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domingo, 29 de março de 2026

Rubens Rodrigues Torres Filho: Pétalas

 
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Por entre as pétalas de isto, um supremo alguém, que qualquer dia nos diria, elaboradamente em pranto, seu nítido lampejo, tartarugas afogadas, e nisto me oriento, breves acúmulos de faltas, falsas fogueiras espontâneas, giz, cal e jazer inane entrelaçado em lianas funerárias e mundanas, como manda o figurado dos sentidos que eram cinco antes de se multiplicarem pela falta de sentido que era múltipla e sorria por entre os dedos do acaso e os dados que os deduziam, números inumeráveis, sonoras plantas e plenas de vegetal intensidade, graves lirismos registram seu ocо ocular, cavado por cavernas de sentido que por recato encaravam segredos escancarados ou secretas obviedades em mansas concavidades onde espertos se aninhavam, pseudoanimais semióticos que em cisma sinalizavam.

(Novolume: 5 Livros de Poesia, Poemas Novos,
Inéditos, Avulsos e Traduções. São Paulo,
Iluminuras, 1997 © Célia Cavalheiro.)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigu­es Torres Filho (1942 2023), paulista de Botucatu, formou-se em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, foi poeta, filósofo, professor e tradutor; participou da criação da revista Almanaque: Cadernos de Literatura e Ensaio; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Figura (1987), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu os volumes Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Friedrich Nietzsche: 341. O mais pesado dos pesos — E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão . . .

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

& 341

O mais pesado dos pesos —  E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez e tu com ela, poeirinha da poeira!” Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu é um deus, e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

[A Gaia Ciência]

Friedrich Nietzsche

341
Das größte Schwergewicht.  Wie, wenn dir eines Tages oder Nachts ein Dämon in deine einsamste Einsamkeit nachschliche und dir sagte: »Dieses Leben, wie du es jetzt lebst und gelebt hast, wirst du noch einmal und noch unzählige Male leben müssen; und es wird nichts Neues daran sein, sondern jeder Schmerz und jede Lust und jeder Gedanke und Seufzer und alles unsäglich Kleine und Große deines Lebens muß dir wiederkommen, und alles in derselben Reihe und Folge und ebenso diese Spinne und dieses Mondlicht zwischen den Bäumen, und ebenso die ser Augenblick und ich selber. Die ewige Sanduhr des Daseins wird immer wieder umgedreht und du mit ihr, Stäubchen vom Staube!« Würdest du dich nicht niederwerfen und mit den Zähnen knirschen und den Dämon verfluchen, der so redete? Oder hast du einmal einen ungeheuren Augenblick erlebt, wo du ihm antworten würdest: »du bist ein Gott und nie hörte ich Göttlicheres!« Wenn jener Gedanke über dich Gewalt bekäme, er würde dich, wie du bist, verwandeln und vielleicht zermalmen; die Frage bei allem und jedem: »willst du dies noch einmal und noch unzählige Male?« würde als das größte Schwergewicht auf deinem Handeln liegen! Oder wie müßtest du dir selber und dem Leben gut werden, um nach nichts mehr zu verlangen als nach dieser letzten ewigen Bestätigung und Besiegelung?

(Die fröliche Wissenschaft — 1882)
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Os Pensadores — Volume XXXII: Nietzsche — Obras incompletas, Seleção de textos de Gérard Lebrun e Tradução e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 1974 — Abril Cultural, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

