Reproduzo, neste Verso e Conversa, a íntegra da entrevista coletiva concedida por Antonio Candido de Mello e Souza a jornalistas presentes na FLIP 2011 (Festa Literária Internacional de Paraty - RJ). Antonio Candido, um dos convidados para a abertura do evento, teve sua entrevista publicada originariamente no "Estadão on-line":
____________________
Antonio Candido fala em Paraty – Parte 1
por Raquel Cozer
06.julho.2011 13:10:03
Antonio Candido, o mais importante crítico literário do País, acaba de dar uma raríssima entrevista coletiva na Pousada do Pardieiro, onde está hospedado em Paraty. Fizeram perguntas, entre outros, os repórteres Miguel Conde, do Globo (ele fez a maior parte das questões sobre crítica literária); Fábio Victor, da Folha; e Bira, do Estadão. Eu fiz lá só umas três perguntinhas, porque eu tava tuitando algumas coisas que ele falava, e não sou tão polivalente. =P
Ele reclamou que jornalistas sempre mudam o que ele fala, então, em respeito a ele, resolvi colocar aqui a íntegra da entrevista.
Este é um post in progress. Vou salvando conforme for tirando a gravação, ok? (a segunda metade da entrevista vai num próximo post)
Sobre o suspense em relação à participação na Flip
É fácil explicar. Eu sou muito idoso. Daqui a uns dias faço 93 anos. E considero a minha vida intelectual já completamente encerrada. Sou um sobrevivente. Não dou entrevistas, não dou cursos, não publico mais nada. Mas acontece o seguinte. Eu fui muito amigo do Oswald de Andrade. Eu e Oswald de Andrade começamos, tínhamos boas relações, depois escrevi uns artigos sobre ele que ele não gostou. Ele desceu a lenha em mim, e ele era terrível, me chamou de mineiro malandro. Mas depois eu achei que tinha sido um pouco injusto nos artigos, então fiz um ensaio sobre Oswald de Andrade, e ele gostou. Aí ficamos amigos e amigos mesmo. Fomos muito amigos. Inclusive eu fui padrinho de um filho dele, que infelizmente morreu com 20 anos num desastre de automóvel.
Eu vim aqui pelo seguinte. Porque a filha dele, a Marília, amiga de infância da minha filha, pediu e eu achei que eu sou provavelmente o último amigo vivo do Oswald de Andrade. Não sou da geração dele, sou 30 anos mais moço que ele, quase. Acho que sou da geração seguinte. Então eu achei que eu talvez tivesse obrigação de contar como é que eu e a minha geração víamos aquela personalidade vulcânica do Oswald de Andrade. Combinei com o José Miguel Wisnik, meu aluno, fez mestrado comigo, doutorado, meu grande amigo. Zé Miguel falará sobre como a geração dele viu Oswald. Só faltou uma pessoa da geração de Oswald de Andrade, mas aí… Não é possível mais. Eu vim para dar o meu testemunho.
Eu vim para dar meu testemunho por causa disso, porque só quem conheceu Oswald de Andrade pessoalmente pode testemunhar sobre a personalidade raríssima que ele tinha.
Sobre se eventos literários como a Flip podem prejudicar a discussão literária propriamente dita
É possível. Claro. A minha visão é uma visão de amigo que quer mostrar como… Eu não vou falar nem sobre a obra dele, nem sobre a biografia dele. Vou falar sobre a personalidade literária dele. E a relação que essa personalidade literária tem eventualmente com a obra. Esse é o meu tema. Depois o Zé Miguel Wisnik falará sobre como a geração dele viu Oswald.
Eu vim por causa disso. Enfrentei essa complicada serra de Paraty, que não é brincadeira.
O que distinguia o Oswald que a geração dele conheceu do Oswald que as novas gerações conhecem
A única coisa que tem de realmente própria é o contato pessoal. Conviver com aquela pessoa, ver aquela pessoa fazer piada, almoçar, jantar, ficar bravo, xingar os outros, fazer as pazes, estar com dinheiro, estar sem dinheiro, isso foi o que eu vi. O cotidiano. Nada de extraordinário. Mas Oswald de Andrade, dada a personalidade dele, tornou-se um mito. Inventava-se coisas. Inventava-se que ele tinha um filho chamado Lança Perfume Rodo Metálico (foi isso o que eu entendi da gravação). Aí diziam: Não, não é esse. É Rolando pela Escada Abaixo. Contava-se que ele tinha roubado uma normalista à luz do dia na escola normal. A personalidade dele chamava essa… Ele era mitológico. É que ele fazia o que lhe passava pela cabeça.
Sobre se acompanha a produção literária contemporânea
Nada. Inclusive doei grande parte da minha biblioteca, doei 12 ou 14 mil volumes. Eu to completamente fora do mundo literário, nem sei quais são os autores atuais. Eu saio perdendo, obviamente. Há cerca de 20 anos eu não leio coisa nova nenhuma do Brasil e do estrangeiro.
Sobre o que lê hoje
Leio coisa do passado sobretudo. Eu leio autores que me interessam mais, como Dostoievski, por exemplo. Tolstói, Proust, Machado de Assis, Eça de Queiroz. Não quero dizer que os atuais não sejam no mesmo nível. Só que eu não os conheço.
Sobre ter dito que a atual crítica literária brasileira é muito boa
Muito boa. Estou pensando, egoisticamente, na Universidade de São Paulo e no pessoal que eu conheço lá. Porque se eu vejo sempre os meus antigos alunos fazendo tese, me levam a tese, me mostram, dou uma olhada. Sempre foi um País de boa crítica literária. Você pega a América Latina, nenhum país que tenha (inaudível – avião passando, isso aconteceu algumas vezes durante a entrevista)… Sempre teve, e eu, pessoalmente, tive uma sorte extraordinária porque fui crítico literário militante num tempo de esplendor da literatura brasileira.
Às vezes, brinco com alunos meus que são bons críticos: tenho pena de vocês, porque vocês têm que escrever artigos sobre os autores atuais. Por melhores que sejam, não são Mário de Andrade, não são Guimarães Rosa, não são Carlos Drummond de Andrade… Eu fazia pro jornal um artigo por semana sobre as novidades. Quais eram as novidades? Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge Amado, José Lins do Rego… Essas eram as novidades que eu escrevia: acaba de publicar um livro o senhor Graciliano Ramos (risos). Eu tive a sorte de viver um tempo de esplendor da literatura brasileira. Foi mais ou menos até 1950 e poucos. Não quer dizer que seja má, mas não tem mais aquele esplendor.
Sobre ter vivido um momento de confluência entre imprensa e academia
Isso é outra questão interessante. Eu costumo sempre dizer: eu sou um professor universitário muito defeituoso. Porque fui professor de literatura e não sou formado em letras. Tenho uma ignorância total da linguística, de gramática, tudo isso. Eu sou formado em ciências sociais. Fiz a faculdade de filosofia e ciências sociais e fiz a faculdade de direito quase até o fim. Eu me fiz no jornal. Eu sou de um tempo em que a crítica literária era atividade jornalística. Não havia no Brasil… O Brasil só teve ensino superior de humanidades a partir de 1934. Antes não se ensinava no Brasil regularmente filosofia, sociologia, história, literatura, não se ensinava. Então eu me formei no jornal. Quando eu fui… Eu cursei sociologia. Tive doutorado em letras, eu passei para letras já quarentão. Eu levei para a universidade a crítica jornalística. Hoje é o contrário. A universidade tomou conta da crítica e os professores vem escrevendo em jornal. Eu não, eu fui pra faculdade.
