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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Paul Celan: Decapado . . .

____________________
[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Decapado pela
rajada da tua língua
o palavrório furta-cor do ad-
vivido  o centi-
língue meu mau-
poema, o nadema.

Na e-
vorsão,
livre,
o caminho pela neve
antropomórfica,
penitente, até
acolhedoras
mesas e casas de geleira.

Fundo
na fenda dos tempos,
junto
ao gelo em favos,
aguarda, um arcristal,
o teu irrevogável
testemunho.

Paul Celan

Weggebeizt . . .

Weggebeizt vom
Strahlenwind deiner Sprache
das bunte Gerede des An-
erlebten  das hundert-
züngige Mein-
gedicht, das Genicht.

Aus-
gewirbelt,
frei
der Weg durch den menschen-
gestaltigen Schnee,
den Büßerschnee, zu
den gastlichen
Gletscherstuben und -tischen.

Tief
in der Zeitenschrunde,
beim
Wabeneis
wartet, ein Atemkristall,
dein unumstößliches
Zeugnis.
____________________
Ar-Reverso: Paul Celan, edição bilíngue, Tradução e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2021, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor, ensaísta e professor-leitor de alemão na Ècole Normale Supérieure, em Paris; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov, de Arthur Rimbaud e Paul Valéry, de Óssip Mandelstam e Aleksandr Blok, de William Shakespeare e Emily Dickinson, de Fernando Pessoa e muitos outros; em Paris desde 1947, estudou Germanística e Linguística; o poeta conhecia o iídiche e foi fluente em francês, russo e ucraniano, entre outros idiomas; obra poética: Der sand aus den Urnen (A areia das urnas, 1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (Ar-reverso, 1967), Fadensonnen (Fiossóis, 1968), Lichtzwang (Lucipressão, póstumo, 1970), Schneepart (Parte da neve, póstumo, 1971), Zeitgehöft (Fazenda do tempo, póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

sábado, 4 de abril de 2026

Paul Celan: Os anos de ti até mim


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

De novo se enrolam teus cachos quando choro. Com o azul dos teus
olhos
pões a mesa do nosso amor: uma cama entre verão e outono.
Bebemos o que fermentou alguém que não fui eu, nem tu, nem um
terceiro:
sorvemos um vazio pela última vez.
Nos espelhos do fundo do mar nos observamos e nos servimos mais
apressados os pratos:
a noite é a noite, ela inicia com a manhã,
ela me deita junto a ti.

Paul Celan

Die Jahre von dir zu mir

Wieder wellt sich dein Haar, wenn ich wein. Mit dem Blau deiner
Augen
deckst du den Tisch unsrer Liebe: ein Bett zwischen Sommer und
Herbst.
Wir trinken, was einer gebraut, der nicht ich war, noch du, noch ein
dritter:
wir schlürfen ein Leeres und Letztes.
Wir sehen uns zu in den Spiegeln der Tiefsee und reichen uns rascher
die Speisen:
die Nacht ist die Nacht, sie beginnt mit dem Morgen,
sie legt mich zu dir.
____________________
Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França e, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas. Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (1952), Von Schwelle zu Schwelle (1955), Sprachgitter (1959), Die Niemandsrose (1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora de origem judaica, nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, teve origem no seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", suicidou-se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Paul Celan: Os cântaros


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Para Klaus Demus

Nas longas mesas do tempo
embebedam-se os cântaros de Deus.
Eles esvaziam os olhos de quem vê e de quem não,
os corações das sombras reinantes,
o magro rosto da noite.
São os maiores bebedores:
levam à boca o vazio como o pleno
e não transbordam como eu ou tu.

(Ópio e Memória, 1952)

Paul Celan

Die Krüge

Für Klaus Demus

An den langen Tischen der Zeit
zechen die Krüge Gottes.
Sie trinken die Augen der Sehenden leer und die Augen der Blinden,
die Herzen der waltenden Schatten,
die hohle Wange des Abends.
Sie sind die gewaltigsten Zecher:
sie führen das Leere zum Mund wie das Volle
und schäumen nicht über wie du oder ich.

(Mohn und Gedächtnis, 1952)
____________________
Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Paul Celan: Frihed

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[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Na casa de duplo delírio,
onde voam petribotes
pelo
clique do alvirrei, rumo aos mistérios,
onde a infinda
desumbilical
palavra Orlog cruza,

estou, amamentada à canamarca,
em ti, em
tanques de patos.

eu canto

o que canto?

O manto
do sabotador
com os rubros, os alvos
círculos nos
entre-
pontos
entre eles
avistas errante conosco
o libre-
estelar Alto
agora nos recobre,

a nobrezinabre do cais,
com seu pensarladrilho
cercando a testa,
circacumula o espíeito, a espuma,

rápido
desfloram ruídos
aquém e além do luto,

perto-
velejante
a pontapus da coroa
num olho nati-
oblíquo
versos diz
em danês.

