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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Jacques Prévert: O gato e o pássaro


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[traduzido por Silviano Santiago]

Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
E o gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades

É preciso nunca fazer as coisas pela metade.

Jacques Prévert

Le chat et l’oiseau

Un village écoute désolé
Le chant d’un oiseau blessé
C’est le seul oiseau du village
Et c’est le seul chat du village
Qui l’a à moitié dévoré
Et l’oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l’oiseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l’oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n’arrête pas de pleurer
Si j’avais su que cela te fasse tant de peine
Lui dit le chat
Je l’aurais mangé tout entier
Et puis je t’aurais raconté
Que je l’avais vu s’envoler
S’envoler jusqu’au bout du monde
Là-bas où c’est tellement loin
Que jamais on n’en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse et des regrets

Il ne faut jamais faire les choses à moitié.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 — 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, abandonou o banco escolar aos 15 anos, após receber certificação no ensino primário, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért criou roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Jacques Prévert: O carrinho de mão ou as grandes invenções & Mea culpa & O grande homem


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[traduzidos por Silviano Santiago]

Mea culpa

Errei
Errei
Que enorme erro de ortografia
Eis como escrevi
Girrafa.

— o —

O grande homem

No ateliê do talhador de pedra
onde o encontrei
lhe tiravam medidas
para a posteridade.

— o —

O carrinho de mão ou as grandes invenções

O pavão abre o leque
o acaso faz o resto
Deus toma assento
e o homem empurra.

Jacques Prévert

Mea culpa

C’est ma faute
C’est ma faute
C’est ma très grand faute d’orthographe
Voilà comment j’écris
Giraffe.

— o —

Le grand homme

Chez un tailleur de pierre
où je l’ai rencontré
il faisait prendre ses mesures
pour la postérité.

— o —

La brouette ou les grandes inventions

Le paon fait la roue
le hasard fait le reste
Dieu s’assoit dedans
et l’homme pousse.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; sua obra: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

domingo, 17 de setembro de 2023

Jacques Prévert: Foi o amor que me fez


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[traduzido por Silviano Santiago]

A Jo Warfield

Nasci nua nua
E vivo como nasci
Nasci pequenina
Se cresci depressa
nunca fui outra
E vivo nua nua
A maior parte do tempo
O tempo em que vivo nua
Esse tempo é dinheiro

Foi o amor que me fez
O amor que me fez festa
O amor que me fez fada
Para onde ele se foi
O amante que tive
Ele me dava prazer
me fazia sonhar
me fazia dançar
Dançar sob a sua batuta
Era o meu maestro
Eu o seu corpo de baile

Foi o amor que me fez
O amor que me fez festa
O amor que me fez fada
E te ponho de quatro
quando tenho ganas
Teu amor me faz rir
Teu amor não é verdadeiro
Vamos! sob a minha batuta
E passa logo o dinheiro

Foi o amor que me fez
O amor que me desfez
E me abandonou
O amante que tinha
Para onde ele se foi
Para onde ele se foi
Para onde ele se foi

Jacques Prévert

C’est l’amour qui m’a faite

A Jo Warfield

Je suis née toute nue
Je vis comme je suis née
Je suis née toute petite
Si j’ai grandi trop vite
Jamais je n’ai changé
Et je vis toute nue
Pour la plupart du temps
Ce temps où je vis nue
Ce temps c’est de l’argent

C’est l’amour qui m’a faite
L’amour qui m’a fait fête
L’amour qui m’a fait fée
Où donc est-il parti
L’amoureux que j’avais
Qui me faisait plaisir
Qui me faisait rêver
Qui me faisait danser
Danser à sa baguette
C’était mon chef d’orchestre
Moi son corps de ballet

C’est l’amour qui m’a faite
L’amour qui m’a fait fête
L’amour qui m’a fait fée
Et je vous change en bete
Chaque fois que ça me plaît
Votre amour me fait rire
Votre amour n’est pas vrai
Marchez à ma baguette
Et passez la monnaie

C’est l’amour qui m’a faite
L’amour qui m’a défaite
Et m’a abandonnée
L’amoureux que j’avais
Où s’en est-il allé
Où s’en est-il allé
Où s’en est-il allé.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Ariano Suassuna: Lápide


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Com o tema de Virgílio (o Latino) e de Lino Pedra-Azul (o Sertanejo)

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alanceado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão Sangue insensato e vagabundo
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao sol do Mundo!

