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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

José Albano: Cantigas


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I

Já quis tentar formas novas
Foi mais ou menos em vão:
Hoje nestas velhas trovas
Falará meu coração.

II

Tudo que sinto e padeço
Posso descrever assim:
O prazer não tem começo
E a tristeza não tem fim

III

Trago há muito no sentido,
De que vem maior cuidado?
Será dum bem já perdido
Ou dum bem nunca alcançado?

IV

Dá-me essa voz tão amena
Para cantar este enlevo,
Ave que me deste a pena
Com que meus versos escrevo.

V

Tudo já me persuade
Que a ti me não hei de opor:
Longe mata de saudade
E perto matas de amor.

VI

Anda a violeta chorosa
E a rosa alegre e faceta,
Só porque eu te chamei rosa
E não te chamei violeta.

VII

As estrelas no alto abrigo,
Mais alegre fico a vê-las
Todas as vezes que digo
Que teus olhos são estrelas.

VIII

Das flores mais preciosas
O doce molho é composto:
Não trago jasmim nem rosas,
Porque já os tem no rosto.

IX

Quanto é forte o meu desejo
Nesta afeição insensata:
Morro, porque te não vejo
E sei que ver-te me mata.

X

A pensar-me as vezes ponho
E não posso compreender
Porque sempre acaba o sonho,
Quando começa o prazer.

XI

Guardo penas inimigas
Nestas cantigas amenas
E quando canto as cantigas,
O coração sente as penas.

XII

Há no coração sombrio
Um eco brando e sonoro
Que adormece quando rio
E desperta quando choro.

XIII

Disto enfim já não duvido,
No mundo o maior cuidado
Vem do bem que foi perdido
Antes de ser alcançado.

XIV

Ó coração, quando choras,
Bate com arquejos lentos,
Marca o tempo, não por horas,
Mas sim por meus sofrimentos.

Rimas de José Albano  Redondilhas,
1912, págs. 29 a 31.

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; José d'Abreu Albano (1882 1923), cearense de Fortaleza, iniciou seus estudos em seminário da cidade e, depois, em colégios religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França; bem jovem ainda, de volta à terra natal, começou a publicar seus poemas no jornal A República; estudou no Liceu do Ceará, onde também foi professor de Latim; poliglota, escrevia em francês, inglês e alemão, contudo, como lembra Manoel Bandeira, "tão versado em idiomas estrangeiros, prezava como ninguém a pureza do vernáculo"; após ter trabalhado no Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, e no consulado brasileiro, em Londres, abandonou a carreira pública para viajar pelo mundo; Europa, Ceará e Rio de Janeiro marcaram as várias etapas de sua vida; publicaram-se suas obras em Barcelona Espanha: Rimas de José Albano — Redondilhas, Rimas de José Albano — Alegoria e Rimas de José Albano — Cançam a Camoens (1912), e Ode à Língua Portuguesa, Four Sonets by José Albano, with Portuguese prosetranslation e Antologia Poética de José Albano (1918); Manuel Bandeira e Braga Montenegro foram os responsáveis pela divulgação de seus escritos em terras brasileiras, ao publicarem Rimas, de José Albano (1948).

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

José Albano: Ditoso quem foi sempre desamado (soneto)

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II

Ditoso quem foi sempre desamado
Nem nunca na alma viu pintar-se o gozo,
Que lhe promete estado venturoso
Para depois deixá-lo em triste estado.

Já me de todo agora persuado
De que não pode haver brando repouso,
E do afeto mais doce e deleitoso
Se gera às vezes o maior cuidado.

Não quero boa sorte nem sonhá-la,
Pois logo passa, apenas se revela,
Com uma dor que outra nenhuma iguala.

Mas quem desconheceu benigna estrela,
Se não teve a alegria de alcançá-la,
Nunca teve o desgosto de perdê-la.

