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Escritas por Ariano Suassuna em forma de Martelo agalopado1 e
enviadas a Aloísio Magalhães2, em retribuição ao desenho que
inspirou o poema
Se, na noite de chuva, a Tempestade
em solitários galhos açoitados,
revivesse os Navios naufragados3
e o travoso gemer da Soledade;
se, da grave assonância da Vontade
entrevesse se pudesse o sacrifício
nesse claro e cansado Frontispício
quem, mais do que teus Olhos4, cantaria
da vida o Caso cego e a galhardia,
a Luz flamante e o sacro Desperdício?
Teus olhos! Mas quem pode apaziguá-los?
Se, num, a Flecha agónica demora,
noutro há bruma, salgueiro e Harpa sonora,
entre os passos do Rei5 com seus vassalos.
O pó e o sangue, as patas dos Cavalos
repousam nesse Sulco fatigado.
E, se o bravo Queixume informulado
evoca os destroçados areais,
o ressonar dos Bosques provençais
doura na Morte a mágoa do Pecado.
Pensar que foste criança e que aspiraste
o cheiro da Madeira mal queimada;
que, ao perseguir, insone, a Madrugada,
a chama do Desterro desejaste.
O Sal marinho, as folhas que esmagaste,
e vida e nome, pássaro e Memória.
Pois, se Fortuna e treva derrisória
urdiram tua Sorte alada e escura,
foi que o porvir tecera, na Espessura,
da Cadência já morta o Canto e a glória.
Pureza e dolo. A Sombra se amontoa
— destroço ressurreto e trespassado —
na prisão6 a quem um tempo foste atado,
no Barco que te chama e te enevoa.
Debalde! A Fronte é cortadora Proa,
barba barroca é Quilha e madeirame.
E o Cedro, a Infanta7, a coifa de beirame8,
tudo isso e tudo mais que não se exprime
— que não se diz — e é o que talvez redime
o atravessar das águas e o Velame.
Assim, não mais o som desse Acalanto,
não mais o Apelo, só, do já passado:
que teu Anjo o receba, dissipado,
numa Páscoa de fogo e tenso Canto.
Pois se o Eco de sono e louro acanto
não te pôde levar o que pressente,
num sussurro fraterno e Sopro ardente
chegue a ti meu Duende extraviado
e o Sonho, anseio extinto e renovado,
que é Pena e mudez de meu presente.
[O Pasto incendiado — 1953.]
Notas do Organizador Silviano
Santiago:
1. Segundo Luís da Câmara
Cascudo, o martelo de dez sílabas é “legítima obra-prima para o cantador
nordestino”, e acrescenta “cantar martelo, improvisá-lo ou declamá-lo,
respondendo ao adversário no embate do desafio, é o título mais ambicionado
pelos cantadores”;
2. Programador visual
contemporâneo, radicado no Rio de Janeiro, mas de origem pernambucana. Faleceu
a 13 de junho de 1982;
3. Alusão poética ao célebre
naufrágio em que Camões quase perde a vida e os originais de Os
Lusíadas;
4. Camões, tendo optado pela
carreira militar, foi fazer seu primeiro estágio na Costa da África. Um golpe
inimigo ou um acidente (não se sabe ao certo) inutilizou-lhe um olho (cf. ainda
segunda estrofe);
5. Possível alusão ao rei Dom
Sebastião, a quem é dedicado Os
Lusíadas. Devido às circunstâncias misteriosas da sua morte e à
decadência político-econômica de Portugal a partir de 1580, criou-se nesse país
um movimento político-sentimental que prega o culto a dom Sebastião e que leva
o nome de “sebastianismo” (de enorme importância para o bom entendimento da
ficção de Suassuna);
6. Logo depois do acidente de
que foi vítima, Camões, segundo os biógrafos, levou vida boêmia e desregrada.
Por isso, diversas vezes foi preso;
7. Alusão aos possíveis amores
entre o poeta e a Infante Dona Maria, filha de Dom Manuel;
8. Referência ao poema de
Camões em que a jovem amorosa se queixa de Joane por este se interessar mais
pelo beirame (chita da índia) do que por ela.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas
e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio
Editora, Rio de Janeiro — RJ;
Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das
Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942,
então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio
Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de
Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do
Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte
de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol,
Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor,
escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a
interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo
magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de
Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de
Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento
Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão
populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema
(Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida);
escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas
de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da
Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e
tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance
d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias:
Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia,
1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974),
Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão
sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas
premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia
Brasileira de Letras.