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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 20 de agosto de 2023

Jacques Prévert: Agora cresci


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[traduzido por Silviano Santiago]

Criança
vivi divertidamente
ria sem parar todos os dias
ria sem parar no duro
e depois vinha uma tristeza de tal modo triste
algumas vezes junto com ela a alegria
Então me julgava desesperado
Na verdade não tinha mais esperança
nada tinha além de estar vivo
estava intacto
contente
e estava triste
mas nunca fazia de conta
Conhecia o gesto para continuar vivo
Balançar a cabeça
para dizer não
balançar a cabeça
para não deixar entrar as idéias dos outros
Balançar a cabeça para dizer não
e sorrir para dizer sim
sim às coisas e às pessoas
às pessoas e às coisas vistas acariciadas
amadas
ou tudo ou nada
Era como era
meio desmiolado
E quando precisava de idéias
para me fazer companhia
chamava por elas
E acorriam
e dizia sim às que me agradavam
as outras jogava-as fora

Agora que cresci
as idéias mudaram também
mas as idéias são sempre as grandes
belas idéias
ideiais idéias
E eu fazendo troça delas
Mas elas me esperam
para se vingar
para me comer
num dia em que estiver muito cansado
mas também as espero
num canto do bosque
vou cortar-lhes o pescoço
cortar-lhes o apetite.

Jacques Prévert

Maintenant j’ai grandi

Enfant
j’ai vécu drôlement
le fou rire tous les jours
le fou rire vraiment
et puis une tristesse tellement triste
quelquefois les deux en même temps
Alors je me croyais désespéré
Tout simplement je n’avais pas d’espoir
je n’avais rien d’autre que d’être vivant
j’étais intact
j’étais content
et j’étais triste
mais jamais je ne faisais semblant
Je connaissais le geste pour rester vivant
Secouer la tête
pour dire non
secouer la tête
pour ne pas laisser entrer les idées des gens
Secouer la tête pour dire non
et sourire pour dire oui
oui aux choses et aux êtres
aux êtres et aux choses à regarder à caresser
à aimer
à prendre ou à laisser
J’étais comme j’étais
sans mentalité
Et quand j’avais besoin d’idées
pour me tenir compagnie
je les appelais
Et elles venaient
et je disais oui à celles qui me plaisaient
les autres je les jetais

Maintenant j’ai grandi
les idées aussi
mais ce sont toujours de grandes idées
de belles idées
d’idéales idées
Et je leur ris toujours au nez
Mais elles m’attendent
pour se venger
et me manger
un jour où je serai très fatigué
Mais moi au coin d’un bois
je les attends aussi
et je leur tranche la gorge
je leur coupe l’appétit.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Ariano Suassuna: A Onça


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Poema escrito na forma do "martelo gabinete"1 dos Cantadores nordestinos e onde se trata a Onça — animal heráldico brasileiro por excelência — como símbolo da Morte

Essa Flecha cruel que despedaça
a carne dos Carneiros e bezerros.
Eis o Bicho sagrado, o velho Medo,
no Sangue mal cravado dos meus erros:
a Romã coroada, o doido Fruto,
a mordida do Sono e do Desterro.

O vermelho Clarão, o Verde escuro
e o Mundo ouro e enxofre envenenado.
Possesso da serpente, asas de Arcanjo.2
olhos cegos no Sol incendiado.
Que maldade se encerra na Beleza?
Que sangrento no Molde iluminado?

Do Rebanho maldito, um verde Musgo,
e às Pedras, a ferrugem verde tinge.
À luz azul do Cérebro inquieto,
o Crime dorme, oculto na meninge.
É divina essa Chaga que o Sol cura
e o Anjo é soletrado em cega Esfinge.

O topázio dos olhos, das Estrelas,
a pele de ouro e negro, Espinhos brancos.
A luxúria de púrpura e Desejo
na polpa rubra do macio Flanco.
Canta em meu sangue a Flauta dos meus ossos,
a cometa da Títia e o Punho manco.

Quem me sopra o Traspasse3 e a solução?
Que me sussurra o fogo desta Voz?
Ai, perigo de ser do meu cansaço!
Ai, papoula da vida, sangra os Nós!
E vai, e esquiva foge, e espreita a Sombra
na Cabeça de cacto4 feroz!

16/6/1962


Notas do Organizador Silviano Santiago:
1. Forma popular de composição poética que comporta estrofes de seis versos, cada um contendo dez sílabas (cf.: “Notas sobre o Romanceiro Popular”);
2. Representação simbólica da Morte também encontrada no teatro: ao mesmo tempo o Mal (serpente) e o Bem (arcanjo);
3. Morte, dor penetrante;
4. Seria interessante a leitura do poema de Manuel Bandeira que leva o título “Cacto”, em cuja poesia também o tema da morte é capital.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 5 de agosto de 2023

Jacques Prévert: Na loja de flores


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[traduzido por Silviano Santiago]

Um homem entra na loja de flores
e escolhe umas flores
a florista embrulha as flores
o homem enfia a mão no bolso
para pegar o dinheiro
dinheiro para pagar as flores
mas de repente e ao mesmo tempo
ele põe
a mão ao coração
e cai

Enquanto cai
o dinheiro roda por terra
e depois as flores caem
ao mesmo tempo que o homem
ao mesmo tempo que o dinheiro
e a florista fica ali
vendo o dinheiro que roda
as flores que murcham
o homem que morre
tudo isso é muito triste é claro
e é preciso que ela faça alguma coisa
a florista
não sabe o que fazer
não sabe
por onde começar

Há tantas coisas por fazer
pelo homem que morre
pelas flores que murcham
e com o dinheiro
esse dinheiro que roda
que não para de correr.