Sobre a crítica militante
Antigamente havia a crítica militante. Havia o seguinte, uma coisa que talvez vocês até ignorem. Havia o crítico titular. Não todos os jornais, mas muitos jornais tinham o que se chamava crítico titular. Eu era o crítico titular da Folha da Manhã, atual Folha de S.Paulo. O que era o crítico titular. Tinha que todas as semanas fornecer um artigo de cinco a seis laudas datilografadas a 32 linhas e 70 toques sobre livros do momento. Ocupava a parte de baixo, chamado rodapé. E tinha um nome fixo. O meu era Notas de Crítica Literária. O do Álvaro Lins, que era um grande crítico do meu tempo, do Correio da Manhã, era Jornal de Crítica. O do Plínio Barreto do Estado de S.Paulo, Últimos Livros. O do Alceu Amoroso Lima, Livros e Ideias. Esse era o crítico titular. Esse representava o jornal. Isso acabou. Não existe mais. Então esse crítico tinha muita autoridade. Ele era o representante do jornal, e não era brincadeira, eu costumo dizer que a crítica literária daquele tempo era uma atividade de alto risco.
Eu recebi um livro um dia. Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem. Quem será? Deve ser pseudônimo, porque isso não é nome de gente, Lispector. Eu não sabia quem era. Então eu tinha que dizer se o livro era bom ou era ruim.
Sobre se a crítica literária hoje assume riscos
Nenhum. A crítica universitária (outro avião…). Os rapazes fazem tese sobre Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego. Agora, a pessoa pegar o livro e dizer este é bom e este é ruim, isso acabou. O crítico literário arriscava sua reputação toda semana. O crítico titular. Essa era a tradição que vinha da França. Era a tradição francesa, que passou para o Brasil. E nós tivemos sempre bons críticos no jornal. José Veríssimo no passado, Alceu Amoroso Lima. No meu tempo, Álvaro Lins. Agora, é muito curioso e eu gosto muito de citar dois grandes críticos do meu tempo, admiráveis: Álvaro Lins e Augusto Meyer. Álvaro Lins, crítico titular, toda semana, com vontade ou sem vontade, chovesse ou fizesse sol. Augusto Meyer, escrevia quando queria no jornal. Sobre quem escrevia? Pirandello, Dostoievski, Marcel Proust, Machado de Assis, Cervantes… Ele tava jogando no certo. Aí não tem problema de avaliação, ninguém vai avaliar Cervantes e Machado de Assis. O Álvaro Lins toda semana arriscava a reputação dele. Agora, os dois tipos de crítico havia naquele tempo com muita qualidade. Tive essa sorte extraordinária de ser um jovem crítico. Me deram o rodapé crítico de um grande jornal de São Paulo quando eu tinha 25 anos de idade. 24 anos. No meio desses grandes críticos. E era um momento de grande literatura. Eu pude fazer artigos falando do aparecimento de Terra do Sem Fim. De Fogo Morto. De Sentimento do Mundo, Carlos Drummond de Andrade. Escrevi o primeiro artigo no Sul sobre João Cabral de Melo Neto, que ninguém sabia quem era. O próprio João Cabral não ficou sabendo do meu artigo, ele me contou. Anos depois o Drummond falou pra ele… A gente arriscava. E isso acabou. Isso acabou. Hoje a crítica é muito importante, a universitária. Eu acho a crítica universitária brasileira, o que eu conheço, sempre a minha paróquia, excelente. E admiro muito essas novas gerações de críticos que são críticos muito eruditos.
Espaço público de discussão na imprensa
Isso caiu. Cada época com seu perfil.
