiado Humano: Um Livro para Espíritos Livres, Volume II Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Rafael Alberti: À paleta


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[traduzido por Xavier Placer]

A ti, infinita face, chão semeado
onde ceifa o pincel, resume, amassa
e onde entre cor, luzes e sombras, passa
de mar radioso a um tempo então nublado.

A ti, poço e coberta, onde assomado
maldita, vem e vai, mede, compassa;
fronte na mão pousada que ultrapassa
teu ver de Polifermo enamorado.

A ti, asa redonda, leque escudo,
espelho que ao vestir queda desnudo
a superfície novamente pura.

Em ti a visão se apura assim que nasce.
Teu firmamento o arco-iris pasce.
A ti, leito e cadinho da Pintura.

Rafael Alberti

A la paleta

A ti, infinita haz, campo sembrado
donde siega el pince!, gavilla, amasa
y entre color, luces y sombras, pasa
de mar radiante a tiempo anubarrado.

A ti, pozo y brocal, donde assomado
medita, viene y va, mide, acompasa;
frente asida a la mano que traspasa
tu ojo de Polifemo enamorado.

A ti, abanico, ala redonda, escudo,
espejo que al vestir queda desnudo
y nuevamente superficie pura.

En ti se cuece Ia visión que nace.
Tu firmamento el arcoiris pace.
A ti, lecho y crisol de la Pintura.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Rafael Alberti Merello (1902 1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte Horizonte, Alfar, Revista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros, convivendo artística e literariamente com todos; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; suas obras: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928 1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Verte y no verte. A Ignacio Sánchez Mejías (1935), Entre el clavel y la espada, La arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987), e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Narcisa Amália: Sadness


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Meu anjo inspirador não tem nas faces
As tintas coralíneas da manhã;
Nem tem nos lábios as canções vivaces
          Da cabocla pagã!

Não lhe pesa na fronte deslumbrante
Coroa de esplendor e maravilhas,
Nem rouba ao nevoeiro flutuante
          As nítidas mantilhas.

Meu anjo inspirador é frio e triste
Como o sol que enrubesce o céu polar!
Trai-lhe o semblante pálido do antiste
          O acerbo meditar!

Traz na cabeça estema de saudades,
Tem no lânguido olhar a morbideza;
Veste a clâmide eril das tempestades,
          E chama-se Tristeza!...

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter-se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense, entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, divulgou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, caluniada e incompreendida pelo então segundo ex-marido por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro publicado, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase.