Mostrando postagens com marcador Raimundo Correia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Raimundo Correia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Coppée: Maio

 
____________________
[traduzido por Raimundo Correia]

Há um mês foste-te embora;
E eu sofro de ti distante,
Embalde viceja agora
O lilás fresco e odorante.

A sós, fujo ao claro brilho
Deste céu que me exaspera,
Pois aumenta o horror do exílio
O esplendor da primavera.

Contra os vidros transparentes
Da alcova de onde não saio,
Batendo as asas trementes
Ouço os insetos de Maio.

Do sol ao rútilo beijo
Cerro os lábios desgostoso,
E só do lilás desejo
O úmido ramo cheiroso;

Pois em meio às suas dores,
Do lilás, minh’alma em ânsia,
Vê teus olhares nas flores,
Teu hálio na fragrância.

François Coppée

Mai

Depuis un mois, chère exilée,
Loin de mes yeux tu t’en allas,
Et j’ai vu fleurir les lilas
Avec ma peine inconsolée.

Seul, je fuis ce ciel clair et beau
Dont l’ardente effluve me trouble,
Car l’horreur de l’exil se double
De la splendeur du renouveau.

En vain j’entends contre les vitres,
Dans la chambre où je m’enfermai,
Les premiers insectes de Mai
Heurter leurs maladroits élytres;

En vain le soleil a souri;
Au printemps je ferme ma porte
Et veux seulement qu’on m’apporte
Un rameau de lilas fleuri;

Car l’amour dont mon âme est pleine
Retrouve, parmi ses douleurs,
Ton regard dans ces chères fleurs
Et dans leur parfum ton haleine.

(Les Mois — 1878)
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; François Édouard Joachim Coppée (1842 1908), francês e parisiense, estudou no Lycée Saint-Louis, interrompeu os estudos por razões econômicas, conseguiu serviço de funcionário público “em emprego subalterno no ministério da guerra”, trabalhou na biblioteca do Senado, foi arquivista da Comédie Française, “à noite sozinho prosseguiu seus estudos interrompidos”, tornou-se romancista, dramaturgo e poeta “popular e sentimental” do parnasianismo; em 1884, tendo sido eleito para a Academie Française, teve de se afastar de suas funções públicas e passou a dedicar-se inteiramente à arte literária e à dramaturgia; seus primeiros versos impressos datam de 1864, sua primeira peça (Le Passant) foi encenada com grande sucesso no Théâtre de l'Odéon, em 1869, e seu primeiro conto em prosa, Une idylle pendant le siège (Um idílio durante o cerco), surgiu em 1875; obras publicadas: Le Reliquaire (O Relicário, coletânea de poemas, 1866), Les Intimités (As Intimidades, poesia, 1867), Poèmes modernes: 1867-1869 (1869), Le Passant: comédie en un acte (en vers, 1869), Deux douleurs (drame en un acte, en vers, 1870), L’Abandonnée (drame en deux actes, en vers, 1871), Le Rendez-vous (comédie en un acte, en vers, 1872), Le Cahier rouge (O Caderno Vermelho, poesia, 1874), La Guerre de cent ans (drame en cinq actes, en vers), Madame de Maintenon (drame en cinq actes avec un prologue, en vers, 1881), Severo Torelli (drame en cinq actes, en vers, 1883), Les Jacobites (drame en cinq actes, en vers, 1885), Arrière-Saison (Temporada Final, poesia, 1887), Les Paroles sincères (Palavras Sinceras, poesia, 1891) e diversos outros títulos em verso, prosa e para teatro.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

François Coppée: Na tasca

____________________
[traduzido por Raimundo Correia]

Dentro, na esconsa mesa, onde fervia
fulvo enxame de moscas sussurrantes,
num raio escasso e trêmulo do dia,
espanejando as asas faiscantes,

vi-o: bêbado estava, e inebriantes
e capitosos vinhos mais bebia,
e em tédio, como os fartos ruminantes,
a larga boca, estúpido, movia...

E eu pensativo, eu pálido, eu descrente,
aproximei-me do ébrio, com tristeza,
sem ele quase o pressentir sequer;

e vi: seu dedo, aos poucos, lentamente,
no vinho esparso, que ensopava a mesa,
ia traçando um nome de mulher...


Le cabaret

Dans le bouge qu’emplit l’essaim insupportable
Des mouches bourdonnant dans un chaud rayon d’août,
L’ivrogne, un de ceux-là qu’un désespoir absout,
Noyait au fond du vin son rêve détestable.

