quarta-feira, 31 de julho de 2024

Áurea Pires: Sonho?


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Não sei se sonho foi! Só sei que eu via
N’um vasto mar minh’alma transformada
E que alegre a Esperança reclinada
N’um dourado batel dele fugia!

Era verde a roupagem que envolvia
Suas formas de celestina fada.
Verde também a cabeleira ondeada,
Que esparsa ao vento sobre o mar caia!

E ele o barco ligeiro acompanhando,
Em profundos soluços prorrompeu,
Ao ver que a Virgem o ia abandonando.

E mais depressa o barco então correu...
E Ela ao triste nem um olhar lançando,
Saltou na praia e... desapareceu!

1891
[revista A Mensageira, de 15 de Outubro de 1899,
Ano II, nº 33, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Áurea Pires da Gama (1876 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos 14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro SP, ali foi cofundadora do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registando ali alguns de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Reiner Kunze: Como as coisas do barro


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Mas eu junto minhas metades
como um vaso quebrado de barro
(Jan Skácel, carta de fevereiro de 1970)

1
Queríamos ser como as coisas de barro

Existir para aqueles
que às cinco da manhã tomam seu café
na cozinha

Pertencer às mesas mais simples

Queríamos ser como as coisas de barro, feitos
da terra do canteiro

Ainda, que conosco ninguém possa matar

Queríamos ser como as coisas de barro

                                 No meio
                                              de tanto
                                                           aço
                                                                 rodando

2
Seremos como os cacos
das coisas de barro nunca mais
um todo, talvez
um brilho
no vento

Reiner Kunze

Wie die dinge aus ton

Aber ich klebe neube hälften zusammen
Wie ein zerschlagener topf aus ton *.
(Jan Skácel, brief vom februar 1970)

1
Wir wollten sein wie dinge aus ton

Dasein für jene,
die morgens um fünf ihren kaffee trinken
in der küche

Zu den einfachen tischen gehören

Wir wollten sein wie die dinge aus ton, gemacht
aus erde vom acker

Auch, daß niemand mit uns töten kann

Wir wollten sein wie die dinge aus ton

                                Inmitten
                                   soviel
                                                rollenden
                                                       stahls