sábado, 17 de maio de 2025

Rubens Rodrigues Torres Filho: Uma prosa é uma prosa é uma

 
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          Lavro a data. 16 de setembro. 1978. Sábado. Sem outro sinal de pontuação para saber que o tempo passou e está passado como que por mim. O interesse de colocar esses pontos, pingos, o interesse de deixar registro rodrigues o de estar aqui simplesmente e voltando pelo mesmo caminho a escrita inventa a escritura e nos pousa nas linhas que vão seguindo a pista para dentro de fora para denso de dentro para fera. O que então. Talvez o sempre, nem sempre e nós: anoto aqui e nada nos preocupa sem termos jeito de escapar ou encapar o acaso emaranhado. Se digo mais, não digo nada, pois basta não saber e entender, ler e deixar valer como isto, que não nos abandona sempre, apenas quando. Meu coração é o caminho que ele mesmo abotoou olhando em frente, em torno, feito um celeste girassol e à noite giralua. Após os pingos nos iis, a possibilidade de se aprender o rumo pelo qual após o resto e isto unilateralmente, como sempre. Vale por um pouco pouso para irmos e a vontade (essa!) não quer o que sabe. Caminhar atônitos pela temporada que dura e durar pelo ágil e o aprendido num átimo. Foi (terá sido) por uma necessidade ou outra que os giratórios ondularam sem mesmo o que foi mesmo e tudo se deixa disparar. Este é o fim. E o começo com isso?

(Novolume: 5 Livros de Poesia, Poemas Novos,
Inéditos, Avulsos e Traduções. São Paulo,
Iluminuras, 1997 © Célia Cavalheiro.)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigu­es Torres Filho (1942 2023), paulista de Botucatu, formou-se em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, foi poeta, filósofo, professor e tradutor; participou da criação da revista Almanaque: Cadernos de Literatura e Ensaio; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Figura (1987), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Nietzsche: A crença fundamental dos metafísicos é a crença nas oposições dos valores . . .

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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

2.
Como poderia algo nascer do seu oposto? Por exemplo, a verdade do erro? Ou a vontade de verdade da vontade de engano? Ou a ação não-egoísta, do egoísmo? Ou a pura, solar contemplação do sábio, da concupiscência? Tal gênese é impossível: quem sonha com ela é um parvo, e mesmo pior que isso: as coisas de supremo valor têm de ter uma outra origem, uma origem própria desse mundo perecível, aliciante, enganoso, mesquinho, desse emaranhado de ilusão e apetite é impossível deduzi-las! Pelo contrário, é no seio do ser, no imperecível, no Deus escondido, na “coisa em si” é ali que tem de estar seu funcionamento, ou em nenhuma outra parte! Esse modo de julgar constitui o típico preconceito pelo qual se reconhecem os metafísicos de todos os tempos; esse modo de estimativas de valor está por trás de todas as suas proceduras lógicas; a partir dessa sua “crença”, eles se atarefam em torno de seu “saber”, em torno de algo que, no final, é solenemente batizado como a “verdade”. A crença fundamental dos metafísicos é a crença nas oposições dos valores. ... *

[Para além de Bem e Mal  prelúdio de uma filosofia do porvir,
capítulo I, Dos preconceitos dos filósofos, § 2]


2
»Wie könnte etwas aus seinem Gegensatz entstehn? Zum Beispiel die Wahrheit aus dem Irrtum? Oder der Wille zur Wahrheit aus dem Willen zur Täuschung? Oder die selbstlose Handlung aus dem Eigennutze? Oder das reine sonnenhafte Schauen des Weisen aus der Begehrlichkeit? Solcherlei Entstehung ist unmöglich; wer davon träumt, ein Narr, ja Schlimmeres; die Dinge höchsten Wertes müssen einen andern, eignen Ursprung haben — aus dieser vergänglichen verführerischen täuschenden geringen Welt, aus diesem Wirrsal von Wahn und Begierde sind sie unableitbar! Vielmehr im Schoße des Seins, im Unvergänglichen, im verborgnen Gotte, im ›Ding an sich‹  da muß ihr Grund liegen, und sonst nirgendswo!« Diese Art zu urteilen macht das typische Vorurteil aus, an dem sich die Metaphysiker aller Zeiten wiedererkennen lassen; diese Art von Wertschätzungen steht im Hintergrunde aller ihrer logischen Prozeduren; aus diesem ihrem »Glauben« heraus bemühn sie sich um ihr »Wissen«, um etwas das feierlich am Ende als »die Wahrheit« getauft wird. Der Grundglaube der Metaphysiker ist der Glaube an die Gegensätze der Werte. ...