Stupide, il remuait la bouche avec dégoût,
Ainsi qu’un bœuf repu ruminant dans l’étable.
Près de lui le flacon, renversé sur la table,
Se dégorgeait avec les hoquets d’un égout.

Oh! qu’il est lourd, le poids des têtes accoudées
Où se heurtent sans fin les confuses idées
Avec le bruit tournant du plomb dans le grelot!

Je m’approchai de lui, pressentant quelque drame,
Et vis que dans le vin craché par le goulot
Lentement il traçait du doigt un nom de femme.

[Le Reliquaire — 1866]
____________________
O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; François Édouard Joachim Coppée (1842 1908), francês e parisiense, estudou no Lycée Saint-Louis, empregou-se como funcionário público trabalhou na biblioteca do Senado e como arquivista da Comédie Française, foi romancista, dramaturgo e poeta do parnasianismo; em 1884, tendo sido eleito para a Academie Française, se afastou de suas funções públicas e passou a dedicar-se inteiramente à arte literária e à dramaturgia; seus primeiros versos impressos datam de 1864; obras publicadas: Le Reliquaire (poésie, 1866), Les Intimités (poésie, 1867), Poèmes modernes: 1867-1869 (1869), Le Passant (comédie en un acte, en vers, 1869), Deux douleurs (drame en un acte, en vers, 1870), L’Abandonnée (drame en deux actes, en vers, 1871), Le Rendez-vous (comédie en un acte, en vers, 1872), Le Cahier rouge (poésie, 1874), La Guerre de cent ans (drame en cinq actes, en vers), Madame de Maintenon (drame en cinq actes avec un prologue, en vers, 1881), Severo Torelli (drame en cinq actes, en vers, 1883), Les Jacobites (drame en cinq actes, en vers, 1885), Arrière-Saison (poésie, 1887), Les Paroles sincères (poésie, 1891), e outros títulos em verso, prosa e para teatro.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Leconte de Lisle: Paisagem polar

 
____________________
[traduzido por Raymundo Correia]

Do mar a imensa escuma o frio aglomerou-a,
E um mundo morto fez, sem luz, sem vegetais,
E onde do gelo duro as agulhas fatais
Rasgam do fusco céu a perpétua garoa;

Em avalanches rola a neve, e se amontoa...
Tudo estéril; e atroz confusão de infernais
Brados, imprecações, roncos, soluços e ais,
Que aos seus clarins de ferro o vento arranca, troa.

Nivoso, hirto, glacial, das brumas através,
O branco e antigo deus, pai das primevas raças,
Inteiriçado jaz, do promontório aos pés...

E a babar de volúpia, em meio à cerração,
Os ursos colossais e formidandas massas
Trôpegos, cá e lá bambaleando vão...

Leconte de Lisle

Paysage polaire

Un monde mort, immense écume de la mer,
Gouffre d’ombre stérile et de lueurs spectrales,
Jets de pics convulsifs étirés en spirales
Qui vont éperdument dans le brouillard amer.

Un ciel rugueux roulant par blocs, un âpre enfer
Où passent à plein vol les clameurs sépulcrales,
Les rires, les sanglots, les cris aigus, les râles
Qu’un vent sinistre arrache à son clairon de fer.

Sur les hauts caps branlants, rongés des flots voraces,
Se roidissent les Dieux brumeux des vieilles races,
Congelés dans leur rêve et leur lividité;

Et les grands ours, blanchis par les neiges antiques,
Çà et là, balançant leurs cous épileptiques,
Ivres et monstrueux, bavent de volupté.

[Poèmes barbares — 1862]
____________________
Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Leconte de Lisle: O sono de Leilá


____________________
[traduzido por Raymundo Corrêa]

Calmo estio; a água viva não murmura,
Nem ave alguma as asas bate, arisca;
Apenas, leve, o bengali belisca
Da rubra manga a polpa áurea e madura;

No parque real, à sombra verde-escura
Das latadas, a lânguida mourisca
Leilá repousa à sesta... O sol faísca
Num céu de chumbo ardente, que fulgura...

Oprime o rosto o braço contrafeito;
O âmbar do pé sem meia, docemente,
Colora as malhas do pantufo estreito;

Dorme e sonha e, sorrindo, o amante chama,
O lábio a abrir fruto aromado e quente,
Que o coração refresca e a boca inflama.