2
Wir werden sein wie die scherben
der dinge aus ton: nie mehr
ein ganzes, vielleicht
ein aufleuchten
im wind

* Nota dos tradutores: Além de citar a carta de Jan Skácel, o poema se refere à derrocada da Primavera de Praga por meio da imagem final do “brilho no vento”, que evoca o poema “O vento de nome “Jaromír”, de Skácel, traduzido por Kunze em 1961. Esse poema versa sobre um país sacudido por um pé-de-vento alegre e potente, além de carrear novos sentidos ao nome “Jaromír” no contexto de 1968. Originalmente, trata-se de uma homenagem ao poeta naturalista tcheco Jaromír Tomeček. Contudo, em tcheco, a palavra “jaro” significa primavera e “mír”, paz. Ver a relação intertextual com o poema “Com E, em Vřesice”.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Reiner Kunze, nascido em 1933, alemão de Oelsnitz, Erzgebirge, estudou Filosofia e Jornalismo na Karl-Marx-Universität, em Leipzig, é escritor, tradutor literário, professor e poeta; publicou seus primeiros poemas na tradição do realismo socialista, dos quais mais tarde se distancia; desde adolescente militou no Partido Socialista, tendo sido um dos primeiros proletários a ingressar na universidade, em 1951, e, ao abdicar do seu entusiasmo inicial pela construção do socialismo, sofreu pressões políticas e abandonou o doutorado em 1959; viajou pelos Estados Unidos, América Latina e África, foi professor convidado das cátedras de Poesia das universidades de Munique e Würzburg; suas obras: Sensible Wege. Gedichte (Caminhos sensíveis, 1969), Zimmerlautstärke. Gedichte (Sem incomodar os vizinhos, 1972), Brief mit blauem Siegel. Gedichte (1973), Die Wunderbaren Jahre. Prosa (Os anos maravilhosos, prosa, 1976), Auf eigene Hoffnung. Gedichte (À própria esperança, 1981), Eines jeden einziges Leben. Gedichte (A vida singular de cada um, 1986), Selbstgespräche für andere (Monólogos para outros, 1989), Deckname Lyrik (Codinome Poesia, documentos, 1990), Am Sonnenhang. Tagebuch eines Jahres (prosa autobiográfica, 1993), Ein tag auf dieser erde (Um dia nesta terra, 1998), premiações: Großer Literaturpreis der Bayerischen Akademie der Schönen Künste (Grande Prêmio de Literatura da Academia de Belas Artes da Baviera, 1973), Georg-Büchner-Preis (1977), Georg-Trakl-Preis für Lyrik (Prêmio Georg Trakl de Poesia, 1977), Bayerischer Filmpreis für das Drehbuch zum Film Die wunderbaren Jahre (Prêmio de Cinema da Baviera, pelo roteiro do filme Os Anos Maravilhosos, 1979), Friedrich-Hölderlin-Preis der Stadt Bad Hamburg (Prêmio Friedrich Hölderlin da cidade de Bad Hamburg, 1999), Hans-Sahl-Preis (2001), Thüringer Literaturpreis (Prêmio de Literatura da Turíngia, 2009), etc.; em sua homenagem, Oelsnitz, cidade onde nasceu, criou/fundou o Reiner-Kunze-Preis ein Literaturpreis (Prêmio Reiner Kunze de Literatura), que foi concedido pela primeira vez em 2007.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Blaise Cendrars: O Pássaro Azul & Vida Perigosa

 
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[traduzidos por R. Magalhães Júnior]

O Pássaro Azul

Meu pássaro azul tem o papo todo azul
Sua cabeça é de um verde concentrado
Tem uma pinta negra no pescoço
Suas asas são azuis com tufos de pequenas plumas douradas
No fim da cauda há traços de vermelhão
As costas são zebradas de negro e verde
Tem o bico negro as patas encarnadas de bananas e dois pequenos
olhos de azeviche
Adora fazer sopinha, alimenta-se de bananas e solta um grito
semelhante a um pequeno apito de vapor
Seu nome é seticolor

— o —

Vida Perigosa

Hoje sou talvez o homem mais feliz do mundo
Possuo tudo aquilo que não desejo
E da única coisa a que aspiro cada rotação de hélice me aproxima
E decerto já a terei perdido ao chegar

Blaise Cendrars

L'Oiseau Bleu

Mon oiseau bleu a le ventre tout bleu
Sa tête est d'un vert mordoré
Il a une tache noire sous la gorge
Ses ailes sont bleues avec des touffes de petites plumes jaune doré
Au bout de la queue il y a des traces de vermillon
Son dos est zébré de noir et de vert
Il a le bec noir les pattes incarnat et deux petits yeux de jais
Il adore faire trempette se nourrit de bananes et pousse un cri qui
ressemble au sifflement d'un tout petit jet de vapeur
On le nomme le septicolore