[Jenseits von Gut und Böse — Erstes Halptstück.
Von den Vorurteilen der Philosophen]

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O texto ora transcrito, citado pela autora Scarlett Marton em seu ensaio histórico-biográfico Nietzsche uma Filosofia a marteladas [tópico Silêncio, Solidão, pág. 68], originalmente consta em Os Pensadores Volume XXXII: Nietzsche Obras incompletas, tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, 1974, Abril Cultural, pág. 277.
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Nietzsche — uma filosofia a marteladas: Scarlett Marton, Seleção de Textos de Gérard Lebrun,  Introdução e Notas de Scarlett Marton, Tradução das sentenças e aforismos nietzscheanos de Rubens Rodrigues Torres Filho e Scarlett Marton, Coleção Tudo é História nº 133, 1ª reimpressão da 5ª edição, 1999, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Schlegel: Falso pudor é pretensão à inocência sem inocência. . . . [frag. 31] & outros fragmentos


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[traduzido por Márcio Suzuki]

          [7] Vocês sempre desejam novos pensamentos? Façam algo novo, e se poderá dizer algo novo a respeito. [A. W.]*
          [13] Se jovens de ambos os sexos sabem dançar uma música prazenteira, de modo algum lhes ocorre querer julgar sobre a arte musical. Por que as pessoas têm menos respeito pela poesia?
          [16] Se a essência do cinismo consiste em preferir a natureza à arte, a virtude à beleza e à ciência; em observar apenas o espírito, descuidando da letra a que rigorosamente se atém o estóico; em desprezar incondicionalmente todo valor econômico ou brilho político e em afirmar corajosamente os direitos do arbítrio autônomo; então o cristianismo outra coisa não poderia ser senão cinismo universal.
          [31] Falso pudor é pretensão à inocência sem inocência. As mulheres terão de continuar sendo falsamente pudicas enquanto os homens forem sentimentais, tolos e maus o bastante para delas exigir eterna inocência e falta de cultivo. Pois inocência é a única coisa que pode enobrecer a incultura.
          [36] Ninguém julga uma pintura decorativa e um retábulo, uma opereta e uma música sacra, um sermão e um tratado filosófico pelo mesmo critério. Então por que, à poesia retórica que existe apenas no palco, se fazem exigências que só podem ser preenchidas por uma arte dramática superior?
          [40] Notas a um poema são como aulas de anatomia sobre um assado. [A. W.]

[Fragmentos Athenäum]

Friedrich Schlegel

          [7] Ihr verlangt immer neue Gedanken? Tut etwas Neues, so läßt sich etwas Neues darüber sagen. [A.W. Schlegel]
          [13] Wenn junge Personen beiderlei Geschlechts nach einer lustigen Musik zu tanzen wissen, so fällt es ihnen gar nicht ein, deshalb über die Tonkunst urteilen zu wollen. Warum haben die Leute weniger Respekt vor der Poesie?
          [16] Wenn das Wesen des Zynismus darin besteht, der Natur vor der Kunst, der Tugend vor der Schönheit und Wissenschaft den Vorzug zu geben; unbekümmert um den Buchstaben, auf den der Stoiker streng hält, nur auf den Geist zu sehen, allen ökonomischen Wert und politischen Glanz unbedingt zu verachten, und die Rechte der selbständigen Willkür tapfer zu behaupten: so dürfte der Christianismus wohl nichts anders sein, als universeller Zynismus.
          [31] Prüderie ist Prätension auf Unschuld, ohne Unschuld. Die Frauen müssen wohl prüde bleiben, so lange Männer sentimental, dumm und schlecht genug sind, ewige Unschuld und Mangel an Bildung von ihnen zu fodern. Denn Unschuld ist das einzige, was Bildungslosigkeit adeln kann.
          [36] Niemand beurteilt eine Dekorationsmalerei und ein Altarblatt, eine Operette und eine Kirchenmusik, eine Predigt und eine philosophische Abhandlung nach demselben Maßstabe. Warum macht man also an die rhetorische Poesie, welche nur auf der Bühne existiert, Foderungen, die nur durch höhere dramatische Kunst erfüllt werden können?
          [40] Noten zu einem Gedicht, sind wie anatomische Vorlesungen über einen Braten. [A.W. Schlegel]