Leconte de Lisle

Le sommeil de Leïlah

Ni bruits d'aile, ni sons d'eau vive, ni murmures;
La cendre du soleil nage sur l'herbe en fleur,
Et de son bec furtif le bengali siffleur
Boit, comme un sang doré, le jus des mangues mûres.

Dans le verger royal où rougissent les mûres,
Sous le ciel clair qui brûle et n'a plus de couleur,
Leïlah, languissante et rose de chaleur,
Clôt ses yeux aux longs cils à l'ombre des ramures.

Son front ceint de rubis presse son bras charmant;
L'ambre de son pied nu colore doucement
Le treillis emperlé de l'étroite babouche.

Elle rit et sommeille et songe au bien-aimé,
Telle qu'un fruit de pourpre, ardent et parfumé,
Qui rafraîchit le coeur en altérant la bouche.
____________________
Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. E Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

domingo, 3 de abril de 2022

Théophile Gautier: Coerulei Oculi

 
____________________
[traduzido por Raimundo Correia]

Certa mulher misteriosa,
Que me alucina, costuma
Manter-se em pé, silenciosa,
Junto ao mar, que ferve e espuma...

No olhar onde o céu se pinta,
Que palheta singular,
Ao amargo azul, a tinta
Glauca mistura do mar?

Na langorosa pupila
Bóia uma tristeza vaga,
E a lágrima que vacila
E rola, o seu lume apaga.

A palpitar, branca e exul,
Lembram-me os cílios suaves
Tribo de aquáticas aves
Sobre o indefinido azul...

Qual dágua no transparente
Prisma, do olhar se devassa
No fundo, nitidamente,
Do rei de Tule a áurea taça;

E, entre a alga e o sargaço, a gema
Mais rara deslumbra e estão
De Cleópatra o diadema
E o anel do rei Salomão;

E irradiação frisada
Das pedrarias se acende;
E a coroa da balada
De Schiller fulge e resplende.

Mago prestígio me enleia
E ao fundo abismo de luz
Me arrasta, como a sereia
Que a Harald Harfagar seduz;

Me arrasta à ignota voragem,
Até que eu nela me arroje
Trás de impalpável imagem,
Que, aérea e flátua, me foge...

Nágua esconde a ninfa bela
A cauda argêntea; e o brancor
Da espádua lisa revela,
Corando, da espuma à flor...

Incha e, como um seio, arqueja
A vaga; em mórbido acento,
Na cava concha solfeja,
Soluça, ressona o vento...

“Vem reclinar-te em meu leito
De âmbar, e o saibo de fel
Das ondas verás, desfeito,
Manar-te da boca, em mel;

“O pélago estoura e zune
Por cima; e a paz aqui mora,
Sem que o rumor a importune
Das tempestades de fora...

“Vem, sem tédio, nem bocejos.
O esquecimento imortal
Bebamos juntos, dos beijos
Pelo copo de coral!”

Assim é que a voz me fala,
Desse olhar, que me extasia;
E ao fundo dágua, a escutá-la,
Desço... E o himeneu principia...

Théophile Gautier

Caerulei oculi

Une femme mystérieuse,
Dont la beauté trouble mes sens,
Se tient debout, silencieuse,
Au bord des flots retentissants.

Ses yeux, où le ciel se reflète,
Mêlent à leur azur amer,
Qu'étoile une humide paillette,
Les teintes glauques de la mer.

Dans les langueurs de leurs prunelles,
Une grâce triste sourit;
Les pleurs mouillent les étincelles
Et la lumière s'attendrit;

Et leurs cils comme des mouettes
Qui rasent le flot aplani,
Palpitent, ailes inquiètes,
Sur leur azur indéfini.

Comme dans l'eau bleue et profonde,
Où dort plus d'un trésor coulé,
On y découvre à travers l'onde
La coupe du roi de Thulé.

Sous leur transparence verdâtre,
Brille parmi le goémon,
L'autre perle de Cléopâtre
Prés de l'anneau de Salomon.

La couronne au gouffre lancée
Dans la ballade de Schiller,
Sans qu'un plongeur l'ait ramassée,
Y jette encor son reflet clair.

Un pouvoir magique m'entraîne
Vers l'abîme de ce regard,
Comme au sein des eaux la sirène
Attirait Harald Harfagar.

Mon âme, avec la violence
D'un irrésistible désir,
Au milieu du gouffre s'élance
Vers l'ombre impossible à saisir.

