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[traduzido por Augusto de Campos]
Que eles paguem por seus países,
Homens livres! — sob o trabuco —
E povoem ninhos felizes!...
— Eu, porém, sou o magro cuco.
— Coração eunuco, amputado
De tudo o que molhe ou que vibre...
A Liberdade é um hino aguado
Para mim: sempre só. Sempre livre.
— A minha Pátria... é todo o mundo;
E já que o planeta é rotundo,
Não temo ver seu fim qual é...
Pátria é onde o meu ser se planta:
Terra ou mar, está sob a planta
De meus pés — quando estou de pé.
Quando me deito, a pátria amada
É a cama triste e maltratada
Onde eu espalmo em minha palma
A metade, como eu sem alma;
Cara metade: é uma dama...
A metade da minha cama.
— Uma idéia oca constrói
Meu ideal; meta — o imprevisto —
Mas a nostalgia me rói...
Do país por mim nunca visto.
Que os carneiros sigam a rota
De Carcassonne a Finisterra...
— Minha rota me segue. A idiota
Me seguirá por toda a terra.
Meu pendão sobre mim revoa,
Tendo só o céu por coroa:
É a brisa no meu cabelo...
Não importa a língua a dizê-lo,
Topo qualquer papo furado;
E também sei ficar calado.
Meu pensamento é um sopro frio:
É o ar. O ar que me cerca, mudo.
Minha palavra, o eco vazio
Que não diz nada — e isso é tudo.
O meu passado não me intriga.
A única coisa que me liga
É a minha mão na outra, irmã.
Minha memória — Nada. — Traça.
O meu presente é o que se passa
No futuro — Amanhã... amanhã.
Eu não conheço o meu vizinho;
Eu sou aquilo que eu me creio.
— O
eu humano é tão mesquinho...
Eu não me amo nem me odeio.
— Vamos! a vida é uma garota
Que me convida para um beijo...
Meu desejo é: deixá-la rota,
Prostituí-la sem desejo.
— Os Deuses?... — Por acaso eu vim;
Talvez existam — por acaso...
Eles, decerto, ao cabo e ao fim,
Me encontrarão, se for o caso.
— Minha pátria, quando eu morrer,
Se abrirá bem para acolher
O pó que a mortalha encerra.
Uma mortalha pra meu pó?
Se a minha pátria é a própria terra
Meu osso vai se dar bem, só.
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| Tristan Corbière |
Paria
Qu'ils se payent des républiques,
Hommes libres! — carcan au cou —
Qu'ils peuplent leurs nids domestiques!...
— Moi je suis le maigre coucou.
— Moi, — coeur eunuque, dératé
De ce qui mouille et ce qui vibre...
Que me chante leur Liberté,
A moi: toujours seul. Toujours libre.
— Ma Patrie... elle est par le monde;
Et, puisque la planète est ronde,
Je ne crains pas d'en voir le bout...
Ma patrie est où je la plante:
Terre ou mer, elle est sous la plante
De mes pieds — quand je suis debout.
— Quand je suis couché: ma patrie
C'est la couche seule et meurtrie
Où je vais forcer dans mes bras
Ma moitié, comme moi sans âme;
Et ma moitié: c'est une femme...
Une femme que je n'ai pas.
— L'idéal à moi: c'est un songe
Creux; mon horizon — l'imprévu —
Et le mal du pays me ronge...
Du pays que je n'ai pas vu.
Que les moutons suivent leur route,
De Carcassonne à Tombouctou...
— Moi, ma route me suit. Sans doute
Elle me suivra n'importe où.
Mon pavillon sur moi frissonne,
Il a le ciel pour couronne:
C'est la brise dans mes cheveux...
Et dans n'importe quelle langue
Je puis subir une harangue;
Je puis me taire si je veux.
Ma pensée est un souffle aride:
C'est l'air. L'air est à moi partout.
Et ma parole est l'écho vide
Qui ne dit rien — et c'est tout.
Mon passé: c'est ce que j'oublie.
La seule chose qui me lie,
C'est ma main dans mon autre main.
Mon souvenir — Rien — C'est ma
trace.
Mon présent, c'est tout ce qui passe
Mon avenir — Demain... demain.
Je ne connais pas mon semblable;
Moi, je suis ce que je me fais.
— Le Moi humain est
haïssable...
— Je ne m'aime ni ne me hais.
— Allons! la vie est une fille
Qui m'a pris à son bon plaisir...
Le miens, c'est: la mettre en guenille,
La prostituer sans désir.
— Des dieux?... — Par hasard j'ai pu naître;
Peut-être en est-il — par hasard...
Ceux-là, s'ils veulent me connaître,
Me trouveront bien quelque part.
— Où que je meure, ma patrie
S'ouvrira bien, sans qu'on l'en prie,
Assez grande pour mon linceul...
Un linceul encor: pour que faire?...
Puisque ma patrie est en terre
Mon os ira bien là tout seul...
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Verso Reverso Controverso: Augusto de
Campos — estudos
críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas,
Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998,
Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845
— 1875), francês de Morlaix — Finistère-Bretagne, estudou em regime de
internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de
Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus
primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno
interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de
história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os
Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus
poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento
público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em
Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer
Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do
Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde
frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do
editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta
vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras
edições e reimpressões.