
____________________
Quando Deus quer neste mundo
Renovar a esperança,
Faz brotar a flor no campo,
Símbolo de vida e bonança,
E entre os seres humanos
Nascer mais uma criança.
O século vinte desponta,
A vida se descortina,
Se escuta um som esperado:
O choro de uma menina...
Nasce Rachel de Queiroz
Nessa Terra Alencarina.
Veio ao mundo em Fortaleza,
Com ajuda de Miliquinha.
A bisavó e parteira
Trouxe ao mundo a bisnetinha,
Na antiga Rua da Amélia,
Ali nasceu Rachelzinha.
Para que o leitor não ache
Confuso o poema meu,
Esclareço que essa rua
Onde então Rachel nasceu,
Chamada Rua da Amélia,
Hoje é Senador Pompeu.
Com quarenta e cinco dias
De nascida, Rachel sai
Da casa da bisavó
E para Quixadá vai
Nos braços de sua mãe,
Sob os cuidados do pai.
Bela, saudável e esperta
Da maneira que nasceu,
A menina Rachelzinha
Também se desenvolveu,
Brincando com seus irmãos
Naquele mundinho seu.
No sertão quixadaense,
Rachel viveu com saúde
Boa parte da infância,
Gozou bem a juventude
Ali, no Sítio do Junco,
Tomando banho de açude.
Cultura lá na fazenda
Ela via no terreiro:
Dança de bumba-meu-boi,
Vaquejada e violeiro,
Sendo a arte de raiz
O seu contato primeiro.
Em companhia dos livros,
Viveu num lar de leitores.
Foi formando seu caráter
Com elevados valores,
Envolvida na magia
Do mundo dos escritores.
Sua mãe, Dona Clotilde,
Afeita à literatura,
Era uma mãe prestimosa
E amante da cultura,
Sempre estimulou nos filhos
O gosto pela leitura.
Rachel se instruiu precoce
Por seus dotes naturais.
Demorou a ira à escola,
Mas, curiosa demais,
Aprendeu a ler em casa
Sob as instruções dos pais.
Com apenas cinco anos
Com um esforço sem par,
Tentou ler Ubirajara
Um dos livros de Alencar.
Repetia os nomes próprios
Que conseguiu decifrar.
Em companhia dos livros
Nunca ela só se sentia,
Seus amigos de infância
Eram as obras que lia,
Viajava na leitura
Pro mundo da fantasia.
Do livro “Vinte mil léguas
Submarinas”, que leu,
Do escritor Júlio Verne,
As aventuras viveu
No açude da fazenda
Num “faz de conta” só seu.
Flutuando ali, nas águas,
Em um tronco de madeira,
No submarino “Nautillus”
Viajou desta maneira.
Sentia-se em alto mar
Rachel, nessa brincadeira.
Sempre amou aquelas terras
Com suas rústicas paisagens.
As pessoas do lugar
Tornaram-se personagens
Dos livros que ela escreveu
Nas diversas abordagens.
Com seus dez anos de idade
Rachelzinha sai um dia
Passeando na fazenda,
Tendo o pai por companhia.
Este lhe mostrava as terras
Que a menina herdaria.
Disse-lhe o pai: “Rachelzinha,
Quando você se casar,
Não esqueça” é nessas terras
Que você deve morar”.
E até o lugar da casa
Chegou a determinar.
Rachel, com seus onze anos,
Foi pra escola afinal.
Ingressou, após uns testes,
Logo no Curso Normal
No Colégio Imaculada,
Sito lá na Capital.
No ano de vinte e cinco,
Deixa a instituição.
Com quinze anos de idade
Ela fez a conclusão
Do Curso Normal, na escola,
Sua única formação.
Ao receber o diploma,
A moça se recolhia
Na fazenda em Quixadá,
Seu recanto de alegria.
Entre afazeres domésticos,
Lia muito, todo dia.
No ano de vinte e sete,
Precisaram se mudar
Rachel tinha outros irmãos
Necessitando estudar.
Então, próximo a Fortaleza
A família foi morar.
Juntinho da Porangaba,
Em um sítio sem igual:
Açude, um belo pomar,
A casa era especial,
E se podia ir de trem
Pro centro da Capital.
Ali Rachel tinha o hábito
Nas tardes calmas, fagueiras,
De se balançar na rede
Armada junto às mangueiras,
Ao céu aberto, em deleite,
Nas leituras costumeiras.
Lendo um dia O CEARÁ,
Um certo artigo a conduz
A escrever uma crítica
Como Rita de Queluz.
Com seu estilo de texto,
A um emprego fez juz.
Era seu primeiro emprego,
Pra Rachel, grande conquista.
Do exercício nascia
A excelente cronista,
Despontava a escritora
Nos passos da jornalista.
Na saga dos nordestinos
Há um tema recorrente:
A seca, cruel fenômeno,
O qual marcou nossa gente.
E pra Rachel de Queiroz
Também não foi diferente.
Ela, que vivenciou
Na seca o triste dilema,
Leu de Rodolfo Teófilo
Seus livros sobre o problema.
Por fim, decide abordar
De outra forma esse tema.
Fez as pesquisas de campo
Para elementos colher.
Dedicou-se dia e noite,
Leu tudo o que pode ler.
Assim, seu primeiro livro
Rachel começa escrever.
Mas a moça adoeceu
E a mãe lhe fazia medo:
“Pode ser tuberculose,
Fique em casa, durma cedo!”