[Athenäums-Fragmente]

* Nota do tradutor Márcio Suzuki: [A. W.] — August Wilhelm Schlegel [autor do fragmento, conforme registro na Athenaeum].
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Schlegel — O dialeto dos fragmentos, Tradução, Apresentação e Notas de Márcio Suzuki, com Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1997, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Novalis*: Um raio de luz refrata-se ainda em algo totalmente outro, que não cores. [frag. 190] & outros fragmentos

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

Pólen [fragmentos ou tarefas do pensamento]

          198. Todos os seres humanos são variações de um único indivíduo completo, i. é. De um casal. Um acordo de variações é uma família incluída aí toda sociedade intimamente vinculada. Se uma variação tão simples, como Natalie e a bela alma, já suscita um tão profundo bem-estar, quão infinito tem de ser o bem-estar daquele que percebe o todo em sua poderosa sinfonia?

          190.** Um raio de luz refrata-se ainda em algo totalmente outro, que não cores. Pelo menos o raio de luz é suscetível de uma animização, onde então se refrata a alma em cores anímicas. A quem não ocorre o olhar da amada?

          191.*** Todo contacto espiritual compara-se ao toque de uma varinha mágica. Tudo pode tornar-se utensílio de magia. Para quem porém os efeitos de um tal contacto parecem tão prodigiosos este que se lembre apenas do primeiro toque da mão de sua amada de seu primeiro, significativo olhar, em que a varinha mágica é o raio de luz refratado do primeiro beijo, da primeira palavra de amor e pergunte-se o sortilégio e feitiço desse momento não é também fabuloso e prodigioso e eterno?

          201. A humanidade é o sentido superior de nosso planeta, o nervo, que conecta esse membro com o mundo de cima, o olho, que ele eleva ao encontro do céu.

Novalis

          198. Alle Menschen sind Variationen Eines vollständigen Individuums, d. h. einer Ehe. Ein Variationen Accord ist eine Familie wozu jede innig verbundene Gesellschaft zu rechnen ist. Wenn eine so einfache Variation, wie Natalie und die schöne Seele, schon ein so tiefes Wohlgefühl erregt, wie unendlich muß das Wohlgefühl dessen seyn der das Ganze in seiner mächtigen Symphonie vernimmt?
          199. Ein Lichtstrahl bricht sich noch in etwas ganz Anderes, als in Farben. Wenigstens ist der Lichtstrahl einer Beseelung fähig, wo sich dann die Seele in Seelenfarben bricht. Wem fällt nicht der Blick der Geliebten ein?
          200. Alle geistige Berührung gleicht der Berührung eines Zauberstabs. Alles kann zum Zauberwerckzeug werden. Wem aber die Wirckungen einer solchen Berührung so fabelhaft, wem die Wirckungen eines Zauberspruchs so wunderbarvorkommen der errinnre sich doch nur an die erste Berührung der Hand seiner Geliebten an ihren ersten, bedeutenden Blick, wo der Zauberstab der abgebrochne Lichtstrahl ist, an den ersten Kuß, an das erste Wort der Liebe und frage sich, ob der Bann und Zauber dieser Momente nicht auch fabelhaft und wundersam, unauflöslich und ewig ist?
          201. Die Menschheit ist der höhere Sinn unsers Planeten, der Nerv, der dieses Glied mit der Obern Welt verknüpft, das Auge, was er gen Himmel hebt.

