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[traduzido por Severino
Montenegro]
Sobre a rocha calcária — ante
a última colina
Onde outrora estancou o fluxo
de um vulcão,
A semente que o vento alçou em
turbilhão,
Lançada ao Gualatieri,
agarra-se, germina.
Frágil cresceu. Na sombra onde
a raiz confina
E, em um século, o sol sazonou
o botão,
Seu tronco hauriu a seiva
inflamada do chão,
De porte colossal, que a débil
haste inclina.
Enfim, no ar abrasado e que
ainda mais esquenta,
Sob o pistilo enorme ele
expande, rebenta,
E o estame joga, ao longe, o
pólen multicor;
E o grandioso aloés de flor
rubra e tardia,
Para o ignoto himeneu que
sonhou seu amor,
Tem cem anos de vida e só
floriu um dia.
Fleur
séculaire
Sur le roc calciné de la
dernière rampe
Où le flux volcanique
autrefois s’est tari,
La graine que le vent au haut
Gualatieri
Sema, germe, s’accroche et,
frêle plante, rampe.
Elle grandit. En l’ombre où sa
racine trempe,
Son tronc, buvant la flamme
obscure, s’est nourri;
Et les soleils d’un siècle ont
longuement mûri
Le bouton colossal qui fait
ployer sa hampe.
Enfin, dans l’air brillant et
qu’il embrase encor,
Sous le pistil géant qui
s’érige, il éclate,
Et l’étamine lance au loin le
pollen d’or;
Et le grand aloès à la fleur
écarlate,
Pour l’hymen ignoré qu’a rêvé
son amour,
Ayant vécu cent ans, n’a
fleuri qu’un seul jour.
[Les Trophées — 1893]
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Antologia de Poetas
Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e
tradutores], Volume VIII da coleção Antologia da Literatura Mundial, [1960], Livraria
e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; José María de Heredia Girard (1842 — 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola),
na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado
para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent,
em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde
permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da
literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós,
e depois retornou para Paris — França; fez parte do grupo que tinha em Leconte
de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully
Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do
Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou
Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia
Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma
edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos
poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa
qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua
obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes,
o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira
História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del
Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes,
1877-1878).