Porém Rachel produziu
Todo o romance em segredo.
Intitulou-o O QUINZE,
Com muita simplicidade.
Mas foi seu primeiro passo
Rumo à notoriedade
No ano em que completava
Seus vinte anos de idade.
Com os seus próprios recursos,
O QUINZE foi publicado.
Depois, por uma editora
Foi o livro relançado.
Com o Prêmio Graça Aranha
O mesmo foi contemplado.
No ano de trinta e nove
Vai para o Rio de Janeiro,
Como jornalista ativa
Escrevia o tempo inteiro
Pro Diário de Notícias
E pra revista O Cruzeiro.
Mais e mais se revelou
Como fecunda escritora,
Poetisa, teatróloga,
Foi ainda tradutora
E em diversos jornais
Foi cronista e redatora.
Escreveu pra criançada,
Com sua pena sensata:
“Andira”, “O menino mágico”,
E outro livro, onde trata
Da história de dois pintinhos,
“Cafute e Pena-de-Prata”.
Bem mais de duas mil crônicas
Nossa Rachel escreveu.
Com Cem Crônicas Escolhidas,
Seleta edição nos deu,
E a Donzela e a Moura Torta
Que todo o Brasil já leu.
Com vários livros Rachel
Conquistou premiação:
Com o romance As Três Marias
(Que foi pra televisão),
O Quinze, O Menino mágico
E, no teatro, Lampião.
No ano cinquenta e quatro
A sua mãe faleceu.
Ao repartirem as terras,
Rachel, de pronto, escolheu
Aquelas que na infância
Seu pai Daniel lhe deu.
Viaja pra Quixadá,
Sertão saudoso e querido,
E ergue a casa no canto
Que seu pai tinha escolhido.
Seu lar, retiro e xodó,
Que nunca foi esquecido.
Rachel, em setenta e sete,
Mudou uma tradição:
Eleita pra Academia
Envergou o seu fardão,
Foi a primeira mulher
Naquela agremiação.
Foi muito homenageada
Em vida, nossa Rachel.
Tornou-se nome de escola
Até mesmo em Israel...
Seus prêmios e homenagens
Não cabem neste cordel.
No ano dois mil e três,
No seu mês de aniversário,
Do Rio, lá no Leblon,
Partiu pra outro cenário.
Deixou a vida e se foi
Sem alarde ou comentário.
Sua morte repentina
Nosso país abalou
Quando, em rede nacional,
O jornal noticiou.
Na fazenda “Não Me Deixes”
Todo empregado chorou!
Rachel de Queiroz, porém,
Nos deixou grande legado.
Nos romances que escreveu
Com estilo consagrado
Fica pra sempre, entre nós,
Seu nome imortalizado!

____________________
Rachel de Queiroz, do Nordeste para o mundo — Rouxinol do Rinaré,
ilustrações de Jabson Rodrigues, 2015, Editora IMEPH, Fortaleza — CE; Rouxinol do Rinaré, ou Antonio
Carlos da Silva, nascido em 1966, cearense do distrito do Rinaré (antes pertencente a Quixadá), município de Banabuiú, poeta cordelista, passou uma parte de sua infância no
sertão do Ceará e, outra parte, em Pindaré-Mirim — MA; nos anos 90, mudando-se
para Pajuçara, distrito de Maracanaú — CE, foi fundador da SOCIARTE — Sociedade
dos Amigos de Rodolpho Theophilo e dos periódicos literários A Porta Cultural
dos Aletófilos e O Benemérito, com a colaboração de outros amigos e poetas; com
mais de oitenta títulos publicados, entre cordéis e livros, foi diversas vezes
premiado e teve seu trabalho citado em jornais e revistas do Brasil e da França
(revistas Latitudes, Quadrant e Infos Brèsil); seu livro de cordel O Alienista
foi adotado em projetos da Biblioteca Nacional e das escolas de Belo Horizonte — MG, além de ter feito parte do catálogo de literatura da feiras de Frankfurt,
Alemanha, e Bolonha, Itália; Rouxinol do Rinaré também atua como revisor e
ministrante de oficinas de cordel; bibliografia: em cordéis, O Papagaio Real ou
o Príncipe de Acelóis, Ali Babá e os quarenta ladrões, O ladrão de Bagdá, O
folclore brasileiro, A lenda do guaraná, Raquel de Queiroz — vida, obra e um
adeus, Patativa do Assaré deixa o nordeste de luto, Oscar Niemeyer, o gênio da
arquitetura, O testamento de Judas, Raul Seixas e Elvis Presley — o encontro de
dois mitos, Raul Seixas e Paulo Coelho — buscando o sonho e magia, Os grandes
feitos de Rodolfo Teófilo, A história do Filósofo Diógenes, o Cínico (em
parceria com Francisco Bento) e tantos outros títulos de autoria individual ou
em parceria com diversos poetas cordelistas; muitos folhetos de sua autoria
foram editados como publicações infanto-juvenis, infantis e outros estudos
literários: O Sapo com medo d’água, O Gato de Botas, O Alienista, em cordel, Cordel — Rouxinol do Rinaré (coletânea), Cordel: Criar, Rimar e Letrar (em
parceria com Arlene Holanda, para professores e interessados em técnica de
produção de cordel), As férias de Terezinha (infantil) etecetera; atualmente reside em Fortaleza — CE.
