
____________________
I
Já quis tentar formas novas
Foi mais ou menos em vão:
Hoje nestas velhas trovas
Falará meu coração.
II
Tudo que sinto e padeço
Posso descrever assim:
O prazer não tem começo
E a tristeza não tem fim
III
Trago há muito no sentido,
De que vem maior cuidado?
Será dum bem já perdido
Ou dum bem nunca alcançado?
IV
Dá-me essa voz tão amena
Para cantar este enlevo,
Ave que me deste a pena
Com que meus versos escrevo.
V
Tudo já me persuade
Que a ti me não hei de opor:
Longe mata de saudade
E perto matas de amor.
VI
Anda a violeta chorosa
E a rosa alegre e faceta,
Só porque eu te chamei rosa
E não te chamei violeta.
VII
As estrelas no alto abrigo,
Mais alegre fico a vê-las
Todas as vezes que digo
Que teus olhos são estrelas.
VIII
Das flores mais preciosas
O doce molho é composto:
Não trago jasmim nem rosas,
Porque já os tem no rosto.
IX
Quanto é forte o meu desejo
Nesta afeição insensata:
Morro, porque te não vejo
E sei que ver-te me mata.
X
A pensar-me as vezes ponho
E não posso compreender
Porque sempre acaba o sonho,
Quando começa o prazer.
XI
Guardo penas inimigas
Nestas cantigas amenas
E quando canto as cantigas,
O coração sente as penas.
XII
Há no coração sombrio
Um eco brando e sonoro
Que adormece quando rio
E desperta quando choro.
XIII
Disto enfim já não duvido,
No mundo o maior cuidado
Vem do bem que foi perdido
Antes de ser alcançado.
XIV
Ó coração, quando choras,
Bate com arquejos lentos,
Marca o tempo, não por horas,
Mas sim por meus sofrimentos.
Rimas de José Albano — Redondilhas,
1912, págs. 29 a 31.
____________________
Panorama da Poesia Brasileira,
Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; José d'Abreu Albano (1882 — 1923), cearense de
Fortaleza, iniciou seus estudos em seminário da cidade e, depois, em colégios
religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França; bem jovem ainda, de
volta à terra natal, começou a publicar seus poemas no jornal A República; estudou no Liceu do Ceará, onde também foi professor de Latim; poliglota,
escrevia em francês, inglês e alemão, contudo, como lembra Manoel Bandeira,
"tão versado em idiomas estrangeiros, prezava como ninguém a pureza do
vernáculo"; após ter trabalhado no Ministério das Relações Exteriores,
no Rio de Janeiro, e no consulado brasileiro, em Londres, abandonou a carreira
pública para viajar pelo mundo; Europa, Ceará e Rio de Janeiro marcaram as
várias etapas de sua vida; publicaram-se suas obras em Barcelona — Espanha: Rimas de José Albano — Redondilhas, Rimas de José Albano — Alegoria e
Rimas de José Albano — Cançam a Camoens (1912), e Ode à Língua Portuguesa, Four
Sonets by José Albano, with Portuguese prosetranslation e Antologia Poética de
José Albano (1918); Manuel Bandeira e Braga Montenegro foram os responsáveis
pela divulgação de seus escritos em terras brasileiras, ao publicarem Rimas, de
José Albano (1948).