[Fragmente oder Denkaufgaben]

Notas deste Verso e Conversa:
* Acerca da ‘escritura dos primeiros românticos’ que ‘já nasce na forma de fragmento ...’, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo os quatro primeiros parágrafos do Texto/Apresentação Novalis: O Romantismo estudioso, de Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor deste Pólen — Fragmentos ...:
          'O avesso é adverso. As esplêndidas construções sistemáticas que a tradição filosófica nos legou sob o título de “idealismo alemão” (Fichte, Schelling, Hegel) edificam-se sobre um solo de crise — a metafísica minada pela crítica da razão (Kant) — e erguem sua travação conceitual como que a esconjurá-la. Do que se pensou no reverso desses sistemas, no epicentro dessa crise, os escritos do primeiro romantismo (Novalis, Tieck, os irmãos Schlegel) dão alguma medida, e não é de admirar que, já na forma, se apresentam como fragmentários.
          O discurso dos pré-socráticos foi reduzido a fragmentos pela erosão do tempo e as conflagrações da História. A escritura dos primeiros românticos nasce já na forma de fragmento — produto, talvez, de uma erosão e conflagração no próprio pensamento?
          Certo é que essa ideia, que poderia ocorrer a qualquer um, faz parte na verdade da auto-imagem dos próprios românticos, e quem a formulou, devidamente em forma de “fragmento”, foi Friedrich Schlegel (1772 — 1829), já em 1798, na revista Athenaeum: “Muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. Muitas obras dos modernos o são logo em seu surgimento”. (Fragmento nº 24, que Novalis batizou de: “Fragmentos tornados e natos”.)
          Essa espécie da simetria macro-histórica, essa forma, ainda que demasiado sobranceira, de ligar o cabo ao rabo, não deixa de indicar que, em caso de pertinência, a filosofia dos românticos, faria parte marcante da História da Filosofia ocidental.'
** Em pesquisa ‘googleana’, este aprendiz de blogueiro encontrou correspondente ao fragmento 190 ora traduzido: Fragmente oder Denkaufgaben — 199;
*** Idem, correspondente ao fragmento 191 traduzido: Fragmente oder Denkaufgaben — 200.
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Pólen — Fragmentos, diálogos, monólogo: Novalis, Tradução, Apresentação e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 2001, 2ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Schlegel: Muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. . . . [frag. 24] & outros fragmentos


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[traduzido por Márcio Suzuki]

          [5] Aquilo que se chama de boa sociedade é no mais das vezes apenas um mosaico de caricaturas polidas.
          [12] De muito monarca se disse: teria sido um homem bem amável como pessoa privada, só não servia para rei. Não ocorre porventura o mesmo com a Bíblia? Não é também apenas um amável livro de uso privado, que só não deveria ser Bíblia?
          [15] O suicídio é habitualmente apenas uma ocasião, raramente uma ação. Se é uma ocasião, o autor sempre está errado, como a criança que quer se emancipar. Mas se é uma ação, não se trata absolutamente de direito, mas somente de conveniência. Pois apenas a ela está sujeito o arbítrio, que deve determinar tudo o que, como o aqui e o agora, não pode ser determinado nas puras leis, e pode determinar tudo o que não aniquila o arbítrio de outros e, com isso, a si mesmo. Nunca é injusto morrer voluntariamente, mas muitas vezes é indecoroso viver por mais tempo.
          [19] O meio mais seguro de ser ininteligível ou, antes, de ser mal entendido, é quando se usam as palavras, especialmente as das línguas antigas, em seu sentido original.
          [24] Muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. Muitas obras dos modernos já o são ao surgir.