— o —

Vie Dangereuse

Aujourd'hui je suis peut-être l'homme le plus heureux du monde
Je possède tout ce que je ne désire pas
Et la seule chose à laquelle je tienne dans la vie chaque tour de l'hélice
m'en rapproche
Et j'aurai peut-être tout perdu en arrivant
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Blaise Cendrars (1887 1961), pseudônimo literário de Frédéric Louis Sauser, franco-suíço nascido em La Chaux-de-Fonds, Suiça, iniciou faculdade de Medicina, em Berna, mas interrompeu seus estudos, foi romancista e poeta, considerado uma das principais figuras do movimento modernista francês; em 1912, em Paris, foi cofundador da editora e revista literária Les Hommes nouvelles, na qual passou a editar e publicar seus poemas e textos de outros autorias: conheceu Apollinaire, Delaunay, Chagall e Modigliani; em 1915, juntou-se à Legião Estrangeira, lutou na primeira grande guerra, foi gravemente ferido na mão direita, em rajada de metralhadora, e teve o braço amputado logo abaixo do cotovelo; o poeta aprendeu a escrever com a mão esquerda; viajou pelos Estados Unidos, pela América do Sul e, conhecedor de várias línguas, traduziu para o francês autores ingleses, alemães, portugueses e brasileiros; produziu relatos de viagem e foi colaborador em muitas revistas e jornais literários; em 1939, na segunda guerra, tornou-se correspondente do exército inglês; suas obras: Les Pâques à New York (poemas, 1912), Sèquences (poemas, 1913), Prose du Transsibérien et de la petite Jeanne de France (1913), La Guerre au Luxembourg (1916), I Killed (poemas, 1918), Dix-neuf poèmes élastiques (1919), Feuilles de route (poemas, 1924), L’Or. La merveilleuse histoire du général Johann August Suter (novela, 1925), Moravagine (romance surrealista, 1926), Petits Contes nègres pour les enfants des Blancs (1928), L’Homme foudroyé e Le Main coupée (ambas, autobiografias de experiências da guerra, 1945 e 1946), Bourlinguer e Le Lotissement du ciel (ambas, memórias, 1948 e 1949) etc.; quando esteve no Brasil, em 1924, o poeta conheceu os modernistas Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Sérgio Milliet, foi por eles influenciado e também os influenciou; Blaise Cendrars, que se naturalizara francês e recebera a cidadania ainda em 1916, recebeu sua única láurea por suas obras, o Grand Prix Littéraire de la Ville de Paris, em 1961, um pouco antes de morrer.

domingo, 28 de julho de 2024

Guilhermino César: Fecha o caixão, o hiato, a porta. . . .


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Fecha o caixão, o hiato, a porta. Volta
a fingir que vive.
Espraia-se nos largos celestes.
Come sete ovos de codorna e bebe vodca
ao lado de Villon, o bêbado mais triste,
mais triste que Françoise, modista
de uma senhora apelidada Flor Triste.
Assim como existe
o Cavaleiro da Triste Figura,
um feto existe, de espada à cinta,
que se exibe, e não chora, no côncavo
do chiste.

Animal do tarde,
não larga o poder nem para dormir;
o poder na mão é o seu
existir.
O poder é o seu mais ébrio
uísque.

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Sistema do Imperfeito & Outros Poemas — Guilhermino César, 1977, Editora Globo, Porto Alegre — RS; Guilhermino César da Silva (1908 1993), mineiro nascido em Pinheiros, atual Pinhotiba, distrito de Eugenópolis, aprendeu as primeiras letras com Zizinha Negreiros, professora particular, estudou no Grupo Escolar Astolfo Dutra e no Ginásio Municipal de Cataguases, iniciou o curso de Medicina, desistiu, formou-se em Direito, foi escritor, crítico literário, administrador público, jornalista, professor, historiador e poeta; escreveu seus primeiros versos aos oito anos de idade, fez parte da geração modernista mineira e participou ativamente, inclusive na fundação, da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases MG; o poeta foi um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde cataguasense, que deu origem à verdejante revista; na década de 1940 mudou-se para Porto Alegre RS e deu continuidade às atividades no magistério, à política e à cultura; suas obras: além de sua atuação na Verde, Guilhermino escreveu e publicou Meia-Pataca (em parceria com Francisco Inácio Peixoto, 1928), Sul (romance, 1939), História da Literatura do Rio Grande do Sul: 1737 — 1902 (1956), Ladrão de Cavalo (1964), Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa (poesia, ambos em 1965), O embuçado de Erval — mito e poesia de Pedro Canga (1968), Arte de matar (1969), Qorpo-Santo: relações naturais e outras comédias (1969), Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605 — 1801 (1969), Sistema do Imperfeito & Outros Poemas (1977), Banhados (1986), Cantos do canto chorado (poesia, 1990) e outros títulos; no jornalismo, dirigiu o jornalzinho Mercúrio, da Associação dos Empregados no Comércio de Cataguases, na década de 20, atuou, desde a fundação, na já mencionada Verde, foi um dos fundadores da revista Leite Criôlo (em Belo Horizonte, 1929), secretariou os jornais A Tribuna e O Diário, ambos também de BH, além de ter colaborado em outros periódicos; no magistério, foi professor-fundador e depois diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Minas Gerais, e ali lecionou Literatura Brasileira e História Moderna, professor, também de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra Portugal; assumiu funções públicas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