Jacques Prévert

Chez la fleuriste

Un homme entre chez une fleuriste
et choisit des fleurs
la fleuriste enveloppe les fleurs
l’homme met la main à sa poche
pour chercher l’argent
l’argent pour payer les fleurs
mais il met en même temps
subitement
la main sur son cœur
et il tombe

En même temps qu’il tombe
l’argent roule à terre
et puis les fleurs tombent
en même temps que l’homme
en même temps que l’argent
et la fleuriste reste là
avec l’argent qui roule
avec les fleurs qui s’abîment
avec l’homme qui meurt
évidemment tout cela est très triste
et il faut qu’elle fasse quelque chose
la fleuriste
mais elle ne sait pas comment s’y prendre
elle ne sait pas
par quel bout commencer

Il y a tant de choses à faire
avec cet homme qui meurt
ces fleurs qui s’abîment
et cet argent
cet argent qui roule
qui n’arrête pas de rouler.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Ariano Suassuna: Décimas ante um retrato de Camões


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Escritas por Ariano Suassuna em forma de Martelo agalopado1 e enviadas a Aloísio Magalhães2, em retribuição ao desenho que inspirou o poema

Se, na noite de chuva, a Tempestade
em solitários galhos açoitados,
revivesse os Navios naufragados3
e o travoso gemer da Soledade;
se, da grave assonância da Vontade
entrevesse se pudesse o sacrifício
nesse claro e cansado Frontispício
quem, mais do que teus Olhos4, cantaria
da vida o Caso cego e a galhardia,
a Luz flamante e o sacro Desperdício?

Teus olhos! Mas quem pode apaziguá-los?
Se, num, a Flecha agónica demora,
noutro há bruma, salgueiro e Harpa sonora,
entre os passos do Rei5 com seus vassalos.
O pó e o sangue, as patas dos Cavalos
repousam nesse Sulco fatigado.
E, se o bravo Queixume informulado
evoca os destroçados areais,
o ressonar dos Bosques provençais
doura na Morte a mágoa do Pecado.

Pensar que foste criança e que aspiraste
o cheiro da Madeira mal queimada;
que, ao perseguir, insone, a Madrugada,
a chama do Desterro desejaste.
O Sal marinho, as folhas que esmagaste,
e vida e nome, pássaro e Memória.
Pois, se Fortuna e treva derrisória
urdiram tua Sorte alada e escura,
foi que o porvir tecera, na Espessura,
da Cadência já morta o Canto e a glória.

Pureza e dolo. A Sombra se amontoa
destroço ressurreto e trespassado
na prisão6 a quem um tempo foste atado,
no Barco que te chama e te enevoa.
Debalde! A Fronte é cortadora Proa,
barba barroca é Quilha e madeirame.
E o Cedro, a Infanta7, a coifa de beirame8,
tudo isso e tudo mais que não se exprime
que não se diz e é o que talvez redime
o atravessar das águas e o Velame.

Assim, não mais o som desse Acalanto,
não mais o Apelo, só, do já passado:
que teu Anjo o receba, dissipado,
numa Páscoa de fogo e tenso Canto.
Pois se o Eco de sono e louro acanto
não te pôde levar o que pressente,
num sussurro fraterno e Sopro ardente
chegue a ti meu Duende extraviado
e o Sonho, anseio extinto e renovado,
que é Pena e mudez de meu presente.

[O Pasto incendiado — 1953.]


Notas do Organizador Silviano Santiago:
1. Segundo Luís da Câmara Cascudo, o martelo de dez sílabas é “legítima obra-prima para o cantador nordestino”, e acrescenta “cantar martelo, improvisá-lo ou declamá-lo, respondendo ao adversário no embate do desafio, é o título mais ambicionado pelos cantadores”;
2. Programador visual contemporâneo, radicado no Rio de Janeiro, mas de origem pernambucana. Faleceu a 13 de junho de 1982;
3. Alusão poética ao célebre naufrágio em que Camões quase perde a vida e os originais de Os Lusíadas;
4. Camões, tendo optado pela carreira militar, foi fazer seu primeiro estágio na Costa da África. Um golpe inimigo ou um acidente (não se sabe ao certo) inutilizou-lhe um olho (cf. ainda segunda estrofe);
5. Possível alusão ao rei Dom Sebastião, a quem é dedicado Os Lusíadas. Devido às circunstâncias misteriosas da sua morte e à decadência político-econômica de Portugal a partir de 1580, criou-se nesse país um movimento político-sentimental que prega o culto a dom Sebastião e que leva o nome de “sebastianismo” (de enorme importância para o bom entendimento da ficção de Suassuna);
6. Logo depois do acidente de que foi vítima, Camões, segundo os biógrafos, levou vida boêmia e desregrada. Por isso, diversas vezes foi preso;
7. Alusão aos possíveis amores entre o poeta e a Infante Dona Maria, filha de Dom Manuel;
8. Referência ao poema de Camões em que a jovem amorosa se queixa de Joane por este se interessar mais pelo beirame (chita da índia) do que por ela.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.