(Voltando a falar sobre os riscos da crítica universitária) Nada. Ela se arrisca só se é bom ou mal o que ela escreveu. O juízo já está feito. Ninguém vai fazer uma tese universitária sobre o jovem escritor Pedro de Araújo de Paraty, eles vão fazer a tese deles…
Como pode ser a crítica excelente se não se arrisca
Não é tarefa dela se arriscar. Não que seja mal, não é tarefa dela. Inclusive na universidade houve sempre a seguinte tradição no Brasil e fora: não se escreve sobre autor vivo. O professor Lins Figueiredo, grande crítico português que foi professor em São Paulo, dizia: enquanto o autor está vivo, ele pode mudar. Então o professor universitário não tem meios para fazer um juízo sobre ele. Eu fui professor da universidade de Paris por dois anos e lá aprendi que o primeiro autor moderno sobre o qual se deu curso na Sorbonne foi Guillaume Apollinaire. Que tinha morrido em 1918. E uma senhora, porque as mulheres são sempre mais ousadas, uma senhora resolveu (depois checo o nome, não peguei) resolveu dar um curso de Apollinaire. “Mas como, esse homem morreu só faz 30 anos” (risos). A universidade estuda o seguro. Agora, hoje em dia mudou. Quando fui estudar literatura na Universidade de São Paulo pela primeira vez dei um curso sobre a teoria do romance, poesia, que usava Carlos Drummond de Andrade… Por que? Porque havia a Editora do Autor, que tinha publicado esses autores. Não havia inclusive os livros dos autores modernos. Na Universidade de São Paulo até eu chegar lá o último autor estudado era Aluisio Azevedo. O mais recente. Porque ainda não estava consolidada a visão. Como vou transmitir para os meus alunos a visão de um autor que não está consolidado. Isso acabou. A minha mulher deu o primeiro curso de modernismo na Universidade de São Paulo. Depois a coisa mudou. Os jovens hoje só querem fazer teses sobre autores atuais. Sobre a Lygia Fagundes Telles são 40 ou 50 teses. Mudou. Agora é difícil falar para os rapazes, não, estude Machado de Assis, não, isso é muito velho. Agora eu quero é autor atual. Mudou, é até um pouco exagerado. Mas é uma conquista. Quer dizer, a Universidade está aplicando os métodos de pesquisa erudita à atualidade. Cada época tem o seu perfil, ou melhor ou pior.
FIM DA PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA
***
Gente, vou almoçar, porque jornalista também é gente. Daqui a pouco coloco aqui a segunda parte, que tem mais ou menos o mesmo tempo do que postei até agora. Começa com ele falando (ou melhor, não falando) do PT.
____________________
por Raquel Cozer
06.julho.2011 15:46:33
A segunda parte do post in progress, agora que a repórter almoçou um pastel. =P
Estou salvando conforme vou tirando a gravação. Como falei, participaram da entrevista Miguel Conde, do Globo; Fábio Victor, da Folha; Ubiratan Brasil, do Estadão; e outras vozes que não conheço (alguém me fale, se tiver participado).
Sobre como vê o momento político do PT, tendo sido um dos fundadores
Não estou aqui para falar de política nem do PT. O senhor não me provoque, que sou Candido, mas não aceito provocações (risos).
Sobre livros digitais
Isso é um mundo fechado pra mim. Se os senhores prometerem não contar nada pra ninguém (risos), eu conto: eu escrevo em máquina de escrever. Não sei o que é computador. As pessoas perguntam, professor, qual o seu email? Eu não sei o que é isso. O sr. tem fax? Eu não sei o que é. Comigo não adianta coisa moderna, eu sou um homem do passado. Eu estou encalhado no passado.
Sobre cobertura jornalística de literatura
Conheço muito pouco. Eu pra falar a verdade sempre fui um mau leitor de jornal. Todas as manhãs dou uma olhada rápida na Folha de S.Paulo, só.
O que é boa crítica literária
Isso não tem definição. A boa crítica literária é a crítica que é boa (risos). Agora, quando eu leio artigos de jornal, sobretudo a crítica universitária, é muito boa a crítica brasileira. Eu admiro muito os jovens críticos brasileiros. Eu tive inclusive a sorte extraordinária de reunir em torno de mim os melhores críticos do Brasil. Eu tenho a impressão de que… Isso acontece. Eu tenho amigos que não têm, em volta deles não se juntou… Eu tive a sorte de ter como… Vocês vão ver hoje à noite um deles, o José Miguel Wisnik. São os meus filhos. Eu costumo dizer sempre com muita sinceridade que a coisa mais importante que fiz na vida foi ter em volta de mim o grupo de jovens que eu tive. Isso foi contribuição maior que eu dei para a cultura brasileira e para a universidade de São Paulo. Roberto Schwarz, José Miguel Wisnik, João Lafetá, Walnice Nogueira Galvão, Telê Ancona Lopes… Grandes estudiosos de primeira categoria, fizeram tese comigo de mestrado, doutorado. É uma questão de sorte.