sábado, 27 de julho de 2024

Georg Trakl: A Melancolia


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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

És poderosa, boca escura,
No íntimo, imagem formada
De nuvens de outono,
Silêncio dourado da tarde;
Grande corrente de brilho verde
Na região de sombras,
De pinheiros quebrados;
Um lugarejo
Que desfalece abnegado em imagens marrons.

Eis que saltam os cavalos negros
Em prado brumoso.
Soldados!
Da colina onde o sol rola morrendo
Jorra o sangue que ri
Sob carvalhos
Atônitos! Oh, rancorosa melancolia
Do exército; um elmo cintilante
Caiu tilintando de fronte purpúrea.

Noite outonal vem tão fresca,
Brilha com estrelas
Sobre quebradas ossadas de homens
A silenciosa monja.

(1914)

Georg Trakl

Die Schwermut

Gewaltig bist du dunkler Mund
Im Innern, aus Herbstgewölk
Geformte Gestalt,
Goldner Abendstille;
Ein grünlich dämmernder Bergstrom
In zerbrochner Föhren
Schattenbezirk;
Ein Dorf,
Das fromm in braunen Bildern abstirbt.

Da springen die schwarzen Pferde
Auf nebliger Weide.
Ihr Soldaten!
Vom Hügel, wo sterbend die Sonne rollt
Stürzt das lachende Blut
Unter Eichen
Sprachlos! O grollende Schwermut
Des Heers; ein strahlender Helm
Sank [klirrend] von purpurner Stirne.

Herbstesnacht so kühle kommt,
Erglänzt mit Sternen
Über zerbrochenem Männergebein
Die stille Mönchin.

(1914)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, e Apresentação de Nelson Ascher, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Tristan Corbière: Pária

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Que eles paguem por seus países,
Homens livres! sob o trabuco
E povoem ninhos felizes!...
Eu, porém, sou o magro cuco.

Coração eunuco, amputado
De tudo o que molhe ou que vibre...
A Liberdade é um hino aguado
Para mim: sempre só. Sempre livre.

A minha Pátria... é todo o mundo;
E já que o planeta é rotundo,
Não temo ver seu fim qual é...
Pátria é onde o meu ser se planta:
Terra ou mar, está sob a planta
De meus pés quando estou de pé.

Quando me deito, a pátria amada
É a cama triste e maltratada
Onde eu espalmo em minha palma
A metade, como eu sem alma;
Cara metade: é uma dama...
A metade da minha cama.

Uma idéia oca constrói
Meu ideal; meta o imprevisto
Mas a nostalgia me rói...
Do país por mim nunca visto.

Que os carneiros sigam a rota
De Carcassonne a Finisterra...
Minha rota me segue. A idiota
Me seguirá por toda a terra.

Meu pendão sobre mim revoa,
Tendo só o céu por coroa:
É a brisa no meu cabelo...
Não importa a língua a dizê-lo,
Topo qualquer papo furado;
E também sei ficar calado.

Meu pensamento é um sopro frio:
É o ar. O ar que me cerca, mudo.
Minha palavra, o eco vazio
Que não diz nada e isso é tudo.