Paul Celan

Frihed

Im Haus zum gedoppelten Wahn,
wo die Steinboote fliegen
überm
Weißkönigs-Pier, den Geheimnissen zu,
wo das endlich
abgenabelte
Orlog-Wort kreuzt,

bin ich, von Schilfmark Genährte,
in dir, auf
Wildenten-Teichen,

ich singe

was sing ich?

Der Mantel
des Saboteurs
mit den roten, den weißen
Kreisen um die
Einschuß-
stellen
durch sie
erblickst du das mit uns fahrende
frei-
sternige Oben
deckt uns jetzt zu,

der Grünspan-Adel vom Kai,
mit seinen Backstein-Gedanken
rund um die Stirn,
häuft den Geist rings, den Gischt,

schnell
verblühn die Geräusche
diesseits und jenseits der Trauer,

die näher-
segelnde
Eiterzacke der Krone
in eines Schief-
geborenen Aug
dichtet
dänisch.
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Ar-Reverso: Paul Celan, edição bilíngue, Tradução e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2021, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor, ensaísta e professor-leitor de alemão na Ècole Normale Supérieure, em Paris; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov, de Arthur Rimbaud e Paul Valéry, de Óssip Mandelstam e Aleksandr Blok, de William Shakespeare e Emily Dickinson, de Fernando Pessoa e muitos outros; em Paris desde 1947, estudou Germanística e Linguística; o poeta conhecia o iídiche e foi fluente em francês, russo e ucraniano, entre outros idiomas; obra poética: Der sand aus den Urnen (A areia das urnas, 1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (Ar-reverso, 1967), Fadensonnen (Fiossóis, 1968), Lichtzwang (Lucipressão, póstumo, 1970), Schneepart (Parte da neve, póstumo, 1971), Zeitgehöft (Fazenda do tempo, póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Paul Celan: A areia das urnas


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Verde-mofo é a casa do esquecimento.
Diante de cada porta flutuante azuleja teu cantor decapitado.
Ele faz rufarem para ti os tambores de musgo e amarga vulva;
com artelho supurado risca na areia tua sobrancelha.
Desenha-a mais comprida do que era, e o vermelho de teus lábios.
Enches aqui as urnas e degustas teu coração.

(Ópio e Memória, 1952)

Paul Celan

Der Sand aus den Urnen

Schimmelgrün ist das Haus des Vergessens.
Vor jedem der wehenden Tore blaut dein enthaupteter Spielmann.
Er schlägt dir die Trommel aus Moos und bitterem Schamhaar;
mit schwärender Zehe malt er im Sand deine Braue.
Länger zeichnet er sie als sie war, und das Rot deiner Lippe.
Du fühlst hier die Urnen und speisest dein Herz.

(Mohn und Gedächtnis, 1952)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Paul Celan: Tenebrae


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Estamos próximos, Senhor,
próximos e palpáveis.

Palpados já, Senhor,
Agarrados um ao outro, como se
o corpo de cada um de nós fosse
teu corpo, Senhor.

Roga, Senhor,
Roga por nós,
estamos próximos.

Empurrados pelo vento fomos,
fomos até lá para curvar-nos
rumo a vale e cratera.

Fomos ao bebedouro, Senhor.

Havia sangue, havia
o que verteste, Senhor.

Brilhava.

Jogou-nos tua imagem nos olhos, Senhor.
Olhos e boca estão por demais abertos e vazios, Senhor.
Bebemos, Senhor.
O sangue e a imagem que no sangue havia, Senhor.

Roga, Senhor.
Estamos próximos.

(Prisão da palavra, 1959)

Paul Celan

Tenebrae

Nah sind wir, Herr,
nahe und greifbar.

Gegriffen schon, Herr,
ineinander verkrallt, als wär
der Leib eines jeden von uns
dein Leib, Herr.

Bete, Herr,
bete zu uns,
wir sind nah.

Windschief gingen wir hin,
gingen wir hin, uns zu bücken
nach Mulde und Maar.

Zur Tränke gingen wir, Herr.

Es war Blut, es war,
was du vergossen, Herr.

Es glänzte.

Es warf uns dein Bild in die Augen, Herr.
Augen und Mund stehn so offen und leer, Herr.
Wir haben getrunken, Herr.
Das Blut und das Bild, das im Blut war, Herr.

Bete, Herr.
Wir sind nah.

(Sprachgitter, 1959)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

sábado, 10 de maio de 2025

Paul Celan: Quando na cama . . .