JOSÉ ALBANO
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Coleção Nossos Clássicos — José Albano, poesia, Volume 30, por Braga Montenegro, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; José d'Abreu Albano (1882 1923), cearense de Fortaleza, iniciou seus estudos em seminário da cidade e, depois, em colégios religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França; bem jovem ainda, de volta à terra natal, começou a publicar seus poemas no jornal A República; estudou no Liceu do Ceará, onde também foi professor de Latim; poliglota, escrevia em francês, inglês e alemão, contudo, como lembra Manoel Bandeira, "tão versado em idiomas estrangeiros, prezava como ninguém a pureza do vernáculo"; após ter trabalhado no Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, e no consulado brasileiro, em Londres, abandonou a carreira pública para viajar pelo mundo; Europa, Ceará e Rio de Janeiro marcaram as várias etapas de sua vida; publicaram-se suas obras em Barcelona Espanha: Rimas de José Albano — Redondilhas, Rimas de José Albano — Alegoria e Rimas de José Albano — Cançam a Camoens (1912), e Ode à Língua Portuguesa, Four Sonets by José Albano, with Portuguese prosetranslation e Antologia Poética de José Albano (1918); Manuel Bandeira e Braga Montenegro foram os responsáveis pela divulgação de seus escritos em terras brasileiras, ao publicarem Rimas, de José Albano (1948).

sexta-feira, 9 de maio de 2014

José Albano: Soneto (Se amar é procurar a cousa amada)

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X

Se amar é procurar a cousa amada
E unir duas vontades num desejo,
Se é ressentir um mal tão benfazejo
Que quanto mais tortura, mais agrada;

Se amar é sofrer tudo por um nada
E a um tempo achar que é pouco e que é sobejo,
Já claramente agora entendo e vejo
Que não há quem de amor me dissuada.

Ó doce inquietação e doce engano,
Doce padecimento e desatino
De que não me envergonho, antes me ufano!

Comigo quantas vezes imagino:
Se é tão doce na terra o amor humano,
Que não será no Céu o amor divino?!

(Rimas, 1948,
Poungetti, Rio de Janeiro  RJ)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da Fase Simbolista, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; José d'Abreu Albano (1882 1923), cearense de Fortaleza, iniciou seus estudos em seminário da cidade e, depois, em colégios religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França; bem jovem ainda, de volta à terra natal, começou a publicar seus poemas no jornal A República; estudou no Liceu do Ceará, onde também foi professor de Latim; poliglota, escrevia em francês, inglês e alemão, contudo, como lembra Manoel Bandeira, "tão versado em idiomas estrangeiros, prezava como ninguém a pureza do vernáculo"; após ter trabalhado no Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, e no consulado brasileiro, em Londres, abandonou a carreira pública para viajar pelo mundo; Europa, Ceará e Rio de Janeiro marcaram as várias etapas de sua vida; publicaram-se suas obras em Barcelona Espanha: Rimas de José Albano  Redondilhas, Rimas de José Albano Alegoria e Rimas de José Albano Cançam a Camoens (1912), e Ode à Língua Portuguesa, Four Sonets by José Albano, with Portuguese prosetranslation e Antologia Poética de José Albano (1918); Manuel Bandeira e Braga Montenegro foram os responsáveis pela divulgação de seus escritos em terras brasileiras, ao publicarem Rimas, de José Albano (1948).

sábado, 16 de junho de 2012

José Albano: Soneto (Poeta fui e do áspero destino...)

JOSÉ ALBANO
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Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.

Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana, mas tão pouco dura;
E inda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.

Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noite e dia,
E só com saudades me atormento;

Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento
senão de ter cantado o que sofria.
(cópia fornecida pela viúva do poeta.)
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Apresentação da Poesia Brasileira seguida de uma pequena antologia Manuel Bandeira  Prefácio de Otto Maria Carpeaux, Editora Casa do Estudante do Brasil, Rio de Janeiro  RJ, 1946; José d'Abreu Albano (1882  1923), cearense de Fortaleza, iniciou seus estudos em seminário da cidade e, depois, em colégios religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França; bem jovem ainda, de volta à terra natal, começou a publicar seus poemas no jornal A República; estudou no Liceu do Ceará, onde também foi professor de Latim; poliglota, escrevia em francês, inglês e alemão, contudo, como lembra Manoel Bandeira, "tão versado em idiomas estrangeiros, prezava como ninguém a pureza do vernáculo"; após ter trabalhado no Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, e no consulado brasileiro, em Londres, abandonou a carreira pública para viajar pelo mundo; Europa, Ceará e Rio de Janeiro marcaram as várias etapas de sua vida.