O meu passado não me intriga.
A única coisa que me liga
É a minha mão na outra, irmã.
Minha memória Nada. Traça.
O meu presente é o que se passa
No futuro Amanhã... amanhã.

Eu não conheço o meu vizinho;
Eu sou aquilo que eu me creio.
O eu humano é tão mesquinho...
Eu não me amo nem me odeio.

Vamos! a vida é uma garota
Que me convida para um beijo...
Meu desejo é: deixá-la rota,
Prostituí-la sem desejo.

Os Deuses?... Por acaso eu vim;
Talvez existam por acaso...
Eles, decerto, ao cabo e ao fim,
Me encontrarão, se for o caso.

Minha pátria, quando eu morrer,
Se abrirá bem para acolher
O pó que a mortalha encerra.
Uma mortalha pra meu pó?
Se a minha pátria é a própria terra
Meu osso vai se dar bem, só.

Tristan Corbière

Paria

Qu'ils se payent des républiques,
Hommes libres! carcan au cou
Qu'ils peuplent leurs nids domestiques!...
Moi je suis le maigre coucou.

Moi, coeur eunuque, dératé
De ce qui mouille et ce qui vibre...
Que me chante leur Liberté,
A moi: toujours seul. Toujours libre.

Ma Patrie... elle est par le monde;
Et, puisque la planète est ronde,
Je ne crains pas d'en voir le bout...
Ma patrie est où je la plante:
Terre ou mer, elle est sous la plante
De mes pieds quand je suis debout.

Quand je suis couché: ma patrie
C'est la couche seule et meurtrie
Où je vais forcer dans mes bras
Ma moitié, comme moi sans âme;
Et ma moitié: c'est une femme...
Une femme que je n'ai pas.

L'idéal à moi: c'est un songe
Creux; mon horizon l'imprévu
Et le mal du pays me ronge...
Du pays que je n'ai pas vu.

Que les moutons suivent leur route,
De Carcassonne à Tombouctou...
Moi, ma route me suit. Sans doute
Elle me suivra n'importe où.

Mon pavillon sur moi frissonne,
Il a le ciel pour couronne:
C'est la brise dans mes cheveux...
Et dans n'importe quelle langue
Je puis subir une harangue;
Je puis me taire si je veux.

Ma pensée est un souffle aride:
C'est l'air. L'air est à moi partout.
Et ma parole est l'écho vide
Qui ne dit rien et c'est tout.

Mon passé: c'est ce que j'oublie.
La seule chose qui me lie,
C'est ma main dans mon autre main.
Mon souvenir Rien C'est ma trace.
Mon présent, c'est tout ce qui passe
Mon avenir Demain... demain.

Je ne connais pas mon semblable;
Moi, je suis ce que je me fais.
Le Moi humain est haïssable...
Je ne m'aime ni ne me hais.

Allons! la vie est une fille
Qui m'a pris à son bon plaisir...
Le miens, c'est: la mettre en guenille,
La prostituer sans désir.

Des dieux?... Par hasard j'ai pu naître;
Peut-être en est-il par hasard...
Ceux-là, s'ils veulent me connaître,
Me trouveront bien quelque part.

Où que je meure, ma patrie
S'ouvrira bien, sans qu'on l'en prie,
Assez grande pour mon linceul...
Un linceul encor: pour que faire?...
Puisque ma patrie est en terre
Mon os ira bien là tout seul...
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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Luís Pistarini: Não sei quem seja, — aparição divina, . . . [soneto]


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Não sei quem seja, aparição divina,
santa ou mulher, arcanjo ou flor, contudo,
não me sai da cabeça esta menina
de olhos de treva e gorro de veludo.

Quanto tempo, de pé, postado à esquina,
por vê-la, estive, estupefato e mudo!
Sorriu... Fitei-a... Olhou-me... e, peregrina,
seguiu: segui-a o meu amor! E é tudo,

tudo o que sei dessa gentil criança
que eu vi, para que enchesse a alma de escolhos,
numa infundada e fútil esperança.

