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Tentei fugir da mancha mais
escura
que existe no teu corpo, e
desisti.
Era pior que a morte o que
antevi:
era a dor de ficar sem
sepultura.
Bebi entre os teus flancos a
loucura
de não poder viver longe de
ti:
és a sombra da casa onde
nasci,
és a noite que à noite me
procura.
Só por dentro de ti há
corredores
e em quartos interiores o
cheiro a fruta
que veste de frescura a
escuridão...
Só por dentro de ti rebentam
flores.
Só por dentro de ti a noite
escuta
o que me sai, sem voz, do
coração.
(Lira
de Bolso — 1969)
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Poesia portuguesa
contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota
inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno &
Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; David de Jesus Mourão-Ferreira (1927 —
1996), português lisboeta, licenciado em Filologia Românica pela Universidade
de Lisboa, foi professor universitário, dramaturgo, jornalista, poeta,
romancista, crítico literário e ensaísta; o poeta foi um dos fundadores das
folhas de poesia — revista Távola Redonda, redator da revista Graal, diretor da
Colóquio/Letras e do periódico A Capital, e diretor-adjunto do jornal O Dia,
colaborou no Diário Popular e na revista Seara Nova; foi autor e ator
teatral, manteve programas radiofônicos
e televisivos, escreveu textos para fados de Amália Rodrigues; suas obras: em
poesia: Tempestade de Verão (1954), Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In
Memoriam Memoriae (1962), Infinito Pessoal (1962), Do Tempo ao Coração (1966),
A Arte de Amar (reunião das obras anteriores, 1967), Lira de Bolso (1969),
Cancioneiro de Natal (1971), Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), As
Lições do Fogo (1976), Os Ramos e os Remos (1985), Música de Cama (antologia
erótica com um livro inédito, 1994) ..., em prosa: Gaivotas em Terra (novelas,
1959), Os Amantes (contos, 1968), As Quatro Estações (1980), Um Amor Feliz
(romance, 1986), Vinte poetas contemporâneos (ensaios, 1960), Motim Literário
(ensaio, 1962), Hospital das Letras (ensaio, 1966), Discurso Direto (ensaio,
1969), Tópicos de Crítica e de História Literária (ensaios, 1969), Sobre Viventes
(ensaio, 1876), Presença da ‘Presença’ (ensaios, 1977), para teatro: Isolda
(1948), Contrabando (1950) e O Irmão (1965); obteve premiações por suas obras.