Se hoje cabe um projeto literário ligado ao político, como o de Oswald de Andrade
Não sei. Eu fui ainda de uma geração muito engajada, como se dizia. Nós achávamos que era obrigação do intelectual participar da política. Eu participei. Não gosto de política e não tenho nenhuma vocação política. Mas na minha geração havia essa ideia, talvez não fosse correta, não sei, que o intelectual tinha obrigação (com ênfase) de participar politicamente. Eu participei, também. Começamos com pequenos grupos clandestinos no tempo da outra ditadura, do Estado Novo.
Se acha que a literatura participa menos de questões do gênero por ter perdido importância cultural
Não sei. Já não é mais o meu mundo. Eu insisto com os senhores, eu só posso dar respostas sobre o passado. Eu sou uma pessoa de temperamento conservador. Uso bigode, ainda. Os jovens usam barba.
Se existe um herdeiro literário de Oswald de Andrade
Isso eu não sei. Oswald era único, Oswald era único. Oswald era único. Era um tipo curiosíssimo, muito irregular, uma obra cheia de altos e baixos. Momentos de genialidade e momentos muito ruins. Ele era uma força da natureza. Agora, como personalidade, vou procurar fazer sentir hoje à noite, era uma coisa fantástica. Sempre inesperado. Saiu agora recentemente um livro muito interessante que estou lendo sobre as memórias de Rubens Borba de Moraes. Pegaram pedaços de manuscritos, montaram um livro muito interessante. E ele fala sobre o Oswald. Ele conta por exemplo do Oswald nos anos 20, Oswald era rico naquele tempo, era riquíssimo. Oswald chegando da Europa com paletó azul celeste, calça cor de rosa, gravatas e camisas de um camiseiro francês, o mais luxuoso do mundo, de cores berrantes. E andava em São Paulo tranquilamente pela rua, imagina o susto, naquele tempo as pessoas andavam de azul marinho ou de branco ou de cinza. Oswald tranquilamente com a calça cor de rosa, dele. Era um homem diferente.
Como Oswald reagia à mitologia que o cercava
Ele achava graça. Ele achava graça. Talvez ele até achasse pitoresco, mas o que se inventava do Oswald era incrível. Mas ele era uma pessoa da idade que requeria invenção, ele era fantástico. Era um homem ao mesmo tempo na conduta, no velho estilo. Ele tinha uma coisa que, os senhores são todos muito moços, não ouviram falar nisso. Chamava-se educação pré-Guerra. Antes da Guerra de 14. Era uma pessoa completamente diferente. Era educadíssimo. Cortesia, as formas. Para dar uma ideia desse homem, o que era educação, a minha avó, a família da minha mãe é do Rio, a minha vó dizia assim: o último homem bem educado do Rio de Janeiro é o doutor Coelho Lisboa, porque para para cumprimentar uma senhora. Na Rua do Ouvidor. Nesse tempo um senhor tirava o chapéu, parava e fazia assim. Isso era educação antes da Guerra de 14. O Oswald era desse tipo. Ele recebia na casa dele uma cortesia. Dava almoço. Às vezes, tava sem dinheiro. Acabava o dinheiro dele. Recebia dinheiro, dava um grande almoço, com vinhos franceses, chamava o cozinheiro. Era de uma cortesia, uma polidez. De antes da guerra. Pisava no calo dele, a fera soltava. Maneira de cumprimentar, de andar, de receber pessoa, de contribuir, uma coisa que acabou completamente. Hoje, minha filha foi quem chamou a atenção, papai, você já reparou que na rua as pessoas não desviam mais? Se eu não desvio, bate em mim. Isso é bem depois da guerra, já.
Idade (ele está prestes a fazer 93 anos)
O Fernando Henrique Cardoso fez 80 anos outro dia. Foi meu aluno, é muito meu amigo. Então disseram, um repórter, colega de vocês, perguntou: o senhor faz 80 anos? E ele: isso é intriga do PT.