E há de estes versos ler, sem ver que eu morro,
fanatizado por aqueles olhos
e apaixonado por aquele gorro!...

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Luis Pistarini ou Luiz Pistarini (1877 1918), fluminense de Resende, em sua juventude residiu em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi jornalista e poeta; começou a escrever aos onze anos, muito embora tenha cursado apenas quatro anos da escola primária; colaborou com revistas literárias da época, trabalhou em jornais de Resende, Barra Mansa e do Rio de Janeiro, então capital federal; dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo, foi redator da revista O Malho, editor do jornal A Lira e trabalhou na Câmara Municipal de Resende; o poeta também assinou textos com o pseudônimo Lívio Peralta; suas obras: Bandolim (1899), De Luto (1898), Sombrinhas, Postais (1907) e Agonias e Ressurreição (publicação póstuma, com prefácio do poeta Luís Murat); foi autor do Hino de Resende, sua cidade natal; é patrono da cadeira nº 27 da Academia Fluminense de Letras, sediada em Niterói, à época capital do estado; é tido que levou uma vida “atormentado por enfermidades”.

Ribeiro Couto: A descoberta de Cataguases

 
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          Todo o Brasil está surpreso: existe Cataguases!
          A contingência das enormíssimas distâncias criou entre nós o hábito dandy, de uma pose um pouco Anatole France (um pouco 1910), de duvidarmos mutuamente da existência das nossas cidades. Podemos ir a Petrogrado e voltar em menos tempo do que um habitante de Porto Alegre terá de gastar para ir a Manaus. (Sem falar em que a viagem à Rússia é mais cômoda). Por isso o brasileiro da rua do Ouvidor1 (principalmente o brasileiro da rua do Ouvidor), diante do mal irremediável, criou esta defensiva para a sua indiferença: Manaus não existe, Cuiabá não existe, Goiás não existe, etc. João do Rio2 tem numa comédia um personagem que duvida da existência real de Goiás. Parece que é na “Eva”. E esse personagem, que habilmente preparara um madrigal atacante, exclama num rasgo para a moça bonita da peça: “ Ó meu Goiás és tu!” Entretanto, o exagero, na razão direta das nossas descuidosas indiferenças pátrias, chega ao ponto de, em pleno Distrito Federal3, haver quem duvide de Cascadura4. Apesar dos bondes com as tabuletas insofismáveis: “Cascadura”. Apesar da minha prezada amiga Gilka Machado5 já ter morado lá e garantir que Cascadura existe. É atrevimento duvidar da palavra de uma pessoa tão sedutora.
          Assim, Cataguases. Em vão Astolpho Dutra6 foi presidente da Câmara dos Deputados Federais. Em vão Astolpho Resende7 é uma das figuras mais formosas do direito brasileiro: a par da bondade pessoal, a luz claríssima da cultura e da inteligência rica. Nasceram em Cataguases? Mas onde é Cataguases?
          Subitamente, “Verde”: um bofetão na atonia literária nacional. Poesia. Escrevem prosa também, mas tudo aquilo (a capa, os anúncios de sapatarias, a provável dívida crescente para com o tipógrafo, umas fotografias muito cheias de borrões, uns rapazes a escrever para todo mundo que não conhece “tu pra cá, tu pra lá”), tudo aquilo é poesia. Como é bom ter vinte anos! digo-lhes eu que faço 30 no próximo 12 de março. Essa fé, esse impulso, essa virgindade criança de todos os apetites!
           “O Brasil tem que saber de nós. É urgente”.
          Ó “jeunes gens de Catacazes”! O grande poeta Blaise Cendrars8, evidentemente, não podia escrever certo: Cataguases.
          Não se trata de um cidadão francês? Aliás, como ficou saborosa aquela contração cacofônica da palavra!
          E todo mundo ficou acreditando. Todo mundo foi ao mapa, roçou o dedo pela superfície, procurando, apertando os olhos, até achar: Cataguases. E todo mundo sentiu ternura. Os jornais falam. O sr. Tristão de Athayde9 escreve. O sr. Blaise Cendrars provavelmente estará compondo um poema:

Catacazes
Je voudrais bien y aller.
Ce n’est pas très loin, peut-être
Ma petite ronde insouciante et
lègere de jeunes poètes
Que j’aime
Comme j’aimerais un ananás!

