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[traduzido por Rubens
Rodrigues Torres Filho]
Pólen [fragmentos ou tarefas
do pensamento]
198. Todos os seres humanos
são variações de um único indivíduo completo, i. é. De um casal. Um acordo de
variações é uma família — incluída aí toda sociedade intimamente vinculada. Se
uma variação tão simples, como Natalie e a bela alma, já suscita um tão
profundo bem-estar, quão infinito tem de ser o bem-estar daquele que percebe o
todo em sua poderosa sinfonia?
190.** Um raio de luz
refrata-se ainda em algo totalmente outro, que não cores. Pelo menos o raio de
luz é suscetível de uma animização, onde então se refrata a alma em cores
anímicas. A quem não ocorre o olhar da amada?
191.*** Todo contacto
espiritual compara-se ao toque de uma varinha mágica. Tudo pode tornar-se
utensílio de magia. Para quem porém os efeitos de um tal contacto parecem tão
prodigiosos — este que se lembre apenas do primeiro toque da mão de sua amada —
de seu primeiro, significativo olhar, em que a varinha mágica é o raio de luz
refratado — do primeiro beijo, da primeira palavra de amor — e pergunte-se o
sortilégio e feitiço desse momento não é também fabuloso e prodigioso e eterno?
201. A humanidade é o sentido
superior de nosso planeta, o nervo, que conecta esse membro com o mundo de
cima, o olho, que ele eleva ao encontro do céu.
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| Novalis |
198. Alle Menschen sind Variationen Eines vollständigen
Individuums, d. h. einer Ehe. Ein Variationen Accord ist eine Familie — wozu
jede innig verbundene Gesellschaft zu rechnen ist. Wenn eine so einfache Variation,
wie Natalie und die schöne Seele, schon ein so tiefes Wohlgefühl erregt, wie
unendlich muß das Wohlgefühl dessen seyn der das Ganze in seiner mächtigen
Symphonie vernimmt?
199. Ein Lichtstrahl bricht sich noch in etwas ganz
Anderes, als in Farben. Wenigstens ist der Lichtstrahl einer Beseelung fähig,
wo sich dann die Seele in Seelenfarben bricht. Wem fällt nicht der Blick der
Geliebten ein?
200. Alle geistige Berührung gleicht der Berührung eines
Zauberstabs. Alles kann zum Zauberwerckzeug werden. Wem aber die Wirckungen
einer solchen Berührung so fabelhaft, wem die Wirckungen eines Zauberspruchs so
wunderbarvorkommen — der errinnre sich doch nur an die erste Berührung der Hand
seiner Geliebten — an ihren ersten, bedeutenden Blick, wo der Zauberstab der
abgebrochne Lichtstrahl ist, — an den ersten Kuß, an das erste Wort der Liebe —
und frage sich, ob der Bann und Zauber dieser Momente nicht auch fabelhaft und wundersam,
unauflöslich und ewig ist?
201. Die Menschheit ist der höhere Sinn unsers Planeten, der
Nerv, der dieses Glied mit der Obern Welt verknüpft, das Auge, was er gen Himmel
hebt.
[Fragmente oder Denkaufgaben]
Notas deste Verso e Conversa:
* Acerca da ‘escritura dos primeiros românticos’ que ‘já nasce na forma
de fragmento ...’, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página transcreve
abaixo os quatro primeiros parágrafos do Texto/Apresentação Novalis: O
Romantismo estudioso, de Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor deste Pólen — Fragmentos ...:
'O avesso é adverso. As esplêndidas construções sistemáticas que a
tradição filosófica nos legou sob o título de “idealismo alemão” (Fichte,
Schelling, Hegel) edificam-se sobre um solo de crise — a metafísica minada pela crítica da
razão (Kant) — e erguem
sua travação conceitual como que a esconjurá-la. Do que se pensou no reverso
desses sistemas, no epicentro dessa crise, os escritos do primeiro romantismo
(Novalis, Tieck, os irmãos Schlegel) dão alguma medida, e não é de admirar que,
já na forma, se apresentam como fragmentários.
O discurso dos pré-socráticos foi reduzido a fragmentos pela erosão do
tempo e as conflagrações da História. A escritura dos primeiros românticos
nasce já na forma de fragmento — produto, talvez, de uma erosão e conflagração no próprio pensamento?
Certo é que essa ideia, que poderia ocorrer a qualquer um, faz parte na
verdade da auto-imagem dos próprios românticos, e quem a formulou, devidamente
em forma de “fragmento”, foi Friedrich Schlegel (1772 — 1829), já em 1798, na revista
Athenaeum: “Muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. Muitas obras dos
modernos o são logo em seu surgimento”. (Fragmento nº 24, que Novalis batizou
de: “Fragmentos tornados e natos”.)
Essa espécie da simetria macro-histórica, essa forma, ainda que
demasiado sobranceira, de ligar o cabo ao rabo, não deixa de indicar que, em caso
de pertinência, a filosofia dos românticos, faria parte marcante da História da
Filosofia ocidental.'
** Em pesquisa ‘googleana’,
este aprendiz de blogueiro encontrou correspondente ao fragmento 190 ora
traduzido: Fragmente oder Denkaufgaben — 199;
*** Idem, correspondente
ao fragmento 191 traduzido: Fragmente oder Denkaufgaben — 200.
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Pólen — Fragmentos,
diálogos, monólogo: Novalis, Tradução, Apresentação e Notas de Rubens Rodrigues
Torres Filho, 2001, 2ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Novalis (1772 — 1801) ou Freiher
von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt,
Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos
em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe,
Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico
Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings
(Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos,
Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 1799—1800), Sammlung von Fragmenten
und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 1799—1800), Geistliche Lieder (Canções
espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido
a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.