Montrant son sein, cachant sa queue,
La sirène amoureusement
Fait ondoyer sa blancheur bleue
Sous l'émail vert du flot dormant.

L'eau s'enfle comme une poitrine
Aux soupirs de la passion;
Le vent, dans sa conque marine,
Murmure une incantation.

"Oh! viens dans ma couche de nacre,
Mes bras d'onde t'enlaceront;
Les flots, perdant leur saveur âcre,
Sur ta bouche, en miel couleront.

"Laissant bruire sur nos têtes,
La mer qui ne peut s'apaiser,
Nous boirons l'oubli des tempêtes
Dans la coupe de mon baiser."

Ainsi parle la voix humide
De ce regard céruléen,
Et mon coeur, sous l'onde perfide,
Se noie et consomme l'hymen.
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio a desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Sully-Prudhomme: A Louca

 
____________________
[traduzido por Raimundo Correia]

Dia e noite ela errava a ver quem descobria
A flor que vira acaso, um dia, na Alemanha;
Pequena e débil flor, flor como as da montanha,
De um perfume esquisito e de uma cor sombria;

Das viagens que fez, trouxe a melancolia
E o incurável pungir dessa lembrança estranha;
Certo encanto mortal, sem dúvida, acompanha
A flor que na Alemanha, acaso, vira um dia.

Quem porventura, o odor lhe aspira ao cálice, sente
Um novo mundo n’alma, abrir-se de repente
Dizia ela a morrer, saudosa desse odor.

Por ela muita gente a planta em vão buscara;
Mas a Alemanha é grande e aquela flor é rara,
E a louca morre, enfim, sem ver de novo a flor.

Sully-Prudhomme

La folle

Errante, elle demande aux enfants d'alentour
Une fleur qu'elle a vue un jour en Allemagne,
Frêle, petite et sombre, une fleur de montagne.
Au parfum pénétrant comme un aveu d'amour.

Elle a fait ce voyage, et depuis son retour
L'incurable langueur du souvenir la gagne:
Sans doute un charme étrange et mortel accompagne
Cette fleur qu'elle a vue en Allemagne un jour.

Elle dit qu'en baisant la corolle on devine
Un autre monde, un ciel, à son odeur divine,
Qu'on y sent l'âme heureuse et chère de quelqu'un.

Plusieurs s'en vont chercher la fleur qu'elle demande,
Mais cette plante est rare et l'Allemagne est grande;
Cependant elle meurt du regret d'un parfum.

Les Épreuves (1866)
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês de Paris, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito e foi poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação da revista Parnasse contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor a receber o Nobel de Literatura (1901); obra poética: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Théophile Gautier: Anacreôntica

 
____________________
[traduzido por Raimundo Correia]

Poeta! Sofreia os ímpetos!
Não faças que o meu amor
Fuja e evole-se ave tímida
Ao róseo do pudor.

O amor é medroso e alígero;
Pomba, que treme e que arrulha...
Se cauteloso; ela espanta-se
E foge à mínima bulha...

Mudo, como Hermes de mármore
Da árvore ao pé; hás de ver,
Aos poucos, sem sustos, da árvore
A pomba descer, descer...

Sentirás nas fontes, flácido,
Um sopro de alma frescura,
E um palpitar de asas, trêmulo,
Num turbilhão de brancura...

E em teu ombro a ave selvática,
Já mansa, hás de ver pousar;
E o seu róseo bico, sôfrego,
Nos beijos teus se fartar...

Théophile Gautier

Odelette anacréontique

Por que je t’aime, ô mon poète,
Ne fais pas fuir par trop d'ardeur
Mon amour, colombe inquiète,
Au ciel rose de la pudeur.

L'oiseau qui marche dans l'allée
S'effraye et part au moindre bruit;
Ma passion est chose ailée
Et s'envole quand on la suit.

Muet comme l'Hermès de marbre,
Sous la charmille pose-toi;
Tu verras bientôt de son arbre
L'oiseau descendre sans effroi.