          A comoção nacional aumenta, chega ao desespero, descabela-se, quando se verificou esta coisa grande: “Verde” apareceu quando não existia nenhuma revista exclusivamente de literatura no Brasil!
          (Aqui, é inadiável intercalar um poema:

Política (*)

Trinta e cinco milhões
O maior país do mundo em recur-
sos naturais na opinião
de diversos viajantes
não subvencionados pelo
Governo
A estatística do sr. Bulhões Carvalho
Me enche de fundas melancolias cí-
vicas.
Deixa estar jacaré que a lagoa há
de secar)

          Ah! Cataguases! que sensibilidade, que doçura, que cheiro bom de mato úmido de manhã cedo!
          Como há vida nessas páginas da tua revista! Não sei qual é a opinião do teu presidente da Câmara Municipal, nem sei também se as outras pessoas sensatas da localidade acreditam em “Verde”! Talvez lhes suceda como com a neblina: não a vemos quando estamos dentro dela. Nós, porém, que vivemos pela vastidão anexa do país (residindo em outros ramais ferroviários) nós sabemos em segredo que a “Verde” integrou Cataguases na realidade nacional atingível.
          E jamais oh! jamais! um comediógrafo petulante poderá pôr agora na boca de um personagem esta declaração de amor:
           Ó meu Cataguases és tu!”

(*) Este poema, apesar do sarcasmo ácido, não é do meu amigo
Carlos Drummond de Andrade, nem de nenhum outro
membro do Partido Democrático da Poesia Nacional.

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 5,
Ano 1 — Janeiro de 1928, Cataguases — MG)


Notas do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página tomou a ousadia de fazer menção a algumas citações do autor Ribeiro Couto, tais como pessoas e locais: 
1. Rua do Ouvidor — considerada no início dos anos 1920 importante rua do centro do Rio, com seus cafés, livrarias e jornais, para onde afluíam leitores, escritores, poetas, intelectuais em busca de notícias;
2. João do Rio — pseudônimo de João Paulo Emilio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881 — 1921), carioca, jornalista, cronista, contista, romancista, tradutor e teatrólogo;
3. Distrito Federal — cidade do Rio de Janeiro, à época capital do país;
4. Cascadura — bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro;
5. Gilka Machado — Gilka da Costa Melo Machado (1893 — 1980), carioca, poeta, figura feminina do Simbolismo;
6. Astolpho Dutra — Astolfo Dutra Nicácio (1864 — 1920), mineiro de Cataguases, advogado e político;
7. Astolpho Resende — Astolpho Vieira de Rezende (1870 — 1946), mineiro de Cataguases, advogado, conselheiro geral da República, presidente da Caixa Econômica Federal e presidente do Instituto de Advogados Brasileiros;
8. Blaise Cendrars — pseudônimo de Frédéric Louis Sauser (1887 — 1961), franco-suiço, romancista, poeta, colaborador da modernista revista Verde e de outras revistas do Modernismo;
9. Tristão de Athayde — pseudônimo literário de Alceu Amoroso Lima (1893 — 1983), carioca, crítico literário, escritor, professor, intelectual e líder católico.
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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, foi jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista; estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro; trabalhou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, do Rio de Janeiro, e A Província, de Pernambuco; escreveu e publicou, em poesia, O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Le jour est long (1958), Longe (1961), e, em prosa, A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros títulos; como diplomata, atuou na França, Portugal, Holanda e Iugoslávia; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.