 
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[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Quando na cama
de bandeira desaparecida te deitas,
com sílabas negrazuis, na sombra em cílio-neve,
vem pela fundição-
pensar,
nadando o ferro grou
a ele ter abres.

Seu bico tiquetaqueia-te a hora
em cada boca em cada uma
toca, na corda brasil, um milênio-
silêncio,
desprazo e prazo
cunham-se até a morte,
táleres, vinténs
te chovem cerrado pelos poros,
em
forma de segundo
tu voas e trancas
as portas Ontem e Hoje, fosfórico,
qual dentes do eterno,
brota teu um, brota também
teu outro seio,
contra as garras, sob
os baques : tão densa,
tão fundo
semeada
a estrelada
semente
do grou.

Paul Celan

Wenn du im Bett . . .

Wenn du im Bett
aus verschollenem Fahnentuch liegst,
bei blauschwarzen Silben, im Schneewimperschatten,
kommt, durch Gedanken-
güsse,
der Kranich geschwommen, stählern
du öffnest dich ihm.

Sein Schnabel tickt dir die Stunde
In jeden Mund in jeder
glöcknert, mit glutrotem Strang, ein Schweige-
Jahrtausend.
Unfrist und Frist
münzen einander zutode,
die Taler, die Groschen
regnen dir hart durch die Poren,
in
Sekundengestalt
fliegst du hin und verrammelst
die Türen Gestern und Morgen, phosphorn,
wie Ewigkeitszähne,
knospt deine eine, knospt auch die
andere Brust,
den Griffen entgegen, unter
den Stößen : so dicht,
so tief
gestreut
ist der sternige
Kranich-
Same.
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Ar-Reverso: Paul Celan, edição bilíngue, Tradução e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2021, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor, ensaísta e professor-leitor de alemão na Ècole Normale Supérieure, em Paris; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov, de Arthur Rimbaud e Paul Valéry, de Óssip Mandelstam e Aleksandr Blok, de William Shakespeare e Emily Dickinson, de Fernando Pessoa e muitos outros; em Paris desde 1947, estudou Germanística e Linguística; o poeta conhecia o iídiche e foi fluente em francês, russo e ucraniano, entre outros idiomas; obra poética: Der sand aus den Urnen (A areia das urnas, 1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (Ar-reverso, 1967), Fadensonnen (Fiossóis, 1968), Lichtzwang (Lucipressão, póstumo, 1970), Schneepart (Parte da neve, póstumo, 1971), Zeitgehöft (Fazenda do tempo, póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Paul Celan: Salmo


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Ninguém nos molda de novo com terra e barro,
ninguém evoca o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por ti queremos
florescer.
Ao teu
encontro.

Um nada
éramos nós, somos, continuaremos
sendo, florescendo:
a rosa-de-nada, a
rosa-de-ninguém.

Com
o estilete claralma,
o estame alto-céu,
a coroa rubra
da palavra púrpura, que cantamos
sobre, oh, sobre
o espinho.

(A rosa-de-ninguém, 1963)

Paul Celan

Psalm

Niemand knetet uns wieder aus Erde und Lehm,
niemand bespricht unsern Staub.
Niemand.

Gelobt seist du, Niemand.
Dir zulieb wollen
wir blühn.
Dir
entgegen.

Ein Nichts
waren wir, sind wir, werden
wir bleiben, blühend:
die Nichts-, die
Niemandsrose.

Mit
dem Griffel seelenhell,
dem Staubfaden himmelswüst,
der Krone rot
vom Purpurwort, das wir sangen
über, o über
dem Dorn.

(Die Niemandsrose, 1963)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Paul Celan: Flor


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

A pedra.
A pedra no ar, que segui.
Teu olho, tão cego como a pedra.

Éramos
mãos,
esvaziamos a escuridão, encontramos
a palavra, que ascendia o verão:
flor.

Flor uma palavra de cegos.
Teu olho e meu olho:
Procuram
água.

Crescimento.
O coração: de parede a parede
se forma.

Uma palavra ainda, como esta, e os martelos
vibram ao ar livre.

(Prisão da palavra, 1959)

Paul Celan

Blume

Der Stein.
Der Stein in der Luft, dem ich folgte.
Dein Aug, so blind wie der Stein.

Wir waren
Hände,
wir schöpften die Finsternis leer, wir fanden
das Wort, das den Sommer heraufkam:
Blume.

Blume ein Blindenwort.
Dein Aug und mein Aug:
sie sorgen
für Wasser.

Wachstum.
Herzwand um Herzwand
blättert hinzu.

Ein Wort noch, wie dies, und die Hämmer
schwingen im Freien.

(Sprachgitter, 1959)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der Sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.