Receita para estar bem nessa idade
Bons genes. Mas essa viagem me cansou muito. A viagem a Paraty me ensinou meu limite, eu não posso mais viajar de automóvel. Há muito tempo eu não viajava…
Então, o que posso ser útil aos senhores? (risos). Eu nunca gostei de dar entrevista. Inclusive porque a entrevista frequentemente sai muito deformada. Eu sempre gosto de dar entrevista escrita. Falada… Existe um mistério qualquer entre o jornalista e o entrevistado que… (risos). Não sei bem o que que é. Eu digo alguma coisa e sai outra escrita no jornal. Isso é toda hora. O Fernando Henrique Cardoso me disse uma vez, quando era jovem político, ele me disse: “Tudo o que eu digo sai deformado. Então eu escrevia pro jornal. Depois desisti. Deixa dizer à vontade. Não sai uma coisa certa.” Não é por mal, é a própria coisa de ouvir e falar. A coisa falada e ouvida, eu próprio falo muito as coisas que (inaudível, outro avião passando – aliás, irônico passar justo nessa fala…)
Por que resolveu dar entrevista hoje
Olha, eu tinha dito pra eles. Entrevista eu não dou (ainda o avião passando). Falei: vamos colaborar com a imprensa. Vocês estão trabalhando, esse é o seu trabalho. Agora, o que vocês vão dizer eu não sei. Já tive experiências muito negativas, eu dizia uma coisa e saía o contrário. Inclusive eu dei uma vez uma entrevista sobre o Ignazio Silone, escritor italiano antigo, fiz uma palestra. E Ignazio Silone era odiado pelo partido comunista italiano, porque ele tinha sido comunista e tinha largado. Eu dei a entrevista e o repórter de um jornal… saiu o contrário no jornal. Depois eu soube, o rapaz era do Partido Comunista e virou tudo o que eu falei. Em vez de eu falar bem do Silone ele me fez falar mal. Eu tive interferência desse tipo. Interferência ideológica (risos). Mas não é que seja por mal, eu próprio vejo que as coisas que eu ouvi, que eu reproduzo, eu já reproduzo diferente. Não é possível se guardar exatamente. Ainda mais os senhores correndo aí com caderninho na mão (risos). Eu sou muito compreensívo. Estou recebendo os senhores porque tenho o prazer da companhia dos senhores. Vocês estão aqui, vão ter de prestar satisfação aos seus redatores, seu jornal.
Obra filosófica do Oswald
Oswald era um homem curioso. Oswald era um homem que tinha traços de gênio. Ele não lia muito. Agora, o que ele pegava era extraordinário. Há pessoas assim. Ele pegava. Inclusive ele… Eu vi um livro difícil de filosofia que é O Ser e o Nada, do Sartre, dessa grossura. Eu vi o exemplar do Oswald, anotado. (Outro avião passando, inaudível) Ele era um precursor. Sobre o papel da mulher, por exemplo. Ele dizia brincando: “Dizem que sou um bicho papão, que tenho uma porção de mulher. Eu sou o brasileiro que mais respeita a mulher. Nunca houve na história do Brasil um brasileiro que respeitasse a mulher porque o brasileiro normal faz o seguinte, ele é casado e tem amante, uma, duas, três, quatro. Eu não. Eu sou casado, gosto de uma mulher, largo a minha mulher e caso com aquela” (risos). Portanto ninguém respeita mais a mulher do que Oswald, o que é um paradoxo perfeitamente defensável. Ele casou seis ou sete vezes. Fora os avulsos. A visão que ele teve do papel da mulher na sociedade eu acho extraordinária. A ligação que ele faz da (mais uma vez passa um avião). Mulher é fonte de vida… Mulher dá a vida. (…) O homem tem ideias de que a mulher é “minha mulher”, “meu filho”, “minha casa”, “meu automóvel”. A mulher é muito mais do nosso. Então, dizia ele, a sociedade futura só será uma sociedade igualitária quando a mulher tiver predominância. Nós estamos encaminhando pra isso. A coisa mais positiva do nosso tempo é a presença da mulher. A mulher (…) Isso Oswald viu perfeitamente. Ele era defensor (inaudível) a mulher é fonte da vida e não tem o senso da posse que o homem tem. É uma ideia muito bonita. O homem é da propriedade privada, a mulher não. (inaudível)