[Fragmentos Athenäum]

Friedrich Schlegel

          [5] Was gute Gesellschaft genannt wird, ist meistens nur eine Mosaik von geschliffnen Karikaturen.
          [12] Man hat von manchem Monarchen gesagt: er würde ein sehr liebenswürdiger Privatmann gewesen sein, nur zum Könige habe er nicht getaugt. Verhält es sich etwa mit der Bibel ebenso? Ist sie auch bloß ein liebenswürdiges Privatbuch, das nur nicht Bibel sein sollte?
          [15] Der Selbstmord ist gewöhnlich nur eine Begebenheit, selten eine Handlung. Ist es das erste, so hat der Täter immer Unrecht, wie ein Kind, das sich emanzipieren will. Ist es aber eine Handlung, so kann vom Recht gar nicht die Frage sein, sondern nur von der Schicklichkeit. Denn dieser allein ist die Willkür unterworfen, welche alles bestimmen soll was in den reinen Gesetzen nicht bestimmt werden kann, wie das Jetzt, und das Hier, und alles bestimmen darf, was nicht die Willkür andrer, und dadurch sie selbst vernichtet. Es ist nie unrecht, freiwillig zu sterben, aber oft unanständig, länger zu leben.
          [19] Das sicherste Mittel unverständlich oder vielmehr mißverständlich zu sein, ist, wenn man die Worte in ihrem ursprünglichen Sinne braucht; besonders Worte aus den alten Sprachen.
          [24] Viele Werke der Alten sind Fragmente geworden. Viele Werke der Neuern sind es gleich bei der Entstehung.

[Athenäums-Fragmente]
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Schlegel — O dialeto dos fragmentos, Tradução, Apresentação e Notas de Márcio Suzuki, com Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1997, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Rubens Rodrigues Torres Filho: Ciúme & Cá, entre nós

 
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Ciúme

Aquele no espelho a quem me assemelho
 um pouco mais novo, um pouco mais velho 
arrumado até os dentes, que a escova palmilha,
o tabaco amarela,
                         que me diz bom-dia
apesar do que me revela
e que sem cerimônia me olha familiar
sem ver como me espanta com seu ser e com seu ar
será, de repente, o rival indecente
que interessa a ela?

Poros (1989)

— o —

Cá, entre nos

Você me olhou. Só que isso,
você já sabe, me deixa gago
                            ernbaraçado.
Feito a meada de que perco o fio.
Quanto mais encontrar agora a frase certa
e alerta
para tocar-te, sem perder o humor. Como acertar
o gesto, o dito que entre nos estabeleça
aquela transparência de corações
que seria algo tão bom, tão oportuno
neste momento, para algum
dos dois?

Poros (1989)

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Schlegel: A filosofia é a verdadeira pátria da ironia, . . . [fragmento] L 42

 
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[traduzido por Victor-Pierre Stirnimann]

          L 42 A filosofia é a verdadeira pátria da ironia, que se poderia definir como beleza lógica: pois sempre que não se filosofa de maneira inteiramente sistemática, seja em linguagem escrita ou falada, devemos exigir a ironia e aceitá-la; mesmo os estóicos consideravam a urbanidade uma virtude. É verdade que existe também uma ironia retórica, que produz excelente efeito quando empregada com parcimônia, especialmente na polêmica; mas ela está para a sublime urbanidade da musa socrática assim como o fausto da mais brilhante retórica está para uma antiga tragédia em grande estilo. Somente a poesia consegue elevar-se desse plano até a altura da filosofia e não é fundada em bases irônicas, como a retórica. Existem poemas antigos e modernos que respiram inteiramente, em todas as suas partes, do divino sopro da ironia. Neles vive uma bufonaria realmente transcendental. No interior, a disposição que tudo abrange e se eleva infinitamente para além de todo o condicionamento, para além até mesmo de sua própria arte, virtude ou genialidade; no exterior, na execução, o estilo mímico de um bufão italiano competente.*