Tes tempes sentiront près d'elles,
Avec des souffles de fraîcheur,
Une palpitation d'ailes
Dans un tourbillon de blancheur,

Et la colombe apprivoisée
Sur ton épaule s'abattra,
Et son bec à pointe rosée
De ton baiser s'enivrera.
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Raimundo Correia: Ao Brasil

 
____________________
Tu, que (reza Castro Alves) foste feito
Para a grandeza, e cujo enorme fisco
Sempre está cheio, farto e satisfeito,
Como a barriga do Martim Francisco;

Tu, onde são iguais o branco e o preto,
Onde há Fábricas como a de Ipanema,
E altos inventos como o sulfureto
De carbono imortal do Capanema;

Tu, país entre os mais civilizados,
Que senadores tens e deputados,
E um sabichão monarca; tu que, aos sacos,

Mandas aos europeus cafés e milhos...
Sabe Brasil: dizem que nós, teus filhos,
Que desaforo! somos uns macacos!...

[O Binóculo — semanário ilustrado, Ano II — nº 24,
pág. 3 — 28 de janeiro de 1882, Rio de Janeiro]
(Poesia completa e prosa, 1961)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859 1911), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito USP), foi juiz, professor, diplomata, cronista, ensaísta e poeta; obras: Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Gotthold Ephraim Lessing: Água e Vinho

Resultado de imagem para o livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português) ediouro
____________________
[traduzido por Raimundo Correia]

A água tomba, destrói, derriba e arrasa
Uma cidade inteira, casa a casa,
       Torres, paredes, muros;
Entre horríveis destroços faz caminho
E nada há que os seus ímpetos suporte...
Que ela é bem menos forte do que o vinho,
Vós contudo o dizeis. Mas por que, então,
Vos espantais se o vinho que é mais forte
Deita um fraco mortal como eu no chão?

Gotthold Ephraim Lessing

Die Stärke des Weins

Wein ist stärker als das Wasser:
Dies gestehn auch seine Hasser.
Wasser reisst wohl Eichen um,
Und hat Häuser umgerissen:
Und ihr wundert euch darum,
Dass der Wein mich umgerissen?
____________________
O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Gotthold Ephraim Lessing (1729 1781), alemão de Kamenz, Saxônia, foi poeta, dramaturgo, filósofo, crítico de arte e bibliotecário; estudou Latim e Matemática, cursou a Universidade de Leipzig, inicialmente Medicina e Teologia, e depois Literatura e Filosofia; como crítico de arte, colaborou nos jornais Vossiche Zeitung e Berlinische Privilegierte Zeitung; bibliografia: Der Misogyn, Der Freigeist, Die Juden (teatro, comédias, 1751), Miß Sara Sampson (teatro, tragédia, 1755), Fabeln. Drei Bücher (fábula, 1759), Laoköon, oder Über die Grenzen der Malerei und Poesie (Laocoonte, sobre as fronteiras da pintura e da poesia, teoria estética, 1766), Sinngedchte (poesias, 1771), Fabeln und Erzählungen (fábula, 1771), Emilia Gallotti (teatro, tragédia, 1772), Nathan der Weise (Nathan, o sábio, teatro, poema dramático, 1779) e outros títulos em prosa, verso e dramaturgia.

sábado, 26 de setembro de 2020

Furnandes Albaralhão: Mal sicreto *

____________________
S’a cólera que põe danada a gente,
distrói a paz da bida disijada,
tudo o que nos vilisca intiriormente
suvisse á nossa cara, qu’istupada!...

Si si pudesse, a ialma padicente,
bêre por trás de muita guergalhada,
canta gente a se rire vestamente,
que era muito milhóre estar calada!

Canta gente só ri p’ra disfarçare
um turco á porta que lhe bem cuvrare
a quemisa, a ciloira1, a maia, u cinto...

Cantos há nesse mundo a tres por dois,
que tendo à janta só cumido arroz,
arrotam p’ru2, laitão e binho tinto!

Recanto das Palavras - Galeria: Furnandes Albaralhão e o Caldo Berde

* Nota deste Verso e Conversa: Para efeito de comparação, este atrevido aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: Mal secreto: Se a cólera que espuma, a dor que mora / n'alma, e destrói cada ilusão que nasce / tudo o que punge, tudo o que devora / o coração, no rosto se estampasse; // se se pudesse, o espírito que chora, / ver através da máscara da face, / quanta gente, talvez, que inveja agora / nos causa, então piedade nos causasse! // Quanta gente que ri, talvez, consigo / guarda um atroz, recôndito inimigo / como invisível chaga cancerosa! // Quanta gente que ri, talvez existe, / cuja ventura única consiste / em parecer aos outros venturosa! (Raimundo Correia)

Notas do organizador Idel Becker:
ciloira: ceroula;
2 p’ru: peru.
____________________
Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 1964), fluminense e carioca, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).