Isso eu vou contar hoje: uma vez ele quis fazer um concurso de filosofia. Eu falei: “Não faça isso, Oswald. Você não é filósofo.” Ele: “por que não, sou brasileiro, maior de 21 anos, vacinado, posso fazer”. E eu: “Não, não faça. Agora com esse negócio de existencialismo, fenomenologia, hoje em dia, tem uma terminologia muito complicada que você não domina. E depois certamente irá para a banca o doutor Fulano de Tal, uma fera, te pega lá com uma terminologia complicada e você não sabe responder.” E ele “então faça uma pergunta pra mim”, e eu: “Não sei, eu não sou filósofo.” E ele: inventa, inventa uma figura complicada. Falei: “Bom, vou fazer uma pergunta pernóstica pra você que ele pode fazer: Senhor candidato, diga-me vossa senhoria qual é a impostação hodierna da problemática ontológica? Ele responde assim: “Eu respondo, está vossa excelência muito atrasado, porque na nossa era de devoração universal, a problemática não é ontológica, é odontológica (risos).
Reconciliação com Oswald pós-críticas negativas
Eu escrevi um artigo… Hoje quando eu vejo… Ele disse que era leviano, eu fui leviano. Ele fez um romance. Ninguém ousava escrever contra Oswald de Andrade. Eu escrevi que o livro dele era ruim, o Marco Zero. Os anteriores muito bons, esse é ruim. Ele ficou fulo. Escreveu um artigo descendo o pau. Depois quando recolheu esse artigo num livro ele atenuou. Mas no jornal era muito pior. Aí fui ver e falei, olha, Oswald tem razão, fui injusto. Eu sempre achei o seguinte, a gente não deve ir nessa conspiração de silencio em volta do Oswald porque é um grande escritor. Eu não tenho medo dele. Aí escrevi um ensaio longo sobre o Oswaldo, um ensaio. Publiquei no primeiro livro, um livrinho pequeno. Nós estávamos assim, bom dia, bom dia, como vai. Seco. Eu frequentava a casa dele, mas depois desse artigo ele fechou-se. Eu encontro com ele numa livraria que abriu em São Paulo, chamada Livraria Jaraguá, uma livraria muito requintada com uma casinha de chá num fundo, em que iam artistas e intelectuais. Encontro Oswald com o filho dele. E ele diz, eu quero falar com você porque eu fiz mal de escrever aquele artigo contra você porque você não perdeu a serenidade. Você voltou, estudou a minha obra com cuidado, com muito senso de justiça, de maneira que vim lhe oferecer a minha amizade. De hoje em diante você pode escrever o que quiser contra mim que eu não digo nada. Dali em diante ficamos profundamente amigos. Amigos mesmo. Ele gostava muito de mim, e eu gostava muito dele. E como os senhores sabem a coisa mais importante da vida é ter certeza de que alguém gosta da gente. Uma vez escrevi um artigo meio injusto em que dizia que a literatura brasileira era muito fraca. Ele escreveu um artigo sem falar em mim dizendo que a literatura brasileira era formidável. Ele me respondeu sem brigar. E ele como amigo tinha uma coisa extraordinária, vou acentuar isso hoje: ele não tinha rancor.
Sobre ter aceitado participar da Flip só com José Miguel Wisnik
Foi o seguinte, eu disse ao Manuel e à Marília: eu vou se estiver em perfeita condição de saúde. Eu tenho 93 anos de idade. Se eu estiver… Eu estive resfriado até semana passada. Se eu estiver resfriado eu não vou. Então eles falaram: ótima ideia. Zé Miguel é meu aluno, meu amigo, fazemos assim é até bom. Para eu não precisar falar a hora inteira, fazemos assim, eu falo 40 minutos, Zé Miguel 20 minutos.
FIM DA SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA
____________________
Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.