Friedrich Schlegel

          L 42 Die Philosophie ist die eigentliche Heimat der Ironie, welche man logische Schönheit definieren möchte: denn überall wo in mündlichen oder geschriebenen Gesprächen, und nur nicht ganz systematisch philosophiert wird, soll man Ironie leisten und fordern; und sogar die Stoiker hielten die Urbanität für eine Tugend. Freilich gibts auch eine rhetorische Ironie, welche sparsam gebraucht vortreffliche Wirkung tut, besonders im Polemischen; doch ist sie gegen die erhabne Urbanität der sokratischen Muse, was die Pracht der glänzendsten Kunstrede gegen eine alte Tragödie in hohem Styl. Die Poesie allein kann sich auch von dieser Seite bis zur Höhe der Philosophie erheben, und ist nicht auf ironische Stellen begründet, wie die Rhetorik. Es gibt alte und moderne Gedichte, die durchgängig im Ganzen und überall den göttlichen Hauch der Ironie atmen. Es lebt in ihnen eine wirklich transzendentale Buffonerie. Im Innern, die Stimmung, welche alles übersieht, und sich über alles Bedingte unendlich erhebt, auch über eigne Kunst, Tugend, oder Genialität: im Äußern, in der Ausführung die mimische Manier eines gewöhnlichen guten italiänischen Buffo.

(Kritische Fragmente, [Lyceums-Fragmente])

Friedrich Schlegel

* Nota do tradutor Victor-Pierre Stirnimann: Fragmento atribuído a [Friedrich] Schleiermacher [1768 —1834].
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Schlegel  — Conversa sobre a Poesia e outros fragmentos, Tradução, Prefácio e Notas de Victor-Pierre Stirnimann [seleção de fragmentos em edição bilíngue] e Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1994, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Schlegel: Todo autor honesto escreve para todos ou para ninguém. [frag.] L 85 & outros fragmentos


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[traduzido por Victor-Pierre Stirnimann]

          L 47 Quem quer algo de infinito não sabe o que quer. Mas não se pode inverter a afirmação.
          L 55 Um homem autenticamente livre e cultivado teria de poder se afinar à vontade com o filosófico ou o filológico, o crítico ou o poético, o histórico ou o retórico, o antigo ou o moderno, de maneira totalmente arbitrária, como se afina um instrumento, em qualquer tempo e em qualquer grau.
          L 61 A rigor, o conceito de um poema científico é tão contraditório quanto o de uma ciência poética.
          L 73 O que de hábito se perde em traduções boas, ou mesmo ótimas, é justamente o melhor.*
          L 75 Notas são epigramas filológicos; traduções são mímicas filológicas; muitos comentários, em que o texto é apenas o não–eu, um pretexto inicial, são idílios filológicos.
          L 85 Todo autor honesto escreve para todos ou para ninguém. Quem escreve para que este ou aquele o leia merece não ser lido.

Friedrich Schlegel

          L 47 Wer etwas Unendliches will, der weiß nicht was er will. Aber umkehren läßt sich dieser Satz nicht.
          L 55 Ein recht freier und gebildeter Mensch müßte sich selbst nach Belieben philosophisch oder philologisch, kritisch oder poetisch, historisch oder rhetorisch, antik oder modern stimmen können, ganz willkürlich, wie man ein Instrument stimmt, zu jeder Zeit, und in jedem Grade.
          L 61 Streng genommen ist der Begriff eines wissenschaftlichen Gedichts wohl so widersinnig, wie der einer dichterischen Wissenschaft.
          L 73 Was in gewöhnlichen guten oder vortrefflichen Übersetzungen verloren geht, ist grade das Beste.
          L 75 Noten sind philologische Epigramme; Übersetzungen philologische Mimen; manche Kommentare, wo der Text nur Anstoß oder Nicht-Ich ist, philologische Idyllen.
          L 85 Jeder rechtliche Autor schreibt für niemand, oder für alle. Wer schreibt, damit ihn diese und jene lesen mögen, verdient, daß er nicht gelesen werde.

* Nota do tradutor Victor-Pierre Stirnimann: Fragmento atribuído a [Friedrich] Schleiermacher [1768 —1834].
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Schlegel  — Conversa sobre a Poesia e outros fragmentos, Tradução, Prefácio e Notas de Victor-Pierre Stirnimann [seleção de fragmentos em edição bilíngue] e Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1994, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.